Czytaj książkę: «O filho inesperado do xeque»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2019 Carol Marinelli

© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

O filho inesperado do xeque, n.º 1853 - março 2021

Título original: Claimed for the Sheikh’s Shock Son

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1375-480-2

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Epílogo

Se gostou deste livro…

Capítulo 1

– Vai intervir no funeral, Alteza?

As perguntas dos paparazzi começaram ainda antes de o príncipe Khalid de Al-Zahan ter saído do seu carro.

O funeral de Jobe Devereux iria decorrer no dia seguinte e os jornalistas e a televisão tinham-se aglomerado muito perto da sua casa na Quinta Avenida para captarem as imagens de quem chegava para apresentar as condolências. Khalid tinha voado para Nova Iorque desde Al-Zahan e, a pedido da família, fora diretamente do seu avião privado para a casa de Jobe.

Ele iria ao funeral com a barba bem feita, bem penteado e de fato, mas naquela noite, acabado de chegar de um longínquo lugar do deserto, vinha com a barba por fazer e vestido com umas roupas escuras. Khalid era um homem impactante: alto e magro, mas forte. Contudo, apesar do impressionante físico, dirigia-se de um modo elegante e calmo para a casa que tão bem conhecia, sem se dignar a responder a todas aquelas perguntas, já que tinha a mente noutra coisa. Não só acabava de perder um sócio nos negócios, como também uma pessoa que valorizava e respeitava.

– A Chantelle ficará sentada com a família?

– Haverá algum convidado inesperado?

– Alteza, é verdade que o rei de Al-Zahan vai anunciar em breve o seu casamento?

A última pergunta conseguiu perturbá-lo, embora ele tivesse conseguido disfarçar. A pressão que sofria no seu país para que casasse era imensa. Mas o facto de essa mesma pressão se repetir ali, em Nova Iorque, o lugar que ele considerava o seu refúgio, era-lhe insuportável.

A governanta abriu a porta e ao entrar constatou que, ainda antes do funeral, a morte de Jobe tinha já tinha juntado muita gente. Havia grupos espalhados pela casa, em conversas em pé com um copo na mão, quase como se o funeral já tivesse acontecido.

Mas ele não estava ali para conversar, por isso foi conduzido diretamente ao escritório de Jobe.

– Vou dizer ao Ethan que o senhor já chegou – disse a governanta. – Está a falar com o senador.

– Diz-lhe que não há pressa.

– Posso oferecer-lhe algo?

– Estou bem – respondeu ele, mas, quando a governanta já estava para sair da sala, chamou-a. – Barb, lamento muito a tua perda.

A mulher respondeu-lhe com um sorriso triste.

– Obrigada, Khalid.

Era um alívio estar ali, longe das hordas. Não estava com espírito para conversa fiada.

Era curioso que um aposento que pertencia a uma casa que ficava tão longe da sua pudesse conter tantas memórias. O globo terrestre de Jobe sempre exercera nele uma poderosa atração. Já era uma antiguidade quando o comprou e gostava de contemplar os países desaparecidos enquanto a sua ilha, longe do continente, permanecia.

E também ali, naquele mesmo bar caseiro, experimentara álcool pela primeira vez. Naquela mesa tinha sido feito o primeiro desenho do hotel Royal Al-Zahan e agora só faltava um ano para a inauguração.

Um sonho impossível que, porém, nasceu naquele escritório.

Agarrou um pesado pisa-papéis e recordou Jobe, estranhamente desconfortável, a passá-lo de uma mão para a outra quando ele abriu a porta do escritório. Voltou a recordar esse momento:

– Queria ver-me, senhor?

– Quantas vezes tenho de dizer-te que me trates por Jobe? Até os meus próprios filhos o fazem.

Mas ele tratava o seu próprio pai pelo título e tinha de inclinar-se quando este entrava ou saía, por isso era-lhe difícil aceitar a informalidade com que se tratavam uns aos outros na casa Devereux.

– Senta-te, filho.

Aceitou o convite, embora até tivesse preferido ficar em pé. Estava convencido de que iria receber uma reprimenda. Tinha dezasseis anos, estava há quase um em Nova Iorque, e ele e Ethan tinham descoberto como arranjar bilhetes de identidade falsos de adultos. E as raparigas.

– Não há um modo fácil de dizer-te isto – começou Jobe por dizer, depois de limpar a garganta. – Khalid, tens de ligar já para tua casa.

