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Camilo Castelo Branco
O vinho do Porto: processo de uma bestialidade ingleza exposição a Thomaz Ribeiro

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066407711
Índice de conteúdo
O vinho do Porto
CAMILLO CASTELLO BRANCO
O vinho do Porto
a Thomaz Ribeiro
O vinho do Porto
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Porto—Imprensa Moderna
CAMILLO CASTELLO BRANCO
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O vinho do Porto
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PROCESSO D'UMA BESTIALIDADE INGLEZA
EXPOSIÇÃO A
THOMAZ RIBEIRO
2.ª EDIÇÃO
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, Editores
1903
Propriedade absoluta dos editores
Reproducção Interdicta
a Thomaz Ribeiro
Índice de conteúdo
Como sei que o teu amor ás perfidas trêtas e manhas da Inglaterra não é dos mais acrizolados, venho offerecer ao teu sorriso um specimen de bestialidade ingleza.
Ha trinta e cinco annos que um bretão anonymo lavrou na Westminster Review a condemnação do vinho do Porto como deleterio e empeçonhado por acetato de chumbo e outros toxicos anglicidas. O homem, pelas rábidas violencias do estylo, parece ter redigido a calumnia depois de jantar, n'uma exaltação capitosa do tannino do alvarilhão que elle confundiu com as afflicções dos venenos metallicos. Relembra lamentosamente, com a lagrima das bebedeiras ternas, o seculo dezoito, em que o genuino licor do Porto era um repuxo de vida que irrigára a preciosa existencia de grandes personagens da Gran-Bretanha. Recorda Pitt e Dundas, Sheridan e Fox, famigerados absorventes do nosso vinho. Diz que Lord Eldon e Lord Stowel, graças infinitas ao Porto, reverdejaram e floriram em velhos; e Sir William Grant, já decrepito, bebia duas garrafas de Porto a cada repasto, para conservar crystallinamente a limpidez das suas faculdades mentaes e a rija musculatura de todos os seus membros já locomotores, já apprehensores, e o resto. Lamenta que Pitt, debil de compleição, com o uso immoderado d'este tonico, e em resultado de plethoras frequentes combatidas com ammoniaco e sulfato de magnezia, vivesse dez annos menos do que viveria, se possuisse o incombustivel estomago curtido do veneravel Lord Dundas.
Succedeu, porém, ao collaborador da Westminster Review achar-se dyspeptico, com azías, relaxes intestinaes, eructações cloacinas, e o craneo sempre flammejante como suja poncheira, com o encephalo em combustão de cognac e casquinha de limão—isto depois de saturações copiosas dos vinhos adulterados do Porto—uma mixordia negra, diz elle afflicto; mas não sabe decidir de prompto se a degeneração está na raça saxonia, se no vinho portuguez. Pelo menos e provisoriamente considera-se envenenado, o bruto.
Pois o veneno que lograr infiltrar-se nas mucosas inglezas deve ter a potencia esphacelante da Agua Tufana dos Borgias. Em Inglaterra os porcos engordam na ceva do arsenico. Que fibras de raça aquella! É que a carne d'um bretão diverge muito da carnadura da restante Europa. O anthropologo Topinard observou que a mortandade nos hospitaes inglezes, em seguimento ás operações cirurgicas, era muito menor que a dos hospitaes francezes. O sabio Velpeau, consultado pela Academia de Medicina, respondeu que la chair anglaise et la chair française n'etaient la même. E não dá a razão da differença, por que a não sabia o grande biologo. Eu, na observancia do dictame do Espirito Santo, pela bocca do Ecclesiastico—«não escondas a tua sabedoria» illucidarei o snr. Velpeau. A razão, a scientifica é esta: emborcações de bebidas acidas, e mórmente de cerveja, combatem, como coadjuvantes do acido phenico, a gangrena; ora, o inglez, abeberado de cerveja, é refractario á podridão dos hospitaes. Como se vê, d'esta causal tão obvia um anthropologo é capaz de espremer assumpto para volumes recheados de coisas abstrusas sobre ethnographia, climatologia, morphologia, mezologia, o diabo.
Além da cerveja, a fibrina do porco, saturado de arsenico, entretecida na fibrina do inglez seu compatriota, faz d'elle um Mithridates para os saes de chumbo diluidos no vinho do Porto. O inglez não póde morrer por ingestão alcoolica. Se quer suicidar-se com instrumento liquido, tem de asfixiar-se, afogar-se no tunel como o lendario Lord. Elle é immortal, absorvendo; e só póde morrer—absorvido. Estranho animal! E é senhor das aguas e das melhores garrafeiras! O destino, pela tuba sonorosa de Camões, disse ao inglez:
Entre no reino d'agua o rei do vinho.
