Czytaj książkę: «Resgatada pelo xeque»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2014 Kate Hewitt

© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Resgatada pelo xeque, n.º 1830 - agsoto 2020

Título original: Commanded by the Sheikh

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1348-489-1

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Epílogo

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Capítulo 1

– Preciso de ti, Olivia.

Olivia Ellis reprimiu rapidamente a explosão de sentimentos causada pelas palavras do xeque Aziz al Bakir. É claro que precisava dela. Precisava dela para lhe mudar os lençóis, abrilhantar a prata e manter a sua moradia de Paris imaculada.

Contudo, isso não explicava o que fazia ali, no palácio real de Kadar.

Há menos de oito horas, um dos homens do Aziz ordenara-lhe que o acompanhasse no jato real a Siyad, a capital de Kadar, onde Aziz acabara de subir ao trono.

Olivia fora contra a sua vontade, já que gostava da vida tranquila que tinha em Paris: De manhã, bebia café com a porteira da casa da frente. De tarde, cuidava das rosas do jardim. Era uma vida sem sobressaltos ou paixões, mas era dela e fazia-a feliz. Bastava-lhe isso e não desejava que mudasse.

– Porque precisa de mim, Majestade? – perguntou. Passara todo o voo para Kadar a pensar em argumentos para continuar em Paris. Precisava da segurança e do conforto da sua vida lá.

– Tendo em conta as circunstâncias, acho que devias chamar-me Aziz – indicou ele, com um sorriso encantador. No entanto, Olivia esforçou-se para não se deixar impressionar. Sempre observara o encanto de Aziz à distância, ouvira as suas palavras doces dirigidas às mulheres, apanhara a roupa interior caída na escada e servira café às mulheres que saíam da sua cama antes de tomar o pequeno-almoço, despenteadas e com os lábios inchados.

Considerava-se imune ao «cavalheiro playboy», como o chamavam na imprensa amarela. Era um oximoro, pensou, mas admitia que Aziz possuía um certo carisma.

– Muito bem, Aziz, porque precisas de mim?

Era muito bonito. Reconhecia-o como reconhecia que o David de Miguel Ângelo era uma escultura magnífica: Tratava-se simplesmente de uma apreciação da beleza inegável. De todos os modos, não restava nada no seu interior para sentir mais. Nem por Aziz nem por ninguém.

Observou o cabelo preto que lhe caía descuidadamente por cima da testa, os olhos cinzentos e os lábios carnudos que podiam curvar-se num sorriso sedutor.

Quanto ao seu corpo… Era poderoso, sem gordura, puro músculo.

Aziz voltou-se para a janela, virando-lhe parcialmente as costas. Olivia esperou.

– Estás há seis anos ao meu serviço, não é?

– É verdade.

– E estou muito contente com a tua dedicação.

Ela ficou tensa porque pensou que ia despedi-la: «Mas receio que já não precise de ti.»

– Fico contente, Majestade.

– Aziz, lembra-te.

– Tendo em conta a sua posição, não me parece adequado tratá-lo por tu.

– E se to ordenar através de um decreto? – Aziz virou-se e arqueou as sobrancelhas. Era evidente que gozava com ela.

– Se me ordenar, obedecerei, certamente.

– Sei que o farás. E é precisamente isso que preciso que faças hoje.

Olivia esperou, dominada pela inquietação. Porque precisava dela em Kadar? Não gostava de surpresas nem de incertezas. Passara seis anos a construir algo seguro, pequeno e aceitável e aterrorizava-a perdê-lo. Perder-se.

– Em Paris, fizeste um trabalho admirável em minha casa. Aqui, o teu trabalho será distinto, embora curto, e espero que sejas capaz de o levar a cabo.

Não sabia a que se referia, mas, se era curto, esperava poder voltar para Paris.

– Espero que sim, Majes… Aziz.

– Vês como aprendes depressa? – Aziz sorriu.

– Continuo sem entender o que faço aqui – observou ela, com um sorriso frio e profissional.

– Tudo a seu tempo – respondeu Aziz, antes de se dirigir para uma secretária de nogueira. Carregou num botão que havia num dos lados e, ao fim de uns segundos, bateram à porta.

