Czytaj książkę: «Poder e sedução»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2017 Michelle Smart

© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Poder e sedução, n.º 105 - setembro 2020

Título original: Buying His Bride of Convenience

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência. ®

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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1348-525-6

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Dedicatória

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Epílogo

Se gostou deste livro…

Para Nic Caws, sempre incrível.

Obrigada por tudo o que fazes, o teu estímulo e o teu entusiasmo animam-me sempre.

XXX

Capítulo 1

– Importas-te de ficar quieto? – pediu Eva Bergen ao homem que estava sentado à sua frente.

A hemorragia do corte no nariz parara e tinha dois pensos para lhe pôr. O que devia ter sido um trâmite muito simples estava a complicar-se porque ele não parava de mexer o pé direito, o que lhe mexia o resto do corpo.

Observou-o com o sobrolho franzido e os olhos semicerrados, embora o direito estivesse inchado.

– Acaba de uma vez.

– Queres que o feche ou não? Não sou enfermeira e tenho de me concentrar, portanto, fica quieto.

Ele respirou fundo, cerrou os dentes e olhou para o infinito por cima do ombro dela, que supôs que também tivesse dominado os músculos das pernas porque parara de mexer o pé.

Eva também respirou fundo, inclinou-se para a frente no banco, que tivera de elevar para chegar à sua altura, e hesitou por um instante.

– De certeza que não queres ser examinado pelo pessoal médico? Tenho a certeza de que está partido.

– Acaba de uma vez – repetiu ele, num tom tenso.

Respirando pela boca para não inalar o seu cheiro e com muito cuidado para não tocar nele senão no nariz, pôs-lhe o primeiro penso na ferida.

Era incrível que Daniele Pellegrini conseguisse ser impecável, mesmo que tivesse o nariz partido. O seu cabelo denso e castanho continuava perfeitamente penteado e o fato feito à medida continuava engomado. Ainda podia olhar-se ao espelho e piscar um olho.

Era um homem muito bonito e ela tinha a certeza de que todas as pessoas do acampamento esfregavam os olhos quando o viam pela primeira vez. Aquela era a sua segunda visita. Ligara-lhe há trinta minutos e perguntara, sem sequer a cumprimentar, se continuava no acampamento. Se se tivesse incomodado em saber alguma coisa sobre ela, saberia que ela, como todo o pessoal, se alojava ali. Então, disse-lhe que ia a caminho do hospital para se encontrar com ela. Desligara antes de conseguir perguntar o que queria. Descobrira a resposta quando percorrera a pouca distância que havia entre o edifício administrativo onde trabalhava e as instalações médicas.

Quando o furacão Ivor açoitara a ilha caribenha de Caballeros, a Blue Train Aid Agency, que já estava há muito tempo nesse país dominado pelo crime e pela corrupção, fora a primeira organização humanitária que instalara um acampamento de acolhimento propriamente dito. Naquele momento, dois meses depois do maior desastre natural que assolara o país e que levara a vida de vinte mil dos seus habitantes, o acampamento transformara-se no lar de cerca de trinta mil pessoas em tendas, barracões de plástico pré-fabricados ou barracões improvisados, apinhados uns em cima dos outros. Outras organizações tinham-se instalado em sítios diferentes e tinham acolhido quantidades parecidas de deslocados. Era um desastre de proporções inimagináveis.

Daniele era irmão de Pietro Pellegrini, o grande filantropo humanitário. Pietro vira as notícias sobre o furacão e a devastação causada, ainda maior por causa da destruição de muitos hospitais, e decidira imediatamente que a sua fundação construiria um hospital multifuncional e à prova de desastres em São Pedro, a capital do país. Uma semana depois, morrera num acidente de helicóptero.

Eva entristecera-se com a sua perda. Só estivera com ele algumas vezes, mas Pietro era muito respeitado entre as organizações humanitárias. No entanto, tanto ela como todos para quem trabalhava na Blue Train Aid Agency tinham ficado contentes por a família querer seguir em frente com a construção do hospital. Os habitantes da ilha precisavam urgentemente de mais instalações médicas.

Francesca, a irmã de Pietro, transformara-se na nova impulsora do projeto. Eva gostara muito dela e admirara a determinação e dedicação da jovem. Também esperara admirar o irmão e gostar dele. Daniele, como Pietro, era famoso em todo o mundo, mas a sua fama devia-se à empresa de construção e às obras de arquitetura.