(LUS. c. VI.)
Que litros de Porto envenenado se calculam efficazes para degenerar um bretão até á dyspepsia e ás agonias da morte?
*
N'esta conjunctura, um possuidor de legitimo Douro convidou o intoxicado a beber o elixir fornecido por um commerciante britannico estabelecido no Porto. O negociante fornecedor era o Forrester que desappareceu d'este alfôbre de charlatães forasteiros, de um modo tragico, ha vinte e trez annos. Logo te contarei essa catastrophe, meu amigo.
A sensação intima que o hospede recebeu nas suas entranhas foi uma novidade, uma deleitação de refrigerio em todas as membranas desde o céo da bocca até ao cego e visinhança onde elle sentia os ardores da zona torrida. Emborrachou-se como era de esperar, e seria iniquidade censurar-lh'o; mas o seu cerebro de illuminado espelhava agora as visualidades ethereas, irisadas, do americano Poë. Nem já o ventre lhe rugia como se lá tivesse uma besta-fera embetesgada n'uma latrina, nem elle nauseado recorria ás titilações na glote para golphar o acetato de chumbo. O possuidor da garrafeira, para o convencer de que o salvára da morte propinada pelo vinho homicida do Porto, mostrou-lhe dois opusculos inglezes recentemente publicados. Um era de J. James Forrester, e intitulava-se A Word of truth Port wine. O outro, por Whittaker, em reforço ao de Forrester, chamava-se Strictures on a «Word of truth on Port wine». London, 1848.
Forrester, no seu folheto, desbaratava o valor do vinho do Porto, increpando os lavradores de não differençarem, no fabrico, as temperaturas humida, fria, secca e quente; que empregavam promiscuamente toda a casta de uva, adulterando-a com ingredientes adequados ao paladar inglez, mas corrosivos. Na operação do lagar, accusa o lavrador de retardar a fermentação, vasando em cada pipa de môsto entre dose e vinte e quatro gallões de agua-ardente. Que, passados dois mezes, a mixordia era córada com baga, mediante uns saccos de linhagem que espremiam sobre o vinho, e depois atiravam o residuo ao tunel. Em seguida, novo despejo de agua-ardente, e dois mezes de descanço. Esta beberagem enviada para o Porto era novamente «beneficiada» com o veneno alcoolico; e, nove mezes depois, ao sahir para Inglaterra, como golpe de misericordia, nova infusão. De modo que o vinho entrava no estomago inconsciente do Reino-Unido á razão de vinte e seis gallões de agua-ardente por pipa. Depois, descreve o que seja geropiga, e como ella entra n'estes horrendos mysterios da Brinvilliers. Esta geropiga, como logo direi, fermentou a bestialidade ingleza que passou victoriosamente na Europa em 1849.
Rematada a lista das falsificações, fraudes e ladroeiras dos lavradores e negociantes portuguezes, Forrester exclama: «Quem assim deteriora o vinho é, a meu vêr, mais criminoso que um ladrão vulgar»; e conclue o seu opusculo n'estes termos: «Os consummidores inglezes devem dar a Portugal uma lição prática, demonstrando que, se a esse paiz convém desfazer-se da sua agua-ardente, que não é nos vinhos do Porto que nos deve impingil-a; por que nós, em Inglaterra, podemos comprar baga e melaço por preços muito mais em conta do que Portugal nos incampa o seu licor de que esses ingredientes formam o principal.»
*
Parecia natural e patriota coisa que os negociantes e agricultores de vinho accusassem este detrahidor á animadversão publica, e que a imprensa do baluarte da liberdade o cobrisse de injurias, e algum viticultor mal humorado de bengaladas. Não, meu querido Thomaz Ribeiro. A sua casa luxuosa na Ramada-Alta era o confluente dos próceres portuenses e da provincia vinicola. Titulares, desembargadores-conselheiros, ministros de estado honorarios, os maiores proprietarios do Douro, e poetas arcadicos de pacotilha, que faziam dithyrambos ao jantar:
Evohé.
Padre Lyêo!
Sabohé,
Grão Bassarêo!
Ainda se usavam, na bonacheira dos velhos, estas rancidas semsaborias remoçadas por uma copiosa tintura de bastardo.
