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S. de Magalhães Lima
Costumes Madrilenos
Notas de um Viajante

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066409814
Índice de conteúdo
I CARACTERES E COMPARAÇÕES
II NÓS E ELLES
III A CIDADE
IV A LENDA DO BANDIDO
V EDIFICIOS PUBLICOS E OUTRAS CURIOSIDADES HISTORICAS
VI A INSTRUCÇÃO PUBLICA
VII TEMPLOS E RELIGIÃO
VIII A POLITICA
(CONTRASTES)
IX MUSEUS
X A MUSICA
XI O CHOCOLATE E O CAFÉ
XII O SALERO
XIII THEATROS
XIV OS PATINADORES
XV TOURADAS
XVI O PRADO E O RETIRO
XVII HISTORIA INEDITA
XVIII HOMENS ILLUSTRES
XIX D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ E ANTONIO ROMERO ORTIZ
XX EM RETIRADA
I
CARACTERES E COMPARAÇÕES
Índice de conteúdo
Leitor amigo, se queres possuir a chave da vida, se queres ter o segredo da existencia, aprende a viajar.
A viagem tem, como todas as cousas d'este mundo, a sua pequena philosophia e as suas theorias, mais ou menos complicadas, e os seus progressos mais ou menos notaveis.
Viajar não é uma variedade de sensações apenas; mas ainda mais, e principalmente,{8} uma fonte inexgotavel de boa e salutar experiencia, um manancial perenne de vividos enthusiasmos por tudo quanto é bello, novo e original, e uma origem fecunda de analyse, de observação e de critica, que de ordinario raro é de encontrar-se no paiz onde nascemos, ou na cidade onde residimos.
E assim é realmente que, se tu quizeres admirar a seriedade nos costumes, a robustez no corpo, a soberania na guerra, o metaphysico na sciencia, o imperio na familia, a fidelidade nos affectos, e a superstição na religião—tu irás á Allemanha.
Se pelo contrario, tu desejares vêr a frouxidão no corpo, o indifferentismo em politica, a lassidão nos costumes, a perversão nos principios, a fraqueza na sciencia, o theologismo na religião, o lyrismo na vida—tu, sem mais trabalhos nem violencias, ficarás em Portugal.
Mas se tu, embora não te repugne a debilidade physica e a pusillanimidade de espirito, quizeres o ideal da arte e a architectura da sciencia—então procurarás Italia.{9}
Por outro lado ainda, se te impressiona o ruido das palavras, a viveza do olhar, a facilidade dos affectos, a modestia do trajar, a generosidade do coração, o esplendor do ménage—parte para a Hespanha.
Com uma mulher hespanhola vive-se bem um mez, num sensualismo delicioso, numa voluptuosidade tepida e numa ardencia de amores que nem sempre é vulgar nas outras mulheres do mundo.
Com uma mulher franceza, porém, o espirito não se cança nunca, nem o coração chega jámais a desesperar—e se um seculo vivessemos, um seculo tambem consagrariamos a essas fadas, mais demonios do que anjos, e quasi sempre mais amantes do que esposas.
No francez dá-se, a par da elevação da idéa, a agilidade elegante do corpo, a simplicidade maravilhosa do trajar, a delicadeza sem igual da cosinha, a intrepidez risonha dos factos e das circumstancias, a attenção magnetica das palavras, a originalidade dos costumes.
Com elles contrastam os inglezes, os{10} quaes, não obstante serem mudaveis em religião, são, todavia, prudentes nos seus negocios, zelosos na sua vida intima, affaveis nas maneiras, orgulhosos no trajo e astuciosos na guerra.
Subordinados ás circumstancias, ao tempo e aos logares—os povos são um resultado do meio em que se acham mergulhados.
O que promoveu a questão do Oriente não foi verdadeiramente a ambição dos monarchas, mas antes o imperio que a civilisação moderna tem direito de exercer sobre tudo e sobre todos.
E por isso a Turquia, como vestigio de barbarismo que ainda é hoje na Europa, foi de ha muito condemnada á morte e ao ostracismo.
O caracter turco era facilmente domavel, mas por natureza fanatico, supersticioso, intolerante—tal qual como as verdades do Alcorão.
