Czytaj książkę: «Só»
António Pereira Nobre
Só

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066405984
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Capa
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Texto
SÓ
PARIS
LÉON VANIER, ÉDITEUR
19, QUAI SAINT-MICHEL, 19
1892
MEMORIA Á MINHA MÃE AO MEU PAE
Índice de conteúdo
Aquelle que partiu no brigue Boa Nova, E na barca Oliveira, annos depois, voltou; Aquelle santo (que velhinho e jà corcova) Uma vez, uma vez, linda menina amou: Tempos depois, por uma certa lua-nova, Nasci eu… O velhinho ainda cà ficou, Mas ella disse:—«Vou, alli adiante, à Cova, Antonio, e volto jà…» E ainda não voltou! Antonio é vosso. Tomae là a vossa obra! «Só» é o poeta-nato, o lua, o santo, a cobra! Trouxe-o d'um ventre: não fiz mais do que escrever… Lede-o e vereis surgir do poente as idas magoas, Como quem ve o sol sumir-se, pelas agoas, E sobe aos alcantis para o tornar a ver!
*Antonio*
Que noite de inverno! Que frio, que frio!
Gelou meu carvão:
Mas boto-o á lareira, tal qual pelo estio,
Faz sol de verão!
Nasci, n'um Reino d'Oiro e flores
Á beira-mar.
Ó velha Carlota, tivesse-te ao lado,
Contavas-me historias:
Assim… desenterro, do val do passado,
As minhas Memorias.
Sou neto de Navegadores,
Heroes, Lobos d'agoa, Senhores
Da India, d'Aquém e d'Além-mar!
Moreno coveiro, tocando viola,
A rir e a cantar!
Empresta, bom homem, a tua sachola,
Eu quero cavar:
E o vento mia! e o vento mia!
Que irà no mar!
Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
Qual Lua, a distancia!
Vizões enterradas no adro da Igreja,
Branquinha, da Infancia…
Que noite! ó minha Irmã Maria,
Accende um cyrio à Virgem Pia,
Pelos que andam no alto mar…
Lá vem a Carlota que embala uma aurora
Nos braços, e diz:
«Meu lindo menino, que Nossa Senhora
O faça feliz!»
Ao mundo vim, em terça-feira,
Um sino ouvia-se dobrar!
E Antonio crescendo, sãosinho e perfeito,
Feliz que vivia!
(E a Dor, que morava com elle no peito,
Com elle crescia…)
Vim a subir pela ladeira
E, n'uma certa terça-feira,
Estive jà p'ra me matar…
Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
Que fado cruel!
E a Antonio calhou-lhe levar, coitadinho!
A Esponja do Fel…
Ides gelar, agoas dos montes!
Ides gelar!
A Tia Delphina, velhinha tão pura,
Dormia a meu lado
E sempre rezava por minha ventura…
E sou desgraçado!
Agoas do rio! agoas das fontes!
Cantigas d'agoa pelos monles,
Que sois como amas a cantar…
E eu ia ás novenas, em tardes de Maio,
Pedir ao Senhor:
E, ouvindo esses cantos, tremia em desmaio,
Mudava de cor!
Passam na rua os estudantes
A vadrulhar…
E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
A mail-os francezes,
Quando ia ao confesso, á ermida da serra,
Levava-me, ás vezes.
Assim como elles era eu d'antes!
Meus camaradas! estudantes!
Deixae o Poeta trabalhar…
Santinho como ia, santinho voltava:
Peccados? Nem um!
E a instancias do padre dizia (e chorava):
«Não tenho nenhum…»
Ó Job, coberto de gangrenas,
Meu avatar!
As noites, rezava (e rezo ainda agora)
Ao pé da lareira.
(A chuva gemente caia lá fóra,
Fervia a chaleira…)
Conservo as mesmas tuas penas,
Mais tuas chagas e gangrenas,
Que não me farto de coçar!
—Que Deus se amercie das almas do Inferno!
