Czytaj książkę: «Recordações de um amor - Uma amante temporária»
Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
N.º 108 - janeiro 2021
© 2009 Spencer Books Limited
Recordações de um amor
Título original: The Costanzo Baby Secret
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
© 2010 Emma Darcy
Uma amante temporária
Título original: The Billionaire’s Housekeeper Mistress
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2010
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), acontecimientos ou situações são pura coincidência.
® Harlequin e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.
® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Dreamstime.com
I.S.B.N.: 978-84-1375-274-7
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Recordações de um amor
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Uma amante temporária
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
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Capítulo 1
Às dez da manhã de segunda-feira, dia 4 de Setembro, exactamente um mês depois do acidente, Dario Costanzo recebeu a chamada de telefone que temera não receber.
– Tenho notícias, signor Costanzo – anunciou Arturo Peruzzi, o chefe de neurologia que se ocupava do caso de Maeve. – Esta manhã a sua esposa despertou do coma.
Intuindo pelo tom do cirurgião que havia mais alguma coisa, Dario teve de fazer um esforço para permanecer calmo. Durante as últimas semanas lera e estudara o suficiente para saber que os danos neurológicos devido a um golpe na cabeça poderiam ter muitas consequências, nenhuma delas era boa.
– Mas alguma coisa não está bem, não é assim, doutor?
– Receio que sim.
Dario acreditara estar preparado, mas descobriu que na verdade, não estava. A última vez que vira Maeve, com a cabeça cheia de ligaduras e ligada a uma série de máquinas e tubos para a manterem viva, contrastava horrivelmente com o seu aspecto antes do acidente: bonita, elegante, cheia de encanto.
Era um raio de sol.
Era sua. E agora?
Abruptamente, Dario deixou-se cair em frente da sua secretária, receando que as pernas não o segurassem.
– Pode dizer-me o que se passa?
– Fisicamente mostra muitos sinais de recuperação. Naturalmente, ainda está muito fraca, mas com a fisioterapia adequada estamos certos de que recuperará e poderá voltar para casa. O problema, signor Costanzo, é a sua mente.
Oh, Dio, isso não! Não queria sequer imaginar que Maeve se transformara num vegetal.
– …Não quero alarmá-lo inutilmente – continuou o neurologista. – É uma coisa comum depois de um traumatismo crânio-encefálico e não é tão grave como se possa imaginar.
Pensando que tinha tirado a pior conclusão possível, Dario decidiu ouvir o neurologista.
– O que está a sugerir, doutor Peruzzi?
– Não estou a sugerir nada, estou a dizer que a sua esposa sofre de amnésia. Resumindo, não tem lembranças… do seu passado recente.
A hesitação do doutor foi breve, mas bastante significativa para despertar, de novo, os medos de Dario.
– Até que momento? Não se recorda do acidente?
– Isso é o que torna esta amnésia fora do comum. Em geral, a amnésia retrógrada refere-se só aos eventos que tiveram lugar imediatamente antes do trauma. Neste caso, no entanto, a perda de memória da sua esposa estende-se a um período mais longo. Lamento dizer-lhe que parece não se recordar de si nem da sua vida de casada.
Amnésia retrógrada, amnésia psicogénica, amnésia histérica… termos que não tinham significado nada para Dario um mês antes, mas com os quais se familiarizara neste último mês.
– Está a dizer que a amnésia é psicológica em vez de fisiológica?
– É o que parece – respondeu o doutor Peruzzi. – Mas a boa notícia é que raramente é uma condição permanente. Com o tempo, é praticamente certo que a sua esposa recuperará a memória.
– Quanto tempo?
– Isso não podemos prever. Pode recordar-se de tudo assim que voltar a um sítio que lhe seja familiar, mas certamente demorará dias ou talvez semanas, com lembranças ou retalhos de lembranças que voltarão a pouco e pouco. O que deve perceber é que não vai ganhar nada tentando forçá-la a recordar-se seja do que for, seja por que razão for, não consegue recordar-se de nada. Fazê-lo seria em detrimento do seu bem-estar. Mas isto, signor Costanzo, leva-me ao aspecto mais importante desta conversa: nós já fizemos a nossa parte. Agora você deve fazer a sua.