– Entre – convidou Aziz. E entrou o mesmo homem que escoltara Olivia à sala.

– Majestade?

– O que te parece, Malik? Servirá?

Malik olhou para Olivia.

– O cabelo…

– Pode arranjar-se facilmente – indicou Aziz.

– Os olhos?

– Não são necessários.

– Tem a altura adequada – afirmou Malik, assentindo lentamente. – É discreta?

– Totalmente.

– Então, acho que pode ser uma possibilidade.

– É mais do que uma possibilidade, Malik. É uma necessidade. Vou dar uma conferência de imprensa dentro de uma hora.

– Uma hora… Não há tempo.

– Tem de haver. Sabes que não posso arriscar-me a deixar que aumente a instabilidade. – Olivia observou que a expressão de Aziz endurecia e que se transformava em alguém completamente diferente do playboy risonho e despreocupado que conhecia. – Neste momento, um rumor seria como um fósforo aceso. Poderia arder tudo.

– É verdade, Majestade. Vou começar os preparativos.

– Obrigado.

Malik foi-se embora e Olivia olhou para Aziz.

– O que é tudo isto?

– Desculpa-me por falar assim com o Malik. Suponho que a tua confusão tenha aumentado.

– Acertaste – queixou-se ela, incomodada com a forma como os dois homens tinham falado dela, como se fosse um objeto. Embora fosse a governanta de Aziz, não era uma posse e não ia permitir que outra pessoa voltasse a controlar o que fazia.

– Calma, Olivia. Tu e eu não teríamos continuado a falar se o Malik não te tivesse dado a sua aprovação.

– Para quê?

– Suponho que não conheças os termos do testamento do meu pai.

– Não, é claro que desconheço essa informação.

– Podia ter-se filtrado – indicou, encolhendo os ombros. – Houve rumores do que o testamento exige.

– Não faço caso aos rumores. – Nem sequer lia revistas cor-de-rosa.

– Sabes que fiquei noivo da Elena, a rainha de Tália?

– Claro. – O noivado fora anunciado na semana anterior. Olivia sabia que o casamento se celebraria em Kadar dentro de poucos dias.

– Talvez te tenhas perguntado porque ficámos noivos com tanta rapidez.

Olivia encolheu os ombros. Aziz era um playboy. Verificara-o devido às mulheres que trouxera para casa em Paris.

– Suponho que tenhas considerado necessário casar-te, agora que és xeque – comentou ela. Aziz deixou escapar uma gargalhada.

– Podia explicar-se assim. – Aziz voltou a olhar pela janela, cerrando os dentes. – O meu pai nunca estava de acordo com as minhas decisões – explicou, ao fim de uns segundos. – Nem comigo como pessoa. Suspeito que tenha imposto determinadas condições no seu testamento para que ficasse em Kadar e seguisse as velhas tradições. Ou talvez só quisesse castigar-me.

Apesar de falar como se se tratasse de algo agradável ou corriqueiro, Olivia observou uma expressão fria, ou talvez magoada, nos seus olhos.

– Que condições?

– Para continuar a ser xeque, tenho de me casar no prazo das seis semanas posteriores à morte do meu pai – informou, com amargura.

– Já passou mais de um mês.

– Exatamente, Olivia: Cinco semanas e quatro dias, para ser exato. E o meu casamento com a Elena foi marcado para depois de amanhã.

– Então, vais casar-te dentro do prazo e não haverá problemas.

– Mas há um problema grande: A Elena desapareceu.

– Desapareceu?

– Um insurgente raptou-a há dois dias.

Olivia conteve um grito e tentou recuperar a compostura.

– Não sabia que essas coisas continuavam a acontecer num país civilizado.

– Ficarias surpreendida com o que pode acontecer em qualquer país, quando se trata de poder, com os segredos que se guardam e as mentiras que se contam.

Nos seis anos que Olivia passara a trabalhar para Aziz, só parecia o que deixava ver na superfície: Um playboy encantador e despreocupado. Mas, naquele momento, Olivia teve a impressão de que tinha segredos. Um lado escuro.

