Czytaj książkę: «A noiva substituta»

Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2019 Jane Porter
© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
A noiva substituta, n.º 1852 - março 2021
Título original: His Shock Marriage in Greece
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.
® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.
As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.
Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1375-479-6
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Epílogo
Se gostou deste livro…
Prólogo
Kassiani Dukas estava imóvel no sofá branco da sala, a tentar tornar-se invisível enquanto o pai, Kristopher Dukas, passeava de um lado para o outro com as mãos atrás das costas. Estava furioso e a última coisa que queria era que essa fúria se virasse contra ela.
As coisas tinham corrido mal. Elexis fora-se embora. A irmã mais velha devia casar-se com Damen Alexopoulos no dia seguinte, mas Elexis desaparecera durante a noite. Escapulira-se da vila do noivo na Riviera ateniense, onde se alojavam também o pai e ela, para viajar para Atenas com os amigos, mais do que dispostos a afastá-la de um casamento que ela nunca quisera.
E, agora, o pai estava prestes a dar a notícia ao magnata grego poderoso, um homem brilhante, ambicioso e perigoso quando era traído.
E acabara de ser traído.
A porta abriu-se nesse momento e Damen Alexopoulos entrou na sala, deixando Kassiani com falta de ar. Vira-o antes, em São Francisco, durante a festa de noivado com Elexis, mas não falara com ele porque só estivera lá meia hora, a cumprimentar uns e outros, antes de voltar para a Grécia.
Tinha uns olhos cinzentos penetrantes, umas feições marcadas e uns lábios firmes e carnudos que a fascinavam. Era mais alto do que recordava e os seus ombros pareciam mais largos. Moreno, atlético, com umas pernas compridas e poderosas…
Kass nunca entendera porque é que Elexis não achava aquele exemplar fabuloso de homem atraente, mas a irmã preferia os modelos e atores jovens que a adulavam, esperando beneficiar do seu dinheiro e da sua notoriedade.
– Disseram-me que querias ver-me – disse Damen, num tom profundo e rouco que causou um arrepio a Kassiani.
– Bom-dia, Damen – cumprimentou o pai, tentando mostrar-se despreocupado. – Está uma manhã bonita, não está?
– Linda, mas tive de interromper uma reunião importante para vir aqui porque me disseram que era algo muito urgente – replicou ele, num tom impaciente.
– Muito urgente? – repetiu o pai, tentando sorrir. – Não, eu não diria isso. Lamento muito que te tenhas preocupado.
– Não estava preocupado – apressou-se a dizer Damen. – Mas, já que estou aqui, porque me chamaste?
Kassiani encolheu-se contra o sofá, como se tentasse tornar-se invisível. Não era fácil porque era uma rapariga grande, rechonchuda, de curvas marcadas, seios grandes e um rabo generoso que, ultimamente, se usava muito quando se tinha uma cintura estreita. Mas a sua cintura não era particularmente estreita, a barriga não era plana e as suas coxas tocavam-se. Ao contrário da irmã mais velha e fotogénica, não tinha uma conta no Instagram nem publicava selfies porque não ficava bem nas fotografias.
Não fazia parte dos círculos da alta sociedade, não viajava de avião privado nem ia a festas em Las Vegas, nas Caraíbas ou no Mediterrâneo.
Se o seu apelido não fosse Dukas, teria sido uma rapariga normal. Se o pai não fosse um dos gregos mais ricos dos Estados Unidos, ninguém repararia nela.
Seria invisível.
Com o passar dos anos, Kass começara a desejar ser realmente invisível, pois sê-lo era melhor do que ser visível e digna de compaixão. Visível e desdenhada. Visível e rejeitada. E não só por celebridades e membros frívolos da alta sociedade, como pela sua própria família.
O pai nunca mostrara o menor interesse por ela. Só se interessava pelo seu filho e herdeiro, Barnabas, e pela linda Elexis, que o apaixonara desde que nascera com os seus olhos castanhos grandes e as suas birras simpáticas.
