Czytaj książkę: «No coração da América Latina»

Alex Akimoto
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PRÓLOGO DO AUTOR

Sob o Coração da América Latina

Querido leitor,

Este livro não nasceu da ficção. Nasceu da memória. Da dor alheia que carreguei dentro de mim por tanto tempo que se tornou minha. De vidas alheias que vi tão de perto que deixaram cicatrizes também nas minhas próprias mãos.

Mía Julieta Arenas não é uma heroína inventada. Ela vive. Em cada mulher que tentou morrer e não morreu. Em cada menina que amou o mundo tão forte que o mundo respondeu com crueldade. Em cada filha que olhou para sua mãe e viu nela, ao mesmo tempo, a carrasca e a vítima.

Escrevi este livro para contar uma história que me confiaram. A história dos clãs Arenas e Moretti, do sangue e da honra, de uma canção que soa de baixo do coração e não tem fim. Do amor que chega quando você está parada sobre aquele que deve matar. E não o mata.

Este livro não trata sobre a máfia. Não trata sobre a violência. Não trata sobre a vingança.

Este livro trata sobre como aprender a respirar de novo. Como amar um mundo que não te amou. Como perdoar aqueles que te feriram. Como encontrar dentro de você aquela menina pequena que um dia acreditou que tudo ia ficar bem. E acreditar nela de novo.

Você vai encontrar nestas páginas o cheiro do jasmim e da pólvora. O gosto do vinho e do sangue. O som dos sinos e o silêncio depois do tiro. Você vai encontrar Córdoba — não a dos guias turísticos, mas a que vive no coração dos que nasceram lá. A que cheira a medo e a amor ao mesmo tempo.

Você vai encontrar Mimi. Aquela que amava o mundo. Apesar de tudo.

E se em algum momento pesar ler — feche o livro. Respire. Lembre-se de que você não está sozinho. Que em algum lugar há alguém que passou pelo mesmo. E sobreviveu. E canta.

Cante com ela.

Porque a canção não mente. E a canção diz: você faz falta a este mundo. Mesmo que o mundo não saiba. Mesmo que você mesmo não acredite.

Com amor e gratidão, Alex Akimoto

Córdoba — Moscou, 2025

CAPÍTULO 1. A MENINA QUE AMAVA O MUNDO

Sob o Coração da América Latina

Minha mãe tentou me matar quatro vezes.

Eu sei disso porque contei cada uma dessas vezes. Todas, gostasse eu ou não, cravaram-se como espinhos profundos no meu coração jovem. Sim, espinhos, soe como soar, porque minha mãe se chama Rosa. E essas cicatrizes são como as pétalas que ela leva no pulso da mão esquerda: como um destino, como uma obsessão que tive que ver quase todos os dias. Minha mãe trazia muitos homens e fazia amor perto de mim. Os homens adultos, enquanto a acariciavam, também me tocavam nas minhas partes íntimas. Sim, era nojento. Mas as pessoas bêbadas, dominadas pela paixão e pela luxúria, cometem atrocidades não só contra si mesmas, mas também contra os outros. E eu não só contava as cicatrizes da alma: contava esses homens que ela trazia para nossa casa, para minha cama, achando que eu dormia. Mas eu não dormia. Vi tudo. Vivi tudo. Como a cinza no cabelo das minhas bonecas, como as bitucas na minha caneca, aquela que ficava ao lado da cama com água para a noite, jogadas pelos que fumavam depois de se deitar com minha mãe, deitados de costas.

Lembrei de tudo. Não porque quisesse morrer, mas porque queria viver com paixão. E cada vez que minha mãe tentava me matar, eu entendia: eu faço falta a este mundo, mesmo que o mundo não saiba. Mesmo que minha mãe não saiba. E mesmo que eu mesma duvide, tenho que viver. Sou necessária! Se não, por que o mundo me salvava detendo a mão dela, tirando minha cabeça da água? Por que quebrar a corda, esse fio do qual poderiam pendurar um touro inteiro?

Alguém me salvava sempre, no último instante. Não minha mãe, não meu pai sem alma, nem mesmo o acaso. Algo diferente. Algo que eu não via, mas que sentia com muita força nos momentos de pena e desespero. Dentro de mim começava a soar uma canção, cuja letra e música eu não entendia e não podia reproduzir, por mais que tentasse. Essa melodia me acompanhava no caminho para a escola, olhando os incontáveis beija-flores pela manhã. Eram tão bons comigo — todos os pássaros, os gatos, os papagaios pousados nos galhos do nosso jardim, gritando com esses sons estranhos. E eu amava minha dor, porque era nos momentos de dor e desespero que meu coração revivia. E vinham as almas dos mortos, às vezes me assustando, às vezes se confundindo. E eu as desenhava, as via de pé, em multidão, no nosso corredor. Era estranho, mas o mundo se abria para mim. E eu me abria para ele. Não gostava de ir à igreja, porque havia muitas mulheres velhas que queriam me agarrar pelo meu cabelo longo e cacheado, pelos meus braços nus. E ao chegar em casa caía exausta e podia dormir dias inteiros, porque essas mulheres velhas me roubavam as forças. Viam que eu entregava minha vida a elas. E eu não queria dar, porque elas tinham trazido muita dor a este mundo. E eu via isso.

Sim, minha mãe se chamava Rosa. Lindo nome com espinhos. Como ela mesma: linda, espinhosa, mas sozinha, ferindo e ferida ao mesmo tempo.

Minha mãe tinha muitas tatuagens. Não como as dessas mulheres que fazem em salões, tão bonitas, tão caprichadas. Não! Aquelas que se fazem nos becos, nas prisões, nos porões. Aquelas que não se apagam nunca mais, que ficam como cicatrizes no casco de um navio que roçou os recifes ou as rochas de granito.

No pulso esquerdo, a rosa da qual eu falava. Preta, com espinhos e sem pétalas. Como se tivessem arrancado as pétalas e só restasse o caule com os espinhos, com uma gota de sangue no espinho. Foi a primeira tatuagem, feita aos quatorze anos. Fez depois que o primeiro homem entrou nela sem amor, tomando-a à força.

No antebraço direito, nomes. Quatro nomes. Quatro homens. Quatro filhos. Os nomes riscados, como com um galho na areia, mas não todos. E ela gostaria de esquecê-los, arrancá-los com a pele, mas os nomes, como a pele, ficam para sempre, enquanto respire e bata o coração. Os nomes não se esquecem. Ficam nos olhos dos filhos que te olham com os olhos desses homens.

No pescoço, atrás da orelha esquerda, uma andorinha, pequena, azul, com as asas abertas em desespero. Como se quisesse se arrancar dali e voar, mas não pode. Porque já não é um pássaro. É uma marca.

Nas costelas, abaixo do peito esquerdo, a data do meu nascimento. Não meu nome, só a data. Como se eu não fosse uma pessoa. Como se fosse um acontecimento. Que aconteceu. E que não se pode desfazer. Mas que se pode não nomear, como um silêncio que não se quer espantar.

