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José Agostinho de Macedo

Newton: Poema


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066408398

Índice de conteúdo

PROEMIO.

NEWTON, POEMA.

CANTO I.

NEWTON, POEMA.

CANTO II.

NEWTON, POEMA.

CANTO III.

NEWTON, POEMA.

CANTO IV.

PROEMIO.

Índice de conteúdo

O Mundo deve aos Conquistadores desgraças, lagrimas, e lutos; o Mundo deve a Newton verdades, sciencia, e luzes. Se inquietar os homens tem merecido tantas Epopéas, porque não merecerá hum Poema quem illustra, e quem ensina os homens? Ah! se chegará o tempo de se conhecer, que huma penna he mais util que huma espada! Canta-se com enfasi quem conquistou huma Provincia, e porque não ha de ser cantado aquelle de quem se póde dizer, que conquistára a Natureza, obrigando-a, á força de estudo, e engenho, a revelar seus mais reconditos arcanos? He preciso que conheçamos que o Imperio da Poesia tem limites muito mais extensos do que até agora se julgava; e eu creio que o seu melhor emprego he a contemplação, e a exposição deste sempre antigo, e sempre novo quadro, que se chama a Natureza. A simples intuição de seus prodigios, e o estudo destes mesmos prodigios, dilata, e accende mais a imaginação do verdadeiro Poeta, que todas as chamadas grandes acções dos Conquistadores, ou perturbadores da Terra. Se o homem só se deve chamar grande, quando he verdadeiramente util aos outros homens, quem poderá pôr em dúvida que os descobrimentos, e as mesmas hypotheses de Newton sejão mais uteis aos mortaes do que as expedições da Cruzada, que derão a materia ao Poema de Tasso? Quem illustra a humanidade he maior que quem a diminúe. Newton merecia hum Poema, as Musas lho devião, eu satisfiz esta divida; se a satisfiz bem, a critica o dirá; em quanto aos miseraveis reparos da escura Inveja, prepare-se esta, porque a mesma chamma, que se me desprendeo n'alma para cantar Newton, me obriga a consagrar igual tributo de louvor a Buffon.

NEWTON,
POEMA.
CANTO I.

Índice de conteúdo

Já da Aurora ao clarão suave, e puro

Cedia o campo azul do immenso espaço

D'estrellas recamada a noite umbrosa;

Nuncia do dia, ás lucidas esferas,

Da luz primeira undulações mandava.

Das mãos de neve, e do purpureo rosto

Brancas brilhantes pérolas cahião

No verde esmalte dos rizonhos prados;

De ondas immensas de escarlata, e d'ouro

Era o ceo do Oriente envolto, e cheio;

E pelo espaço liquido dos ares

Os adejantes Zéfyros das azas

Da manhã fresca os hálitos soltavão;

E a vaga turba aligera nos bosques,

Dava o tributo dos primeiros hymnos

Da Natureza ao renascente quadro.

Quasi rompia o flammejante disco,

Que onde soberbo, e vívido fulgura,

Prazer espalha, e graças aviventa,

E mostra em luz envolto o Mundo ao Mundo.

Depondo o pezo do voraz cuidado,

(Amargo pezo da existencia minha!)

Eu no prazer do esquecimento envolto,

E, á desgraça esquecido, então pousava.

Do doce somno em balsamos immerso,

Somno em que meiga a Natureza furta

Á existencia mortal trabalho, e magoa;

Eis-que sinto levar-me...(e como, e onde

Eu não posso dizer.) Voei nas azas

De arrebatados extasis sublimes.

Sonho, sonho não foi; que mil confusas

Na fantasia imagens apresenta.

Extasi foi sómente, e arrebatado

Eu fui de hum Genio habitador do Olympo,

Que ao pensamento do mortal qu'indága

Abre do eterno arcano eternas portas,

E, n'hum centro de luz, lhe mostra o immenso

Da Natureza o variante quadro.

Do Grande Scipião dest'arte á vista

Talvez n'hum tempo se mostrasse a Gloria,

Que a prosseguir na bellicosa estrada

Lhe manda, e lhe descobre o alto destino,

Que aniquilla Carthago, exalta Roma.

Já pizo o aereo cume, e a luz brilhante

Auri-luzente se diffunde, e espalha.

Como do meio do profundo Oceano

Costuma alçar-se desmedido escôlho,

Que vê quebrar-se nas eternas bazes,

Já languida, e sem força onda espumante:

Se olha do cume as voadoras nuvens,

E os ressonantes tumidos chuveiros,

Se ouve o horrendo fragor do accezo raio,

Sereno permanece, e sente apenas

Que a triste escuridão nas faldas pousa;

E onda, e vento debalde a baze açoita.