Kass nunca fora simpática. Para a sua família, era uma menina silenciosa, esquiva e impossivelmente teimosa que se recusava a conversar com os convidados importantes do pai. Não queria cantar ou tocar piano. Em vez disso, Kass queria falar de política e economia. Desde pequena, sentira-se fascinada pela economia e fazia previsões sobre o futuro da indústria naval que horrorizavam o pai. Pouco importava que lesse melhor do que qualquer criança da sua idade ou que fosse a melhor da escola a matemática. As boas raparigas gregas não pensavam em assuntos de interesse nacional, política ou economia. As boas raparigas gregas casavam-se com homens gregos para criar a geração seguinte. Essa era a sua responsabilidade, esse era o seu valor, mais nada.
Kassiani deixara de ser incluída nas festas familiares. Não a convidavam para jantares ou eventos. Transformara-se na filha esquecida.
– Agradeço-te por teres vindo imediatamente – estava a dizer o pai. – Lamento ter-te incomodado, mas temos um problema.
O pai de Kassiani era um armador como Damen, mas greco-americano, nascido e criado em São Francisco. Sabia que estava nervoso, mas a sua voz não o traiu. Antes pelo contrário, parecia positivo e otimista.
E Kass alegrava-se por isso. As pessoas não deviam trair os seus medos nas negociações e a fusão da Naval Dukas com o empório Alexopoulos graças ao casamento de Damen e Elexis era uma transação comercial. Uma transação que, nesse momento, estava em perigo.
O pai não podia devolver o dinheiro que Damen investira na Naval Dukas, que estava à beira da ruína devido a uma má gestão. A empresa teria ido à falência sem uma injeção de dinheiro e Damen fora esse investidor. Mantivera o seu compromisso, mas, agora, Kristopher tinha de lhe dizer que os Dukas não iam cumprir a sua parte do acordo.
Kass olhou pela janela da vila. O sol refletia-se nas águas brilhantes do mar Egeu, de uma cor turquesa vibrante, mais claras do que as águas turvas do Oceano Pacífico.
– Não sei se entendo – disse Damen, então. O seu tom era amistoso, mas Kass sabia que aquilo era apenas o prelúdio da batalha.
Os pugilistas chocam as luvas antes de começar o combate e os jogadores de futebol apertam as mãos.
Damen e o pai estavam a cruzar as espadas.
Kass olhou para ambos. Damen não parecia um magnata. Era demasiado atlético, demasiado imponente. Tinha a pele bronzeada e o aspeto de um homem que trabalhava no cais, não à frente de uma secretária. Contudo, era o seu perfil que mais chamava a atenção. Eram essas feições esculpidas, tão severas como tudo nele: A testa larga, as maçãs do rosto altas, a cana do nariz, que parecia ter sido partido mais de uma vez.
Era um lutador, pensou, e não aceitaria bem a notícia que o pai estava prestes a dar-lhe.
– Temos um problema. A Elexis foi-se embora – anunciou Kristopher, então. – Espero que volte em breve, mas…
– Não temos um problema, tu tens um problema – interrompeu Damen.
– Eu sei – assentiu o pai –, mas pensei que deveríamos avisar os convidados enquanto temos tempo.
– Não vamos cancelar o casamento. Não haverá promessas falhadas nem humilhação pública. Está claro?
– Mas…
– Prometeste-me a tua melhor filha há cinco anos e espero que cumpras o prometido.
«A tua melhor filha.»
Kassiani mordeu o lábio inferior para conter a dor e a humilhação.
Então, viu que Damen olhava para ela com uma expressão séria e com as pestanas pretas espessas a emoldurar uns olhos intensos de cor cinzento-escura. Não sabia o que pensava, mas esse olhar breve intensificou a sua dor.
Ela não era «a melhor filha» e nunca seria.
Damen virou-se para o seu pai, esboçando um sorriso desdenhoso.
– Vemo-nos amanhã na igreja – disse. – Com a minha noiva.
E, depois, saiu da sala.
Capítulo 1
Era o dia perfeito de maio para um casamento na Riviera Ateniense. O céu era de um azul muito claro e sem nuvens e o sol refletia-se nas paredes da capela minúscula, com o mar Egeu e o templo de Poseidon como cortina de fundo. A cerimónia e o copo-d’água teriam lugar na vila histórica de Damen em Cabo Sunião. A temperatura era perfeita e agradável, nem muito quente nem muito húmida.
Em circunstâncias normais, uma noiva sentir-se-ia feliz, mas Kassiani não era uma noiva normal. Nem sequer deveria ser uma noiva, mas, naquela manhã, Kristopher Dukas tomara a decisão drástica de a trocar pela irmã e, portanto, Kassiani estava à frente da porta da capela, com um nó no estômago, à espera do sinal para entrar.