Eu via essa tatuagem. Cada vez que minha mãe me amamentava. Cada vez que me abraçava. E quando tentava me matar. E até quando gemia embaixo de outro homem, com as pernas abertas, essa andorinha se banhava em suor, e as gotinhas escorriam por suas asas, como se chorasse ela, esse pássaro assustado, e chorava o céu de dor e de vergonha.

Minha mãe tinha quinze anos quando me teveQuinze. Uma menina que trouxe ao mundo outra menina, uma que ainda queria correr e rir, se apaixonar e sofrer de amor. De repente pariu uma bebezinha prematura de cinco meses, que seu próprio corpo rejeitava. Minha mãe tem fator Rh negativo no sangue, e eu, sua filha, tenho positivo. Minha avó assumiu todos os cuidados comigo. E meu avô, ao me ver tão pequena que cabia nas suas duas mãos, caiu no choro. Minha mãe queria fazer um aborto, mas meu avô e minha avó insistiram para que ela não fizesse. Já então forças desconhecidas me cuidavam, para que eu vivesse. Ninguém me queria. E quando minha mãe disse que ia abortar, meu avô colocou as mãos na cabeça dela e disse as palavras que a detiveram: «Rosa, eu vou ser o padrinho da minha neta. Não mate minha neta. Peço-te por Jesus Cristo». E Rosa me conservou a vida. Seria meu avô? Ou seria o próprio Cristo?

CAPÍTULO 2. O PRIMEIRO SANGUE

No Coração da América Latina

Meu pai era um galã lindo de dezoito anos, com olhos cor de noite nos quais se afogaram muitas garotas. Seu sorriso prometia tudo, como promete o diabo, que nunca cumpre. Ele era do antigo clã Arenas. Mas então eu não sabia disso. Então eu só sabia uma coisa: ele foi embora depois que eu nasci. Foi embora sem dizer uma palavra. Sem deixar nem nome, nem endereço, nem esperança. Nada. Só uma criatura chorando aos gritos ao lado da desventurada Rosa de quinze anos, com sua rosa no pulso, já sem forças para florescer algum dia.

Ele sempre ia embora. Não só da minha mãe. De todas. De cada uma. Zombava das garotas inocentes. As tomava. As deixava. Ia embora. Sem olhar para trás. Sem pedir perdão. Sem voltar. Isso era sua natureza. Como respirar, como o batimento do coração, como aquilo que não para nunca. E atrás dele ficaram por toda a Argentina muitas mulheres infelizes que ele abandonou, e claro, filhos, que agora são meus parentes.

Mas de vez em quando ele voltava para mim. Como um presente emprestado, que te tiram depois. Que só te pertence durante a festa, e depois esse presente de uso temporário colocam sem cerimônia de volta na caixa e levam. Assim foi sempre comigo. As mulheres com as quais ele vivia sempre nos impediam de nos relacionar. E uma vez, um homem sábio e grande me disse: «Se você perdoar seu pai, vai perdoar seu futuro marido. Se passar por cima do seu pai, vai tropeçar no seu marido».

Ele vinha uma hora. Duas. Uma noite. Trazia balas ou um vestido, e às vezes nada. Me olhava longamente, com atenção. Não como a uma filha, mas como a uma coisa que cresceu e ficou parecida com ele. E depois ia embora com a mesma facilidade. Mas houve momentos em que chorava, sem me explicar nada. E eu esperava a próxima vez. Mesmo que fosse sem amor, mesmo que fosse em silêncio e sem palavras, eu morria de vontade de ver meu pai, que no fundo era meu ideal. Esse pelo qual todas as meninas se apaixonam, como todas as meninas se apaixonam pelos seus pais.

Eu tinha sete anos quando cortei meu braço de propósito pela primeira vez.

Não porque quisesse morrer. Queria sentir algo parecido com o vazio e a plenitude ao mesmo tempo. É como quando você grita com todas as suas forças, mas não sai som. Como num sonho terrível e maravilhoso do qual não consegue acordar. Um sonho no qual não me veem, não me notam. E também queria ter certeza de que estava viva, de que meu sangue corria, e de que quando você perde muito sangue, o coração começa a bater mais forte e mais alto. E também que não era um fantasma, que não era um sonho, nem mesmo uma sombra, mas aquela que algum dia vão amar e vão chamar de «meu amor», me levantando nos braços e me protegendo de tudo, sem me soltar nunca mais.

Peguei uma lâmina de barbear, pequena, estreita e flexível como meu corpo, e passei pelo meu pulso, de pele fina e transparente, um pouco pálida pela anemia que me faz doer as pernas com frequência, que me faz desmaiar, e que me tem sempre fria. Minhas mãos nos meus bolsos são como dois sapos frios, mesmo quando em Córdoba faz calor e todos tentam não sair na rua de dia.

A pele se abriu como uma pétala de rosa arrancada, tão rápido e tão de repente! Estava quente, viva, brotando num jorrinho, e eu comecei a chorar de felicidade, entendendo que estava viva e não inventada. Era real! E essa certeza foi maior para mim do que entender que nasci de uma mãe e um pai.

Eu me cortava devagarinho, quase todos os dias escondida, tapando as marcas com as mangas longas dos meus vestidos. Não todos os dias. Mas com frequência. Quando havia silêncio. Ou quando minha mãe estava com outro homem no meu quarto, mesmo de dia, e eu escutava seus gritos exaltados, seus soluços fortes, já sem esconder nada, tanto que mesmo quando apareceu o padrasto na nossa família, ela se permitia andar completamente nua. Seu corpo, depois de quatro partos, do cigarro constante e do álcool, já faz muito que não brilha de esbeltez nem de beleza. Mas seus peitos grandes e sua bunda latina são muito, mas muito atraentes para homens de todas as idades.

Quando meu pai não vinha. Quando meus irmãos dormiam. Quando a casa se calava. E eu ficava sozinha. Com a lâmina. Com o sangue. Com o silêncio, que era mais forte que um grito. Mais forte que o choro. Mais forte que tudo.

Cortava. E escondia tão bem que ninguém percebia. E a todos, no fundo, importava pouco o que acontecia comigo e como eu ia naquela maldita escola que eu odiava.

Eu tinha nove anos quando tentei me enforcar pela primeira vez.

Não porque quisesse morrer, mas para que a dor acabasse, para que o silêncio acabasse. Para que eu parasse de esperar, para que parassem de me olhar como algo absurdo e ao mesmo tempo raro. Como um dinossauro assombroso, cujos restos se encontram num pântano: não importa a ninguém, mas tem valor científico para um círculo muito reduzido de gente que constrói sua vida e seu bem-estar sobre seus ossos. E, claro, como quem roubou a juventude, a infância, e a quem não se pode amar por isso, mas também não odiar ao mesmo tempo. Como uma lembrança viva da dor. Da traição. De uma vida pessoal que não deu certo.

Peguei uma corda. Não lembro de onde. Só lembro que era áspera. Cheirava a poeira de sótão e a jornais velhos que fazia muito ninguém tocava. Amarrei numa viga. Subi num banquinho e passei a corda primeiro pela mão. Não queria. Não queria morrer de jeito nenhum. Queria que alguém me parasse. Que alguém entrasse e gritasse forte: «Mimi, não!». E que me agarrasse pelos meus ombros frágeis e caísse no choro aos gritos, com medo de me perder. E que chorasse e me segurasse muito. E eu queria sentir essa felicidade. Mas ninguém entrou. Ninguém disse nada. Ninguém me abraçou. Fiquei parada no banquinho com a corda na mão, esperando. Esperando um milagre que não chegou.