E ela sabia tudo sobre ambas as coisas.

– Sabes onde esse… esse insurgente a tem?

– Em algum lugar do deserto, é o mais provável.

– Está à procura dela?

– Claro, com todos os meios ao meu alcance. Há cinco anos que não vinha a Kadar e, quando era criança, passava aqui o mínimo de tempo possível. O povo não me conhece. E, se não me conhecem, não serão leais até lhes provar o que valho, se é que consigo.

– A que te referes?

– Refiro-me a ser muito difícil encontrar a rainha no deserto. As tribos beduínas são leais ao sequestrador, por isso vão ajudá-lo. Portanto, até encontrar a Elena ou chegar a um acordo com quem a retém, tenho de avaliar outras possibilidades.

– Quais? – perguntou Olivia, embora tivesse a sensação horrível de que fazia parte das mesmas.

Aziz esboçou um sorriso radiante. Olivia sentiu que o seu corpo reagia de forma involuntária e observou-o não como o patrão nem como uma pessoa atraente, mas como um homem. Um homem desejável.

Reprimiu a surpresa devido a semelhante reação inadequada. Era, evidentemente, uma reação biológica e instintiva que não conseguia controlar. Achava que superara esse tipo de coisas, mas talvez o seu corpo não pensasse o mesmo.

– A que outras possibilidades te referes?

– É importante que ninguém saiba que a Elena desapareceu, porque isso aumentaria ainda mais a instabilidade em Kadar.

– Ainda mais?

– Algumas das tribos do deserto apoiam esse rebelde, o Khalil.

Olivia questionou-se quem seria Khalil.

– Porque o apoiam? Tu és o herdeiro legal.

– Obrigado pelo teu voto de confiança, mas receio que o assunto seja um pouco mais complicado.

Aziz voltou a falar num tom leve, mas ela não se deixou enganar.

– Porque é mais complicado? E o que tenho a ver com tudo isto?

– Como não posso tornar público que a minha noiva desapareceu – disse ele, olhando fixamente para ela –, preciso de outra pessoa.

Olivia sentiu-se como se a agarrassem pelo pescoço e apertassem. Durante uns segundos, não conseguiu respirar.

– Outra pessoa – repetiu.

– Sim, Olivia. Outra pessoa para ser a minha noiva.

– Mas…

– E é aí que intervéns – interrompeu Aziz, com um brilho risonho nos olhos. Observou-o, incrédula e horrorizada. – Preciso que sejas a minha noiva.

Capítulo 2

A governanta competente, pensou Aziz, perturbado, parecia estar prestes a desmaiar. Cambaleava ligeiramente enquanto o observava com os olhos azuis esbugalhados e os lábios carnudos a formar um «O».

Era uma mulher bonita, Aziz pensara nisso muitas vezes, mas de uma beleza serena e contida. Tinha sempre o cabelo castanho apanhado. Tinha os olhos azuis-escuros, os lábios rosados e a pele suave. Não usava maquilhagem, pelo menos, ele nunca a vira maquilhada. Também não precisava, sobretudo, naquele momento, em que corara desde o pescoço até à testa. Ela abanou a cabeça e cerrou os dentes.

– Não sei se entendi, Majestade, mas, seja o que for, é impossível.

– Para começar, lembra-te de que deves chamar-me Aziz.

Um brilho de cólera apareceu nos olhos de Olivia. Aziz alegrou-se por conseguir zangar-se, já que, com frequência, se questionara quanta paixão escondia por trás da sua fachada contida.

Há seis anos que a conhecia, embora só a visse algumas vezes por ano. No entanto, só algumas vezes é que mostrara que tinha sentimentos profundos: Um lenço vermelho e arroxeado que usava um dia; uma gargalhada que ouvira procedente da cozinha; vê-la a tocar piano na sala e a sua expressão ao fazê-lo, como se estivesse a verter a sua alma na peça. Aziz pensara que era uma alma que conhecia a angústia e até a tortura.

Fora-se embora silenciosamente antes de o descobrir, já que sabia que ela se horrorizaria se soubesse que estivera a ouvi-la. Contudo, interrogou-se que segredos escondia por trás da sua fachada.