Havia muitas possibilidades de aquilo não acabar bem e receava que o noivo a deixasse plantada no altar ao ver que não era a irmã. Damen não era tolo. De facto, era um dos homens mais poderosos do mundo e não gostaria de ser enganado.
E ela não gostava de enganar os outros. Era a filha mais nova de Kristopher Dukas, a menos notável em todos os sentidos. No entanto, quando o pai a encurralara naquela manhã, exigindo que o fizesse para salvar a família, tivera de aceitar. Casar-se-ia com Damen Alexopoulos, não para salvar a empresa do pai, mas para se salvar.
Casar-se com Damen seria uma saída. Fugiria da casa do pai e fugiria do seu controlo porque, com vinte e três anos, estava decidida a ser mais do que a opaca, trôpega e aborrecida Kassiani Dukas.
Casar-se com o magnata Damen Alexopoulos não mudaria o seu aspeto físico, mas mudaria a forma como os outros a viam. Obrigá-los-ia a reconhecê-la como alguém importante, mesmo que parecesse patética.
A música do órgão começou a tocar no interior da capela e o pai, baixinho, roliço e com o cabelo grisalho, fez-lhe um gesto impaciente.
Kass conteve um suspiro. O pai não gostava dela. Quando era criança, não entendera a sua frieza com ela porque era muito carinhoso com Elexis, mas, quando crescera, fora capaz de descobrir o mistério.
Kristopher não era um homem atraente, mas ansiava ser respeitado. Ter dinheiro era uma forma de o conseguir, assim como ter uma família atraente. E enquanto Elexis era a clone da falecida mãe, que fora modelo antes de se casar, infelizmente, ela parecia-se com o pai, de quem herdara a constituição e o queixo marcado. E isso não era o que uma mulher queria quando a mãe fora uma modelo famosa.
Kassiani deixou escapar um suspiro. Esses pensamentos não a ajudavam nada. A sua autoestima, sempre escassa, estava a desaparecer nesse momento. E, então, o pai estalou os dedos.
Aparentemente, chegara a hora.
Tremia quando o pai levantou o véu pesado de renda para cobrir o seu rosto.
Estava aterrorizada e, no entanto, experimentava uma calma estranha. Assim que entrasse na capela, não poderia voltar atrás. Elexis defraudara o pai e toda a família. Ela não faria tal coisa.
Por uma vez, poderia fazer alguma coisa pelo negócio familiar. Quisera trabalhar na Naval Dukas desde que estava na escola. Até estudara Gestão e Direito Internacional na universidade de Stanford, mas o pai rejeitara-a, recusando-se a contratá-la ou a ouvir as suas ideias. Era um homem muito antiquado e achava que o lugar da mulher era em casa, a ter herdeiros, preferivelmente masculinos.
Depois de vinte e três anos a ser uma vergonha para a família, finalmente, podia ajudar o pai, salvando-o da ruína e da humilhação.
Kassiani respirou fundo, levantou a cabeça e entrou na capela ortodoxa. Era muito pequena, só cinco filas de bancos de cada lado do corredor estreito. Demorou um instante a habituar-se à penumbra do interior, mas, então, viu o noivo.
Damen Michael Alexopoulos estava à frente do altar com o padre. Com um fato elegante e escuro, tinha um aspeto mais formidável do que no dia anterior.
Suspeitaria de alguma coisa? Teria percebido que não era Elexis? O véu era tão grosso que mal conseguia ver através da renda, mas Damen não demoraria muito a perceber a diferença de estatura e constituição. Não podia ser Elexis, a rainha do Instagram.
Mesmo com aqueles sapatos incómodos de salto alto, Kassiani continuava a ser baixa. E o espartilho antiquado, necessário para que conseguisse vestir o vestido, não conseguia disfarçar as suas curvas terminantes quando Elexis era tão magra.
– Sabe – murmurou.
– Não sabe – contradisse o pai, com os dentes cerrados. – E é demasiado tarde para voltar atrás. Não podes falhar-me.
Kass cerrou os dentes. Não ia falhar-lhe, não podia fazê-lo, de modo que deu um passo à frente. Não ia voltar atrás. Não ia ter medo.