Assim eu, levantado á immensa altura,

Hum ar tranquillo e puro, e luz mais clara

Bebo em torrentes, e descubro apenas

Grossas nuvens pousar na Terra inerte.

Eis no gremio da paz serena, e doce,

Se me antolha pizar de Heróes o alcaçar,

Extatico bradando, ah! não, por certo,

Pode ser este o terreal assento!

Hum céo sereno, e Primavera eterna

Celestes flores, e não vistas plantas,

E, cheios de prazer, bosques sombrios,

D'aguas mais puras borbulhantes fontes,

Não por certo não tem mesquinho Globo!

Sem véos aqui contemplo, aqui descubro

Essa invisivel fluida substancia,

Que em torno fecha, e que circunda a Terra;

Que em si nuvens contém, contém vapores;

Que em si tantos fenómenos acolhe;

Que he necessaria tanto, aos sons, á vista,

Ao fogo, á vida, ás arvores, ás plantas!

Ó da Divina mão alto, infinito

Poder nunca entendido! Se a atmosfera

Não refrangesse a nós do Sol os raios,

Não se virão brilhar n'azul campina

Em distancia infinita immensos astros:

Nem o doce crepusculo se vira,

Ou quando o mesmo Sol s'esconde, e fóge,

Ou quando n'horizonte inda não surge,

Mas debil raio matutino espalha.

Se volvo aos ceos extático meus olhos,

Vejo proximo o Sol, da luz origem;

O pelago de fogo, a ardente massa,

De que he composto o fulgurante corpo.

He elle o fixo, o luminoso ponto,

Elle o centro commum qu'em torno cercão,

Sem cessar gravitando, aureos Planetas,

A Lua já descubro, e vejo os mares,

Os largos, fundos, procellosos rios,

Que parecem, da terra, obscuras manchas,

Quando a vista de lá nos ceos espalho.

Ilhas descubro, altissimas montanhas,

De cujas frentes escabrosas desce

A luz reflexa, que da Terra eu vejo,

Luz que lhe empresta o fulgurante globo,

Origem della, e do calor origem.

Seu móto vario, e desigual contemplo

Com que mostra em seu gyro incerto o rosto;

Talvez proceda da diversa, e forte

Visivel atracção do Sol, e Terra,

Do eixo obliquo em que se agita, e móve.

Mais vivos que os Planetas, mais brilhantes

Em viva luz aos olhos se offerecem

Em sempre incerta, e variante fórma

Tão vastos, tão excentricos Cometas,

Tardios em mostrar-se, e sempre infaustos

Á vil superstição do vulgo insano,

Agoiro triste aos pálidos Tyrannos!

São duraveis, e sólidas substancias;

Da mão do Eterno Artifice são obras.

O Nada as produzio, quando na origem

Do Mundo lhe mandou, que fosse tudo.

Não quaes ousou julgar rude ignorancia

Ligeiros fogos de temor objectos,

Sem orbitas, sem leis, sem marcha, e centro.

Quantas contemplo lucidas estrellas!

Quantos Astros centraes! Quão luminosos,

Quantos, quantos satéllites velozes

Em torno delles caminhando eu vejo!

Em tão diversos, tão distantes corpos,

Tão varios entre si, tanta harmonia!

Minha alma se confunde, e se deslumbra

Debil vista mortal. Tudo me opprime,

Eu só prodigios, só milagres vejo!

Entro no abysmo do silencio, e fico!...

Qual o que sóbe do Apenino ao cume,

E alonga os olhos pelo immenso plano,

Onde outr'ora s'ergueo Latino Imperio,

Vastas Cidades vê, ferteis campinas,

E os restos immortaes do fasto, e gloria,

Que inda em quebrados marmores avulta,

Vê longos rios retalhando os campos,

E do Tirrheno mar, d'Ádria nas ondas

Vê náos altas rasgando o dorso a Thetis.

Depois que ávida vista em scenas tantas

Hum pouco apascentou, turvado, absorto,

Dentro em si mesmo se concentra, e fica

Vastas idéas revolvendo, quantas

Da Natureza, e da Fortuna os quadros

A seus olhos atónitos mostrárão:

Assim eu vejo em quantidade immensa

Surgir das aguas, levantar-se aos ares,

Pelos raios Febeos como attrahidas,

As humidas porções já rarefeitas;

Mais ligeiras que o ar, no ar fluctuão;

Nellas a vida tem, nellas se fórmão

A nuvem densa, as nevoas importunas,

Que, com diversa reflexão de Apóllo,

Que em seu seio refrange o accezo raio,

Variante espectaculo me amostrão.