—Amen! Oxalá…
E o moço rosnava, tranzido de inverno:
—Que bom lá está!
E a neve cae, como farinha,
Là d'esse moinho a moer, no Ar:
O sino da Igreja tocava, á tardinha:
Que tristes seus dobres!
Era a hora em que eu ia provar, á cozinha,
O caldo dos pobres…
Ó bom Moleiro, cautellinha!
Não desperdices a farinha
Que tanto custa a germinar…
Ó velhas criadas! na roca fiando,
Nos lentos serões…
Corujas piando, Farrusca ladrando Com medo aos ladrões!
Andaes, à neve, sem sapatos,
Vos que nâo tendes que calçar!
O Zé do Telhado morara, alli perto:
A triste viuva
A nossa caza ia pedir, era certo,
Em noites de chuva…
Corpos au léu, vesti meus fatos!
Pés nus! levae esses sapatos…
Basta-me um par.
Ó feira das uvas! em tardes de calma…
(O tempo voou!)
Pediam-me os pobres «esmola pela alma
Que Deus lhe levou!»
Quando eu morrer, hirto da magoa.
Deitem-me ao mar!
E havias-os com gotta, e havia-os herpeticos,
Mostrando a gangrena!
E mais, e ceguinhos, mas era dos ethicos
Que eu tinha mais pena…
Irei indo de fragua, em fragua,
Até que, emfim, desfeito em agoa,
Hei-de fazer parte do mar!
Chegou uma carta tarjada: a estampilha
Bastou-me enxergar…
Coitados d'aquelles que perdem a filha,
Tão longe do lar!
No Panthéon, tragico, o sino
Dà meia-noite, devagar:
Ó tardes de outomno, com fontes carpindo
Entre herva sedenta…
Os cravos a abrirem, a lua aspergindo
Luar, agoa-benta…
É o Victor, outra vez menino,
A compor um alexandrino,
Pelos seus dedos a contar!
Ao dar meia-noite no cuco da sala, Batiam: «Truz! truz!» E o Avô que dormia, quietinho na valla, Entrava, Jezus!
Que olhos tristes tem meu vizinho!
Ve-me comer e poe-se a ougar:
Nas sachas de Junho, ninguem se batia
Com nosso cazeiro:
Que espanto, pudéra! se da freguezia
Elle era o coveiro…
Sobe ao meu quarto, bom velhinho!
Que eu dou-te um copo d'este vinho
E metade do meu jantar.
Morria o mais velho dos nossos criados,
Que pena! que dó!
Pedi-lhe, tremendo, fizesse recados
Á alminha da Avó…
Bairro-Latino! dorme um pouco!
Faze, meu Deus, por socegar…
Ó banzas dos rios, gemendo descantes
E fados do mundo!
Ó agoas fallantes! ó rios andantes,
Com eiras no fundo!…
Calla-te, Georges! estàs jà rouco!
Deixa-me era paz! Calla-te, louco,
Ó boulevard!
Trepava ás figueiras cheiinhas de figos
Como astros no céu:
E em baixo, aparando-os, erguiam mendigos
O roto chapéu…
Boas almas, vinde ao meu seio!
Espiritos errantes no Ar!
Ó lua encantada no fundo do poço,
Moirinha da magoa!
O balde descia, chymeras de moço!
Trazia só agoa…
Sou médio: evoco-os, noite em meio,
Vos não acreditaes, eu sei-o…
Deixal-o não acreditar.
Meus versos primeiros estão no Adro, ainda,
Escriptos na cal:
Cantavam Aquella que é a roza mais linda
Que tem Portugal!
Se eu vos podesse dar a vista,
Ceguinhos que ides a tactear…
A lua é ceifeira que, ás noites, ensaia
Bailados na terra…
Luar é caleiro que, pallido, caia
Ermidas da serra…
Quanto essa sorte me contrista!
Mas ah! mais vale não ter vista,
Que um mundo d'estes ter d'olhar.
