Czytaj książkę: «Tudo se desmorona»

Editado por HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
Tudo se desmorona
Título original: It All Falls Down
© 2018 by Sheena Kamal
© 2020, para esta edição HarperCollins Ibérica, S.A.
Publicado originalmente pela HarperCollins Publishers LLC, New York, U.S.A.
Tradutor: Fátima Tomás da Silva
Reservados todos os direitos, inclusive os de reprodução total ou parcial em qualquer formato ou suporte.
Esta edição foi publicada com a autorização da HarperCollins Publishers LLC, New York, U.S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos comerciais, acontecimentos ou situações são pura coincidência.
Desenho da capa: CalderónStudio
Imagens de capa: Shutterstock
1ª edição: Setembro 2020
ISBN: 978-84-9139-497-6
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Dedicatória
Um
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Dois
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Três
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Quatro
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Cinco
Capítulo 42
Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 45
Capítulo 46
Capítulo 47
Capítulo 48
Capítulo 49
Capítulo 50
Capítulo 51
Capítulo 52
Capítulo 53
Agradecimentos
Se gostou deste livro…
Para a minha mãe
UM
1
Quando montaram as primeiras tendas para tratar os viciados que entravam e saíam como mortos vivos, pensei: Claro.
Quando os jornais começaram a publicar um artigo atrás de outro sobre o vício dos opiáceos que estava a invadir a cidade, pensei algo do género: Não me digam? Não vos escapa nada, meninos.
Contudo, quando a infraestrutura de saúde mental se obcecou com os zombies, tive de me queixar.
Ninguém se importou com a minha queixa.
Com todas estas pessoas viciadas nos viciados, onde é que os assassinos humildes da cidade podem ir procurar ajuda psicológica, questiono-me. Vimo-nos reduzidos a queixar-nos sobre o assunto nas nossas reuniões semanais. Não é que haja grupos de apoio a assassinos em Vancouver. Não quero que fiquem com uma ideia errada. As válvulas de escape alternativas para os homicidas da cidade têm muitas carências. Os terapeutas privados custam um olho da cara, para o dizer de alguma forma, e também não conseguimos encontrar grupos de discussão sobre o assunto na comunidade. O mais próximo que encontrei foi um para pessoas com transtornos alimentares, mas não acho que as pessoas que tenham feito coisas horríveis com o seu apetite consigam entender que matei uma pessoa ou duas no ano passado. Em defesa própria, mas mesmo assim.
Durante a minha vez, conformo-me com contar aos meus companheiros malucos que me sinto como se estivesse eclipsada pelos meus demónios e eles assentem como se me entendessem. Somos desconhecidos que conhecem os segredos mais profundos uns dos outros, unidos no círculo sagrado de uma sala de reuniões com manchas de urina na zona leste do centro de Vancouver. Levantam os seus braços anémicos para aplaudir com educação e, depois, saímos do círculo. Voltamos a ser desconhecidos, por sorte.
A sensação de que alguém me observa segue-me desde esse bairro pobre a leste de Vancouver que frequento até à casa elegante de Kitsilano em que, agora, ocupo espaço. Conduzo com as janelas fechadas porque o ar cheira a fumo dos incêndios florestais da costa norte de Vancouver, fumo que chegou até aqui em rajadas pestilentas e se instalou sobre a cidade. Não ajuda que estejamos a viver um desses outubros que não se lembra de que, em teoria, tem de existir uma temporada outonal e que esteja um calor quase insuportável para esta época do ano.
Enquanto conduzo, obceco-me com mais outra morte. Uma que ainda não teve lugar. Mas terá.
Em breve.
2
Quando chego a casa, Sebastian Crow, o meu antigo chefe e novo companheiro de apartamento, está a dormir no sofá.
Estico uma mão para tocar nele, mas afasto-a antes que os meus dedos lhe toquem na têmpora. Não quero acordá-lo. Quero que durma assim para sempre. Em paz. Tranquilo. Num lugar onde a palavra que começa por «C» não consegue apanhá-lo. Todos os dias parece encolher-se um pouco mais e o seu espírito cresce mais para compensar a diminuição do espaço físico que ocupa. Está doente e não há nada que eu possa fazer porque é terminal. A minha cadela Whisper e eu mudámo-nos para lhe fazer companhia e para nos certificarmos de que não cai pelas escadas, mas, para além disso, não há esperança. Há um incêndio enorme em que ele parece arder também. O seu corpo virou-se contra ele, mas a sua mente recusa-se a render-se.