Dos rarefeitos ares eu descubro,

Que os ventos nascem, (portentoso arcano,

Por tantos, tantos seculos occulto!)

Os inconstantes milagrosos sopros,

(Da bemfazeja Providencia hum grito!)

Pelo inquieto campo do Oceano

Levão de hum Polo a outro ousados pinhos.

Equilibrado o fluido dos ares,

Não os oiço bramir!... Mas quem perturba

A dilatada calma, a paz tranquilla?

Quem rouba ao ar pacifico equilibrio?

Talvez, talvez, que, exhalações rompendo

Do terreo globo, e tenebrosas furnas,

Ou sobre o eixo a rotação diurna

Da Terra seja do prodigio a fonte!

Eis com elles se agitão, se misturão,

As espalhadas fluctuantes nuvens;

Do agudo frio comprimidas, tornão

A seu terreno, e primitivo berço.

Em chuva salutar desfeitas descem;

Ou, se o frio he maior, candidos vélos

Do brando vento conduzidos cobrem

No triste Inverno o campo amortecido;

Ou nas miudas condensadas gotas,

Pelas douradas messes espargidas,

Ao desvelado Lavrador só trazem,

Depois de longo afan, tristeza, ou pranto.

Vejo o accezo relampago medonho,

Oiço o horrendo trovão, vejo o espantoso

Trilho abrazado do sulfúreo raio,

Nada a meus olhos se me esconde, nada!

E já de enxofre, de bitume, e nitro

De ácido sal, de alcálicos diversos

Grosso vapor subindo eu vejo aos ares.

Foi do Sol attrahido, o vento o leva;

Com violento impulso então fermenta,

Prestes se accende, subito nos manda

Essa palida luz sempre seguida

D'alto fragor, que faz tremer nos eixos

Timido o Mundo, e precursora he sempre

Da chamma rapidissima, que desce

Com pavoroso estrepito, e que abate

Quanto voando na carreira encontra.

De aspecto muda do vapor a massa,

Nem sempre he raio estrepitoso; eu vejo

As agudas Pyramides, as Traves,

A Seta aguda, o flamejante Drágo

E as que se mostrão lúcidas Estrellas,

Que accezos trilhos n'horizonte deixão;

E esse, usado a brilhar no algente Pólo,

Sem calor vivo, sem substancia hum fogo,

Huns restos são maravilhosos, bellos

Dessas de luz undulações pasmosas,

Que detidas do ar no immenso seio

Fórmão brilhantes Boreaes auroras;

Ao lúcido horizonte em parallela

Linha se mostrão, se mais baixas correm

Ou, n'hum centro commum, s'unem subindo

Até que extinctas as porções sulfureas

Pouco a pouco do ar desapparecem,

Deixando apenas ao gelado Norte

Hum suave crepusculo brilhante.

Se volvo a vista n'outra parte, absorta

De multi-forme côr descubro a nuncia

Da sempiterna paz, Iris formosa,

Que a doce reflexão dos aureos raios,

Unida á refracção sobre miudas

Da fria chuva transparentes gotas,

A septi-forme côr prontos lhe imprimem.

Quantos, quantos fenomenos pasmosos

A luz reflexa nos produz nos ares!

Em tanto objecto o pensamento fixo,

Em tanto objecto extaticos meus olhos

Grandes idéas me despertão n'alma!

Eu, de augusto silencio em sombras fico!

E só do centro de meu peito exhalo,

Não os ais da afflição, do assombro o grito.

Eu sinto, eu sinto hum Deos; não foi do Acaso

A milagrosa producção do Mundo!

Obra só foi do Artifice supremo:

Hum rio origem tem, o effeito causa.

Tantas estrellas lucidas dispersas

Nesta estendida cúpula azulada,

Esta Lua, este Sol, o dia, a sombra,

(Constante alternativa;) a luz, e os ares

São cifras com qu'escreve a mão suprema

De hum Ente Summo, Sapiente, Immenso.

Na flor, na planta, no mimoso fructo,

Nos rostos varios, e animaes diversos,

Nos sons, nas côres, na minha alma o vejo,

Almo thesouro da Clemencia eterna.