E, no entanto, fora essa impassibilidade que o induzira a escolher Olivia Ellis para o trabalho. Era inteligente, discreta e muito competente. Era o que precisava.

– Vou dizer-to de outro modo – indicou Aziz, enquanto observava como a indignação fazia com que o peito dela subisse e descesse com força. Usava uma blusa branca, com o cabelo apanhado, como sempre, e umas calças pretas e sapatos rasos. Sabia que tinha vinte e nove anos, mas vestia-se como uma mulher de meia-idade, embora com estilo. A roupa era de boa qualidade e bom corte.

– Diz-me, então. – Olivia dominara a cólera. Aziz voltou a ver a Olivia de sempre, serena e controlada.

– Quero que sejas a minha noiva de forma temporária. A substituta da rainha Elena até a encontrar.

– E para que precisas de uma substituta?

– Porque quero dissipar os rumores que possam correr sobre o seu desaparecimento. Dentro de uma hora vou dar uma conferência de imprensa e devemos aparecer juntos na varanda do palácio.

– E depois?

Aziz hesitou levemente.

– Será só isso.

– Só isso? – Observou-o com os olhos semicerrados. – Se só precisas de uma mulher para que apareça contigo na varanda, com certeza que poderias ter encontrado uma daqui.

– Queria alguém que conhecesse e em quem pudesse confiar. Já te disse que há muitos anos que não vinha a Kadar. Há poucas pessoas em quem possa confiar.

– Nem sequer me pareço com a rainha. Ela tem o cabelo escuro e não temos a mesma altura. Eu sou um pouco mais alta.

– Sabes quanto mede a rainha Elena? – perguntou ele, arqueando as sobrancelhas.

– Sei o que meço. Vi fotografias dela.

– Ninguém vai preocupar-se com uns centímetros a mais ou a menos.

– E o cabelo?

– Podemos pintá-lo.

– Numa hora?

– Se for necessário.

Olhou para ele durante uns segundos e ele percebeu que a tensão crescia no seu interior. Sabia que estava a pedir-lhe algo fora do comum. Também que tinha de a convencer a aceder. Não queria ameaçá-la, mas precisava dela. Não conhecia outra mulher tão competente e discreta. E, nesse momento, a única coisa que o preocupava era obter o seu objetivo: Garantir a coroa do reino que lhe correspondia governar por herança, embora muitos não acreditassem.

– E se me recusar? – perguntou Olivia.

– Porque haverias de o fazer?

– Porque é uma loucura? – replicou, sem humor. – Porque qualquer paparazzi com uma teleobjetiva conseguiria perceber que não sou a Elena e publicá-lo? Acho que nem sequer usando todo o teu encanto conseguirias livrar-te de semelhante desastre.

– Se isso acontecer, eu serei o único responsável. Toda a culpa recairá sobre mim.

– E achas que não serei objeto de falatórios, que todos os aspetos da minha vida não serão dissecados na imprensa sensacionalista? – O rosto de Olivia irritou-se como se semelhante possibilidade lhe causasse dor.

– Se te descobrirem, coisa que não acontecerá, ninguém saberá quem és.

– Achas que não descobrirão?

– Possivelmente, mas estamos a falar por falar. Não há nenhum jornalista de fora daqui. O país está fechado para a imprensa estrangeira há anos. Tenho de mudar esse decreto.

– A imprensa de Kadar.

– Sempre esteve ao serviço da Coroa. Pedi que, desta vez, não se tirem fotografias e acederam. Não aprovo como as coisas estão aqui, mas era a forma de governar do meu pai, que continua.

– Vais fazer as coisas de outro modo agora que és xeque? – perguntou ela, num tom levemente incrédulo, o que Aziz entendeu, embora não achasse graça.

Só demonstrara que era um prodígio com os números e que gostava de ir a festas por toda a Europa. Olivia vira o seu estilo de vida hedonista e limpara os seus excessos. Não podia reprová-la por se sentir cética quanto à sua capacidade de governar bem.

– Vou tentar.

– E vais começar com esta farsa ridícula.