Até acabar o livro.
Quando me pediu para o ajudar a organizá-lo e revê-lo, não pude dizer que não. Não é possível dizer que não a Sebastian Crow, o jornalista que está a escrever as suas memórias à medida que se aproxima do fim da sua vida. Escreve-as como cartas de amor à falecida mãe e como desculpa ao seu filho, de quem se afastou. Também como uma explicação para o amante que abandonou. O que li do livro é lindo, mas significa que está a passar os seus últimos dias a viver no passado. Porque não há futuro, para ele, não.
A Whisper empurra-me a mão com o focinho. Está inquieta. Nervosa. Ela também o sente.
Ponho-lhe a trela, porque não confio nela com este humor, e dirigimo-nos para o parque da frente. Há lá um homem que tenta sempre acariciá-la, portanto, mantemo-nos afastadas dele num espírito de generosidade para as suas mãos. No outro extremo do parque, há um caminho que percorre a costa. Mesmo aqui, ainda vemos o fumo de uns incêndios invisíveis. Nem sequer a brisa marinha consegue dissipá-lo. Andamos, ambas as inquietas, até darmos a volta ao parque. Sento-me num banco com a Whisper bem perto.
O homem que me observava passa à minha frente.
— Está uma noite bonita para espiar os outros — comento. — Não te parece?
O homem para. Olha para mim. Abre a boca, talvez para dizer uma mentira, mas volta a fechá-la. Estou de costas para o candeeiro que ilumina insuficientemente esta parte do parque. A Whisper e eu somos apenas duas sombras escuras para ele, mas ele aparece iluminado por completo. Tem o casaco aberto e, no colarinho, tem uma franja de pele com manchas que vai desde o queixo até à clavícula. Parece que tentou fazer crescer pele nova nessa zona, mas parou a meio caminho, deixando uma marca inacabada. É um homem idoso, mas custa-me a calcular a idade. Seja qual for, usou os seus anos para aprender a vestir-se bem. Casaco elegante. Bons sapatos. Não condiz. Um homem que cuida da sua aparência e passa as noites sentado num parque a seguir mulheres enquanto passeiam os seus cães.
Esperamos num silêncio incómodo, os três. A Whisper boceja e passa a língua pelos caninos afiados para acelerar as coisas. O homem interpreta-o como a ameaça que, sem dúvida, é.
— A tua irmã disse-me onde podia encontrar-te — admite, finalmente.
Se acha que isso vai tranquilizar-me, engana-se muito. Lorelei não fala comigo desde o ano passado, desde que roubei o carro do marido dela, o tirei da estrada e o despenhei por uma ravina.
Mas decido fazer o que ele quer.
— O que queres?
— Não sei — responde, com um sorriso triste. — Suponho que recordar os velhos tempos nos meus últimos anos.
— E o que é que isso tem a ver comigo?
— Conheci o teu pai. — Ainda bem que tem uma voz suave, porque, pronunciada num decibel mais alto, aquela frase poderia ter feito com que caísse de rabo no chão, se não estivesse já sentada. — Posso sentar-me? — Aponta para o banco. Há algo estranho no seu tom de voz. A sua dicção está demasiado calma para alguém a enfrentar um animal imprevisível. Questiono-me se a cicatriz do pescoço terá alguma coisa a ver com a sua atitude despreocupada. Se será um desses homens tão habituados ao perigo que já não têm medo.
— Não. Conhecias o meu pai de onde?
Faz uma pausa e observa as presas da Whisper.
— Do Líbano. Sabes que servimos com os marines lá, não é?
Ignoro-o porque não sabia, mas, certamente, não lhe diz respeito.
— Isso não explica porque me segues.
Passa uma mão pela cara e para as pontas dos dedos na cicatriz. Observa que olho para lá.
— Do Líbano. Uma explosão. — Pondera cuidadosamente as palavras seguintes antes de falar. — Disse que viria ver-te se acontecesse alguma coisa.
Rio-me.
— Chegas várias décadas atrasado.