E então escutei. Uma canção. Baixinho e tão distante. Como se viesse de baixo do piso. De baixo do coração mesmo da terra. Essa canção não tinha letra. Não tinha melodia que os humanos pudessem ouvir, e menos ainda reproduzir. E era tão maravilhoso que na canção escutei, não com a cabeça mas com todo o meu ser: não precisa, meu amor, não precisa. Porque você veio a esta terra para viver. E você é nosso sol e nosso arco-íris. Viva, Mimi. Viva.

Não sei quem cantava. E até hoje não tenho certeza de que fosse real. Mas escutei. E desci do banquinho, tirei a corda. Depois deixei a corda no chão e fui dormir, sem reclamar. Simplesmente fui, como se não tivesse sido comigo. Deixando para trás o único e inquebrantável desejo de viver.

Eu tinha dez anos quando minha mãe tentou me afogar pela primeira vez.

Foi com um desespero que a quebrava por dentro, com vontade de se vingar do seu marido e do meu pai. Pela juventude. Pela pensão alimentícia que ele não queria pagar. E porque eu contei ao meu pai que minha mãe trazia para casa outros homens. Primeiro me jogou no chão do banheiro e começou a me chutar na barriga, com uma fúria selvagem e gritos, tentando me acertar na boca do estômago e no meu peitinho que estava começando a crescer. E depois começou a pular na minha cabeça. Não tinha medo. Nem mesmo dor. Eu ria de que não me doía. E Rosa, vendo isso, com fúria buscava que eu lhe pedisse piedade, que implorasse clemência, porque ela tinha entregado sua juventude em troca da minha vida insignificante. E ao ver que isso não surtia nenhum efeito, me arrastou até a banheira, me puxando pelo cabelo pelo chão frio, encharcado com o sangue dos meus lábios e do meu nariz. E era como num sonho ou como em transe. E ela mesma se comportava como alguém que não entende, que não vê o que faz, que não pode parar.

Encheu a banheira, e eu estava no chão, toda ensanguentada. Os mechões de cabelo espalhados por ali, pisados sobre os coágulos de sangue seco, que pareciam hieróglifos japoneses estranhos, escritos com tinta vermelha sobre uma bandeira branca que carrega ao ataque, sob o barulho da água que enchia a banheira. A água não estava nem morna nem fria, como as lágrimas da minha mãe, que caíam sobre meu rosto, escapadas dos seus olhos, quando inclinada sobre mim me afogava com as duas mãos, me olhando no rosto, curtindo meu sofrimento, mas não havia. Eu sorria e dizia: você não vai me matar, porque me protege mais que só Deus. Atrás de mim está a eternidade. E quando minha mãe me agarrou pelo cabelo e minha cabeça, pega pelo meu cabelo esplêndido de menina latino-americana, mergulhou na água, com os olhos abertos vi algo que sorria para mim e me envolvia o rosto de luz. E nesse momento as mãos de Rosa se abriram, e ela caiu desmaiada sobre o azulejo branco, manchado com meu sangue.

E eu, sem resistir, continuava olhando aquilo que sorria para mim e que, como o sol, me presenteava com o calor do amor, da paz, da alegria — tudo isso que eu desejava desde pequena. Parada ao lado da minha mãe, apenas aprendendo a andar e com a cabeça levantada, olhava como ela pintava os lábios diante do espelho, provando roupa, sem me ver nem um pouco. Sua filha.

A melodia — aquilo que não era melodia — continuava soando dentro de mim e dizendo: viva, viva, viva.

E quando minha mãe voltou a si, me abraçou aos gritos e chorou amargo, forte, entendendo que pela volta do meu pai tinha estado disposta a me matar. Pelos sentimentos que sentia e segue sentindo pelo meu pai até hoje. Está disposta a entregar sua própria vida, mas não pode confessar a si mesma, e muito menos a ele.

Assim chorou minha mãe pela primeira vez. E vi e escutei nela aquela menina de quinze anos, aquela Rosa jovem, que logo também vou ser eu.

— Me perdoa, Mimi — sussurrou minha mãe. Baixinho. Quase inaudível. Como uma oração, como uma maldição, como algo que não deveria ser dito em voz alta mas se diz. — Me perdoa! Não queria. Não sei o que acontece comigo. Me perdoa!

Não respondi. Não podia. Não queria. Fiquei parada, simplesmente. Meu corpo molhado tremia, mas não de medo, mas de entender o enorme que é o mundo que está atrás de mim, e o forte que é meu desejo de viver. E a canção continuava emanando de lugar nenhum, continuando me enchendo de vida — milhões de bateres de asas de beija-flores no meu peito.

Apesar da sua vontade de pedir perdão naquela vez, apesar das suas palavras apaixonadas sobre o perdão, minha mãe me afogou várias vezes mais. Não quero enumerar quando nem como foram essas cenas. Só lembro do meu mergulho debaixo da água entre cada inspiração antes de me submergir e cada expiração quando minha cabeça subia. Lembro de todas as pausas. E lembro das suas mãos, metidas no meu cabelo cacheado.

CAPÍTULO 3. TRÊS NOMES

No Coração da América Latina

Eu tinha treze anos quando decidi me enforcar no dia do meu aniversário.

Não queria festa nem sorrisos falsos de convidados. Queria silêncio e paz. O amor e os abraços da minha avó, as brincadeiras do meu avô e, claro, o calor do lar. Mas minha festa se transformava numa baderna quando minha mãe, bêbada, se jogava de novo na minha cama com outro homem e transava.

Peguei aquela mesma corda do sótão, que cheirava a poeira e a jornais velhos. Depois amarrei a corda numa viga no galpão atrás da casa, onde ninguém passa nem vê. Subi no banquinho. Passei a corda pelo pescoço. Mas desta vez não pela mão, mas pelo pescoço. Porque eu tinha treze anos e me parecia que estava cansada. Cansada de esperar e de ter esperança. Cansada de amar um mundo que não me amava. Cansada de ser a que não notam. Cansada de ser a Mimi invisível e desnecessária.

Fechei os olhos e escutei aquela mesma canção sem palavras, que cantava: não precisa. Você é necessária. Viva para aquele que vive imortal dentro de você.

E então vi uma mão em chamas, estendida para mim desde o vazio, suspensa no ar. A mão era morna e viva. Me tocou a bochecha devagarinho e com cuidado, como se toca algo que poderiam quebrar e perder, mas que não deveriam fazer isso.

— Julieta — disse a voz. — Hoje não. Assim não. Agora não. Viva.

E desci do banquinho, tirei a corda e a joguei longe de mim, como se fosse uma serpente venenosa.

Não sei quem era. Não sei se foi real. Mas escutei. Senti e vivi. E isso foi mais do que eu podia pedir, mais do que eu podia esperar. Mais do que eu podia sonhar. Vivi, apesar de tudo, graças a algo. Àquilo que não me soltou nunca.

Meu pai me levou quando eu tinha catorze anos.