Por isso, leitor, embora tu sintas grandes saudades do harem e das houris, resigna-te, e deixa de combater pelos turcos.{11}
Que elles e os seus sultões se dignem subir ao setimo céu de Mafoma, e que nos deixem.
Mas, francamente, se tu queres viver pela natureza, se soffres dos pulmões, se és pantheista, se gostas das borboletas e das flores, se te enthusiasmas com os limpidos horisontes das montanhas e dos rios, se és socegado, melancholico, um tanto nostalgico e triste, escolhe a peninsula, aluga uma casa todos os annos no Bussaco, percorre a Andaluzia na primavera, visita as praias, e deixa-te ficar por cá.
Se, porém, não temes os frios do norte, se és audaz, intrepido, valente, corajoso, se amas a sciencia e a arte, se não te canças em subir a uma montanha e em correr num trenó num dia gelado, e por um rio coberto de neve, se gostas da vida, tal como ella deve ser—valorosa, hygienica, e grande, então vai á Suissa, á Allemanha, á Italia, e até mesmo á Russia, se tanto fôr da tua vontade.
Convém que faças uma viagem todos os annos na primavera. Para isso basta apenas, que no teu viver domestico, no{12} teu gastar quotidiano, tu adquiras uma sciencia tão difficil, como rara de conservar-se—a sciencia da economia.
No fim de oito ou dez annos, tu sentir-te-has forte, cheio de critica, vigoroso na discussão, capaz de entrar em todos os assumptos, que por acaso se ventilarem, e susceptivel de comparar, entre si, não só todos os paizes do mundo, mas ainda os homens e as sociedades.
E assim tu terás o dom do historiador, a evidencia dos factos, a observação da natureza e o estudo das cousas em geral.
Eu não quero que tu te faças misanthropo, doente, regenerador. Não! Porque sou portuguez, e desejo que tu sejas alegre, feliz, espirituoso, bom amigo, excellente marido e cidadão prestante.
E para isso, para afugentar terrores e negrumes, para que tenhas saude, vida e amor—é forçoso que tu viages, que deixes a tua aldeia e as tuas arvores, que arranjes a tua mala, que te despeças dos teus conhecidos e que partas.
Nada de esperas. Quanto mais cedo melhor. O mundo é para quem caminha;{13} e a viagem é como a sciencia, tambem um progresso.
Aqui tens o teu casaco. Cabeça alta e adeus á patria querida.
Cocheiro—açoute nesses cavallos!
Para deante. Para deante é que é o caminho.{14}
{15}
II
NÓS E ELLES
Índice de conteúdo
Não ha duvida que nós não somos elles, nem elles são nós.
Não obstante, elles querem ser nós, mas nós é que não queremos ser elles.
Coisas d'este mundo!
Nós, não nos fartamos de elogiar Madrid; e elles não se cançam nunca de exaltar Lisboa.
Mutatis mutandis, ninguem está bem senão onde não está.
A verdade, porém, é que nem a patria do sr. Fontes é má, nem as terras do sr. Canovas são detestaveis.{16}
Lisboa tem, como Madrid, as suas pequenas corrupções, os seus ministros ociosos, a sua realeza inutil, o seu credito abastardado, a sua administração vacillante, os seus empregados preguiçosos, a sua fama em decadencia e o seu futuro compromettido.
Tudo isto temos nós, e tudo isto têm elles—mercê de Deus.
Por cá, como por lá, multiplicam-se os bailes, rangem as sêdas, reluzem as toilettes, scintillam os chrystaes, refervem os vinhos nas suas taças preciosas, adelgaça-se o corpo, polvilham-se os cabellos, tingem-se as faces, alarga-se a consciencia, confundem-se os factos, adora-se a elegancia, e todos—ó céus! sem mesmo o presentirem—caminham para o bom tom, impellidos pela magreza, que os devora, arrastados pela falta de hygiene e seduzidos pela eterna sereia das humanas velleidades.
D'onde se conclue que cá e lá más fadas ha.