O conde de Furnas sabia o Horacio,
Tin-tin, por tin-tin!
E dava-me, á noite, passeiando em palacio,
Licção de latim.
A Morte, agora, é a minha ama…
Que bem que sabe acalentar!
E entrei para a escola, meu Deus! quem me dera
N'essa hora da vida!
Uzava uma bluza, que linda que era!
E trança comprida…
Á noite, quando estou na cama:
«Nana, nana! Que a tua ama
Vem jà, não tarda! foi cavar…»
Os outros rapazes furtavam os ninhos
Com ovos a abrir;
Mas eu mercava-lhes os bons passarinhos,
Deixava-os fugir…
Camões! ó lua do mar-bravo!
Vem-me ajudar…
Os prezos, ás grades da triste cadeia,
Olhavam-me em face!
E eu ia á pouzada do guarda da aldeia
Pedir que os soltasse…
Tenho o nome do teu escravo;
Em nome d'elle e do mar-bravo,
Vem-me ajudar!
E quando um malvado moia a chibata
Um filho, ou assim,
Corria a seus braços, gritando: «Não bata!
Bata antes em mim…»
E o vento geme! e o vento geme!
Que irà no mar!
E quando dobrava na terra algum sino
Por velho, ou donzella,
A meu Pae rogavam «deixasse o menino
Pegar a uma vela…»
Lobos d'agoa, que ides ao leme,
Tende cuidado! a lancha treme…
Orçar! orçar!
Enterros de anjinhos! Oh dores que trazem
Aos tristes cazaes!
Ha doces, ha vinho, senhores que fazem
Saudes aos paes…
Meu velho cão, meu grande amigo,
Porque me estàs assim a olhar?
A Prima doidinha por montes andava,
Á lua, em vigilia!
Olhae-me, doutores! ha doidos, ha lava,
Na minha Familia…
Quando ou choro, choras commigo
Meu velho cão! és meu amigo…
Tu nunca me has-de abandonar.
E os annos correram, e os annos cresceram,
Com elles cresci:
Os sonhos que tinha, meus sonhos… morreram,
Só eu não morri…
Frades do Monte de Crestello!
Abri-me as portas! quero entrar…
Fui vendo que as almas não eram no mundo
Singellas e francas:
A minha que o era ficou, n'um segundo,
Cheiinha de brancas!
Cortae-me as barbas e o cabello,
Vesti-me esse habito singello…
Deixae-me entrar!
Fiquei pobrezinho, fiquei sem chymeras,
Tal qual Pedro-Sem,
Que teve fragatas, que teve galeras,
Que teve e não tem…
Moço Luziada! criança!
Porque estàs trisle, a meditar?
Vieram as rugas, caiu-me o cabello
Qual musgo da rocha…
Fiquei para sempre sequinho, amarello,
Que nem uma tocha!
Ves teu paiz sem esperança,
Que todo allue, à semelhança
Dos castellos que ergueste no Ar?
E a velha Carlota, revendo-me agora
Tão pallido, diz:
«Meu pobre menino! que Nossa Senhora
Fez tão infeliz…»
Pariz, 1891.
*Menino e Moço*
Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus S.^{ta} Aguia, linda fada,
Que d'antes estendia as azas sobre mim.
Julguei que fosse eterna a luz d'essa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa vizão de luar que vivia encantada,
N'um castello de prata embutido a marfim!
Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se, a distancia!
Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
Ellas, porém, Senhor! ellas não voltam mais…
Leça, 1885.
*Os Cavalleiros*
—Onde vaes tu, cavalleiro,
Pela noite sem luar?
Diz o vento viajeiro,
Ao lado d'elle a ventar…
Não responde o cavalleiro,
Que vae absorto a scismar.
—Onde vaes tu, torna o vento,
N'esse doido galopar?
Vaes bater a algum convento?
Eu ensino-te a rezar.
E a lua surge, um momento,
A lua, convento do Ar.