Faria com que aquilo funcionasse. Encontraria uma forma de agradar ao seu marido e uniria as duas famílias. E seria ela, Petra Kassiani, a fazê-lo, não Elexis, que fugira, nem o irmão, Barnabas, que se importava tão pouco com a família que não se incomodara em ir ao casamento.
Conseguia fazê-lo, tinha a certeza.
A questão era, ele fá-lo-ia?
Assim que Kristopher Dukas entrou na capela com a noiva, Damen soube que era a filha errada.
Incapaz de acreditar na temeridade do americano, observou o corpulento Kristopher a avançar pelo corredor com a filha, cujo rosto estava escondido por baixo de um véu pesado.
Aparentemente, Dukas escolhera a saída mais fácil. Em vez de procurar a rebelde Elexis, simplesmente, trocara as filhas, substituindo a mais velha pela mais nova.
Quem fazia uma coisa dessas? Que tipo de homem tratava as filhas como se fossem gado?
Até ele, que era desumano nos negócios, sabia a diferença entre desonestidade e traição. Aquilo era uma traição.
Aquela rapariga não era Elexis e ele escolhera Elexis por muitas razões. A bela, refinada e ambiciosa Elexis Dukas era perfeita para ele por causa do seu aspeto e temperamento. Era conhecida em todo o lado, adorava os focos e a atenção e era uma anfitriã famosa, algo de que ele precisava numa esposa porque detestava os compromissos sociais.
Poderia representá-lo nos eventos importantes e ninguém sentiria a falta dele. Porque haveriam de o fazer quando ela estava lá?
Não sentia nenhum afeto por Elexis, mas era a noiva que escolhera e pedira-a em casamento conhecendo as suas virtudes e os seus defeitos. Elexis tinha um estilo de vida invejável. Viajava por todo o mundo com o jet set, ia às melhores festas, usava roupa de marca e sentava-se na primeira fila nos desfiles de moda. A sua vida era um aparecimento nos meios de comunicação social atrás de outro, mas isso era bom para ele.
Precisava de uma esposa que soubesse qual era o seu lugar e que não fizesse pedidos emocionais, pois ele não tolerava essas coisas.
Contudo, agora que Elexis desaparecera e havia uma Dukas muito diferente ao seu lado, pensou que talvez aquele tivesse sido o plano de Kristopher desde o começo.
Talvez Elexis nunca tivesse estado disposta a casar-se com ele. Talvez Kristopher não tivesse intenção de lhe entregar a querida filha e tivesse decidido, desde o começo, deixá-lo com a filha mais nova, a quem se referira uma vez como «o patinho feio» da família.
Deveria ir-se embora, pensou.
Contudo, quando estava prestes a soltar a mão desse «patinho feio», ela levantou a cara e sussurrou:
– Lamento muito.
Depois da cerimónia, foram para a sala de espera da capela para assinar o registo. Damen cerrou os dentes, furioso ao pensar que nem sequer sabia o nome da esposa.
– Se não és a Elexis, com quem me casei? – perguntou, pegando numa caneta.
– Kassiani – respondeu ela, num tom rouco.
– Esse não foi o nome que o padre disse.
– Não, usou o meu primeiro nome, Petra, mas ninguém me chama assim. Chamam-me Kass ou Kassiani.
Damen abanou a cabeça, zangado com ela e consigo próprio por não ter saído da capela antes da cerimónia. Porque deixara que o pedido de desculpa o afetasse de tal modo?
Porque é que aquele sussurro de desculpa evitara que a abandonasse no altar?
Não sabia a resposta e não estava de humor para continuar a pensar nisso.
– Não penses mais nisso – disse, depois de assinar o documento, oferecendo-lhe a caneta.
Ela aceitou-a com uma expressão preocupada.
– Muito bem.
– Este era o plano desde o começo, trocar as irmãs?
Kass ficou corada.
– Não.
– Não te ofendas, mas não queria casar-me contigo.
– Eu sei.
– Não é a minha intenção insultar-te.
– Não me sinto insultada.
Noutras circunstâncias, certamente, teria gostado dela porque era direta e inteligente, pensou Damen. Mas os Dukas tinham-no enganado e não estava de bom humor.
– Não sou dos que esquecem e perdoam.
Viu que uma sombra atravessava o seu rosto e quase sentiu pena dela, mas a sombra desapareceu depressa, deixando uma expressão serena e composta no seu lugar.