– Como?
Como. Esta palavra açoitara-o durante um mês, suplicando respostas que ninguém lhe podia dar. Como pudera ignorar o descontentamento de Maeve? Como, afinal de contas, eles se tinham comprometido um com o outro quando ela poderia ter procurado outro homem? Como podia ter demonstrado tão pouca fé nele, no seu marido?
– A paciência é a chave para o sucesso. Pode levá-la para casa, mas não deve expô-la imediatamente a estranhos. Deve fazer com que se sinta segura e a salvo consigo.
– Como vou fazer isso se ela nem sequer se lembra de mim?
– Quando ela tiver recuperado um pouco explicar-lhe-emos quem você é. Não temos outro remédio senão fazê-lo porque deve saber que não está sozinha no mundo. Mas perdeu um ano da sua vida, uma experiência aterradora para qualquer um. Faça-a ver que se importa com a pessoa que ela recorda que é. E depois, quando tiver um pouco mais de confiança, vá-lhe apresentando a pouco e pouco o resto dos membros da família.
– O resto da minha família inclui o nosso filho de dezassete meses. O que sugere que faça com ele até lá? Devo dizer-lhe que é filho da empregada?
– O sentimento de culpa ao descobrir que tem um filho do qual não se recorda poderia deixar-lhe cicatrizes emocionais permanentes. Esse assunto é o mais delicado de todos porque vai contra a natureza de uma mulher ter esquecido que teve um filho.
– Estou a ver.
E era verdade, sem dúvida: Maeve tinha despertado do coma, mas não estava curada.
– Mais alguma coisa?
– Sim – respondeu o neurologista. – Neste momento, não espere que Maeve seja sua esposa em todos os sentidos. A intimidade com um homem que, embora seja o seu marido, para ela é um completo estranho é uma complicação que devemos evitar a qualquer custo.
Fantástico. Não podia fazer uso da única coisa que sempre funcionara entre eles. E, além disso, teria de mandar Sebastiano para casa da sua irmã.
– Posso fazer mais alguma coisa, além de dormir noutro quarto e enviar o meu filho para outro sítio?
– Claro que sim – respondeu Peruzzi. – A sua mulher perdeu a memória não o intelecto, de modo que lhe fará perguntas. Responda honestamente, mas não elabore as respostas e, sobretudo, não tente apressá-la. Pense em cada dado que lhe revelar como um traço na tela vazia da sua memória. Quando tiver preenchido traços suficientes, ela começará a preencher o resto por si mesma.
– E se não gostar do que for descobrindo?
– Então será imperativo que você, signor Costanzo, continue a apoiá-la. Maeve deve saber que pode confiar em si, independentemente do que tenha ocorrido no passado. Pode fazer isso?
– Sim – respondeu ele. – Enquanto isso, posso visitá-la?
– Não posso proibi-lo, mas sugiro-lhe que não o faça. Agora o importante é que ela recupere fisicamente e o seu aparecimento só serviria para comprometer essa recuperação.
– Entendo – murmurou Dario. – E agradeço-lhe muito que me tenha telefonado.
– Oxalá tivesse notícias tão boas para todos os meus pacientes – suspirou o médico. – Voltarei a ligar-lhe quando Maeve estiver preparada para voltar para casa. Enquanto isso, pode ligar-me quando quiser para pedir informações sobre os progressos da sua esposa. A mim ou a qualquer membro da equipa. Ciao, signor Costanzo, e boa sorte!
– Grazie e ciao!
Depois de desligar, Dario aproximou-se da janela, pensativo. No jardim da casa, em frente ao seu escritório, estava Marietta Pavia, a ama que contratara depois do acidente, sentada sobre uma manta, a brincar com Sebastiano.
Que uma mulher pudesse esquecer um marido de quem estava cansada era compreensível, embora não muito lisonjeador, mas como era possível que Maeve tivesse esquecido o seu filho?
Atrás dele, uma voz autoritária interrompeu os seus pensamentos:
– Ouvi o suficiente para saber que Maeve está melhor.