Não por amor nem por algum sentimento por mim que de repente ardesse no seu peito. Morreu o chefe do clã Arenas e era preciso um herdeiro. Meu pai não tinha filhos homens no sentido de poder continuar a obra do seu sangue. Esses dois filhos, nascidos depois de mim, física, ou melhor, mentalmente, não podiam ser candidatos a herdeiros. Tanto o mais velho quanto o mais novo, nascidos de mulheres diferentes, sofriam autismo em alguma forma. Na nossa família isso é hereditário por linha paterna. Em alguns mais forte, em outros mais fraco. Eu talvez tivesse ou tenho autismo, mas os médicos e psicólogos que me observaram e me examinaram não detectaram nada crítico, e por isso disseram ao meu pai que sua filha estava sã. Mas que precisava sim de uma alimentação abundante em carne e verduras de maneira regular, pelos níveis muito baixos de hemoglobina no sangue.

Papai chegou a Córdoba, à nossa casinha, que nos tinha deixado uma argentina boa, que foi embora de Córdoba para sempre depois da morte de todos os seus entes queridos. Depois de vender a segunda casa e juntar todas as suas coisas, se despediu de nós com muito carinho na porta do que já era nossa casa, nos deixou para sempre, e nem sabemos nada do destino dessa mulher argentina maravilhosa. Tendo vivido meus anos na minha cidade linda, amo de verdade meu povo, os argentinos. Amo tanto que às vezes me parece que me dissolvi nele. E onde quer que eu esteja, comigo está meu Fernet querido, cuja pátria é justamente minha cidade, Córdoba. E meu alfajor mais gostoso do mundo inteiro, principalmente o que fazem as mãos de ouro da minha vó Adriana. Vó, meu anjo salvador, que caminhou ao meu lado a vida toda, e agradeço de coração que tenha sido justamente a vó quem me contou o quão maravilhoso é meu povo argentino. E quanta dor aguentou este povo, o quão difícil foi para nossas mulheres, que perderam seus filhos em guerras e levantes, filhos que não se podem recuperar. Onde quer que eu esteja, muitas vezes volto com a mente à Manzana Jesuítica, que fascina com sua beleza, e àquelas vistas de sonho das Sierras Chicas, esse gigante que faz de guardião da minha cidade querida. Meu povo, ao qual pertenço até a última gota do meu sangue, além disso é muito inteligente e merece de verdade o nome de La Docta, sendo o centro intelectual e espiritual da Argentina ao lado de Buenos Aires.

Naquele mesmo quarto onde minha mãe tentou me afogar, entrou meu pai com cara de guardião sombrio e, sem nem me cumprimentar como se costuma entre argentinos educados, logo olhou minha mãe com atenção e com um frio cortante. No olhar havia distância e a lembrança incômoda do passado, da sua separação dela, que trouxe a ele e a ela muitos momentos desagradáveis. E entendiam que os dois eram culpados de tudo, mas já não havia volta. Ela tinha seu homem, ou para ser honesta, uma fila. Como ele tinha uma fila de mulheres, e não das melhores, por sinal. Assim vivem os adultos, assim gostam. Depois se arrependem, mas disso se lembram só quando a perda do passado pesa mais que a perda do presente. E cada encontro novo que vira relação, por algum motivo sempre é pior que o anterior. Rosa o olhava com um leve desconcerto e com um metal fingido de indiferença, e perguntou: «O que você quer?» E a voz tremeu. Tremia de dor da alma e de paixão por ele. Queria se jogar no pescoço dele e gritar com todas as forças: «Me perdoa, te amo!», e cair no choro como aquela menina de quinze anos que carregava sob seu coração latino jovem uma vida nova e linda — eu.

— Vou levar a Mía — disse meu pai, sem deixar que Rosa, ainda confusa, reagisse. No clã Arenas nunca se perguntava a opinião dos menores, e das mulheres menos ainda. Ali as palavras do maior eram uma ordem, não uma opinião.

Minha mãe não se opôs nem fez perguntas. No começo ficou confusa, sem entender por que de repente lhe ocorreu levar a Mimi para algum lugar depois de tantos anos de evitá-la e de indiferença. Como se Mimi não fosse do seu sangue. Mas mesmo assim, minha mãe, para sua própria surpresa, respondeu:

— Leva! Mas saiba — seguiu — que não é sua e nunca vai ser sua. Porque nela está minha alma, e você é apenas o que jogou a semente. E você vai estar amaldiçoado pelo que me fez — respondeu minha mãe com raiva.

Meu pai só riu por baixo e respondeu:

— Você, mulher, conheça seu lugar. Eu decido como decido. E me dá no mesmo quem se cruze no meu caminho, o diabo ou você. Ela era e é meu sangue. E se a mantive com dureza, eu sabia para que fazia, mesmo quando tinha que pisar no meu próprio pescoço, vendo o quanto iam doer minhas palavras e minhas decisões. Você, mulher, não sabe ver além do seu nariz de galinha. Por fora é uma menina, mas por dentro é um homem, e eu vi. Por isso jogava desde pequena com armas e brigava com os meninos como uma igual. E quem você acha que foi seu mestre, hein? Você, por acaso, catavento? Eu sou seu mestre, eu sou seu guardião, e eu vou guiá-la na nossa família como eu quero e como quer nosso sangue Arenas.

— Mesmo que você a leve. Mesmo que você a leve para longe. Mesmo que você ensine ela a ser um homem. Ela é minha para sempre — respondeu minha mãe já com lágrimas nos olhos, a ponto de estourar num grito.

O que estava escrito no meu sangue muito antes de eu nascer, eu não podia mudar. E, na verdade, nem me ocorreu pensar nisso. E isso entendi naquele momento, quando juntava minhas coisas modestas numa bolsinha de viagem.

Ao ir embora da casa onde vivi tanta dor e tanto sofrimento, senti pela primeira vez uma angústia insuportável de me separar da minha mãe e o quanto me importava essa mulher. Não é à toa que dizem que as filhas argentinas nunca traem suas mães argentinas, nem ao custo da própria vida. Me virei para olhar minha mãe, tentando não mostrar minhas lágrimas nem minha dor. Minha mãe estava no batente da porta de entrada, com o rosto triste virado para um lado, tanto que atrás da sua orelha vi de novo aquela andorinha, que se debatia com desespero numa tentativa inútil de se soltar para voar, todos esses anos que a vi e a conheci. A andorinha, com cuja imagem está ligada toda minha vida nesta casa. «Mãe, me perdoa», escapou dos meus lábios, e caí no choro. Chorei como a chuva cordobesa da primavera, que cai com gotas mornas e pesadas sobre os brotos jovens do nosso jardim.

Minha mãe virou o rosto para mim, e nas suas ruguinhas ao redor da boca, apenas franzida como a de uma menina brava com sua amiga, apareceu um sorriso quase imperceptível. Se eu não conhecesse minha mãe, dificilmente teria notado. E ela me respondeu com o mesmo sussurro baixinho:

— Filhinha, me perdoa por tudo de ruim que te fiz. Você é o melhor e o melhor que houve e vai haver para sempre na minha vida pecadora. Me perdoa por não te dar felicidade. E agora, neste momento de despedida, neste minuto em que entendo tudo o que houve entre nós, te peço: não volte nunca mais. Porque sua felicidade é estar o mais longe possível de mim, o mais longe possível. E que nosso amor à distância seja a bandeira da sua felicidade, que você merece.