Mas Lisboa, com franqueza, não é de todo má: as suas ruas estão povoadas de{17} bellos e formosissimos edificios; os seus jantares, embora sem dinheiro, são abundantes; os seus hospedes vestem-se bem, não obstante faltar-lhes para isso o corpo e o sangue; as suas filhas de aguarella sabem calçar uma bota á Benoiton; Aline, a sua modista, tem algum gosto; Stellpflug e Manuel Lourenço, os seus sapateiros predilectos, contentam os seus freguezes; Barral tem bons remedios; o café, em geral, não é mau; os charutos satisfazem; os assassinos não tem sido demais; quem quizer tambem póde deixar de se suicidar; emfim, ella não é despiciente, acreditem:—unicamente o que lhe falta é o espirito, isto é, o tic nervoso, que dá o bom senso; o enthusiasmo, que eleva as gerações; o fanatismo scientifico, que torna os homens celebres e audazes; o que lhe falta verdadeiramente é isso—essa primeira parte da humanidade a que Shakespeare chamaria, talvez, o to be da humana existencia—o caracter.
Emile Péreire, no tempo em que escrevia no Nacional, sob as ordens de Armand Carrel, tão pobre era que longe estava{18} de imaginar o futuro de riqueza que o esperava.
Foi, recordando-se d'esse passado de miseria, que elle pronunciou aquella esplendida phrase, de que Charlet fez uma caricatura:
—Aos trinta annos tinha dentes e não tinha pão; aos sessenta tenho pão e não tenho dentes.
Pois assim está a nossa capital—quando tinha caracter e dinheiro faltava-lhe o espirito e o desenvolvimento intellectual; agora que naturalmente está mais desinvolvida e mais apta para as concepções do mundo moderno, escasseia-lhe o caracter e a franqueza.
Façamos como Paulo Vernet, o pintor realista—abramos a janella, e olhemos serenamente o que se passa.
Em Madrid vive-se no café e pelo café. Quando se quer procurar qualquer pessoa importante, não se pergunta nunca pela casa onde reside, mas sim pelo café que costuma frequentar. E ahi está tambem o motivo, porque, na capital da Hespanha, os cafés, que quasi se podem dizer{19} pequenas aldeias pela extensão e pelo comprimento, estão cheios, perfeitamente cheios, durante a noite e durante o dia. É ahi que se faz a politica, e é ahi tambem que se preparam os futuros acontecimentos do paiz.
Dizia madame de Grirardin que um dos primeiros deveres da mulher era ser bonita. Pois o hespanhol tem para si, que um dos primeiros deveres do homem, em geral, é ser fallador, ruidoso, amante das revoltas e sinceramente admirador do extraordinario.
Lembro-me que, numa noite, no theatro da zarzuella, um meu companheiro de viagem havia sido apresentado a uma distincta familia de Madrid, com quem travou estreitas relações de amizade e de quem recebeu os mais inequivocos testemunhos de affecto.
Eram pae, mãe e duas filhas.
No dia immediato ao da apresentação um grande acontecimento echoou na cidade. Dizia-se que uma senhora havia sido ferida na cabeça por um tiro de rewolver, desfechado á queima roupa por seu{20} marido, o qual, julgando-a morta, se suicidára logo em seguida.
Este facto, importante em qualquer outro paiz, ali mal despertou a curiosidade publica. Quasi que passou desapercebido.
Averiguado, porém, o caso, soube-se effectivamente que a heroina era nem mais nem menos do que a tal senhora, que, na vespera, pela sua attenciosa bizarria confundira o meu amigo, com attenções e delicadezas. Ella exigira do esposo dinheiros avultados, que elle asseverava abertamente não ter em casa, naquella occasião. Então a mulher, enfurecida, gritou, fingiu-se morta, até que emfim se atirou ao marido, o qual, não constando que fosse santo, se atirou por seu turno a ella.
E assim, travados de razões, armaram aquella tragedia, digno exemplo de duas filhas menores e edificante monumento da civilisação de um povo.
Madrid tem, sobretudo, um vicio de origem—a falta de agua. O caracter hespanhol, tão contradictorio em si e nas suas manifestações, é todavia secco, aspero{21} ás vezes, e irreflectido quasi sempre.
A escassez de agua, além de escurecer toda a paisagem da Estremadura, faz ainda, porém, com que as flores sejam raras na cidade, e de todo o ponto destituidas de gosto.
Ora todos sabem que a flôr entra hoje na vida do ménage como uma necessidade, insubstituivel. Muitas senhoras têm nella uma companheira e uma amiga. A aridez da vida domestica é muitas vezes compensada pela existencia de um jardim, ao qual a dona da casa consagra todos os seus ocios e em virtude do qual ella cura todos os seus tedios.