Dario voltou-se para enfrentar a sua visitante. Com o cabelo preto preso num coque perfeito, um imaculado vestido de cor creme e um colar de pérolas ao pescoço, Celeste Costanzo poderia ter passado por uma mulher de quarenta e cinco anos quando na verdade estava prestes a fazer sessenta.
– Pareces vestida para uma festa, mas deverias estar a relaxar na ilha, mãe.
– Estar fora do olhar público em Pantelleria não é razão para não me vestir bem… e não mudes de assunto. O que te disse o neurologista?
– Que Maeve saiu do coma e espera que se recupere completamente.
– Então vai sobreviver?
– Tenta disfarçar a tua desilusão – suspirou Dario. – Afinal de contas, é a mãe do teu neto.
– Depois do que se passou, não entendo porque é que continuas a defendê-la.
– Mas essa é a questão, mãe, não sabemos o que aconteceu. Das duas pessoas que poderiam saber, uma está morta e a outra perdeu a memória.
– Ah, então esse é o jogo dela agora, não é? Fingir que não se recorda de nada, que não tinha tentado deixar-te e levar a criança – a mãe fez um gesto de desprezo. – Que conveniente para ela!
– Isso é uma tolice e tu sabes. Maeve não está em posição de fingir e mesmo que assim fosse, os médicos têm demasiada experiência para não se aperceberem.
– Então tu acreditas nesse diagnóstico?
– Tenho que acreditar e tu também.
– Receio que não, filho.
– Aconselho-te a que repenses a tua posição, se queres ser bem-vinda a minha casa – respondeu Dario.
Celeste empalideceu.
– Sou a tua mãe!
– E Maeve continua a ser a minha mulher.
– Durante quanto tempo? Até que decida voltar a partir? Até que um dia descubras que Sebastiano vive no outro lado do mundo e chama «papá» a outro homem? Diz-me o que tenho de fazer para que vejas que tipo de mulher ela é…
– É a mãe do meu filho – interrompeu ele. – E faz o favor de não repetires que não te parece uma boa mãe ou uma boa esposa.
– Não terei de fazê-lo, Dario. Maeve recordar-te-á isso em breve.
Todos na clínica, desde o enfermeiro ao médico, se foram despedir dela.
Quando lhes perguntou o que se tinha passado, só respondiam que tinha tido um acidente de trânsito e que não devia preocupar-se porque recuperaria a memória mais cedo ou mais tarde.
Eles negavam-se a dizer-lhe quem pagava as contas do hospital ou enviava as flores… todos excepto uma jovem auxiliar a quem lhe tinha escapado que era «ele» antes que a chefe das enfermeiras a fulminasse com o olhar.
Quem era «ele»?, queria perguntar Maeve. Embora soubesse que não conseguiria obter respostas.
– Posso perguntar pelo menos para onde vou quando sair daqui?
– É claro – respondeu a enfermeira, adoptando o tom que usaria com uma criança. – Para o sítio onde vivia antes, para o pé das pessoas que a amam.
Onde seria esse sítio e quem seria essa gente?, questionou-se Maeve.
Uns dias antes de os médicos lhe darem alta, disseram-lhe que passaria a sua convalescença num lugar chamado Pantelleria, do qual ela nunca ouvira falar.
– Quem é que estará ali à minha espera?
– Dario Costanzo…
Também nunca tinha ouvido falar dele.
– O seu marido – disse o médico então.
Isso tinha-a deixado sem fala.
Reunidos agora ao redor da limusina preta que esperava à porta do hospital, todos lhe desejaram uma rápida recuperação.
– Sentiremos saudades.
– Venha visitar-nos quando quiser, mas desta vez pelo seu próprio pé.
E, de repente, depois de tantos dias em que a única coisa que queria era sair do hospital, Maeve começou a sentir medo. Aquela gente era a sua âncora ao presente. Tudo o que ocorrera antes era um vazio, um borrão negro, um capítulo perdido da sua vida. Estar prestes a redescobri-lo, e ao homem com quem, aparentemente, se casara, deveria enchê-la de felicidade. Em vez disso, estava aterrorizada.