Ella enriquece a Terra, e a vejo em tantas

Tão varias producções na especie eternas:

D'alta grandeza sua eu sinto a prova

No fundo abysmo dos extensos mares,

Nos Ceos immensos, na pezada Terra

Seu Divino saber, tremendo adoro

N'alma belleza dos mortaes objectos,

Nas leis eternas dos celestes corpos

Os caracteres luminosos vejo

D'hum Concelho immortal que rege o Todo,

Na exacta proporção dos fins, dos meios,

Que do visivel Mundo o quadro ostenta

Tudo, tudo me diz qu'hum Deos preside

Monarcha immenso de infinito Imperio.

Á luz ordena que me aclare, e manda

Ao ar que me sustente, e a vida aspiro.

Elle o calor produz, que o vital germe,

Em successivas gerações conserva:

Elle o dia formou, nelle ao trabalho

O mesmo Rei da creação destina:

Elle a noite produz, com ella em sombras

Da fria Terra a machina sepulta,

Em que o corpo mortal restaure a força,

Com que ao surgir da matutina Aurora,

Torne ás fadigas, aos cuidados volva.

Porque discorro, existo, e eu sinto dentro

De mim que penso sensações diversas.

Quando o incorporeo ser d'alma contemplo

Vejo huma imagem do Motor supremo,

Que quiz que eu fosse a similhança sua:

E não direi, que me sustenta, e rege

Hum Ser universal, hum Nume Eterno?

Ah! da materia o movimento o mostra!

Ella inerte de si, da inercia sua

Não podéra sahir sem braço Eterno,

De cujo impulso o movimento nasce.

Em taes idéas concentrado estava

Sem olhos despregar do quadro augusto;

Que sempre he novo, e bello, e sempre antigo;

Livro do estudo meu, delicias minhas;

Eis-que descubro no mais alto cume

Do fulgurante Olympo erguido hum Templo,

Cuja sublime estranha architetura

Nem alma a concebeo, nem olhos virão.

De lúcido crystal, alto esplendente

Se levantava altissima fachada;

Arcos, columnas, architraves, tudo

De pedraria oriental se fórma,

Onde huma luz celestial batendo

Derramava reverberos brilhantes:

A magestosa cúpula fulgura,

Qual de Narsinga o diamante fulge.

Quem dá força a meu estro, e quem sustenta

Meus temerarios sobrehumanos vôos?

Como á Verdade franquear eu devo

Té agora as bronzeas ferrolhadas portas

De crença, a cuja luz não seja avára

A turba indocil do inconstante vulgo?

Longe, longe, ó profanos! Se tu reges,

Se tu mesma, ó Verdade, o canto animas.

Se me encordôas Cithara toante,

Para o Templo celeste apresso o passo,

E não receio de mordazes linguas

O golpe fundo, o livido veneno.

No peristilio magestoso, e vasto,

(Eu não distinguo se he mulher, se he Deosa)

Então descubro, que volvendo os olhos,

Em mim pronta os fixou como se ha muito

Naquella Estancia me aguardasse; estende

Formosos braços, e me aperta ao seio.

Soltando a voz angelica me exclama:

Escrito estava no volume arcano

Do immobil Fado, que no Templo entrasses,

Que a Sapiencia levantou no Olympo.

Tu, separado dos mortaes enganos

Da vaidade, que domina o Mundo,

E dando ás Musas o fervente engenho,

Que á grata sombra dos sagrados louros

As horas ganhas da voluvel vida,

E o grão thesouro de profundo estudo

Buscas constante, e com trabalho ajuntas,

Soffrendo o longo afan té quando a sombra

No vasto seio involve o inerte globo:

Hoje das mãos da Sapiencia o premio

Tu deves receber, teu genio enchendo

Não de verso suave, ou brandas rimas,

Com que do mar o vencedor tu cantas,

Que as portas abre do vedado Oriente,

Qu'a Patria d'honra encheo, de gloria o Mundo,

Mas d'excelsa verdade ao vulgo ignóta.

De seus olhos a Deosa amor respira;

Mas tal amor, que penetrava o peito

Sem perturbar do entendimento o lume,

Qual ser costuma entre os mortaes, se he grande!

Eu tinha fitos no seu rosto os olhos,

Com celeste prazer toda a minha alma

Em doces chammas ondear sentia;

A Deosa o conheceo, quer mudo, e quasi

Abstracta estava, e do sentido alheio.

Solta hum surrizo dos purpureos labios

E assim começa a me fallar benigna.

"Tens cheio o coração de ignoto fogo,

A quem mortaes no Mundo amor chamárão,

E a quem puro prazer nos Ceos se chama.