No entanto, não gostara dele nem o admirara. Embora fosse famoso pelo seu bom humor e pela sua inteligência aguda, parecera-lhe arrogante. Vira a insatisfação no seu rosto quando fora buscá-la ao acampamento. Aceitara sair nessa noite com ele porque lhe assegurara que só queria que lhe explicasse que tipo de hospital devia construir. Levara-a de avioneta ao seu hotel exclusivo de sete estrelas na ilha paradisíaca e vizinha de Aguadilla, passara cinco minutos a fazer-lhe perguntas pertinentes e passara o resto da noite a beber muito, a fazer perguntas impertinentes e a seduzi-la descaradamente.

Podia dizer que a única coisa que o salvava era o seu físico e a dimensão da sua conta bancária, mas como não se importava com o dinheiro e era imune aos homens, não havia nada que o salvasse.

A cara que fizera quando ela rejeitara friamente o seu convite para que fosse para a suíte para beber um copo não tivera preço. Ficara com a sensação de que Daniele Pellegrini não estava habituado a ouvir a palavra «não».

Ordenara ao motorista que a levasse ao aeródromo e nem sequer se despedira dela. Aquela fora a última vez que o vira até que entrara na tenda médica, há dez minutos, e o encontrara à espera dela. Pareceu-lhe evidente, assim que olhou para ele, que alguém lhe dera um murro na cara. Questionou-se quem fora e se seria possível encontrá-lo para lhe oferecer uma bebida.

– Não sou enfermeira – indicara ela, quando lhe dissera que precisava de ajuda.

Ele encolhera os ombros largos, mas não sorrira como ela recordava quando… tinham saído da primeira vez.

– Preciso que pares a hemorragia. Tenho a certeza de que viste os outros a fazê-lo vezes suficientes para saber mais ou menos o que tens de fazer.

Sabia bastante bem. Tinham-na contratado, sobretudo, como coordenadora e tradutora, mas ela, como a maioria do pessoal que não era médico, ajudara a equipa médica quando fora preciso. No entanto, isso não significava que se sentisse bem a tratar de um nariz e muito menos quando era de um multimilionário arrogante que usava um fato que, certamente, custaria mais do que o que o habitante médio de Caballeros, que tinha a sorte de ter um emprego, ganhava num ano.

– Vou chamar uma das enfermeiras ou…

– Não – interrompera ele. – Estão muito ocupadas. Trata da hemorragia e vou-me embora.

Quase alegara que também estava muito ocupada, mas não o fizera ao perceber algo no seu comportamento. Nesse momento, quando estava a pôr-lhe o segundo penso, pareceu-lhe que ele estava furioso e compadeceu-se de quem fosse o objetivo da sua explosão.

Pegou no terceiro e último penso e não pôde evitar reparar em como o seu cabelo brilhava. Se não soubesse que era característica familiar, que brilhava como o cabelo dos outros integrantes da família que ela conhecia, pensaria que viajava para todos os lados com um cabeleireiro e um estilista particular.

Quando se sentia compreensiva, conseguia entender que o acampamento o incomodasse. Daniele vivia rodeado de luxo. Lá, só havia uma sujidade e uma miséria que não desapareciam, por muito que todos fizessem para o limpar. À frente dele, apercebeu-se de que as suas calças de ganga e a t-shirt estavam imundas e que o cabelo estava despenteado.

Quem se importava com o seu aspeto? Aquilo era um acampamento de acolhimento e estavam todos prontos para fazer o que fosse preciso. Vestir-se segundo a moda seria completamente inadequado e incómodo. Era aquele homem odioso que fazia com que se sentisse suja e inferior.

– Não te mexas – recordou-lhe, quando começou a mexer o pé outra vez. – Já estou quase a acabar. Vou limpar-te e poderás ir-te embora. Tens de deixar os pensos durante uma semana e lembra-te de não os molhar.

Pegou num toalhete e limpou as gotas de sangue que tinham caído depois de lhe limpar o nariz e as faces. Então, uma onda do seu cheiro apoderou-se dela. Esqueceu-se de suster a respiração.