– Passa-se alguma coisa com os gémeos?

A sua mãe estava quase a dar à luz.

– Não. A tua mãe deu à luz esta manhã, mas houve complicações. Não conseguiram salvá-la, Khalid. Lamento muito ter de dizer-te isto, mas a tua mãe morreu.

Foi como se todo o oxigénio tivesse desaparecido da sala. E ele, apesar de esforçar-se para não o mostrar, sentiu que não conseguia respirar. Não podia ser. A sua mãe era uma mulher tão viva que, ao contrário do seu pai, estava sempre a rir e amava a vida… A rainha Dalila era a razão pela qual ele estava em Nova Iorque.

– Liga para casa – repetiu Jobe. – Diz ao teu pai que podemos ir agora mesmo ao aeroporto e que eu te acompanharei até Al-Zahan.

– Não – respondeu ele. Jobe não percebia que ele teria de chegar a bordo do avião real. – Mas obrigado pela oferta.

– Khalid – Jobe suspirou, exasperado, – permite-te sofrer.

– Com todo o respeito, senhor, sei bem o que me é permitido. Vou ligar ao rei agora mesmo.

Khalid esperava que ele o deixasse sozinho, mas, em vez disso, Jobe fez algo que nunca teria esperado: apoiou os cotovelos na mesa de mogno e escondeu a cara entre as mãos. Porque tinha sido duro para ele ter de dar-lhe a notícia e sentia a morte da sua mãe e a dor que ia sofrer Hussain, o seu irmão de dois anos, e os gémeos recém-nascidos.

Então, ouviu a voz do seu pai.

– Alab – disse, chamando-lhe pai. Um erro.

– Antes de ser teu pai, sou teu rei – recordou-lhe. – Nunca o esqueças, nem sequer por um instante, e sobretudo nos tempos difíceis.

– É verdade? A mãe morreu?

O rei confirmou-lhe a notícia, mas também lhe disse que encontrava consolo no facto de se ter salvo outro herdeiro.

– Celebramos esta manhã ter vindo ao mundo outro herdeiro ao trono de Al-Zahan.

– Ela teve um menino e uma menina?

– Exato.

– Chegou a vê-los? Pôde tê-los nos seus braços? Ela sabia o que tinha tido?

– Khalid, que tipo de pergunta é essa? Eu não estava com ela.

Que nem sequer se tivesse dado ao trabalho de averiguar aquilo deprimiu-o. E um estremecimento de agonia soltou-se dos seus lábios.

– Não vais chorar – avisou-o o pai. – És um príncipe, não uma princesa. As pessoas precisam de ver força, e não de verem o seu futuro rei a portar-se como se fosse um camponês que geme e chora.

Jobe aproximou-se dele e pôs uma mão no seu ombro. Desconhecia o que se estava a dizer, já que a conversa era em árabe, mas a sua mão continuou ali pousada já depois do telefonema ter terminado.

– Lamento, filho. Mas vais superá-lo. O Abe e o Ethan também perderam a mãe.

– Mas eles tinham-no a si.

– Tu também me tens, Khalid.

E ali, naquele escritório, chorou pela sua mãe.

Durante algum tempo andou assustado, desesperado e triste, e Jobe permitiu-lho. Ele foi a única pessoa que o viu chorar porque as lágrimas não lhe eram permitidas. Nem quando era uma criança.

Mas quando o avião real chegou para levá-lo, a máscara estava de novo no seu lugar e nunca mais voltou a deixar de o estar.

– Khalid?

Não tinha ouvido Ethan entrar, mas voltou-se para dar-lhe as condolências. Ele era seu sócio nos negócios e um amigo, embora não se pudesse dizer que fossem muito unidos.

Ele não estava muito unido a ninguém.

– Obrigado por vires, Khalid.

– Nunca teria deixado de comparecer ao funeral de Jobe.

– Refiro-me a esta noite. Agradeço-te. Quanto tempo vais ficar?

– Até depois de amanhã.

– Tens de partir tão depressa?

– Precisam sempre de mim em casa.

– Bom, fico contente por teres vindo.

– Deixa-te de simpatias e vai direto ao assunto. Que se passa?

– Muita coisa – admitiu Ethan. – E ninguém pode saber.

– Já sabes que dos meus lábios nada sairá.