—Vaes levar uma mensagem?
Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
Irás em meia viagem
E eu já de volta hei-de estar.
E o cavalleiro, á passagem,
Faz as arvores vergar.
—Vaes escalar um mosteiro?
Eu ajudo-t'o a escalar:
Não ha no mundo pedreiro
Que a mim se possa egualar!
Não responde o cavalleiro
E o vento torna a fallar:
—Dize, dize! vaes p'ra guerra?
Monta em mim, vou-te levar:
Não ha cavallo na Terra
Que tenha tão bom andar…
E os trovões rolam na serra
Como vagas a arrolar!
—E as guerras has-de ganhal-as,
Que por ti hei-de velar:
Ponho-me á frente das balas
Para a força lhes tirar!
E as arvores formam alas
Para os guerreiros passar.
—Vaes guiar as caravellas
Por sobre as agoas do mar?
Guiarei as tuas velas
Á feição hei-de assoprar.
E os astros vêm ás janellas
E a lua vem espreitar…
—Onde vaes na galopada,
Á tua infancia, ao teu lar?
Conheço a tua pousada:
Já lá tenho ido ficar.
E vae longe a trovoada,
Vae de todo a alliviar.
—Vaes ver tua velha tia,
Na roca de oiro a fiar?
Loiro linho que ella fia,
Ajudei-lh'o eu a seccar!
E o luar é a Virgem Maria…
Que lindo vae o luar!
—Vaes ver a tua mãesinha?
Coitada! vi-a expirar:
Tinha a alma tão levezinha,
Que voou sem eu lhe tocar!…
E o cavalleiro caminha,
Caminha sem se importar!
—Vaes ver tua irmã? Ao peito
Traz um menino a criar:
Ai com que bom, lindo geito
Ella o sabe acalentar!
E o vento embala no peito
Uma nuvem, p'ra imitar!
—Onde vaes tu? Aonde, aonde?
Phantasma! vaes-te cazar?
Eu sei da filha d'um conde
Que por ti vive a penar…
E o phantasma não responde,
Sempre, sempre, sempre a andar!
—Vaes á cata da Ventura
Que anda os homens a tentar?
(Ai d'aquelle que a procura
Que eu nunca a pude encontrar…)
N'isto, pára a criatura,
Faz seu cavallo estacar:
—Vento, sim! Espera, espera!
Que estrada devo tomar?
(É um menino, é uma chymera
E todo lhe ri o olhar…)
E o vento, com voz austera,
Dor, querendo disfarçar:
—Toma todas as estradas
Todas, áquem e além-mar:
Serão inuteis jornadas,
Nunca lá has-de chegar…
Palavras foram facadas
Que é vel-o, todo a sangrar…
E seus cabellos trigueiros
Começam de branquiar,
E olham-se os dois cavalleiros…
Quedam-se ambos a scismar.
Brilha o Oriente entre os pinheiros,
Ouvem-se os gallos cantar…
—Adeus, adeus! Nasce a aurora,
Adeus! vamos trabalhar!
Adeus, adeus! vou-me embora:
Chamaram-me as velas, no mar…
E o vento vae por hi fóra,
No seu cavallo, a ventar…
Pariz, 1891.