A mulher hespanhola, como não tem flores nem jardim, procura naturalmente os cafés e o mundo exterior, de que aliás precisa para conviver e para se entreter; cousa que, em nosso juizo, ninguem, em verdade, lhe poderá levar a mal.
E, no meio de tudo isto, não ha povo que sinceramente comprehenda melhor as leis da hospitalidade e que melhor e{22} mais bizarramente saiba attrahir a si os estrangeiros.
Mas, embora elles queiram ser nós,—nós é que, em boa logica, não podemos ser elles.
Elles, por exemplo, empregam o adjectivo larga—esta calle es muy larga—para significar o comprimento, ao passo que nós o empregamos para exprimir a largura.
Antithese completa!
Oh! não—decididamente nós não podemos ser elles..
Mas, se ellas quizessem ser nós!...
Se nós fossemos ellas!...{23}
III
A CIDADE
Índice de conteúdo
No centro de uma extensa planicie, acompanhando a margem esquerda do Manzanares e alteada sobre differentes collinas de arêa de pequena elevação, ergue-se a cidade de Madrid, a formosissima villa coronada, prodigiosa de encantos, opulenta de prazeres e esplendida de vida.
Data do reinado de Philippe II, em 1560, a mudança da capital do reino hespanhol de Toledo para Madrid.
Perde-se na bruma dos tempos a origem etymologica d'esta cidade. No entretanto{24} julga um illustrado escriptor que a verdadeira derivação de Madrid é Magerit, palavra arabe, que na nossa lingua significa corrente de agua.
Muitas foram, e successivas, as invasões por que passou a cidade. Não vem para aqui, por deslocada, uma resenha historica de todos esses tempos de agitação, mais ou menos intimamente ligados com as coisas do nosso Portugal.
Philippe IV foi para a Hespanha o mesmo que Luiz XIV foi para a França. No seu reinado brilharam as artes, as sciencias e a litteratura. Quiz, porém, a fatalidade, como que para realçar o dominio dos contrastes do mundo, que o seu herdeiro Carlos II fosse um rei pusillanime, fraco, fomentador da intriga e iniciador d'uma crise, que cessou com a assolação d'uma tremendissima guerra civil no tempo de Filippe V.
Madrid soffreu immensamente nestas lutas intestinas. Sem embargo, os sacrificios compensaram as perdas. E quando depois Carlos III subio ao throno de Hespanha, a um sorriso do monarcha privilegiado{25} desabroxou a paz, e as reformas brotaram por completo naquelle paiz.
Este estado foi, porém, de curta duração. Napoleão I, senhor da França, põe a Hespanha novamente em tumulto e deixa-a entregue á fome e ao saque das hordas estrangeiras.
Expulsos os francezes de Madrid, começou então a luta entre realistas e liberaes, os quaes depois se subdividiram ainda em progressistas e moderados, dando assim logar a uma infinidade de fracções, que só deviam abortar na mallograda revolução de 1854.
Foi d'aqui que se originaram os partidos unionista, o democrata e mais tarde o neo-catholico; e foi d'aqui tambem que nasceu a Hespanha revolucionaria moderna, de todos conhecida, desde 1868 até nós.
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Madrid é, pois, uma cidade pequena, não talvez muito maior que o Porto, com um clima excessivamente regular, comportando na sua área 360:000 habitantes,{26} cuja indole póde naturalmente e com o maximo rigor ser observada á luz do gaz e durante a noite em qualquer dos principaes cafés.
Conta-se que um alcaide hespanhol se compromettera certo dia a fazer tres discursos numa dada povoação.
Chegou o primeiro dia, e perguntou á turba:
—Entenderão o que lhes vou dizer?
Ninguem respondeu.
—Pois se não têm de entender-me é escusado pregar no deserto.
No segundo dia voltou, e repetiu a mesma pergunta.
—Sim! responderam todos, já zangados com a occorrencia do dia anterior e desejosos por saber o que tão illustre orador d'elles queria.
—Nesse caso, se comprehendem, são inuteis as explicações.
Chegou, porém, o dia da terceira e ultima prelecção, e o povo concordou em responder indistinctamente.