A vida de Jobe Devereux tinha sido interessante, digamos, e a imprensa contara muitos detalhes. Os seus filhos, Abe e Ethan, já tinham visto de tudo.

Ou assim pensavam.

– Ele tinha uma conta da que não sabíamos nada.

Khalid ouviu o relato de como Jobe tinha um fraco pelo jogo e pelas mulheres dos cabarés. Aparentemente, aqueles longos fins de semana de ausência nem sempre eram passados nos Hamptons. Muitas vezes ia diretamente para Las Vegas, a Cidade do Pecado.

– Tinha dívidas?

– Não, não há dívidas, mas não se tratava de algo ocasional. Tinha muitas mulheres e… um casamento de que não sabíamos nada.

– Um casamento?

– Entre o casamento com a sua primeira mulher e o casamento com a minha mãe, afinal esteve casado com uma tal de Brandy durante setenta e duas horas.

– História antiga e sem importância – disse Khalid.

– É possível, mas trata-se de uma história antiga que pode bem ressurgir manhã.

– A reputação do Jobe está acima de tudo isso – respondeu Khalid, tranquilo, tentando acalmar aquelas águas turbulentas. – E a vossa, também. Se fosse algo recente, aí sim, poderia ser difícil de assumir para a sua companheira atual. Ele voltou para a Chantelle antes de morrer?

– Na verdade não, mas estiveram juntos, de um modo intermitente, durante alguns anos.

– Ethan, toda a gente tem um lado escuro – respondeu-lhe Khalid com calma. – E que o Jobe tivesse amantes, ou que estivesse casado por umas horas, não será uma grande surpresa. O Jobe levou uma vida intensa e todos sabemos como gostava das mulheres.

– Das mulheres, sim – Ethan suspirou e Khalid viu como estava incomodado. Agora sim, ia ouvir a verdadeira razão pela qual lhe tinham pedido que viesse antes do funeral. – Durante os últimos quatro anos, o meu pai enviou uma soma mensal muito considerável a uma Aubrey Johnson.

Isso sim, era uma surpresa.

– O Jobe tinha uma aventura com um homem?

E, naquela noite sombria, Ethan começou a rir.

– Não, Khalid. O Jobe não era gay.

– Mas Aubrey é um nome masculino.

– Não. Digamos que é unissexo. Garantidamente, a Aubrey Johnson não é um homem.

Ele entregou-lhe algumas fotos.

Não, Aubrey não era um homem. Na verdade, parecia ser algo mais do que uma simples mulher.

Aubrey Johnson tinha um espesso cabelo loiro e uns expressivos olhos azuis, mas as suas delicadas feições ficavam um pouco alteradas por uma maquilhagem muito marcada, com pestanas postiças e os lábios muito pintados de vermelho. A sua bela figura aparecia envolta numa única peça, uma malha vermelha de lantejoulas.

– Quantos anos tem? – perguntou Khalid, com um tom de desilusão na voz. Jobe tinha setenta e quatro anos.

– Vinte e dois. É dançarina.

– Imagino que não te refiras a dançarina num salão de baile.

A imagem seguinte respondeu à sua pergunta. Aparecia junto a um grupo de mulheres com um vestido muito reduzido e muito revelador. E, novamente, com muita maquilhagem.

– E é trapezista – acrescentou Ethan enquanto Khalid continuava a ver as fotos. – Embora não muito boa. A menina Johnson vive num parque de caravanas e é frequentadora habitual das mesas de jogo. Quando não está a atuar, parece que ela e o meu pai… – não conseguiu terminar. – Mal tinha dezoito anos quando começaram os pagamentos.

Em que raios estaria o Jobe a pensar?

Khalid não conseguia acreditar que o homem que tanto admirava tivesse mantido uma relação com alguém tão jovem.

Não. Não podia aceitar algo assim de Jobe.

– Poderá haver outra explicação?

– Se há, estamos a fazer tudo o que é possível para a encontrar – Ethan moveu a cabeça. – Mas não aparece.

– Não poderia ser filha dele? – insistiu Khalid, reticente e a pensar o pior.

– Não. O meu pai era um homem generoso e, se soubesse que ela era sua filha, nunca teria permitido que estivesse a viver num parque de caravanas. E, se o dinheiro fosse por uma qualquer razão benevolente, tinha fideicomissos e colaborava com organizações de beneficência. Mas os pagamentos à menina Johnson saíram de uma conta oculta, que ele não queria que alguém soubesse.