Reparando no seu pânico, uma jovem enfermeira tocou-lhe no braço.
– Não se alarme, eu acompanho-a até ao aeroporto.
A ideia de se misturar com gente assustava-a. Olhou-se ao espelho e sabia que, apesar do exercício, da boa alimentação e das horas que tinha passado no jardim do hospital, estava muito magra e muito pálida. O seu cabelo, outrora longo e espesso, agora era curto e mal cobria a cicatriz sobre a sua orelha esquerda. A roupa caía-lhe como se tivesse perdido uma tonelada de peso ou sofresse de alguma doença terrível.
Mas não podia fazer nada.
Em vez de se dirigir ao terminal, a limusina seguiu um caminho que levava a uma pista onde a esperava um jacto privado, com um assistente de bordo uniformizado à porta.
Que tipo de homem era o seu marido?, questionou-se Maeve. Ela tinha crescido num bairro operário em Vancouver, era filha única de um canalizador e de uma operadora de caixa de supermercado.
Recordando os seus pais, e quanto tinham amado a menina que nasceu quando já tinham perdido toda a esperança, fez com que os seus olhos se enchessem de lágrimas.
Se continuassem vivos teria ido para casa deles, naquela rua ladeada por árvores, a meio quarteirão do parque onde aprendera a andar de bicicleta.
A sua mãe far-lhe-ia um bolo de framboesa e o seu pai voltaria a dizer-lhe como estava orgulhoso dela. Mas os dois tinham morrido; o seu pai umas semanas depois de se reformar, a sua mãe três anos depois. A casa fora vendida.
E por isso Maeve, física e emocionalmente esgotada, via-se presa no elegante assento de couro do luxuoso jacto privado, dirigindo-se para uma vida que para ela não passava de um grande ponto de interrogação.
Capítulo 2
Embora não fosse exactamente mentira, quando Maeve lhe perguntara pelo sítio para onde se dirigiam, o assistente de bordo mostrou-se menos reservado do que o pessoal do hospital.
– Chama-se Pantelleria – respondeu, enquanto lhe servia o almoço
– Foi isso que me disseram, mas o nome não me é familiar.
– É uma ilha, conhecida também como «A pérola negra do Mediterrâneo».
– Em Itália?
– Sim, signora. A uns cem quilómetros da Sicília e a menos de oitenta da Tunísia.
– Fale-me desse lugar.
– É uma ilha pequena e isolada com ventos muito fortes. A estrada que a rodeia é um desastre, mas as uvas são doces, o mar é de um azul transparente… pode mergulhar-se nele. E o pôr-do-sol é magnífico.
Parecia um pequeno paraíso. Ou uma prisão.
– Vive lá muita gente?
– Além dos turistas, muito pouca.
– Eu vivi lá durante muito tempo?
O homem ergueu-se, como se estivesse num desfile militar.
– Posso oferecer-lhe alguma coisa para beber, signora?
Maeve sorriu, tentando sacar-lhe mais alguma revelação.
– O que costumava beber?
Mas o seu esforço não serviu de nada.
– Temos vinho, sumos, leite e água mineral com gás. Ou, se quiser, posso fazer-lhe um café.
– Água mineral – suspirou Maeve, pensando que quem quer que fosse recebê-la ao aeroporto teria de lhe dar alguma resposta porque estava a começar a ficar cansada daquela conspiração de silêncio.
Mas todas as perguntas que queria fazer desapareceram da sua mente quando o jacto aterrou e viu o homem que estava à sua espera.
Se Pantelleria era a pérola negra do Mediterrâneo, ele devia ser o príncipe dos diamantes: alto, bronzeado, de ombros largos e tão bonito que Maeve teve de afastar os olhos quando lhe apertou a mão.
– Ciao, Maeve. Sou o teu marido – disse. – Estou muito feliz por voltar a ver-te e que estejas tão bem.
O cabelo preto bem cortado, o queixo cuidadosamente barbeado… usava umas calças de linho, uma camisa azul e um relógio Bulgari no pulso. Em comparação, ela devia parecer uma expatriada e deslocada ao lado daquele estranho tão elegante.
