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Marques Gomes
D. Joanna de Portugal (A Princesa Santa)
Esboço Biographico

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066407940
Índice de conteúdo
ESBOÇO BIOGRAPHICO
MARQUES GOMES.
D. JOANNA DE PORTUGAL
(A PRINCEZA SANTA)
ESBOÇO BIOGRAPHICO
MARQUES GOMES.
OBRAS DO MESMO AUCTOR
DOCUMENTO N.º1
DOCUMENTO N.º2
DOCUMENTO N.º 3
DOCUMENTO N.º 4
DOCUMENTO N.º 5
DOCUMENTO N.º 6
CLEMENTE PAPA XII
Ad futurum rei memoriam.
ESBOÇO BIOGRAPHICO
Índice de conteúdo
POR
MARQUES GOMES.
Índice de conteúdo
AVEIRO
Imprensa Commercial.
1879.
D. JOANNA DE PORTUGAL
Índice de conteúdo
(A PRINCEZA SANTA)
ESBOÇO BIOGRAPHICO
Índice de conteúdo
POR
MARQUES GOMES.
Índice de conteúdo
AVEIRO
Imprensa Commercial.
1879.
OBRAS DO MESMO AUCTOR
Índice de conteúdo
MEMORIAS DE AVEIRO (esgotada).
D. DUARTE DE MENEZES, esboço biographico.
O DISTRICTO DE AVEIRO, noticia geographica, estatistica, chorographica, heraldica, archeologica, historica e biographica da cidade d'Aveiro e de todas as villas e freguezias do seu districto.
A MULHER ATRAVEZ DOS SECULOS, estudo historico sobre a condição politica, civil, moral e religiosa da mulher; 1.ª parte sociedades primitivas. China, India, Persia, Assyria, Egypto e Israel.
A seis de Fevereiro de 1452 nasceu em Lisboa, no paço d'Alcaçoba,1 D. Joanna de Portugal. A nova do nascimento foi alegre e enthusiasticamente celebrada, a ponto da recordação do tristissimo drama de Alfarrobeira ser quasi que totalmente deslembrada. Os laços conjugaes entre Affonso V e D. Izabel de Lencastre estreitaram-se de forma, que murcharam de todo as esperanças alimentadas pelos inimigos do Infante D. Pedro, de verem realisado o divorcio por elles tão aconselhado2 e sempre tão nobremente repellido pelo futuro vencedor d'Arzilla.
Affirmam os seus biographos que D. Joanna foi no berço jurada princeza herdeira pelos Tres estados do reino. A falta de successores á corôa, obrigou el-rei seu pae, diz Caetano de Sousa, a que no berço fosse jurada em côrtes Princesa herdeira do reino, titulo com que sempre foi conhecida, ainda depois de nascido o Principe D. João3. E foi logo jurada por Princeza por todos os estados do reino, que acertaram achar-se juntos na conjunctura do seu nascimento, refere fr. Luiz de Souza.4 As chronicas do tempo não sanccionam esta affirmativa. Ruy de Pina e Dameão de Goes nem sequer noticiam tal juramento; aquelle diz apenas que ella sempre se chamou Princeza até 1455, em que nasceu o Principe D. João; este, que depois do nascimento do Principe ella teve o titulo de Infante, por não lhe pertencer já o que primeiro usara.5
Talvez que fosse jurada Princeza pelos fidalgos e mais pessoas que compunham a côrte, não obstante d'isso não restar memoria escripta; por quem de certo não o foi e pelos Tres estados porque estes nem estavam reunidos, nem se reuniram n'esse anno, nem nos dois annos que se lhe seguiram.6 Nem mesmo pela delegação d'elles, ella foi jurada tambem, porque esta deputação permanente, como lhe chama o sr. Oliveira Marreca, não existia já.7
Amamentada por D. Mecia de Sequeira, D. Joanna ficou orphã de mãe aos cinco annos de edade. A rainha D. Izabel, que, com o nascimento do Principe D. João, havia alfim alcançado sepultura para seu pae sob as abobadas da Batalha, cahiu fulminada em Evora pelo veneno ministrado pelos partidarios do duque de Bragança, em 2 de dezembro de 1455.8
Poucos dias depois do falecimento de D. Izabel, D. Affonso V ordenou que todos os officiaes, damas e donzeis que estavam ao serviço da finada rainha, passassem para o de D. Joanna, a quem deu casa, como aquella a trazia.9 Pelo que se deprehende da narração de D. Bernarda Pinheiro10, D. Joanna, depois do fallecimento da rainha, sua mãe, assistiu n'um palacio, separado do de seu pae e irmão, talvez o de S. Bartholomeu, que anteriormente havia sido occupado por suas thias as infantas D. Leonor, D. Catharina, e D. Joanna.11