– Ainda bem que ficaste a saber antes que se tornasse público.

– Se houver algum escândalo, eu e o Abe tratamos do assunto, mas não queremos que se saiba amanhã no funeral. Queremos que o nosso pai tenha uma despedida digna.

– Claro.

– Comunicámos os nomes destas mulheres aos seguranças para que as mantenham afastadas de…

– Não, não – interrompeu-o Khalid. – Vocês têm de as deixar entrar no funeral.

– De modo algum. Não vamos transformar a sua despedida num espetáculo de Vegas.

– Ethan, pensava que me tinhas feito vir cá para pedir-me conselhos.

– Sim, mas…

– Queres armar uma cena com as câmaras fora do teu controle?

– Claro que não.

– Então, acrescenta essas mulheres à lista de convidados. Se chegarem, põe os seguranças a vigiá-las. Eu também farei com que os meus estejam atentos. Vocês foquem-se em despedirem-se do vosso pai e não te esqueças que, se alguma aparecer, será para apresentar os seus respeitos. E isso não se nega a ninguém.

– Não – Ethan suspirou.

– E deverás convidá-las para a homenagem privada.

– Não! Isso é apenas para a família e para os amigos próximos.

– Não deveria precisar recordar-te que deves manter perto os teus inimigos, Ethan.

– E arriscar-me a que tudo acabe por tornar-se num circo? – explodiu Ethan, mas sabia que Khalid nunca dava um conselho sem refletir, por isso acabou por assentir. – Falarei com o Abe.

– Tudo se esclarecerá – tranquilizou-o Khalid. – É possível que o teu pai guardasse alguns segredos, mas era um bom homem.

– Eu sei. Obrigado por estares aqui. Para o meu pai significaria muito.

– O teu pai significava muito para mim.

E continuaram a falar dos detalhes do que ia acontecer no dia seguinte. O título de príncipe de Khalid tinha sido suprimido do serviço por seu expresso desejo.

– Tens a certeza disso? – insistiu Ethan quando Khalid se preparava para retirar-se.

– Completamente. Foi uma das melhores coisas do tempo que passei aqui – admitiu Khalid. – Ninguém me tratava como príncipe ou como herdeiro da coroa. Aqui era apenas o Khalid. Amanhã deves focar-te em recordar o teu pai. Eu ocupo-me dos problemas que possam surgir.

Ethan assentiu agradecido e ambos saíram do escritório.

– E tu, Khalid?

– Eu o quê?

– Se toda a gente tem um lado escuro, qual é o teu?

– Não esperarás realmente que te responda a essa pergunta, pois não? Claro que não, porque na verdade ninguém conhecia Khalid.

A imprensa descrevia-o como um homem que gostava de brincar com as mulheres, mas nada mais longe da realidade: ele não brincava.

A nada.

As suas emoções estavam sempre sob estrito controle e não permitia que ninguém se aproximasse, nem sequer na cama.

Particularmente na cama.

Tinha tomado a decisão de não ter um harém. Detestava ver como a sua mãe sofria quando o seu pai visitava o harém. E como depois a acusava, quando nascia outra criança de uma das amantes, dizendo que a culpa por não conseguir dar-lhe outro herdeiro varão era dela.

As crianças assim nascidas não tinham o mesmo estatuto dos filhos do casamento, nem eram considerados da família. Ele não queria comportar-se assim, por isso tinha recusado o harém. Mas em Nova Iorque saía com mulheres sofisticadas e experientes que aceitavam a ausência de ternura fingida.

Era apenas sexo.

A sua absoluta ausência de afeto pagava-a com diamantes, presentes e, às vezes, até com dinheiro puro e duro. Naquela noite, levava uma boa maquia no bolso.

Capítulo 2

Nova Iorque, a Cidade dos Sonhos. E para Aubrey Johnson, a cidade do que poderia ter sido.

Oxalá estivesse ali noutras circunstâncias. Oxalá tivesse posto os pés em Manhattan para estudar música como sempre sonhara, mas estava ali para dizer adeus ao homem que lhe dera uma oportunidade.

Uma oportunidade que ela não tinha aproveitado.

O dia mal acabava de começar e já estava cansada. Sofrera uma infeção num ouvido e o voo de Las Vegas durara toda a noite, o que não tinha ajudado muito.