– Como podes ver, não sou das que deixam passar a oportunidade de comer uma fatia de bolo. Parece que cada um tem de carregar a sua cruz.
Depois, Kass inclinou-se por cima do livro de registo para assinar, com o véu comprido a cair por cima dos seus ombros como uma cascata branca.
Damen não sabia se tinham sido as suas palavras ou o seu sentido de humor, mas, sem saber porquê, levantou-lhe o queixo com um dedo para se apoderar da sua boca. Não era assim que um homem devia beijar a esposa numa capela, mas nada naquele casamento era normal.
Kassiani passeava pelo quarto luxuoso da vila em que se vestira para a cerimónia, tentando acalmar-se. Tinha a impressão de que tudo aquilo podia desmoronar-se de um momento para o outro. A cerimónia não serviria de nada a menos que o casamento fosse consumado e não conseguia imaginar Damen interessado em ir para a cama com ela. Francamente, também não queria fazê-lo e sentiu um calafrio ao recordar a sua frieza quando lhe dissera que não era dos que esqueciam e perdoavam.
Kass não duvidava.
E era por isso que estava no quarto, escondida e acovardada. Naquela manhã, encontrara coragem para ir para a capela e ocupar o lugar de Elexis, mas essa coragem desaparecera.
Por sorte, a cerimónia fora discreta, só com alguns amigos e familiares, mas o copo-d’água seria fabuloso, com centenas de convidados que tinham ido de todas as partes do mundo para serem testemunhas do casamento de Elexis Dukas e Damen Alexopoulos.
Kassiani parou de passear e dobrou-se sobre si própria, prestes a vomitar. Os convidados rir-se-iam ao vê-la. Uma coisa era fazer-se passar por Elexis numa capela escura, escondida sob camadas de renda e, outra muito diferente, fazê-lo à frente daqueles que conheciam a irmã.
Convencera-se de que conseguia fazê-lo, mas só pensara na cerimónia. Não pensara em aparecer em público como a esposa de Damen Alexopoulos.
A sua esposa.
Perdeu a força nas pernas e teve de se deixar cair na cama.
O que fizera?
Estava a limpar as lágrimas quando a porta se abriu e Damen entrou no quarto. Nem sequer se incomodara em bater à porta.
Esperou que ele dissesse alguma coisa, mas não disse nada. Olhava para ela em silêncio e esse silêncio era insuportável. Os segundos pareciam minutos, horas.
– Por favor, diz alguma coisa – murmurou finalmente.
– Os convidados estão à espera.
Kass imaginou o terraço cheio de mesas com toalhas brancas, copos do cristal mais fino e candelabros brilhantes…
Não, aquele não era o seu lugar. Não era o seu casamento, não eram os seus convidados.
– Não posso descer.
– Devo trazer os convidados para cá?
– Não, por favor.
– Queres que te leve ao colo?
– Não!
Kass nem sequer conseguia olhar para ele. O que lhe parecera um gesto de valentia naquela manhã, agora, parecia-lhe a pior ideia da sua vida.
– É um pouco tarde para voltar atrás.
– Estou de acordo – murmurou ela.
Damen deixou escapar um suspiro de irritação.
– Se esperas compaixão…
– Não espero nada.
– Melhor, porque isto é tudo culpa tua.
Kass ia dizer alguma coisa, mas fechou a boca e cerrou os dentes. Porque tinha razão. Como ia discutir?
– Não podes ficar aqui o dia todo.
Kass brincou com uma pérola bordada da saia do vestido.
– Não gosto de festas.
– Mesmo que seja o teu próprio casamento?
– Como ambos sabemos, não devia ser o meu casamento.
– E esse é o problema.
Kass levantou o olhar, mas ele deixava-a tão nervosa… Não se parecia com o pai ou com o irmão. Não se parecia com ninguém.
– O que pensavas que ia acontecer? – perguntou Damen, em voz baixa.
Kass odiava sentir-se tão patética, odiava sentir-se como um fracasso. Não se casara com ele para ser um fracasso.
– Não pensei no copo-d’água nem nos convidados – confessou, finalmente. – A verdade é que nem sequer me ocorreu. Só pensei na cerimónia e depois… – Kass respirou fundo e levantou a cabeça para olhar para ele nos olhos. – Pensei em tudo o resto.
– E o que é tudo o resto?