Entre as damas mais intimas da rainha D. Izabel12 conta-se D. Beatriz de Menezes, senhora de nobre linhagem e elevados dotes do coração e do espirito; foi a ella que D. Affonso confiou a educação moral da filha. Para seu mordomo-mór nomeou-lhe Fernão Telles de Menezes, e para governador de sua casa D. João de Lima, segundo visconde de Villa Nova da Cerveira.13 O lugar de camareira-mór foi dado a D. Izabel de Menezes, a Formosa, que tambem havia sido dama da rainha D. Izabel.14
Se outras provas não tivessemos para avaliarmos os talentos de D. Joanna, o espirito esclarecido de seu pae era bastante para nos fazer acreditar que ella recebeu uma educação esmeradissima, pouco vulgar n'aquelles tempos. Não só cultivava com esmero a lingua materna, mas a latina tambem, que então, alem de ser propriamente dita a lingua da sciencia, era-o igualmente dos altos dignatarios da egreja e da côrte.
Refere D. Bernarda Pinheiro, que D. Joanna aos nove annos, sabendo já grammatica, começou com grande cuidado a aprender letras, e a querer entender latim; estando no convento de Jesus trabalhava por haver e mandar copiar muitos livros, tanto em linguagem, como em latim, dando preferencia a estes, porque ella muito bem o sabia.
D. Affonso V, que havia tido por mestre o celebre Matheus Pisano, e que sustentava n'um documento publico que «as sciencias e a sabedoria a nenhum outro dom podem ser comparadas» decerto não deixou de chamar para junto da filha, afim de lhe cultivarem o espirito, as maiores celebridades d'então. D. Filippa de Lencastre, filha do Infante D. Pedro, havia tambem de necessariamente concorrer immenso para a educação de D. Joanna, já com os seus prudentes conselhos de thia extremosíssima, já com as luzes do seu elevado talento e do seu apurado gosto litterario e artistico, pois esta senhora, alem de varias obras que traduziu do latim, escreveu coplas e foi uma notavel illuminadora de manuscriptos.15 D. Joanna imitou-a. A sua maravilhosa formosura prestava mais um encanto, diz Ferdinand Dinis, á predilecção que não deixou de mostrar por tudo quanto se referia á cultura da intelligencia.16
Fr. Luiz de Sousa diz que ella «lia e considerada as vidas e martyrios das virgens, e tanto se agradava da licção que não queria fallar nem ouvir fallar d'outra cousa, etc.» Ao historiador monastico decerto pareceu profana outra qualquer leitura que não fosse a mystica narração dos feitos das heroinas do christianismo, e por essa rasão limitou a ellas os livros compulsados por D. Joanna; parece-nos, porem, que não disse toda a verdade. A filha d'um monarcha tão illustrado como foi Affonso V, a mulher que havia recebido uma tão apurada educação como ella recebeu, decerto não se limitava só a lêr vidas de santas, que por signal escaceavam na régia livraria.17
D. Joanna passou o abril da vida instruindo-se e soccorrendo os indigentes. Onde houvesse lagrimas para enchugar, ou orphãos para arrancar ás garras da miseria, a sua sombra protectora lá estava. Milhares de infortunios foram suavisados por ella. Aos carceres e hospitaes chegava tambem a sua beneficencia. Alli, pelos seus servidores mais fieis levava o remedio do corpo e a esperança da alma, o pão para a fome e a fé para lenitivo ás grandes dôres. A sua caridade era conhecida de Lisboa e de Portugal inteiro; aquillo a que podia chamar propriamente seu distribuia-o pelos necessitados; quanto tinha era dos pobres e para os pobres. Mereciam-lhe sempre particular compaixão os desgraçados que, havendo sido grandes outrora, cahiam em pobreza; e nos soccorros que a estes ministrava é que o seu animo compassivo e bondoso melhor se reflectia, pois protegia-os sem lhes ferir o pondunor, sem sequer lhes fazer pensar d'onde lhe vinha o inesperado auxilio.