—Serão capazes de perceber qual é o fim do meu discurso?{27}
Sim! Não! conclamou a turba em dois córos.
—Então aquelle que percebeu que explique ao que não entendeu.
E assim é, na verdade, o caracter hespanhol. Todos se entendem, e ninguem se entende. De modo que, no seio de tão estranha confusão, a vida domestica de Madrid, toda anarchica, toda exterior, toda ficticia, vai naturalmente reflectir-se nas coisas publicas—no commercio, na industria, na arte, na litteratura, na politica—pondo a cidade em continuo alvoroço, e deixando o viajante profundamente assombrado de tão fortes e repetidas contradicções.
E tudo isto, o que mais é ainda para estranhar, num paiz onde os grupos dissidentes são quasi tantos como os talentos politicos, e onde o caracter de cada individuo varia e se modifica em justa proporção com a sua leviandade de espirito e seguindo naturalmente as differentes oscillações da opinião publica, sempre precipitada e louca.
Obedecendo á influencia do meio que{28} os domina, os estadistas hespanhoes são mais theoricos do que practicos, mais litteratos do que politicos, e, sem duvida alguma, mais poetas do que observadores.
D'aqui a impossibilidade de uma união séria, progressista e trabalhadora. As subdivisões prolongam-se até ao infinito. Antes de 30 de dezembro de 1875, os moderados formavam um unico partido. Agora, porém, avultam os moderados transigentes, tendo por orgão o jornal El Tiempo: os moderados intransigentes com La España e os moderados de estola com El Siglo Futuro.
O mesmo com o partido constitucional, que hoje se acha subdividido em constitucional do sr. Sagasta, representado na imprensa pela Iberia; em constitucional dissidente do sr. Santa Cruz, representado pela Patria e em constitucional do sr. Ulloa, representado outr'ora pelo periodico El Constitucional, que já não se publica.
As celebridades não escasseiam. Antes, pelo contrario: ao passo que em França{29} quasi todos os homens illustrados são escriptores, em Hespanha quasi todos são oradores.
Abstrahindo mesmo de Emilio Castellar, o luminosissimo vulto do seculo XIX, que só em Gambetta encontraria um rival condigno, e porventura, como politico, mais pratico, mais accentuadamente positivo do que elle; abstrahindo do sympathico materialista Figueras e do advogado Martos, poucos ha, naquella adoravel nacionalidade, que não possuam o fogo sagrado dos sublimes enthusiasmos patrioticos e a brilhantissima scentelha dos grandes espiritos revolucionarios.
Numa palavra, a Hespanha é o paiz solemne das occasiões, o paiz do à propos, o paiz do momento.
Os generaes Prim e O'Donnel andam ainda hoje apregoados pela fama publica. Pois bem. Muitos annos não se haviam passado depois do seu regresso da Africa, e concluida a guerra de Marrocos, que Prim, collocado numa das janellas do Hotel de Paris, recebera a mais enthusiastica ovação que humanamente era licito dispensar{30} a um idolo. Uma noite regressava o illustre general do congresso, quando, subito, uma detonação acordou a cidade. Correram todos. Duas balas haviam-lhe destruido a emoplata, o ante-braço e a mão direita. Estava morto o heroe de tantas victorias e o deus de tamanhos enthusiasmos. A policia não apparecera. Ainda presentemente nas cadeias de Madrid se conservam presos, por suspeitos, seis homens. O resto, sabem-n'o os seus inimigos, d'elle.
Madrid, a cidade imperial e coronada, a mui nobre, mui leal e mui heroica cidade, como em 1814 lhe chamou Fernando VII, tem, porém, ainda uma outra face, que realmente não deve esquecer ao historiador; e essa face, esse lado immensamente grande e extraordinario, que a Cervantes valeu uma reputação e uma immortalidade, é a anecdota, o delirio da bagatella e do ridiculo.
Sim! a Hespanha, como bandoleira que é, tem uma lenda—a lenda do bandido.
Estudando essa lenda, melhor e mais facilmente poderemos fazer uma idéa do{31} que é e do que foi a Hespanha nos seus movimentos, nas suas idéas, na sua politica, no seu commercio, na sua industria, no seu progresso e na sua civilisação.
Voltemos, portanto, a pagina.{32}
{33}
Darmowy fragment się skończył.