O funeral seria ao meio-dia e, embora fosse um evento íntimo e só para ilustres, era-lhe indiferente que não tivesse sido convidada. Sabia alguns truques e tentaria entrar às escondidas, mas, se não conseguisse, apresentaria o seu respeito a uma distância conveniente.

Parecia-lhe importante estar ali.

Na casa de banho do aeroporto, despiu as velhas calças de ganga e o top e substituí-os por um vestido preto de cocktail que uma amiga lhe emprestara. Ficava-lhe um pouco grande, mas disfarçaria com o xaile.

Foi de comboio e depois apanhou o metro. Seguindo as instruções que lhe dera a amiga, deu por si em Manhattan, numa rua muito concorrida num soalheiro dia de primavera.

Por um momento ficou com a cabeça caída para trás a contemplar ensimesmada os altos edifícios, mas depressa se viu atropelada por um mar de gente que caminhava com rapidez. Entrou nuns grandes armazéns e subiu para o segundo piso para beber um café, que bem o merecia. Mas o seu orçamento para aquele dia era muito curto.

Tinha visto na televisão que Jobe estava muito doente, por isso nas últimas semanas tentara fazer algumas poupanças, o que não tinha sido fácil, já que a infeção no ouvido a impedia de trabalhar no trapézio, e as gorjetas das mesas que servia tinham diminuído. Ainda assim, conseguira comprar dois bilhetes baratos de ida e volta para que ela e a mãe pudessem estar presentes no funeral.

Mas a sua mãe recusara-se a ir.

Stella adorava Las Vegas e tinha vivido intensamente a cidade, mas agora mal saía da sua caravana, e nunca durante o dia.

Tentou prolongar o café que estava a beber e, quando acabou, tomou o antibiótico e desceu as escadas para a área de cosmética. Distraiu-se a experimentar batons no dorso da mão, até que a empregada se aproximou para perguntar-lhe se podia ajudar.

– Assim espero – Aubrey suspirou. – Na verdade, não sei o que estou a procurar. Não costumo maquilhar-me.

Não era verdade porque, em cada noite que subia ao palco, usava uma espessa camada de maquilhagem, mas, se a sua amiga estava certa, a empregada iria oferecer-se para maquilhá-la. E assim foi.

Mas Aubrey hesitou. Não lhe parecia correto.

– Só me maquilho quando subo ao palco – admitiu.

– Então, procura um look mais natural?

– Sim, mas… – Aubrey respirou fundo. A empregada era mais ou menos da sua idade e, sem dúvida, esperava que ela comprasse algo para ganhar a sua comissão. – Na verdade não posso permitir-me comprar nada – admitiu.

A jovem olhou-a por um momento e depois sorriu.

– Pelo menos és sincera. De qualquer modo, deixa-me maquilhar-te. Com sorte, as pessoas virão espreitar e assim saímos as duas a ganhar – sentou-a num banquinho alto. – Onde vais? – perguntou. – A um funeral? – adivinhou, vendo-a vestida de negro.

– Sim. Um amigo da família. É um evento de alto nível e não quero chamar as atenções.

– Hoje deve ser o dia dos funerais. O de Jobe Devereux, o de… – interrompeu-se ao ver que Aubrey corava. – É a esse funeral que vais?

Jobe pertencia à realeza de Nova Iorque e, quando Aubrey assentiu, a jovem soube exatamente o que ela ia enfrentar.

– Então, vamos trabalhar. Ah, chamo-me Vanda.

– Aubrey.

Vanda tirou vários ferros de cabelo e alisou o ondulado cabelo loiro a Aubrey antes de analisar o seu rosto.

– Tens uma estrutura óssea incrível.

– Devias ver a minha mãe. Tinha umas maçãs do rosto maravilhosas.

– Tinha?

Aubrey não respondeu. A mãe fazia questão de não falar das suas mágoas e, mesmo estando longe de Las Vegas, preferiu não referir como o rosto da mãe tinha ficado marcado pelo fogo.

– Bom… – prosseguiu Vanda enquanto trabalhava, – dizes que usas maquilhagem no palco. A que te dedicas?

– Faço um pouco de tudo. Danço em alguns espetáculos, sou trapezista e…

– Não posso!

– Nada de glamouroso, acredita. Um pouco de tudo.