Do mesmo modo que seu pae, apparecia ao povo nos lugares publicos, e escutava com semblante prasenteiro e bom as supplicas dos subditos obscuros, afim de as depôr e advogar perante o regio throno. Honrava sempre com todo o pessoal de sua casa as festas e solemnidades da côrte. Nos seus paços orava e fazia orar Suas damas pela prosperidade do paiz. Recolhida ao seu oratorio particular, ahi se demorava longas horas em orações, e entregue á leitura dos livros sagrados, merecendo-lhe particular estima o Evangelho de S. João. Os trances afflictivos da vida do Redemptor eram para ella objecto de serias e profundas meditações, e em memoria d'elles tomou por divisa uma corôa de espinhos. Estavam então muito em uso as divisas, costume cavalleiresco com que os nobres exprimiam as tendencias do seu espirito. A Princeza, segundo fr. Luiz de Souza, «não se quiz desobrigar d'este uso commum; mas no costume do mundo buscou empreza do céu, que foi uma corôa de espinhos. Esta mandou pintar em todos os seus aposentos, esmaltar em suas joias, e gravar em sua porta.18
No reinado de D. Affonso V era tal o esplendor das festas da côrte portugueza, que embaixadores estrangeiros confessavam espontaneamente que em paiz algum da Europa poderiam ser escedidas em magnificencia.19 Os saraus eram muito frequentes; começavam de ordinario por lautas ceias, servidas em custosas baixellas de prata, e terminavam por danças e momos de exquisita invenção. «Debaixo dos tectos e das abobadas artezoadas, lavradas de oiro nos pendurões e bocetes, acotovelavam-se as damas, diz Rebello da Silva, riam pagens, atravessavam figuras de momos, pulavam anões ou corcovados, e teniam os cascaveis dos maninellos e truões.20 D. Joanna não permittia que no seu paço, diz D. Bernarda Pinheiro, se fizessem jogos nem momos de vaidades; se queria ter sarau, fazia-o quando seu pae e irmão lh'o vinham dar e ter com ella. E com elles, duques, marquezes, condes e todos os outros senhores e fidalgos, os quaes como a paço d'uma princeza, não tendo outra, vinham assim desenfadar. E tomava muito prazer em seus saraus com el-rei n'estes dias festivos, e com suas damas e donzellas, com as quaes a dita senhora Infante e Princeza sahia a recebel-os, toda coberta de sua pompa e reaes vestidos e toucado, por satisfazer sempre com a vontade e mandado de el-rei seu pae.»
Parece que n'estas festas, em que sempre dançava com el-rei, ou com o infante D. Fernando, seu thio, D. Joanna occultava com cuidado, sob as sedas dos seus vestidos e os brilhantes dos seus colares, a camisa de grosseira estamenha e os asperos celicios.
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A Africa é a terra promettida de D. Affonso V, diz Schoeffer, o objecto de seus desejos, dos seus planos favoritos e de seus sonhos,21 é finalmente alli, refere Rebello da Silva, que elle corta uma palma, que D. João I mesmo não julgaria impropria da sua corôa militar.22 A conquista d'Arzilla, uma das melhores possessões dos mouros, n'aquella parte do globo. Em 1471 depois de haver mandado observar por Pedro de Alcaçoba e Vicente Simões, o meio mais facil de levar a effeito a desejada conquista, D. Affonso preparou a expedição, composta de quatrocentos e setenta o sete navios e vinte e quatro mil homens de desembarque. Contra o voto quasi unanime do seu conselho, o rei commetteu uma d'aquellas leviandades em que tão facilmente se deixava cahir. Consentiu que seu filho, o Principe D. João, o acompanhasse, aventurando assim aos azares da guerra os destinos da corôa de Portugal. Por governador do reino ficou o duque de Bragança, D. Fernando.23 Alguns escriptores, entre elles fr. Luiz de Souza, querem que D. Joanna fosse a regente, opinião que alem de não ser seguida por Dameão de Goes, Ruy de Pina e outro qualquer chronista, cahe pela base em presença da carta patente de D. Affonso V, em que se incumbe a governança do reino ao velho duque de Bragança. A propria D. Bernarda Pinheiro não diz explicitamente que ella ficou regente, mas sim «que el-rei lhe deixou seu reino e tudo ordenado e recommendado como convinha.»