*Purinha*
O Espirito, a Nuvem, a Sombra, a Chymera,
Que (aonde ainda não sei) neste mundo me espera
Aquella que, um dia, mais leve que a bruma,
Toda cheia de véus, como uma Espuma,
O Sr. Padre me dará p'ra mim
E a seus pés me dirá, toda corada: Sim! Ha-de ser alta como a Torre de David, Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide E seu cabello em cachos, cachos d'uvas, E negro como a capa das viuvas… (Á maneira o trará das virgens de Belem Que a Nossa Senhora ficava tão bem!) E será uma espada a sua mão, E branca como a neve do Marão, E seus dedos serão como punhaes, Fuzos de prata onde fiarei meus ais! E os seus seios serão como dois ninhos, E seus sonhos serão os passarinhos, E será sua bocca uma romã, Seus olhos duas Estrellinhas da Manhã! Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve, Como um sonho, como a neve, Que hei-de suppor estar a ver, ao vel-a, Cabrinhas montezas da Serra da Estrella… E ha-de ser natural como as hervas dos montes E as rolas das serras e as agoas das fontes… E ha-de ser boa, excepcional, quazi divina. Mais pura, mais simples, que moça e menina. Deus, pela voz dos rouxinoes ha-de gabal-a E os rios ao passar hão-de cantal-a. Seu virgem coração ha-de ser tão branquinho, Que não ha neste, mundo a que egualal-o: o linho Que, em roca de crystal, fiava a minha Avó Parecerá de crepe, e a neve… far-me-á dó, Mais a farinha do moleiro e a violeta, E a lua para mim será como uma preta!
Mas em que sitio, aonde? aonde? é que me espera
Esta Torre, esta Lua, esta Chymera?
Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
Onde haverá na Terra assim uma Rainha?»
E a minha fada, com sua vara de encantar,
Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do mar…
Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!
E no dia do meu recebimento!
Manhã cedo, com luar ainda no firmamento,
Quando ainda no céu não bole uma aza,
A minha Noiva sairá de caza
Mail-a sua mãe, mail-os seus irmãos.
E ha-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos…
E a sua ama ha-de seguil-a até á porta,
E ficará, coitada! como morta!
E ha-de ser triste vel-a, ao longe, ainda… olhando,
Com o avental seus olhos enxugando…
E hão-de cercal-a sete madrinhas,
Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
Todas contentes por estreiar vestido novo!
E, ao vel-as, suas mães sorrirão d'entre o povo…
E o povo da freguezia
Esperará mais eu, no adro de Santa Iria. E hão-de mirar-me com seu ar curiozo, E hão-de cercar-me, n'um silencio respeitozo. E eu hei-de lhes fallar das colheitas, da chuva, E dir-me-ão que «já vae pintando a uva…» E animados então (o povo é uma criança!) Porque o Sr. Morgado deu-lhes confiança, «Que Deus o ajude» dirá um, e o regedor: «Que seja mui feliz, Sr. Doutor…» E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar. Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar… E d'entre o grupo exclamará um velho, então: «Já nasce o dia!» eu olharei… mas não: É a minha Noiva que parece dia, Branquinha como a cal de Santa Iria! E ao vel-a tão branca, de branco vestida, Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida! E dirá o pastor, com espanto tamanho, Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho! E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro! E o pescador explicará ao bom moleiro Que é tal qualzinha a sua Lancha pelo mar! E o moleiro dirá que é o seu Moinho a andar! Que assim já foram as velhinhas scismarão, E as netas, coitadas! que, um dia, o serão… Mas o Anjo assomará, á porta da capella, E eu branco e tremulo hei-de ir ter com ella. E a estrella deitar-me-á a benção dos seus olhos E uma aldeã deitar-lhe-á violetas, aos molhos! E a Bem-Amada entrar na igreja ha-de… E ha-de cazar-nos o Sr. Abbade. E, em seguida, será a nossa boda, E festas haverá, na aldeia toda. E as mais raparigas do sitio, solteiras, Hao-de bailar bailados sobre as eiras, Com trinta moedas de oiro sobre o peito! E cantigas dirão a seu respeito. E a Noiva em gloria, prepassando nas janellas, Sorrirá com simplicidade para ellas. E a noite, pouco e pouco, descerá… E tudo acabará. E depois e depois, o Anjo ha-de se ir deitar, E a sua mãe ha-de aabraçar… E hão-de chorar! E a sua alcova deitará sobre o quintal, Onde uma fonte correrá, entre o ervilhal: E, ao ouvil-a cantar, deitadinha na cama, O Anjo adormecerá, cuidando que é a sua ama…
Mas qual a villa, qual a aldeia, qual a serra
Que este Palacio de Ventura encerra?
Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
Accaso nunca te mentiu tua varinha?»
E a minha fada com sua vara de condão
Nos ares escreveu com tres estrellas: «Não!»
Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas! lindas meninas
Do Reino de Portugal!
O nosso lar!
Minha Madrinha! ajuda-me a sonhar!
Que a nossa caza se erga d'entre uma eminencia,
Que seja tal qual uma rezidencia,
Alegre, branca, rustica, por fóra.
Que digam: «É o Sr. Abbade que alli mora…»
Mas no interior ella ha-de ser sombria,
Como eu com esta melancholia…
E salas escuras, chorando saudades…
E velhos os moveis, de antigas idades…
(E, assim, me illuda e, assim, cuide viver
N'outro seculo em que eu deveria nascer.)
E nas paredes telas de parentes…
E janellas abertas sobre os poentes…
(E a Chymera lerá o seu livro de rezas…)
E cravos vermelhos por cima das mezas…
E o relogio dará as horas devagar,
Como as palpitações de quem se vae finar…
E, dia inteiro, n'esta solidão,
Deixar-me-ei esquecer, ao canto do fogão.
E a scismar e a scismar em que? em quem?
Na Dor, na Vida, em Deus, no Infinito, no Além? E eu o Luziada sombrio, o Afflicto, o Médio, Rogarei aos Espiritos remedio E um bom Espirito virá tratar do doente E ha-de tremer de susto a outra gente. E a noite descerá, pouco e pouco, no entanto, E a noite embrulhará o Afflicto no seu manto! Mas a Purinha, então, vindo da rua, Toda de branco surgirá, como uma Lua! E, então, acordarei d'essa desesperança E pela mão me levará, como uma criança. E eu pallido! e eu tremendo! e o Anjo pelo caminho, «Não te afflijas…» dirá, baixinho… E, assim, será piedoza para os mais: E ha-de entrar na mizeria dos cazaes, Nos montes mais altos, nos sitios mais ermos, E será a Saude dos Enfermos! E quando pela estrada encontrar um velhinho Todo suado, carregadinho, (Louvado seja Nosso Senhor!) Ha-de tirar seu lenço e ir enxugar-lhe o suor! E ás aves, em prisão, abrirá as gaiolas. E, aos sabbados, o dia das esmolas, A Santa descerá ao patamar da escada, Envolta, sem saber, n'uma capa estrellada, Esmolas, distribuindo a este e áquelle: e aos ceguinhos E mais aos alleijadinhos, Mais aos que botam sangue pela bocca, Mais aos que vêm cantar, numa rabeca rouca, Amores, naufragios e A Nau Cathrineta, Mais aos Afflictos deste vil Planeta, Mais ás viuvas dos degredados… E tudo seja pelos meus peccados! E ha-de cozer (serão os remendos de flores) As velas rôtas dos pescadores E a luz do seu olhar benzerá essas velas E nunca mais hão-de rasgar-lh'as as procellas! E accenderá os cyrios ao Senhor, (Que sejam como ella no talhe e na cor!) Quando houver temporal… e eu virei p'ra saccada Ver os relampagos, ouvir a trovoada!… E n'isto só rezumir-se-á a sua vida: Vestir os nus, aos pobres dar guarida, Fallar á alma que na angustia se consome, Dar de comer a quem tem fome, Dar de beber a quem tem sede… E, lá, do céu, Jezus dirá aos homens: «Vede…» E eu hei-de em minhas obras imital-a E amal-a como á Virgem e adoral-a. E a Virgem ha-de encher com a mesma paixão As marés-vazas d'este doido coração E as suas ondas ha-de, olympica, aplacar, Que para mim, linda Joanninha d'Arc, Que para mim será a lua-nova! E ha-de ir commigo para a mesma cova, Pois que no dia em que eu morrer Veneno tomará, n'uma colher…
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