Depois minha mãe se virou em silêncio, sem me deixar dizer nem uma palavra. E com o mesmo silêncio e devagarinho fechou a porta de entrada atrás dela.

Aquela porta, fechada com o ferrolho oxidado que ressoou de dentro, deixei no meu coração para sempre.

Com minha chegada à estância Arenas, meu pai me ensinava todos os dias a atirar com pistola: primeiro nas latas, depois passamos ao alvo. E depois meu pai tirou de uma caixa de papelão um coelhinho jovem, branco como a neve, e me colocou nas mãos dizendo: «Olha que amigo lindo te trouxe, para que você não fique entediada!» E eu, encantada, tomei nos braços esse coelhinho. Era tão lindo, seus olhos alaranjados me olhavam com uma mirada boba, e eu, dando uma folha de alface, o acariciava com ternura, admirando sua pelagem incrível e suas orelhas longas, paradas para todos os lados, que ao toque pareciam pedacinhos de manta de veludo morno, com os quais eu cobria minha boneca querida, Marilú.

Meia hora depois, meu pai, interrompendo meu jogo com o orelhudo, me ordenou levar o coelhinho ao jardim para que comesse capim fresco. Corri com alegria e vontade, e trouxe o coelhinho que se debatia e resistia um pouco, e o deixei no jardim, sobre o capim suculento, que ele sem demora começou a comer, mexendo as orelhas longas de maneira engraçada, mastigando os capinzinhos com barulho. De baixo da sua camisa, meu pai tirou uma pistola marca Ballester-Molina, com um gesto seguro carregou a corrediça e, me passando aquele pedaço de metal pesado que ainda guardava o calor das suas costas, com voz tranquila, cheia de indiferença, me perguntou:

— Você lembra da marca desta pistola?

— Sim, pai! — respondi com um sorriso.

— Nomeia — seguiu meu pai.

— HAFDASA, Hispano Argentina Fábrica de Automotores Sociedad Anónima! — respondi com clareza e forte, como no exército.

— Bem, filha. E quantas balas tem o carregador?

— Sete! — respondi.

— Calibre?

— Quarenta e cinco polegadas! E em milímetros, onze e quarenta e três! Comprimento duzentos e dezesseis, comprimento do cano cento e vinte e sete.

— E o peso carregada?

— Um quilo e setenta e cinco gramas!

Meu pai me olhou nos olhos com uma mirada satisfeita, e senti pela primeira vez neles o calor de um pai. Mas foi só um instante. Um instante que se esfumou do mesmo jeito.

— Você vê esse coelhinho, Mimi?

— Sim, papai! É lindo!

— Mata ele! Agora!

— Pai, mas é um coelhinho, não fez nada de ruim para ninguém.

— Atira!

— Não, pai!

— Então vou te dar para escolher.

— Pai, não vou atirar nele.

— Está bem. Agora te dou para escolher. Em vez do coelhinho, você vai atirar na sua perna ou em mim. E esta é minha decisão final — acrescentou meu pai. — Você tem direito de decidir quem te importa. E além disso, lembre de quanta carne você comeu em todos esses anos de vida. E a morte deste coelhinho não vai mudar nada, mas vai te temperar. Porque você é meu sangue e vai ter que resolver tarefas que só você pode resolver. E além disso, um argentino sem carne, você já sabe, não pode viver. Porque é um predador, não uma presa.

O coelhinho continuava comendo o capim tranquilo, jogando as patinhas traseiras de maneira engraçada a cada saltinho pelo capim, balançando no compasso do seu corpo seu rabinho esponjoso, tão branco quanto ele.

— Pai, me ajuda! — E olhei meu pai com os olhos cheios de lágrimas, entendendo que isso era pedido pela própria vida, que me dá lições para algo que só ela sabe.

Meu pai se ajoelhou ao meu lado, apenas atrás de mim à direita, e, tomando minha mão que segurava a pistola, apontou o cano para o corpo do coelhinho. E depois, num sussurro quase inaudível, disse:

— Devagar, bem devagar aperta o gatilho. A morte é tão doce quanto a vida. Tira dela de quem se cruzar no seu caminho. Tira sem duvidar, pela nossa família e por você. Você é Arenas. Você é uma conosco.

Devagar, como numa névoa, puxei o gatilho com o dedo indicador, e soou um disparo ensurdecedor. Não como quando atirava nas latas ou no alvo. Era o som de uma vida cortada de um ser que eu matava pela primeira vez na minha vida.

O coelhinho estava ferido e assustado. Saltava sangue dele pelo capim, e eu, chocada com aquela imagem, fiquei parada com horror, sem entender o que fazer. E de novo no meu ouvido soou o sussurro tranquilo do meu pai:

— Não faz ele sofrer, atira. Remata ele já — continuou segurando minha mão com o cano apontando para o coelhinho.

E de repente senti um gosto estranho de sangue e de poder, assim que sem demora apertei de novo e de novo, até que soou o clique seco, quase mudo, do mecanismo do gatilho, que deteve os disparos.

Aprendi a matar. Aprendi a matar com calma, como fazia meu pai e todos os homens da nossa família, se e quando era necessário. Depois da morte, ou melhor, do assassinato do coelhinho, após anos de temperar meu eixo interno, vieram os assassinatos já de pessoas de verdade. Principalmente matava homens — os que eram jovens e os que eram mais velhos, e nem a idade avançada me dava pena. Porque eles também estavam prontos para me matar, como faziam antes com outras, iguais a mim.

Mas amava e sigo amando os beija-flores, os amanheceres e entardeceres celestes argentinos sobre as Sierras. Amo me jogar no capim suculento, como fazem os pássaros, os gatos, ou simplesmente, subida numa árvore, me sentar rodeada de papagaios que riem sempre, já acostumados a mim e tão descarados que sobem na minha cabeça sem pedir licença, para remexer no meu cabelo como se fosse seu próprio ninho. Que maravilhoso é o mundo da natureza! Oh, minha Argentina! Minha Pátria e minha alma, que voa com as bandadas de pombas sobre a Plaza San Martín, sobre as cabeças das mulheres velhas que vendem flores junto às igrejas e catedrais que derramam o prateado dos sinos. E esse cheiro divino do café, o café mais lindo do mundo no El Jazmín, tomado entre as risadas das crianças que correm e a música. A música da rua, que emana das janelas e dos restaurantes, e não importa o que seja — uma chacarera alegre, uma zamba sensual ou uma milonga com o violão argentino inconfundível! Essa é minha vida e meu destino.

Tenho vinte e sete anos.

Estou parada na varanda da estância afastada dos Arenas, nessas mesmas Sierras de Córdoba. Ao amanhecer, as montanhas têm os mais distintos tons rosados e coralinos, que mudam com uma paleta turquesa e passam ao laranja dourado justo antes de o sol nascer. E receber o amanhecer com uma xícara de café quente nas mãos é minha tradição desde o dia em que meu pai me trouxe a esta casa. E fiz, em honra à minha maioridade, um corte no pulso com a lâmina da máquina de barbear do meu pai. Fiz em forma de raio. E tão parelho, tão hábil, que até admirava essa cicatriz. Estranho, né? Mas é verdade, gosto do que a maioria não gosta. Como, por exemplo, matar pessoas — agora também gosto.