E ele devia pensar o mesmo porque quando olhou para os seus olhos cinzentos viu neles o mesmo brilho de compaixão que a açoitara quando era adolescente.
Desesperados por dar à sua filha o que eles não tinham tido, os seus pais gastaram todas as suas economias para a enviarem para um dos melhores colégios privados de Vancouver, sem se darem conta da angústia que o seu sacrifício provocava em Maeve. As suas companheiras, todas filhas de famílias ricas, criticavam-na sem piedade e esses comentários tinham-lhe deixado mais cicatrizes do que o acidente de carro.
«Pobrezinha, já viste os dentes dela? É normal que se esconda atrás de tanto cabelo».
«Sinto-me mal por não a convidar para a minha festa, mas ela não se integraria».
Anos depois, uma ortodontia deixara-lhe os dentes perfeitos e, sorrindo agora para disfarçar a timidez que sentia quando se encontrava em desvantagem, Maeve disse:
– Terás de me perdoar, mas esqueci-me do teu nome.
Deviam ser as palavras mais absurdas que alguma vez pronunciara, mas ele também sorriu.
– Dario.
– Dario – repetiu Maeve, copiando a sua entoação, como se desse modo o nome pudesse ser-lhe familiar. Mas não foi assim.
Ele indicou-lhe o carro que os esperava, um Porsche Cayenne Turbo, que Maeve sabia que era muito caro.
– Vamos para o carro, o vento é infernal.
Sim, de facto era. O seu cabelo, ou o que restava dele, levantava-se como um campo de trigo e tinha a testa coberta de suor. E, embora o voo não tivesse durado mais do que algumas horas, a angústia do que a esperava deixara-a esgotada.
Como Dario não parecia muito inclinado a falar, Maeve foi olhando para a paisagem pela janela, rezando para que qualquer coisa despertasse uma lembrança, por mais pequena que fosse.
À esquerda havia vinhedos protegidos por muros de pedra e grupos de oliveiras que abraçavam a terra como se pudessem evitar que o forte vento os atirasse ao mar.
À direita, ondas de cor turquesa acariciavam rochas vulcânicas de cor preta. Daí o nome da ilha, sem dúvida.
Pouco depois passaram por uma vila de pescadores, com casinhas pequenas em forma de cubo, juntas umas às outras com uns telhados estranhos.
– Para aproveitar a água da chuva – explicou Dario quando lhe perguntou porque é que eram assim. – Pantelleria é uma ilha vulcânica com muitas nascentes, mas o sulfureto que a água contém faz com que não seja potável.
Essa informação também não lhe despertava lembrança alguma, de modo que Maeve se viu obrigada a continuar a fazer perguntas se quisesse chegar ao seu destino tendo alguma referência.
– O assistente de bordo disse-me que a ilha era muito pequena.
– Sim.
– Então a tua casa não fica muito longe.
– Nada fica muito longe aqui. Pantelleria só tem catorze quilómetros e meio.
– Então chegaremos em breve?
– Sim.
– Ouvi dizer que eu vivia aqui antes do acidente.
Maeve viu que ele cerrava os lábios.
– Sim.
Era um homem de poucas palavras, certamente.
– Há quanto tempo estamos casados?
– Há pouco mais de um ano.
– E somos felizes?
Dario ficou visivelmente tenso.
– Aparentemente, não.
Surpreendida, Maeve virou a cabeça para olhar para ele.
– Porquê?
Ele encolheu os ombros, apertando o volante com mais força. Tinha umas mãos lindas, grandes e elegantes. Mas não usava aliança.
– A nossa situação não era… a ideal.
Maeve quis perguntar-lhe o que significava isso, mas havia tal reserva no seu tom de voz que decidiu continuar a olhar pela janela.
Pouco depois, Dario seguiu por um caminho estreito que levava até um grupo de casas sobre uma colina. Por meio de algum método que não conhecia, um portão de ferro forjado abrira-se quando o carro se aproximara e voltara a fechar-se depois, silenciosamente.
Um caminho ladeado de palmeiras levava até uma residência que, embora seguindo o que parecia o estilo arquitectónico da ilha, era muito maior do que as restantes e tinha um inegável ar de opulência. De um só andar, estendia-se numa série de terraços, com um telhado sobre a zona central.