– Receio que seja necessário. – Voltou a sorrir, mas ela não se alterou. – É por uma boa causa, Olivia: A estabilidade do país e a segurança do povo.

– Porque é que o Khalil raptou a rainha Elena? Como o fez? Não tinha proteção?

Aziz sentiu que a raiva crescia no seu interior, mas não sabia para quem dirigi-la: Para Khalil ou para os seus próprios empregados por não se terem apercebido da ameaça até já ser demasiado tarde. No entanto, percebeu que estava zangado consigo próprio, embora soubesse que não teria conseguido evitar o sequestro. Enfurecia-o não o ter impedido, não conhecer o país ou o seu povo para poder exigir lealdade e obediência ou para que procurassem Elena no seu deserto interminável.

– O Khalil é o filho ilegítimo da primeira esposa do meu pai. Criou-o como seu filho durante sete anos, até se descobrir a verdade. Então, foi desterrado, juntamente com a mãe, mas Khalil insiste que tem direito ao trono.

– Que horror! – exclamou Olivia. – Banido.

– Acabou por viver rodeado de luxos com a tia, nos Estados Unidos. Não deves compadecer-te.

– É evidente que não o fazes.

Aziz limitou-se a encolher os ombros. O que sentia por Khalil era difícil de explicar, até a si próprio: Raiva e inveja; tristeza e amargura. Uma mistura de sentimentos potente e insana.

– Reconheço-o. Não o acho muito simpático, tendo em conta que tenta desestabilizar o país e que raptou a minha noiva.

– Porque achas que pensa que tem direito ao trono?

«Porque todos pensam que sim. Porque o meu pai o adorava, mesmo quando soube que não era o seu filho; mesmo contra a sua própria vontade», pensou Aziz.

– Não sei se acha que tem direito. Talvez se trate apenas de uma vingança contra o meu pai, que considerou o pai dele durante boa parte da sua infância. – «E uma vingança contra mim por ocupar o seu lugar», pensou. – O meu pai não era um homem justo. O seu testamento extraordinário prova-o de forma incontestável.

– Então, o Khalil raptou a Elena para evitar que se casem – concluiu Olivia, enquanto ele assentia.

Aziz odiava pensar que Elena estaria sozinha e assustada no deserto. Não a conhecia muito bem, mas imaginava que seria uma experiência terrível para qualquer pessoa e, sobretudo, para alguém cujos pais tinham morrido num atentado e que estivera muito sozinha.

– Se não te casares no prazo de seis semanas, o que acontecerá?

– Perderei o trono e o título.

– E a quem os dariam?

– O testamento não o especifica. Terei de convocar um referendo.

– Será o povo a decidir quem será o xeque?

– Sim.

– Parece-me muito democrático – afirmou ela, sorrindo.

– Kadar é uma monarquia constitucional. A sucessão sempre foi dinástica. O referendo é, simplesmente, a forma do meu pai de me tornar as coisas muito difíceis.

– E não queres obedecer.

– Não especialmente, mas reconheço que é necessário. – Passara mais de três semanas a tentar encontrar uma forma de fugir do testamento do pai. Não queria casar-se nem ser forçado a fazê-lo. O pai controlara as suas ações, pensamentos e desejos durante demasiado tempo.

Mas, mesmo morto, continuava a controlá-lo e a magoá-lo.

– Porque é que, então, não convocas o referendo? – perguntou Olivia.

– Porque perderia – afirmou ele, num tom leve que passara tanto tempo a usar que se transformara numa segunda pele: A personagem do playboy. Mas falar do pai e da possibilidade de Khalil ser xeque porque o povo não o queria começava a destruir a personagem e receava o que Olivia pudesse ver. – São os riscos de não ter passado muito tempo em Kadar – acrescentou, num tom brincalhão. – Mas espero remediá-lo em breve.

– Mas não a tempo para o referendo.

– Exatamente. É por isso que preciso de aparecer com a minha noiva e garantir ao meu povo que está tudo bem. O meu pai deixou o país num estado de agitação política, dividido pelas decisões que tomou há vinte e cinco anos. Estou a tentar por todos os meios reparar o mal e fazer com que reine a paz em Kadar.