Este puro prazer do gozo alheio

Tóma força, e principio, e tudo a todos

Se apraz de ser, e se derrama inteiro.

Do privado interesse ignora a meta,

E, nem se muda, nem se altera, como

Tantas vezes no Mundo amor se muda.

O proprio amor aos corações innáto,

Que a todas as paixões qu'o peito agitão

Se amolda sempre, e se transforma nellas.

He transvestido amor vossa esperança;

Amor he pertinacia, Amor he magoa;

Amor são todos os prazeres vossos;

De Amor o movimento, os accidentes,

Considerados, são paixões diversas.

Na origem, quando nasce, Amor se chama;

Quando do peito sahe, quando se expande,

E busca unir-se ao suspirado objecto,

Chama-se então desejo; e vigoroso,

Já seguro de si, firme em si mesmo,

Se as azas solta, e se remonta, e sobe,

O nome tem de vivida esperança.

He constancia, se, obstáculos vencendo,

Na mesma opposição mais força adquire.

Quando aos duros rivaes declara guerra,

He sempre Amor; mas chama-se ardimento,

Mil vezes a si mesmo elle se esconde;

Mas neste raro sacrificio he sempre

No altar do coração victima, e fogo,

E Sacerdote Amor, que em si transforma

Quantas no Mundo vê paixões diversas.

Mas tempo he já que teu desejo abaste,

E te descubra o portentoso Templo,

Onde benigno te conduz teu Fado.

Esta, que vêz alçar-se, augusta móle

Encerra dentro em si Filosofia:

Altares alli tem, do monte excelso

Genio a tem feito tutelar os Numes:

Sacerdotes são seus, são seus Ministros

Esses engenhos transcendentes, vastos,

Que tão raro entre vós asylo encontrão,

Sustento, protecção, respeito, escudo.

A Fadiga sou eu; nome tremendo

A quem d'hum ocio torpe os braços busca,

E na mole indolencia a vida exhaure:

Mas he doce o meu nome a quem Virtude,

A quem Mérito apraz. Segue-me, ó filho,

Entra comigo os pórticos do Templo."

Que gélido suor me banha a frente!

De vêa em vêa penetrante frio

O curso ao sangue fervido entorpéce!

Tremi confuso, e vacillante o passo

Entre contrarios pensamentos movo?

Vi que de Icaro o vôo, a acerba queda

Desse soberbo, e deslumbrado moço,

Que mal regera ignípedes Ethontes,

Eu hia a renovar. Meu alto assombro

Descobre a Deosa, e se doeu de ver-me;

A mão benigna me estendeo, susteve

No meio já do pavimento augusto.

Dentro era d'ouro o consagrado Alcaçar,

De azul celeste a cupula esmaltada,

Onde brilhantes lucidas estrellas,

Quaes Safiras finissimas, se engastão;

Oriental Pyrópo o chão lhe fórma;

E nas paredes (mão divina!) expressas

Admira a vista insólitas pinturas,

Quaes nunca Rafael, quaes nunca ousara

Traçar pincel de Rubens portentoso.

Aqui se vião nos incultos bosques

Ir errando os mortaes sem lei, sem freio,

E quasi extincto o luminoso facho

Da celeste Razão, preza entre sombras.

Alli se admirão simplices viventes

Rudes choupanas levantar primeiro

De annosos troncos, e de seccas folhas,

Onde, quaes féras nos covís, s'escondem

Das injurias do ar, do vento aos sopros.

Neste estado infeliz de hum Mundo inculto

Se dá principio á sociedade humana:

A primeira familia alli se ajunta

A rotear começa o campo agreste.

Nella o pai foi Monarcha, até foi Nume,

Da sapiencia, e da razão guiado,

Alli juntava Sacerdocio, e Reino.

Os Ceos interpetrando as leis promulga,

Que o bem commum da sociedade buscão,

Não era a Sapiencia obscura, e arcana,

Destes primeiros pais, mas doce, e clara

Abria o Templo da vulgar Virtude.

Deste humilde principio, e tão pequeno,

Surgio de Roma o desmedido Imperio;

D'huma cabana s'estendeo no Mundo.

Darmowy fragment się skończył.

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Ograniczenie wiekowe:
0+
Data wydania na Litres:
16 stycznia 2025
Objętość:
70 str. 1 ilustracja
ISBN:
4064066408398
Wydawca:
Właściciel praw:
Bookwire
Format pobierania:

Podobne książki