Dario parou em frente de uma enorme porta de madeira e desligou o carro.
– É aqui?
– É aqui – disse ele. – Bem-vinda a casa, Maeve.
O vento espalhara o cheiro dos pinheiros, iluminados agora com a luz malva do entardecer, enchia o ar, misturando-se com o cheiro do mar.
Fechando os olhos, Maeve respirou profundamente, perguntando-se como podia não se recordar daquele lugar.
Dario apoiou-se no carro, olhando para ela. A sua silhueta, recortada contra a luz do entardecer, surpreendeu-o tanto como quando a viu descer do avião. Nessa altura desejara envolvê-la nos seus braços, mas ao recordar a advertência de Peruzzi parou. Isso e o medo de lhe partir alguma costela sem querer.
Maeve sempre tinha sido magra, mas nunca ao ponto de permitir que o vento siroco a atirasse ao mar se se aventurasse a aproximar-se da beira de alguma ravina. Estava tão frágil que parecia quase transparente. O conselho do neurologista era que fosse paciente e o mais lógico naquela situação. A primeira coisa a fazer era devolver-lhe a saúde. O resto, a sua história, o acidente e os eventos que o provocaram, teria de esperar.
Sem se aperceber, já lhe revelara mais do que queria, mas não voltaria a cometer esse erro. Não tinha chegado ao topo de um império multimilionário sem aprender a ser discreto quando era necessário. E agora era mais necessário do que nunca.
– Queres ficar aqui fora, por um momento? – perguntou-lhe. – Podes dar um passeio pelo jardim para esticar as pernas.
Ela passou os dedos pelo cabelo curto.
– Não, obrigada. Embora seja cedo, estou muito cansada.
– Então anda. Direi à governanta que te acompanhe ao teu quarto.
– Eu conheço-a?
– Não, começou a trabalhar aqui a semana passada. A sua predecessora foi-se embora para Palermo para estar com os netos.
Dario pegou na mala dela e abriu a porta, dando um passo atrás para a deixar entrar no hall.
Maeve inspeccionou o enorme lustre de cristal suspenso do tecto, as paredes brancas, o chão de mármore preto…
– Vives sempre aqui?
– Não, normalmente venho só aos fins-de-semana para relaxar.
– Então, a partir de manhã estarei aqui sozinha?
– Não, Maeve. Ficarei contigo até que te sintas um pouco mais cómoda em casa.
– E dormiremos no mesmo quarto?
«É isso que queres?», queria perguntar Dario. Outrora tinham sentido uma insaciável paixão um pelo outro…
– Não, terás o teu próprio quarto enquanto assim o desejares. Mas eu nunca estarei muito longe, para o caso de precisares – respondeu, felicitando-se a si mesmo por dar uma resposta que não fechava a porta à ideia de retomar a sua relação. Peruzzi ficaria orgulhoso dele.
– Ah, sim – murmurou Maeve. – Bom, é muito atencioso da tua parte. Obrigada.
– Prego.
– As minhas coisas estão aqui?
– Sim – garantiu ele. – Está tudo exactamente com o deixaste… olha, esta é a Antonia, ela leva-te ao teu quarto. Pede-lhe tudo o que precisares.
– Obrigada outra vez, por tudo o que fizeste por mim – murmurou Maeve.
– Não é nada. Dorme bem, vemo-nos amanhã.
Assim que as duas mulheres, uma tão bem constituída, a outra tão frágil, desapareceram pelo corredor para os quartos, Dario foi para o seu escritório para ligar a Giuliana, a sua irmã, que vivia na casa ao lado.
– A Maeve chegou?
– Sim.
– E como é que ela está? É tão terrível como esperávamos?
– Está tão frágil… – Dario sentiu uma quebra na voz. – A viagem deixou-a esgotada. Foi para a cama mal assim que chegou.
– Pobrezinha. Oxalá pudesse ir dizer-lhe como gosto dela e que estou muito feliz por ter voltado.
– Eu também gostaria. E trazer o menino para que ela o visse, mas infelizmente ainda não é o momento.