Um pouco de tudo para evitar dedicar-se à profissão mais velha do mundo. E quando devia a renda, quando não tinha horas extras para fazer… mas a sua mãe precisava dos medicamentos. Ainda bem que tinha encontrado outro modo de pagar as contas a cada mês.

O dinheiro de Jobe Devereux chegava pontualmente à sua conta e era também pontualmente que a sua generosa contribuição era gasta.

Fizera-o acreditar que estava a estudar música e Jobe, que não sabia nada da sua mãe e que era um homem muito ocupado, nem investigara. O dinheiro, em vez de ir para os seus estudos, acabava em operações, contas da clínica, medicamentos, reabilitação, mais operações…

Até a sua mãe pensava que era prostituta. Nunca lho tinha dito abertamente, claro, mas era Aubrey que pagava as contas e a mãe nunca lhe perguntara de onde vinha o dinheiro.

Tivera várias ofertas, mas declinara-as todas. A verdade era que desconfiava dos homens. A sua mãe trabalhara como acompanhante e ela era o fruto desse trabalho, mas, quando a mãe começou a ter menos marcações, tornou-se difícil pagar as contas a cada mês.

Até que Jobe apareceu na vida de Stella. Pela casa dela tinha passado um verdadeiro desfile de homens, o que a tornou cínica e receosa em tudo o que dizia respeito ao sexo. Apesar dos vestidos reduzidos e dos movimentos provocantes, nunca tinha sido beijada, e muito menos tudo o resto.

– Não permitas que a história se repita – dissera-lhe Jobe.

Na verdade, essa possibilidade aterrorizava-a, embora a necessidade começasse a tornar-se premente, já que Jobe tinha morrido e o dinheiro deixaria de chegar.

Esse pensamento levou-a a fechar fortemente os olhos, o que não era boa ideia tendo em conta que lhe estavam a aplicar o eyeliner.

– Um segundo – disse, e respirou fundo para tentar recompor-se.

– Não te preocupes – respondeu Vanda. – Já está quase. Deixa-me só dar-te um retoque nos lábios.

Aubrey abriu os olhos e descobriu que uma pequena multidão se tinha formado para presenciar a transformação. E era mesmo uma transformação.

Vanda aproximou-lhe um espelho e Aubrey esbugalhou os olhos ao ver-se.

– Estou…

– Incrível – Vanda sorriu.

– Não – respondeu Aubrey. Tinha de encontrar a palavra adequada. A maquilhagem era subtil e os seus olhos pareciam muito grandes e azuis. A boca, maquilhada num suave tom bege, projetava uma imagem doce, tão diferente do vermelho a que estava habituada. – Estou sofisticada.

– Vais encaixar na perfeição – disse Vanda, olhando brevemente para o vestido barato que levava, mas quanto a isso não podia fazer nada. – Vou dar-te uma amostra de lápis de lábios para que possas retocar-te antes do serviço fúnebre.

– Deixa, não precisas de fazer isso.

– Já viste quantas clientes tenho agora? Espero que o dia te corra tão bem como parece que me vai correr a mim.

Assim o esperava Aubrey porque, no fundo, estava aterrorizada.

Havia uma multidão às portas e o controlo de segurança era férreo, mas isso não a deteve. Caminhou para a barreira e dirigiu-se a um agente de segurança.

– O meu motorista deixou-me no local errado – tentou-o, mas o guarda lançou-lhe uma pergunta rápida.

– Nome?

– Aubrey – murmurou ela. – Aubrey Johnson.

– Espere aqui.

Não ia conseguir entrar. O seu nome não estaria na lista de convidados. Ainda assim estava habituada a entrar de penetra em concertos e coisas assim, e acalentava a esperança de conseguir contornar o segurança, ou de juntar-se a um grupo de convidados.

Mas não ia ter tal sorte.

O guarda falava pelo microfone com alguém e sabendo que não estava na lista, olhou em volta, tentando encontrar um ponto de onde, pelo menos, conseguisse ver o caixão. Queria dizer-lhe adeus. E não só em nome da sua mãe, mas também em seu nome.

– Por aqui, menina Johnson.

Ao ouvir o seu nome pestanejou várias vezes enquanto a fita de veludo era retirada. Devia ser um engano. Johnson era um apelido corrente.

– Siga aquele grupo – disse-lhe o guarda.