– Bom… ser a esposa adequada – respondeu Kass. – Sou grega e sei o que os homens gregos esperam.
– Foi isso que o teu pai te disse?
– Sim.
Algo no olhar especulativo de Damen fazia com que o seu coração acelerasse e não sabia como controlar sentimentos tão novos e tão estranhos para ela.
– E o que é que os homens gregos esperam?
Kass engoliu em seco, tentando não trair o seu nervosismo.
– Devo cuidar de ti, cuidar da casa… ou das casas. E devo dar-te filhos. Entendo e aceito essas responsabilidades.
– Pelo menos, uma das filhas do Dukas é responsável.
– A Elexis e eu somos diferentes.
– Gosta de festas.
– Teria gostado do copo-d’água, sim.
– E dos fotógrafos.
– A máquina fotográfica adora-a.
– Como é que o teu pai te convenceu a ocupar o lugar da tua irmã?
Kass franziu o sobrolho.
– Desculpa?
– Ameaçou-te ou trata-se de uma chantagem? Como conseguiu fazer com que fosses à capela e fizesses parte desta farsa?
– Não é uma farsa, casei-me contigo – contradisse ela, fazendo uma pausa. – Por vontade própria.
– Portanto, voluntariaste-te?
– Não, isso não, mas, quando o meu pai me explicou a situação, percebi que a minha família estava em dívida contigo. Não queria que os Dukas te humilhassem publicamente, portanto, aceitei ocupar o lugar da Elexis para que a fusão do negócio e das famílias acontecesse.
– Devo sentir-me agradecido por me terem forçado a casar-me com uma virgem?
Kass fez uma careta.
– Não estou a forçar-te a nada. Podemos anular o casamento hoje mesmo, se quiseres. Ou amanhã. Quando achares melhor – replicou, erguendo o queixo. – Desde que não consumemos o casamento, és livre para o anular a qualquer momento.
– É o que esperas que faça?
– Não, na verdade, não. Fiz promessas e tenciono cumpri-las. Espero que consumemos o casamento esta noite.
– E se não me apetecesse consumá-lo contigo?
Kass mordeu o lábio inferior. Sabia como era dececionante como mulher. Não podia comparar-se com Elexis, mas tinha sentimentos. E esperanças e sonhos.
– Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance e vou esforçar-me para que me desejes.
Damen atravessou o quarto para se aproximar da janela e olhar para o antigo templo de Poseidon, iluminado pelos últimos raios do sol. Naquela noite, haveria outro ocaso espetacular. Os crepúsculos em Cabo Sunião eram lendários.
– Talvez devêssemos esquecer esta farsa agora – sugeriu, de costas para ela, com o olhar fixo no mar.
– Talvez – concedeu Kass. – Não vou chamar-te covarde se o fizeres.
Virou-se bruscamente e observou-a com um ar impaciente.
– Eu cumpri a minha parte do acordo. Investi na Naval Dukas, resolvi os problemas legais do teu pai, despedi-me da minha amante e esperei pacientemente pela tua irmã…
– Evidentemente, foi um erro.
– Isso não está a ajudar, querida.
– Talvez devesses ter passado mais tempo com a tua noiva para saber se era a mulher apropriada.
– O teu pai garantiu-me que a Elexis era a esposa apropriada.
– E esse é o problema, confiaste no meu pai – disse Kass, brincando com outra pérola do vestido. – Sou realista, sempre fui, e conheço bem a minha família. Admiro as suas virtudes, mas também tenho consciência dos seus defeitos. Pessoalmente, não teria feito negócios com o meu pai, mas tu querias a Costa Oeste dos Estados Unidos, querias os barcos, os portos e os acordos. Bom, agora, já os tens.
Damen deu um passo em frente e Kassiani tentou não se acovardar quando parou à frente dela, tão alto que tinha de deitar a cabeça para trás para olhar para ele.
– Não tens boa opinião de mim?
– Acho que subestimaste a família Dukas.
– Não respondeste à minha pergunta.
Ela hesitou por um instante, antes de olhar para ele nos olhos.
– Não me teria casado com um homem de quem não tivesse boa opinião – declarou, finalmente.
Damen olhou para ela em silêncio durante uns segundos.
– Eu também não gosto muito de festas – declarou, depois. – Portanto, vamos ignorar o copo-d’água e vamo-nos embora agora mesmo.