Sonhava com o amor. E prometi a mim mesma: o nome do meu primeiro homem vai estar numa tatuagem na minha virilha. Vou ser fiel a ele até o fim da minha vida. Porque não quero trocar de homens como fazia minha mãe. Como faziam todas as minhas colegas de escola e vizinhas quando seus maridos iam trabalhar. Quero me olhar no espelho com orgulho e saber que sou honesta comigo e honesta com aquele que vai entrar em mim primeiro, único, como a letra «A» no alfabeto. Juro!

E essa vai ser a única tatuagem no meu corpo. E as cicatrizes — as cicatrizes são a crônica da minha infância e da minha juventude, e agora também da minha maioridade. E esse é meu segredo, que só eu conheço, e só eu.

Do fundo dos cômodos, através das cortinas que se mexiam, soou a voz do meu pai:

— Mimi!

E, deixando a xícara com o café ainda morno na grade da varanda, fui até o chamado do meu pai.

— Vou! — gritei para ele, descendo pela escada larga de pedra com degraus de mármore, que esfriavam gostoso as solas dos meus pés descalços.

Meu pai, ao me ver descalça e de roupão longo de seda, sentado numa poltrona funda junto à lareira com o jornal nas mãos, disse:

— Hoje você vai a Córdoba, ao café El Jazmín. As instruções você vai receber depois, no decorrer. Se prepara já, Jul — acrescentou meu pai.

Raramente me chamava de Jul. E se o fazia, era só quando se preocupava comigo. E em geral, era Mimi ou simplesmente Mi.

Meu nome é Mía Julieta Arenas. Em casa me chamavam de Mimi, e na guerra vão me chamar de Juju. E ele — aquele que vai me chamar de Juli, num sussurro, como ninguém me chamou ainda e como nunca vou deixar que outro faça. Porque isso vai ser o começo daquilo que eu temia, que rejeitava, mas que desejava com paixão, sem me animar a confessar a mim mesma, ficando vermelha da minha própria indefesa diante do meu desejo.

Vou.

CAPÍTULO 4. CAFÉ EL JAZMÍN

No Coração da América Latina

Meu pai nunca levantava a voz. No clã Arenas só gritavam as mulheres. Minha mãe gritava. E não se encaixou.

Não é nem bom nem ruim. É assim. Mas minha mãe, com seu caráter excêntrico, dificilmente teria vivido muito tempo sob o mesmo teto que os Arenas. Aqui os fortes falavam num sussurro. Às vezes só com o olhar. E isso bastava. Sempre os escutavam.

Eu estava sentada diante do meu pai no seu escritório, no segundo andar da estância. A janela estava aberta. O vento das Sierras trazia o cheiro do jasmim e da poeira. Sobre as rosas vermelhas esvoaçavam bandos de borboletas coloridas. Os caminhos serpenteavam como cobras amarelas em direção ao jardim sombrio.

Sobre a mesa entre nós havia uma taça de tinto. Espesso, como sangue coagulado. Italiano. A mesa era maciça, de mogno, com pernas pesadas esculpidas em forma de videiras entrelaçadas. Meu pai preferia o tinto italiano. E sempre dizia:

— O branco argentino é como o amor a uma mulher. E o tinto italiano é como o amor a um inimigo.

Meu pai aproximou uma fotografia para mim. Em preto e branco. Tirada de longe com uma teleobjetiva. Nela, um homem maduro saindo de uma igreja. Alto. Terno escuro. Calças claras, leves, de corte livre, ao estilo italiano. A qualidade da foto não era muito boa. O rosto do sujeito, na sombra. A tomada à distância não conseguiu o que era preciso.

Meu pai me olhou nos olhos. Com atenção. E disse:

— É Dante Moretti.

O nome soou como um disparo. Como naquele dia fatídico em que mataram o pobre coelhinho. O chefe do clã Moretti. Um siciliano de pura cepa. Nesta foto tem trinta e oito anos.

Eu olhava aquele rosto na sombra. Como talhado em pedra. E ensinado a respirar.

Meu pai não notou minha emoção. Deu um golinho de vinho. Seguiu:

— Há vinte e três anos matou meu irmão mais novo. Seu tio Tomás. Não em combate. Pelas costas. Como a um touro que não espera nada. Contra o código de honra. E esse dia, além disso, era sagrado para nós. No casamento da sua própria irmã.

Eu me calava. Escutava. Não tirava os olhos da foto.

— Amanhã. Plaza San Martín. Sete da tarde. Café El Jazmín. Vai estar lá sozinho. Sem segurança. É informação verificada. Do círculo próximo de Dante.

Meu pai deu outro gole. Riu por baixo.

— Os traidores por dinheiro sempre existiram. Nem bom. Nem ruim. Mas está muito bom quando o inimigo os tem. E não nós.

Levantei os olhos.

— O chefe do clã Moretti vai estar sozinho? Aqui? Em Córdoba? Ele acha mesmo que na Argentina pode aparecer assim? Sem segurança. Sem acompanhante. Sem temer nada.

Na voz, uma leve ironia. Meu pai tomou um gole de vinho devagar. Não por coragem. Por prazer.

— Você duvida de algo, Mimi?

— Pai, penso como você me ensinou. Não acreditar nem em mim mesma.

Ele riu. Com significado. Entendendo: sua arma funciona melhor do que supunha.

— Bem, Mi. Pensa. À reunião vai alguém dos nossos. Alguém que saiu de retiro. Por razões de saúde. O que vende nossos envios. Nossos negócios. Nossos países latino-americanos. E Moretti vai sem segurança. Porque acredita nele. E isso significa que estão juntos há tempo. Ou aqui não é só colaboração. Aqui há uma relação próxima.

— A um italiano que vem de fora, em Córdoba, é fácil distingui-lo de um local — acrescentei.

— Pode ser — respondeu meu pai, seco. — Ou aqui há uma estratégia que não entendemos. Ou Dante está completamente louco. Cegado pelo poder e pela impunidade. Se aparece aqui com tanta liberdade, é que nos acha fracos. Pensa que não estamos prontos.

Deixou a taça. O som do vidro contra a madeira. Baixo. Definitivo.

— Mas está enganado. Estamos prontos para a guerra. Sempre. Você vai matá-lo, Mimi. Está decidido. E vamos fechar essa maldita dívida de vinte e três anos.

Eu olhava a foto. Aquele rosto na sombra. E não pensava no tio Tomás. Nem na vingança. Nem no sangue. Pensava que aquele homem parecia sozinho. Mesmo entre os seus. Tão sozinho quanto eu costumo estar.

— Pai. Posso perguntar. Por que tenho que liquidar este devedor? Você tem gente. Os que o conhecem de vista. Os que fariam por dinheiro. Por que eu?

Meu pai se calou muito tempo. Mais do que o habitual. Esticou a pausa. E depois respondeu. E essas palavras me pegaram de surpresa.