Em 15 de agosto levantou ferro a esquadra com direcção a Africa, e a 24 do mesmo mez dava-se o assalto, hasteando-se, passadas algumas horas de sanguinolento combate em que D. Affonso V combateu com o seu incontestavel valor, a bandeira da cruz nos miranetes das mesquitas e eirados das torres d'Arzilla.
«Tanger, que resistira a tantos assaltos, e que vira do alto dos seus muros, no reinado de D. Duarte, o desastre dos infantes, e o captiveiro d'um d'elles, Tanger cortada de temor, despejou-se repentinamente, e D. João, depois marquez de Montemór, recebia das mãos victoriosas do rei os estandartes portuguezes, para os hastear n'aquellas ameias desamparadas.24
A feliz nova de que Affonso V engastara na sua dupla corôa de rei e de cavalleiro duas joias de tão pura agua como eram Tanger e Arzilla, foi em Portugal alegremente recebida. D. Joanna que na capella dos seus paços havia mandado fazer preces publicas pelo bom exito da expedição, communicou logo á camara e cidade de Coimbra o resultado d'ella.25
Regulada a administração e defeza das praças conquistadas, o rei voltou ao reino, onde o esperava a mais brilhante recepção que até então entre nós se havia presenciado. Os vencedores, diz Dameão de Goes, foram recebidos com procissões e grandes festas, que em louvor de Deus, e lembrança de tão assignalada victoria por muitos dias se celebraram por todo o reino.26
D. Joanna, vestindo um habito de rico veludo verde, e ostentando na cabeça e no collo os melhores brilhantes do real thesouro, foi esperar el-rei ao desembarque. Acompanhava-a sua thia D. Filippa e bem assim todas as damas, donzellas e fidalgas de sua casa. Contava então desoito annos, e a tradicção e a historia apresentam-nol-a formosissima. Vastos cabellos loiros naturalmente annelados, presos em redor da cabeça por uma fita de seda cravejada de rubis cahiam-lhe soltos pelas costas abaixo segundo a moda d'então. O rosto era oval, alvo, ainda que um pouco rosado; os olhos eram verdes e formosos; o nariz digno rival da estatuaria grega e a bocca, pequena, entreabria-se n'uns labios purpurinos. A estatura era um pouco alta, mas donairosa; o seu trajar simples, mas sempre elegante.27
Alguns mezes depois eram taes as necessidades do estado que se pensou na conveniencia de reduzir as despezas a que D. Joanna era obrigada a fazer, tendo casa como se fosse rainha. Foram diversos os alvitres apresentados, resolvendo-se afinal que ella entrasse num mosteiro em habito secular, em quanto não casava,28 indo-se assim de accordo não só com as suas tendencias asceticas, mas tambem com os desejos que mais uma vez havia manifestado, de trocar a purpura pela estamenha. Não era novo o exemplo. As Infantas Thereza, Sancha, Mafalda, Branca e Maria, aquellas filhas de D. Sancho I, e estas de D. Affonso III, haviam trocado tambem a côrte pelo claustro. Alem d'isto é acto de abnegação praticado por D. Izabel a santa rainha de mistura com a repentina resolução de algumas damas mais illustres, que n'esta época abandonaram Lisboa a fim de professarem nos differentes mosteiros do paiz, fez com que D. Joanna recebesse jubilosa a resolução do real conselho.
Escolhido o mosteiro de Odivellas, para residencia da Princeza, por ahi viver sua thia D. Filippa, diz Dameão de Goes que el-rei a foi visitar com o Principe, e lhe disse o que no conselho se ordenara ácerca da ordem de sua casa e modo do estado da sua pessoa, pelo que ella lhe beijou a mão, dizendo-lhe que n'isto lhe fazia grande mercê, porque sua tenção e vontade fôra sempre de servir a Deus em religião.29
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