— Não sou um bom amigo. Olha, agora, estou reformado e tinha de viajar para o Canadá. Pensei em passar por cá para te ver. Já vim ver a tua irmã e a ti quando morreu, há muitos anos, mas, então, estavam com a vossa tia e tudo parecia em ordem. Há alguns dias, consegui localizar a tua irmã. Não parecia muito contente contigo…
— Não tem de estar. — Lorelei e eu não nos tínhamos despedido de forma amistosa. No entanto, mantivera o seu apelido de solteira quando se casara e tinha muita presença online. Não seria difícil de encontrar se alguém se incomodasse em procurá-la.
— Disse-lhe que éramos velhos amigos. Demorei a convencê-la, mas disse-me que conseguiria encontrar-te através do Sebastian Crow. E aqui estou.
— Mas porquê?
Fica nervoso, tira um cigarro do casaco e acende-o. Mantém o olhar fixo na chama do isqueiro.
— Alguma vez fizeste uma promessa que não cumpriste? Fiz muitas coisas más na vida, mas o que aconteceu ao teu pai, no fim… Nunca pensei que o que lhe aconteceu estava bem. Sabia que tinha sofrido depois do problema no Líbano, mas meu Deus. Que pena!
Olha para a minha mão e vê que tenho os dedos agarrados à trela da Whisper com tanta força que as unhas se cravam na palma, deixando marcas em forma de meia-lua.
— Não sei o que estou a fazer aqui — admite. Ainda não levou o cigarro à boca e não parece ter intenção de o fumar.
No ano passado, quase morri afogada. Não me lembro muito daquilo, só que devo ter desmaiado em algum momento. Qualquer mergulhador sabe que, na última etapa da narcose de nitrogénio, a hipoxia chega ao cérebro. Pode causar uma incapacidade neurológica. Com frequência, o julgamento e o raciocínio são afetados, pelo menos, naquele momento. Mas também pode ser agradável, a falta de oxigénio. Quente. Até segura.
Pode fazer com que alucinemos.
Interrogo-me se estarei a experimentar um efeito colateral a longo prazo causado por ter estado prestes a afogar-me. Porque antes percebia quando as pessoas mentiam, quase com certeza. Contudo, agora, não tenho a certeza. Depois dos acontecimentos do ano passado, quando a minha filha desapareceu, a rapariga que tinha dado para adoção sem pensar duas vezes, vejo as pessoas de um modo diferente. Talvez seja o meu instinto maternal preguiçoso, que me tolda os sentidos. Ou talvez tenha perdido a minha magia. Porque, ao dizer-me que não sabe o que faz aqui, acredito. Acho que fazemos coisas que não têm sentido. Nem sequer para nós próprios.
Também é possível que esteja a ser vítima das minhas próprias alucinações.
Estou tão confusa que não digo nada em resposta. O veterano de guerra parece tão inquieto como eu. Fico a olhar fixamente para ele até se afastar, para o oceano, e desaparecer na noite densa. Então, esfrego as mãos para recuperar o toque. Tenho os pensamentos emaranhados, mas um deles solta-se do matagal.
Não é apenas a surpresa de alguém vir procurar-me depois de tantos anos. Nem sequer é o facto de sentir a necessidade de me seguir na escuridão para se certificar de que estou bem. É mais do que isso e tem a ver com as coisas que não sabia sobre o meu pai. Que houve problemas no Líbano. Com o meu pai.
O meu pai teve problemas no Líbano e, alguns anos depois, rebentou os miolos.
3
Ao longe, no espaço sideral, uma estrela chamada KIC 8462852 brilha por alguma razão desconhecida, enquanto na Terra, um ex-polícia, ex-agente de segurança, ex-marido e ex-jogador de bowling amador faz um ar de nojo ao pegar num copo de sumo de espinafre, com a esperança de que os seus órgãos internos prestem atenção ao esforço que está a fazer por eles.
Esta estrela em particular confundiu cientistas de todo o mundo com o seu brilho constante, enquanto Jon Brazuca se confunde a si próprio com a sua nova determinação de ser mais amável com o seu corpo. Herdou a baixa autoestima da mãe fraca e do pai de queixo afundado, que se desculpou durante toda a sua vida e até nos seus anos de reforma.
Mas Brazuca superou-o. Esse círculo humilhante de «lamento» e «peço desculpa» acabaria com ele.
Virou a página e misturou-a com um smoothie.
O sol do fim da tarde já está muito perto do horizonte e ele está cheio de clorofila e alegria. Brazuca sempre esteve mais desperto de noite, mais vivo e, agora, recorreu à astronomia para preencher os vazios. Não é um homem de ciência, mas desejaria ser. Uma vez, a mãe levou-o a Espanha quando era criança, às falésias de Famara e, juntos, observaram as estrelas refletidas nas poças de água da praia.