— Porque ele tem que ver nossos olhos. Não os olhos de um mercenário. Os olhos dos Arenas. Tem que entender a quem matou há vinte e três anos. Tem que ver isso no rosto de quem aperta o gatilho.

Entendi na hora: meu pai estava mentindo. Ele nunca dizia a verdade se era mais forte que a mentira. Nem bom. Nem ruim. Simplesmente é. Mas não discuti.

— Sim, pai — disse.

Em algum canto profundo da casa voltou a soar aquela melodia. A que me salvou tantas vezes. A que me inspira a viver. A escutei através das paredes. Através das distâncias. Nem sequer o vento quente e rachado que assobiava na lareira pôde apagá-la. Do jardim chegou o jasmim. A lavanda. O tomilho. E algo dentro de mim se apertou. Um pressentimento incontível. Que deslocou o medo. Que deslocou as dúvidas.

Eu ainda não sabia que amanhã às sete da tarde não vou matar Dante Moretti. Vou fazer algo ainda mais terrível.

Vou acreditar nele.

À noite, apesar da insistência da minha mãe de que eu não fosse, mesmo assim fui à casa dela.

Rosa estava sentada junto à janela. Fumando. A fumaça saía dos seus lábios. Subia em densas volutas para o teto de madeira. Se dissolvia. Como seus anos passados. Como suas relações passadas. Deixando só o cheiro. E a dor.

Me recebeu a mesma rosa no pulso. A mesma andorinha atrás da orelha.

— Você vai amanhã — disse Rosa sem se virar. — Ao El Jazmín.

Não uma pergunta. Uma afirmação. À beira da pergunta.

Fiquei congelada na porta. Rosa não se virou. Continuava olhando as montanhas. Os entardeceres rosados impressionantes. Esses que nenhum argentino se cansa de admirar.

— Como você sabe?

— Sei tudo o que acontece na sua casa, Mimi.

Deu uma tragada. Exalou. A fumaça subiu para o teto.

— Te pari. E sei quando e com o que você respira. Quando o que você quer. Quando você vai abrir as pernas pela primeira vez. Não só vou ficar sabendo. Vou sentir. E amanhã você pode fazer algo do qual não vai querer voltar para casa. Nunca.

Entrei timidamente. Sentei na cadeira. Aquela mesma. Onde alguma vez estudava. Onde brincava com minha boneca Marilú.

— Rosa — disse. Raramente a chamava de mãe. Mais seguido, Rosa. Era mais honesto. — Por que você me teve?

Ela se virou devagar. Me olhou. Fixamente. Nos seus olhos, a tempestade. O temporal. Apesar de toda a sua quietude exterior.

— No fundo, filha, não te tive por vontade própria. Me obrigaram. Eu tenho grupo sanguíneo negativo. Seu pai e você, positivo. Os tormentos que passei não se podem chamar de carregar algo sob este coração de mulher latino-americana. Você foi uma faca para mim. Por dentro. Dor. Uma maldição. Sinceramente queria te matar. Porque fisicamente não te queria. Não podia. E tudo se dava para que você não nascesse. Nasceu como um cuspe. De cinco meses. Absurda. Feia. E eu não queria isso.

Cruel. Mas honesto. E a honestidade de Rosa valia mais que qualquer mentira. A mentira na nossa casa matava. A honestidade só feria. Minha mãe era mais honesta que meu pai. Me ensinou a dor e os tormentos. E agradeço. Porque entendo sua dor. Porque eu mesma passei por ela. E por isso minha mãe me é querida.

— Mas não te afoguei — seguiu. Baixinho. Quase num sussurro. — Quatro vezes pude. Quatro vezes segurei sua cabeça debaixo da água. E quatro vezes algo freou minha mão. Não sei o quê. Mas suponho que Deus, no qual acredito, me freou cada vez.

Apagou o cigarro. Devagar. Apertou a bituca contra o cinzeiro. Olhou suas mãos. Aquelas mesmas. As que me afogavam. E me abraçavam depois de não me afogar.

— Amanhã você vai matar. E não vou te dizer para não ir. Não tenho direito. Tentei te matar quatro vezes. Quem sou eu para te ensinar a não matar?

Se levantou. Se aproximou devagar. Colocou sua palma quente na minha cabeça. Com uma delicadeza especial. Como se toca o que se tem medo de quebrar. Nesse toque dela estava tudo daquela menina de quinze anos. Que me teve com tanto esforço. Que não se quebrou. Que não morreu no turbilhão de acontecimentos. Que não estavam ao seu alcance naqueles anos frágeis, de cristal.

— Mas vou te dizer uma coisa, Mimi. Canta. Aconteça o que acontecer. Canta com o coração e com a alma. Canta sempre. Como canta nos anos difíceis nossa terra argentina.

— O quê?

— Canta quando te der medo. E escuridão. Quando estiver parada sobre o que você deve matar e não puder. Canta essa canção que eu te cantava. A que soava nos dias em que eu te afogava. E você queria se matar.

Fiquei parada. Aturdida. Com uma pergunta:

— Você também escutava? Escutava essa canção? Por que não me disse nada?

Rosa se calou um bom tempo. Não tirava os olhos de mim. Neles não vi nada. Nem sentimentos. Nem compaixão. Só um abismo quieto. Sem fundo.

— Porque essa canção é mais velha que eu. E que todos nós juntos. Mais velha que seu pai. Que esta casa. Que o clã desde sua mesma origem. Me dava medo escutar. Me dava medo cantar. Porque vinha de dentro. Pensava que tinha enlouquecido.

Se calou. Olhou pela janela. Para o entardecer.

— Você vai escutar o final. E vai entender quem você é. E eu não queria que você soubesse. Não então. Aos quinze. Não naquele mundo onde eu podia te afogar.

Tirou a mão. Se virou. Para a janela. Para as montanhas do entardecer.

— Vai dormir no seu quarto, Mimi. Amanhã você vai precisar de todas as suas forças. Seu quarto está à sua disposição. Está tudo igual ao dia em que você foi embora.

Disse que não. Simples. Seco. Me despedi com um simples «até logo». Não a abracei. Não olhei para trás. Mas atrás da porta, na escuridão, apertei a palma contra o peito. Ali onde doía. Ali onde cantava a canção.

CAPÍTULO 5. DANTE MORETTI

No Coração da América Latina

A Plaza San Martín cheirava a jasmim.

À tarde, quando o sol começava a se esconder atrás das Sierras, todo o casco velho de Córdoba se enchia desse cheiro. Pesado. Doce. Quase sufocante. Os velhos diziam que o jasmim foi plantado pelos jesuítas há quatrocentos anos. Para tapar o cheiro do que acontecia nos túneis debaixo da Manzana Jesuítica.

Não sei se é verdade. Mas naquela tarde o jasmim cheirava a sangue. Pode ser que o meu. Pode ser que o dele. Pode ser que aquele que ainda não tinha sido derramado, mas já esperava.

O café El Jazmín era pequeno. Três mesas fora. Cinco dentro. A dona velha, dona Dolores, ainda se lembrava do meu avô. Me viu e não se surpreendeu. Só assentiu. Me colocou uma xícara de café na frente sem perguntar nada. Em Córdoba se lembram dos rostos velhos dos que tinham o que tinham. Sempre.