Aubrey assim fez. Subiu as escadas de pedra e assinou o livro de condolências antes de entrar, mantendo sempre a cabeça baixa, receando que o agente desse conta do seu erro.

E foi assim que Khalid a viu pela primeira vez.

Ele fora avisado de que uma das mulheres misteriosas já chegara e que estava à espera para assinar o livro de condolências. Ele examinou a fila, passou por ela duas vezes sem a ver, até que por fim um homem se afastou e ele a avistou.

Pelo que tinha ouvido falar sobre ela e pelas fotos que tinha visto, esperava uma figura menos delicada. Era pequena. Muito pequenina. Tinha a cabeça inclinada e sobre os ombros levava um xaile de renda que agarrava com uma mão.

Khalid começou a andar para ela.

– Desculpe – foi dizendo a quem estava no seu caminho, com todos a afastarem-se. Ninguém protestou, e não porque fosse um funeral, mas porque embora tivesse acabado de fazer a barba e estivesse com um fato negro, emanava dele um ar autoritário que levava as pessoas a afastarem-se instintivamente.

No seu país, ter-se-iam ajoelhado.

Aubrey estava demasiado preocupada para dar-se conta daquela agitação na fila. A primeira coisa que sentiu foi o perfume dele.

Khalid cheirava sempre divinamente. Al-lubān, ou incenso, misturado subtilmente com óleo de guaiacol de uma árvore de pau santo que tinham oferecido ao palácio. A essa mistura acrescentavam-lhe uma nota de bergamota, cardamomo e açafrão, tudo misturado no deserto de Al-Zahan por um místico e em exclusivo para Khalid.

Era subtil, mas cativante, a um ponto que, quando chegou a Aubrey, ela teve de levantar a cabeça como um suricata e virar-se para procurar a origem. Um homem muito mais alto do que ela aproximou-se. E era realmente tão alto que ao princípio só viu a sua gravata negra. Depois foi subindo para a camisa branca, o queixo forte e no final… aquele olhar ardente que a fez esquecer tudo o que sabia.

Esqueceu-se de que não devia estabelecer contacto visual. E esqueceu-se de que não confiava nos homens.

Assim que os seus olhares se encontraram, ela simplesmente esqueceu tudo.

A expressão de Khalid permaneceu impassível, embora tivesse sentido de imediato o seu poder de atração. Desde os seus olhos de porcelana azul até à sua boca sensual e carnuda, era cativante. Levava muito menos maquilhagem que naquelas fotos de mau gosto. Talvez apenas sobrasse um pouco de blush, mas Aubrey era mesmo excecionalmente bela. Era fácil de perceber como um homem poderia facilmente ficar fascinado por ela.

A ele não ia acontecer tal coisa.

– Acho que é a tua vez de assinar – disse-lhe.

A sua voz era profunda, rica e com pronúncia, e as suas palavras não fizeram sentido para ela por um instante, mas por fim lembrou-se. O livro de condolências! Agarrou uma pesada caneta de prata. A mão tremia-lhe ao escrever o seu nome.

Aubrey Johnson

Quanto à sua morada… era melhor pôr só Las Vegas. E a mensagem? Que podia dizer?

«Obrigada por fazer com que a minha mãe se sentisse como uma rainha, pelas viagens e pelos momentos divertidos…» Isso não podia escrever. A longa relação que mantivera com a sua mãe fora mantida em segredo.

«Obrigada por teres acreditado em mim…»

Teria gostado de escrever isso, mas também não o podia fazer. Ou…

«Lamento ter-te mentido».

Jobe tinha feito questão de que ela aproveitasse a oportunidade e que não seguisse o caminho do resto da família, já que tanto a sua mãe como a sua tia Carmel ganhavam a vida da mesma maneira. Perdoar-lhe-ia que tivesse gastado o dinheiro da bolsa nos tratamentos da sua mãe? Nunca o saberia.

Queridíssimo Jobe, obrigada por tudo. Foste maravilhoso. Beijos.

Khalid aproximou-se para ler o que tinha escrito, mas a ideia de que ela pudesse ter estado com Jobe revolveu-lhe o estômago.

Agarrou a caneta e escreveu o que teria escrito antes dos seus olhos se terem encontrado com os de Aubrey.

Allah yerhamo.

Que Deus se apiadasse dele.

Essas palavras pareciam-lhe mais apropriadas.