– Sim, eu sei.
– Mas escapou-me que o nosso casamento não passava pela sua melhor fase e essa não é a melhor maneira de começar outra vez – suspirou Dario.
– Podem recomeçar se ainda se amarem como antes. A questão é… ainda se amam, Dario?
– Eu não posso falar por ela.
– Então fala por ti mesmo. Sei que te casaste com Maeve porque te pareceu que era o mais honrado, mas a mim parecia-me que corria tudo bem.
– Até que começou a correr tudo mal.
E aí estava o problema. Será que poderiam esquecer o que se tinha passado alguma vez e voltarem a confiar um no outro?
– Maeve ama-te, Dario. Tenho a certeza disso.
– Oxalá eu também a tivesse. Mas não te estou a ligar para te sobrecarregar com os meus problemas, ligava-te para te perguntar por Sebastiano.
– Estamos todos muito bem. Marietta é uma ajuda enorme. E quanto a Cristina, está encantada com o primo e está sempre a brincar com ele. Além disso, Sebastiano é uma criança maravilhosa; só chora quando tem fome ou quando há que lhe mudar a fralda.
– É a única coisa boa em todo este desafortunado assunto.
– E Sebastiano é demasiado pequeno para entender o que aconteceu.
– Esperemos que nunca saiba – Dario fez uma pausa. – Alguém da família foi vê-lo?
– Se te referes à nossa mãe, sim. Veio esta manhã e depois à tarde outra vez. Insiste em que deveria estar com ela e eu insisto em que deve estar comigo.
– Pensei que tinha voltado para Milão com o papá. A última coisa que Maeve precisa neste momento é de se encontrar com ela.
– Infelizmente, parece decidida a ficar. Mas não te preocupes, eu posso lutar com ela. E Lorenzo também, portanto não deixaremos que se intrometa.
Dario sabia que era verdade.
– Agradeço-vos muito aos dois que me estejam a ajudar tanto. Dá um beijo ao Sebastiano por mim, eh? Ia vê-lo, mas…
– Não – interrompeu a irmã. – É importante que esta noite fiques em casa com Maeve. Seria horrível se despertasse a meio da noite e não soubesse onde está.
Quanto tempo duraria aquilo?, questionou-se Dario depois de desligar. O doutor Peruzzi aconselhara paciência, mas ele nunca tinha sido um homem particularmente paciente. Estava há demasiados dias afastado do seu trabalho porque não conseguia concentrar-se, passava as tardes com um copo de uísque como companhia e demasiadas noites sozinho, numa cama feita para dois.
Irritado, saiu para a varanda para respirar um pouco de ar fresco. A noite tinha caído e uma dúzia de candeeiros ao redor da piscina brilhavam suavemente na escuridão.
Uma vez, não há muito tempo atrás, Maeve desejara-o como ele a desejava. E, à noite, na piscina, faziam amor com uma urgência que alcançava o desespero. Ele enterrava a sua boca na de Maeve por medo de que alguém a ouvisse gritar de prazer… ele continha-se, esperando prolongar o encontro até que não pudesse aguentar mais. E depois deixava-se ir, com uma urgência e um ardor que quase faziam com que o seu coração parasse.
Então, porque é que estava sozinho agora? Porque é que Maeve estava a dormir num quarto que não era o do casal?
Um som quebrou o silêncio da noite, mais próximo do que o murmúrio das ondas, um passo tão hesitante que poderia ter pensado que era a sua imaginação se não viesse acompanhado por uma fragrância que conhecia tão bem: bergamota, junípero e tangerina siciliana com um toque de alecrim. A fragrância de Maeve. Sabia porque ele mesmo a tinha comprado para ela.
Quando voltou a cabeça encontrou-a na soleira da porta, usava uma roupa larga que a fazia parecer ainda mais frágil. Nunca lhe tinha parecido mais etérea, mais desejável.
– Pensei que estavas a dormir.
– Não conseguia dormir.
– Demasiadas emoções?
– Talvez – Maeve deu um passo em frente. – Ou talvez tenha dormido demasiado e já esteja na hora acordar.