Sentei de frente para a entrada. Assim me ensinou meu pai. Assim me ensinou a vida. Nunca se sente de costas para a porta. Nunca feche os olhos na presença de desconhecidos. Não mostre que tem medo. Mesmo que tenha. Mesmo que o medo paralise suas pernas.

Debaixo da mesa, na pistolera da coxa, estava a pistola. Pequena. Silenciosa. Com silenciador. Um tiro no coração. E ir embora. Se dissolver entre a gente e o cheiro de jasmim. Com o repique dos sinos não vai se escutar o disparo. E eu como se não tivesse existido. Como um fantasma. E só o corpo, sentado na cadeira, como se por um momento tivesse se posto a pensar em algo.

Ele chegou às sete em ponto.

Nem antes. Nem depois. Como alguém que não chega tarde e cumpre sua palavra. Com o passo calmo de quem sabe o que valem a vida e as palavras. O mundo o espera. E não apressa. Tão pausado quanto ele.

Dante Moretti entrou no café e sentou diante de mim. Sem segurança. Sem armas. Eu sabia que debaixo do terno havia uma pistola. E na manga, uma faca. Sabia que na perna, numa pistolera pequena, havia outra pistola para levar escondida. Como um mosquito, cuja picada te leva a vida. Éramos iguais em tudo. E eu sentia. Como se me visse refletida num espelho grande. Entendi no primeiro segundo. E me assustei. Não dele. Me assustei de mim mesma. De que vi nele o reflexo de tudo o que eu temia em mim.

Não cumprimentou. Não se apresentou. Só olhou. Penetrante. Longo. Com atenção. Não a pessoa. A alma. Estava examinando a inimiga. Que o esperava há vinte e três anos.

Tinha os olhos cor de café forte. Nem pretos. Nem castanhos. Castanho muito escuro, com um tom preto. Mas à luz saltavam neles faíscas douradas com um brilho alaranjado. Como no vinho. Como naquele tinto italiano que tomava meu pai. Olhos nos quais a gente se afogava. Não as garotas. Os inimigos. Os que olhavam demais. E entendiam que tinham perdido.

— Senhorita Arenas — disse. Voz baixa. Serena. Sem emoção. Como alguém que aprendeu há muito a não sentir. — Seu pai a mandou me matar. Mas você não vai me matar. Porque você não é uma assassina. Ainda.

Não me alterei. Não desviei o olhar. O olhei. Nos olhos. Nas mãos, que estavam sobre a mesa. Tranquilas. Serenas. Sem tensão. Como alguém que não tem medo. Ou que tem medo há tanto que o medo virou parte dele. Como a respiração. Como o batimento.

— Mía — disse. — Me chamo Mía. E não sou uma assassina. Ainda. Mas estou aprendendo.

Ele sorriu. Não com maldade. Até com interesse. Como alguém que viu algo inesperado. Algo que não estava nos seus cálculos.

— Estudou na Universidade de Córdoba? — perguntou. — Direito?

— História — respondi. — História da Igreja. Os jesuítas. Seus segredos.

Se calou. Me olhou muito tempo. Já de outra maneira. Não como a uma inimiga. Como a uma igual. Como a alguém que sabe o que ele sabe. E vê o que ele vê.

— Então você sabe — disse baixinho, se inclinando mais perto — que debaixo desta cidade há túneis. Que levam aonde ninguém deveria ir.

Assenti. Com entendimento.

— Como meu pai — disse. — Para que você desapareça em um deles. Para sempre.

— E você? — perguntou. — O que você quer, Mía Arenas?

Pela primeira vez nesses instantes o olhei nos olhos de verdade. E respondi com a verdade. A que não devia dizer. A que ia me delatar. Me fazer vulnerável. Mas disse. Porque naquele momento ainda não sabia que a verdade é uma arma. Que mata mais que uma faca.

— Quero saber a verdade — disse. — Sobre minha mãe. Sobre meu pai. Sobre quem eu sou de verdade.

Se calou. Muito tempo. Depois se inclinou mais perto. Tão perto que senti sua respiração. Cheiro de café. De tabaco. E de algo mais. Algo que não podia nomear. Algo que cheirava a lar. Aquele que nunca tive.

— Então temos um objetivo comum, Mía Arenas — disse. Baixinho. Quase num sussurro. Como um juramento. Como uma sentença. Como uma promessa que vai mudar tudo. — E isso é mais perigoso do que se você quisesse me matar.

Nesse momento senti. Não um cheiro. Não um som. Um olhar. De lado. De trás da coluna. Da sombra. Alguém nos olhava. Não a mim. A ele. A Dante. Com aquilo que eu conhecia. Com aquilo que vi nos olhos do meu pai. Com aquilo que vi nos olhos de Rosa. Com aquilo que há justo antes de apertar o gatilho.

O traidor.

Alguém dos nossos. Do clã Arenas. O que vendeu a informação a Dante. O que o trouxe aqui. O que queria que estivéssemos os dois aqui. Juntos. Num mesmo lugar. Ao mesmo tempo. Para que um só tiro matasse dois.

Não pensei. Não decidi. Não escolhi. O corpo agiu antes da cabeça. Agarrei Dante pela manga. Puxei para baixo. Debaixo da mesa. No mesmo segundo o vidro atrás dele estourou. A bala entrou na parede. Onde um segundo antes estava sua cabeça.

Silêncio. Um segundo. Dois. E depois, gritos. Vidros quebrados. Passos. Dona Dolores gritou. Alguém correu. Alguém caiu.

Estava deitada debaixo da mesa. Apertando Dante contra o chão. Sua cabeça estava junto à minha. Tão perto que escutava sua respiração. Acelerada. Serena. Não assustada. Viva.

— Acabou de salvar minha vida, Mía Arenas — sussurrou. Não uma pergunta. Uma afirmação. Na sua voz havia algo novo. Nem interesse. Nem cálculo. Algo terceiro. Algo que não tem nome.

— Não salvei você — sussurrei. — Não queria que morresse por mão alheia. Tem que morrer pela minha.

Ele sorriu. Baixinho. Quase inaudível. E naquele sorriso estava tudo. Entendimento. Reconhecimento. E algo mais. Algo que eu não devia ver. Algo que ele não devia mostrar.

— Então temos tempo, Mía Arenas — disse. — Porque não tenho pensado em morrer hoje. Nem pela sua mão. Nem pela de ninguém.

Segundo disparo. O vidro estourou outra vez. A bala passou por cima das nossas cabeças. Fez em pedaços a borda da mesa.

Dante me olhou. Longo. Com atenção. E disse o que eu não esperava. O que mudou tudo.

— Confia em mim? — perguntou.

O olhei. Nos seus olhos cor de café forte. Com as faíscas douradas. E disse a verdade. A que não devia dizer. A que me fez vulnerável. Mas disse. Porque naquele momento já sabia que estava perdida.

— Não — disse. — Mas não tenho escolha.

Me estendeu a mão. A tomei. E corremos.

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Data wydania na Litres:
16 sierpnia 2026
Data napisania:
2026
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