– E se não encontrares a rainha?

– Vou encontrá-la, mas preciso de um pouco mais de tempo. Os meus homens estão à procura dela no deserto.

Khalil introduzira um homem leal a ele entre os empregados de Aziz, alguém que lhe dera a mensagem de que o avião de Elena se atrasara por causa do mau tempo. Khalil subornara o piloto do jato real para que desviasse o aparelho para uma zona remota do deserto, onde, juntamente com os seus homens, recebera Elena quando saíra do avião.

Era o que sabia, a partir do testemunho de duas testemunhas: O comissário de bordo, que vira, impotente, Elena a desaparecer num todo-o-terreno; e uma empregada que vira um dos homens de Aziz a rondar por sítios onde não deveria estar.

Aziz suspirou. Sim, tivera um plano bem levado a cabo porque Khalil tinha muitos seguidores, apesar de ter abandonado o país com sete anos e de ter regressado há seis meses. O povo recordava o menino que fora o filho amado do xeque Hashem, o seu verdadeiro filho.

Aziz era o intruso, o pretendente.

Sempre fora, desde os quatro anos de idade, quando o tinham levado para o palácio. Recordava que o pessoal fingia não ouvir os pedidos humildes da sua mãe e que os serviam com desprezo. Ele estava perturbado e a mãe, desesperada. No fim, ela fechara-se nos aposentos femininos e raramente era vista em público.

Aziz tentara conquistar o pessoal do palácio, o povo e, sobretudo, o pai, sem nenhum resultado, sobretudo, no que dizia respeito ao seu pai. No fim, acabara por desistir.

Só faltavam quarenta minutos para a conferência de imprensa. Tinha de convencer Olivia a aceder.

– Se não encontrar a Elena, terei de me reunir com o Khalil. Talvez possamos negociar. – Embora não quisesse vê-lo nem negociar com ele. A lembrança da última vez que se tinham visto causava-lhe um nó no estômago. O rapaz que ele, com quatro anos, considerava o seu meio-irmão olhara para ele como se fosse algo peganhento e repugnante colado à sola do seu sapato. Depois, o seu pai levara-o para o quarto de jogos para ficar com o filho que sempre favorecera, o que preferia, mesmo depois de saber que não era sangue do seu sangue.

Apesar de o ter banido, o pai agarrara-se à lembrança de Khalil e desprezara o filho que tornara herdeiro por necessidade, não por vontade própria.

Aziz obrigou-se a parar de recordar e virou-se para Olivia.

– De todos os modos, não deves preocupar-te com nada disto. A única coisa que te peço é que venhas comigo à varanda durante dois minutos. As pessoas vão ver-te de longe e vão ficar satisfeitas.

– Como podes ter a certeza?

– Esperam a Elena e verão a Elena. Anunciei que chegou esta tarde.

– Quando eu cheguei.

– Exatamente. As pessoas esperam vê-la e já estarão no pátio. Dois minutos, Olivia, é a única coisa que te peço. Depois, poderás voltar para Paris.

– Durante quanto tempo?

– A que te referes?

– Vais mesmo precisar de uma casa em Paris e de uma governanta quando te casares e reinares em Kadar, no caso de encontrares a rainha Elena?

Observou-a durante uns segundos, perturbado ao perceber que se preocupava com o seu emprego.

– A minha intenção é manter a casa de Paris – disse, apesar de nem sequer ter pensado nisso. – Enquanto tiver a casa, terás trabalho nela.

Viu a expressão de alívio do rosto de Olivia.

– Então, estamos de acordo?

Ela abanou a cabeça.

– Não…

– Faltam quarenta minutos para enfrentar as câmaras e os jornalistas. – Aziz deu um passo para ela com as mãos estendidas em atitude de rogo e o sorriso que tantos corações conquistara, embora não o dela. – És a minha única esperança, Olivia, a minha salvação. Por favor.

– Não exagere, Majestade.

– Aziz.

Observou-o durante uns segundos e ele percebeu, nos seus olhos, o dilema com que se debatia. Depois, ela assentiu levemente.

– Muito bem – acedeu, em voz baixa. – Vou fazê-lo.

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