Ao pensar nisso, deseja uma época mais simples, quando as mulheres que satisfazia com tanta generosidade não o drogavam e o prendiam a uma cama, abandonando-o depois para ser descoberto pelas empregadas do hotel. E foi algo que realmente aconteceu há mais ou menos um ano. Nora Watts, a mulher com quem fora às reuniões dos Alcoólicos Anónimos, a mulher que perdera uma filha que nem sequer queria, a mulher que se sentia obrigado a ajudar sem nenhuma razão que tivesse sentido para ele… Abandonara-o, bêbado e drogado. Dera-lhe um coquetel de álcool e sedativos que o deixara a dormir e dera a pequena sacudidela ao seu corpo que desejava há tanto tempo.
E demorou meses a voltar a perder o vício.
Brazuca está no terraço do seu apartamento no leste de Vancouver e olha para o céu, em direção à estrela brilhante sobre a qual leu numa revista. Por um instante, sente uma certa afinidade com o universo. Acaba o sumo e arrota, satisfeito.
O seu amigo Bernard Lam pediu-lhe para o visitar e, pela primeira vez na sua vida, tem vontade de se dar com um multimilionário.
— Brazuca — diz Lam, à porta da sua mansão imponente em Point Grey. Se há uma crise imobiliária em Vancouver, pode ser porque grande parte do espaço está ocupado apenas por esta única propriedade. Tem uma ala este e uma ala oeste e cerca de vinte divisões pelo meio. Há campos de jogos exteriores para qualquer desporto e um campo de minigolfe. Se se cansar da piscina de água salgada, há outra de água doce do outro lado da propriedade.
Bernard Lam, o playboy filho de um empresário rico e filantropo, faz-lhe um gesto e Brazuca segue-o para o interior da moradia. O seu encanto famoso não está à vista. A sua atitude é áspera e taciturna enquanto o leva por um corredor comprido cheio de fotografias de família emolduradas na parede e fotografias mais recentes de Lam e da esposa, até chegar a um escritório.
— O que se passa? — pergunta Brazuca, assim que a porta se fecha atrás dele.
— Um instante. — Lam aproxima-se do seu portátil, situado na secretária. Junto dele, há uma garrafa de uísque escocês, mas não há fotografias. É uma zona livre de família. Vira o ecrã para ele.
— É linda — comenta, ao ver a mulher que aparece no computador de Lam. Na fotografia, usa um vestido de verão e está num iate, a rir-se para a máquina fotográfica. É alta e voluptuosa, com um cabelo escuro e lustroso e uns olhos brilhantes.
— Chamava-se Clementine. Era o amor da minha vida.
Não há sumo de espinafre que possa travar a dor de cabeça que Brazuca começa a sentir nas têmporas quando Lam usa o tempo passado. A mulher da fotografia não é a mulher que aparece nas paredes da sua casa. Portanto, o amor da sua vida não era a nova esposa.
— Quando?
— Encontraram-na na semana passada no seu apartamento. Dizem que foi uma overdose. Está… Estava grávida de quatro meses.
— Era teu? — pergunta Brazuca, tendo cuidado para manter um tom neutro.
Lam arqueia uma sobrancelha, como se não pudesse existir outra possibilidade.
Brazuca decide não insistir.
— O que precisas?
— Continuas a trabalhar para essa agência pequena de detetives privados? Dão-te dias de folga?
— Aceito contratos conforme precisam. São flexíveis. — Os seus novos chefes não são seletivos com o trabalho que escolhe, desde que trabalhe. Até o tinham convidado a tornar-se sócio de forma mais oficial, mas dissera que não a isso. Não quer algo oficial.
— Muito bem — diz Lam. — Muito bem. Quero que descubras quem é o traficante dela.
— Bernard…
— É claro, serás recompensado generosamente.
— Não é por causa do dinheiro.
— Então, fá-lo por um amigo. Fá-lo por mim. A minha rapariga e o meu filho morreram. Quero saber quem é o responsável.
Brazuca questiona-se se Lam sabe que, ao usar a palavra «rapariga», os desenhou com a mesma inocência idealizada.
— Não vais gostar do que vai sair daqui — avisa, com calma. — Não vai dar-te tranquilidade. — A morte por overdose é algo desagradável que tem de ser enfrentado. Não é fácil culpar alguém.