Ali concorria o desembargador Fortunato Leite cheirando os vinhos que já não podia deglutir e arrotando pelo nariz sobre os calices. Ao pé d'elle estava o visconde de Veiros, o Mello das Aguas-ferreas, expondo a dois morgados de Riba-Douro a sua erudição em genealogia, uma sciencia em que se distinguem muitos parvos, se tem memoria. O ministro de estado honorario, João Elias, alambasava-se em pudding que comia com a faca. O Affonso Botelho, de Passos, d'uma gentilhommerie transmontana, paparrêta, rorejando as phrases e os circumstantes com uma salivação caudal expedida d'entre os dentes illegitimos, como do crivo de um borrifador. Elle chamára patife a Forrester em 1845, no Periodico dos Pobres, e acclamava-o então nos brindes o anjo tutelar do Douro que lhe comprava as colheitas a elle Affonso. Avultava o velho Manoel Browne, dominando a vozeria com as suas gargalhadas estridentes e honradas. O typico Gonçalo de Barros, a correcção no despejo, negociante de vinho, de casamentos proprios e alheios, de tudo que é negociavel, com mais farças e melodramas e tragedias na sua vida que o Archivo do extincto theatro do Salitre; insinuando-se com incomparaveis negaças de artista nos corações dos amigos e sahindo pelas algibeiras quando achava estas avenidas aéreas de mais e metalisadas de menos. Elle foi, não obstante, um tracista infausto, por haver nascido em um meio estreito de mais para o largo bracejar das suas faculdades mercantis. Seria o mais sagaz negociante encyclopedico da monarchia, se os seus parceiros em veniagas não fossem tambem os negociantes mais sagazes da mesma monarchia, todos conjurados em desabarem do seu legendario ponto d'alta honra a Praça do Porto. E a Praça sempre impavida em meio do fracassar das ruinas, como o homem justo de Horacio, metaphoricamente fallando—Impavidum, etc. Via-se o Eduardo Moser, então visconde embrionario, a esperteza do alho e a finura do coral feita homem; manancial de salvaterios commerciaes, agricolas, industriaes, esterilisados pela inveja e pela ignorancia dos seus auditorios; raro dom prelucido de profecia, mas condemnado, como Cassandra, a não ser acreditado. Seria capaz de inventar a Methaphysica commercial, levando á transcendencia o phenomeno do Cambio. Usa do telescopio de Herschell para vêr o Porto nas dimensões da Philadelfia. Ás vezes, cuida que vai scismando em emprezas arrojadas ao longo de Regent Street, e encontra-se na rua dos Caldeireiros entre uma loja de funis e uma tenda de tamancos. Vive miraculosamente no meio dos seus collegas da rua dos Inglezes e Cima do Muro como Daniel no fôjo dos leões. De resto, com uma estatura franzina, e menos de mediana, tem um temperamento de dynamite. Quando lhe é forçoso cascar um sôco em um homem alto (e eu já vi) cresce um covado pela medida velha. Tem a elasticidade do Relatorio e do boxing. Produz uns Relatorios colossaes que, se lhe puxassem tanto pelo corpo como pelo espirito, s. exc.ª seria o visconde mais corpulento da sua freguezia. Não obstante, e fallando por figura, elle hade ser sempre o gigante do Relatorio correcto, que fará alguma vez impacientar o ouvinte futilmente leviano, mas nunca fará gemer a Razão filha de Deus, nem a Grammatica filha do Lobato.
Confluia a todos os jantares assignalados o arcediago Cunha Reis, um velho palaciano de Braga, adiposo, apesar de ressicado interiormente por diversas ingratas materialistas que elle idolatrava com psycologismo incomprehendido, mas consentaneo á sua idade séria. Sentindo-se fatigado e algido da viagem por sobre o dezerto glacial da velhice, foi ao convento da Falperra, onde morava um egresso, fez confissão geral e deixou o coração penitente aos pés da Virgem. Depois, renunciando o coração, nenhum esteio amparador do gôsto de viver lhe ficou. Fechou-se no seu quarto, e, sósinho, morreu de uma congestão de saudade da sua juventude que fôra um manso idyllio de Gessner com ligeiras intermittencias febrís de Saint-Preux. Este adoravel cavalleiro-professo chamava-me filho; e, se ouvia fallar de amores, chorava, dissimulando as lagrimas com um sorriso ironico da sua fragilidade serôdia.
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