— Quem diz que quero tranquilidade? — Lam serve um golinho de uísque no copo e bebe. — Vou dar-te os papéis e os seus contactos. Não encontraram nada no telemóvel dela. A droga que tomou… — Desvia o olhar e ordena os pensamentos. — Era cocaína misturada com um opiáceo sintético novo que circula pelas ruas. Um derivado do fentanil mais potente do que se viu até agora e, de facto, mais forte do que o fentanil. Chama-se YLD Ten.
— Wild Ten? Ouvi falar dela. Não muito. Mas sei que se mexe por aí. — Era esse nome estúpido que chamava a sua atenção. Era fácil de recordar quando se faz um pedido ao traficante simpático do bairro.
— Então, deves saber como é perigosa. Tinha apenas vinte e cinco anos. Tinha toda a vida pela frente, Jon, e era uma vida comigo. Tenho de saber. Por favor.
— Está bem — acede Brazuca, passado um minuto. Porque não é o tipo de homem que consegue ignorar um grito de socorro. Não virou a página como gostaria de pensar. — Vou dar-lhe uma olhadela. Tens a chave do apartamento dela?
— É claro — confirma Lam. — O apartamento é uma propriedade minha.
— Claro — murmura Brazuca. — Vou tratar disso imediatamente. — Não é preciso dizer «senhor» porque está implícito. Bernard Lam, que lhe salvou a vida há vários anos, é alheio a essa indireta.
4
Estou outra vez aqui, em casa da minha casa irmã, a leste de Vancouver. É sábado e só se sabe que é de tarde graças ao relógio. A neblina não é tão densa como ontem, mas continua presente. Ainda esconde a luz do dia e gera imagens aterradoras de pulmões de fumador para os loucos da vida saudável, que não param de fazer passeios ou de andar de bicicleta nestas condições, mas que se queixam sem parar enquanto o fazem. Ouvi dizer que há outro incêndio florestal em Sunshine Coast e o vento está a arrastar o fumo para cá.
Vancouver não está a arder, mas, certamente, parece.
Esperei que o carro de Lorelei se afastasse para me aproximar do portão estreito que leva ao jardim. O marido, David, está sentado no alpendre pequeno, a observar o seu jardim patético. Há algumas especiarias que tentam ganhar força, mas não conseguem competir com a menta, que cresce como as ervas daninhas, mesmo nesta atmosfera pós-apocalíptica. Parece que quer manter-se positivo, mas não consegue. Sinto pena dos homens como David, os homens decentes e trabalhadores do mundo. Por muito que tentem, as coisas mais simples parecem incomodá-los. Nem sequer consegue colher algo comestível da terra.
Está a beber uma cerveja light e não se incomodada em levantar-se quando dobro a esquina. Da última vez que nos vimos, atirou-me algum dinheiro e pediu-me para me manter afastada de Lorelei. Não parece surpreendido ao ver que infringi o nosso acordo. Depois, vê a Whisper e um sorriso de satisfação aparece-lhe na cara. Parte do motivo por que a trouxe comigo foi porque os amantes dos cães são fáceis de manipular. Ela entende o seu papel suficientemente bem para se aproximar a correr e cumprimentar o sexo dele com o focinho. Zás. Alegro-me por te ver.
— Quem é esta menina tão boa? — pergunta, sorrindo enquanto a acaricia atrás das orelhas. — Quem é?
E, então, olha para mim. O sorriso desaparece. Tento não me sentir ofendida. De todos os modos, as meninas boas estão sobrevalorizadas.
— A caixa amarela — digo. Não há razão para andar com indiretas.
Pensa por um instante e, depois, toma uma decisão.
— Lá em cima, no armário do quarto de hóspedes. Prateleira de cima.
Passo junto dele e entro na casa. As minhas visitas à casa da minha irmã costumam ser clandestinas, de modo que, ao princípio, não sei bem como proceder. Devia mexer-me de um modo diferente agora que tenho permissão?
A casa de Lorelei é como a personalidade dela. Sóbria, ordenada e um pouco insossa. Aqui, não há lugar para surpresas. A caixa está onde me disse que estaria. Quando volto a sair com a caixa de sapatos amarela por baixo do braço, descubro que as coisas progrediram com a Whisper. Está ocupada a desfrutar das carícias de um homem. Está deitada de barriga para cima, oferecendo a barriga para que a esfregue. A ninfomaníaca.
— Obrigada — agradeço a David, quando volta a olhar para mim.
Assente.
— Vais dizer-lhe que vim?
— Não, a não ser que se aperceba da falta da caixa. Mas há anos que não a abre, portanto, não me preocuparia.
Eu também assinto e ambos fazemos um gesto com o pescoço para tentar superar o momento incómodo que vivemos. Agora, existe um acordo entre nós. Um segredo. O marido da minha irmã e eu combinámos que Lorelei não deve saber que estive aqui e que levei uma coisa dela. Não vou dizer-lhe porque já não me fala. O silêncio de David sobre o assunto deve-se a uma culpa mal entendida sobre a nossa relação tensa. Embora não tenha nada a ver com ele. Porém, David é um bom homem e não me negaria o que resta do meu pai, tudo guardado convenientemente numa caixa que, antes, continha uns sapatos de salto de Lorelei, tamanho trinta e oito.
Fecho ligeiramente as pernas. A pressão aumenta mais devagar do que gostaria. Mais devagar do que estou habituada. E, então, acaba, muitos segundos depois do que costumava demorar. Não sinto vergonha, o que suponho que seja um avanço, mas, claro, também não sinto grande coisa.
Continuo com a impressão de que me observam, mas o ângulo está errado.
Quando afasto os joelhos das marcas que deixaram junto da cabeça do desconhecido, interrogo-me se a viagem até aqui terá valido a pena. Não encontro uma resposta, não enquanto visto as calças de ganga, nem sequer quando lhe desato as mãos dos postes da cama e me dirijo para a porta. Como o clichê em que me transformei, o dinheiro está num envelope em cima da cómoda.
Encontro a resposta quando já estou a meio do estacionamento do hotel.
«Sentar-me-ei na tua cara», diz o anúncio que publiquei online. «E terás as mãos atadas. Quando acabar, vou-me embora. Sem compromisso. Sem tolices. Sem jogos. Os meus dentes são mais afiados do que os teus.»
Depois, ponho uma quantia razoável que estou disposta a pagar.
Em geral, é um anúncio insultante. Cheguei a odiar-me mais do que os solitários estúpidos que respondem, mas ainda não me cansei. Chego ao orgasmo e, depois, vou-me embora e, ao princípio, funcionava bem.
O meu velho Corolla demora um minuto a habituar-se à ideia de que espero algo dele e, enquanto isso, fico com essa resposta inquietante. Já não é suficiente. Tanto faz o número de desconhecidos cujas caras tento apagar com as minhas coxas.
Uma hora mais tarde, estaciono junto do restaurante de Burnaby Mountain e dirijo-me para um ponto situado no meio do jardim. O ar está mais limpo aqui em cima. Além disso, a vista das esculturas japonesas de madeira que tenho por baixo e da cidade de Vancouver a oeste é insuperável. Estou aqui porque o meu amigo jornalista Mike Starling gostava de vir aqui para pensar ou, pelo menos, era o que se dizia no seu obituário no ano passado, depois de ser encontrado morto na sua banheira com as veias cortadas. Para mim, Starling não era dos que se sentam nas montanhas e pensam na vida, mas, na verdade, a minha memória não é a melhor. O que mais me lembro dele é do seu desdém pelos bebedores de café com nomes pomposos e o aspeto que tinha ali morto, numa banheira cheia de água ensanguentada.
Os meus amigos do grupo de apoio garantem-me que não tenho razões para me sentir culpada porque não fui eu que o matei, mas o que saberão? Também não é como se a sua opinião fosse muito sensata. E o que não sabem (porque não lhes disse) é que fui a razão por que morreu. Morreu porque umas pessoas perigosas foram procurar-me e ele escolheu proteger-me. Talvez até estivesse aqui sentado enquanto chegava à conclusão de que valia a pena lutar pela minha vida, quando decidiu que investigaria quem me tinha posto um alvo nas costas.
Bebo o café que trouxe comigo — com um nome pomposo — e verto um pouco no chão junto de mim, para ele. Para que saiba que a mulher por quem sacrificou a vida ainda tem um pouco de sentido de humor. Talvez gostasse de vir até aqui e talvez ainda reste uma parte dele neste lugar, porque me parece que Mike Starling nunca conseguiria virar as costas a um mistério.
Na verdade, eu também não consigo.