Talvez fosse o cheiro mais maravilhoso que sentira, fazia com que pensasse em bosques frondosos e em fruta madura. Se alguém lhe tivesse falado de uma reação e de uns pensamentos tão românticos, ter-se-ia rido.

Como era possível que um homem tão odioso e arrogante fosse tão bonito? Tinha mais talento no dedo mindinho do que ela podia aspirar a ter em toda a sua vida.

Além disso, tinha uns olhos impressionantes, de uma cor castanha esverdeada, uns olhos que estavam fixos nela… e ficou presa pelo seu olhar até pestanejar, empurrar o banco para trás e se levantar com um salto.

– Vou procurar um pouco de gelo para o olho – murmurou ela, disfarçando o nervosismo.

– Não é preciso – replicou ele. – Não desperdices as tuas provisões comigo. – Daniele tirou a carteira do bolso interior do casaco e deu-lhe algumas notas. – Isto é para que reponhas o material médico que usaste comigo.

Então, saiu da tenda sem se despedir ou agradecer. Eva, que ainda sentia o formigueiro na pele, olhou para as notas e viu que eram dez de cem dólares.

– Tem de haver alguma alternativa. – Daniele serviu-se de outro copo de vinho tinto com os nós dos dedos brancos por causa da força com que agarrava a garrafa. – Podes herdar o património.

A irmã Francesca abanou a cabeça.

– Não posso e sabes. Sou do sexo errado.

– E eu não posso casar-me.

O casamento não era para ele. Passara a vida a evitá-lo, a evitar qualquer forma de compromisso.

– Ou te casas e te encarregas do património ou passará para o Matteo.

Daniele, ao ouvir o nome do seu primo traiçoeiro, perdeu o pouco domínio sobre si próprio que lhe restava e atirou o copo contra a parede.

Francesca levantou uma mão para conter Felipe, o noivo e ex-soldado das Forças Especiais.

– É o seguinte depois de ti – continuou Francesca. – Se não te casares e aceitares a herança, passará para o Matteo.

Respirou fundo para se acalmar. O líquido vermelho que jorrava pela parede era tão escuro como o sangue que lhe caíra do nariz depois de a raiva se apoderar dele e de se precipitar sobre Matteo. Tinham trocado alguns murros que teriam sido piores se Felipe não tivesse intervindo. Depois, sentia essa raiva como um ser vivo.

Matteo traíra todos.

– Tem de haver alguma via legal para nos esquivarmos a essa condição. É arcaica.

O vinho, levado pela lei da gravidade, estava a chegar ao chão. Teria de pintar a divisão antes de ter uns inquilinos novos, pensou Daniele, distraidamente. Aquele apartamento de Pisa era dele, mas a irmã vivera lá durante seis anos. No entanto, ia casar-se e viver em Roma e, a não ser que lhe ocorresse alguma alternativa, ele também se veria obrigado a casar-se.

– Efetivamente – concedeu Francesca –, todos sabemos. O Pietro estava a tentar anulá-la, mas não é tão fácil como tínhamos esperado. Demorarias meses, talvez anos, a anular essa cláusula e, enquanto isso, o Matteo poderia casar-se com a Natasha e ficar com a herança.

A maldita herança, o património familiar, entre outras coisas, um castelo de seiscentos anos e centenas de hectares de vinhedos que tinham pertencido à família Pellegrini desde que o príncipe Carlos Filiberto, o primeiro príncipe e ovelha negra da família, pusera a primeira pedra. A família renunciara aos títulos há décadas, mas o castelo continuava a ser a joia da coroa. Para conservar o património intacto, a herança ia para o mais velho dos descendentes masculinos. Isso não fora suficiente para o príncipe Emmanuel II, um príncipe especialmente desumano e louco do século XIX que suspeitava que o filho mais velho era homossexual. Por isso, introduzira a cláusula, ainda em vigor, de que o filho mais velho só poderia herdar se estivesse casado. Além disso, o príncipe Emmanuel devia ter sabido como os costumes sociais evoluiriam porque essa cláusula dizia com toda a clareza que o cônjuge tinha de ser uma mulher.

Essa cláusula arcaica nunca fora um inconveniente porque, ao fim e ao cabo, todos acabavam por se casar. Era o que as pessoas faziam, sobretudo, os aristocratas, mas os tempos, como os costumes sociais, também mudavam.

Daniele era muito novo quando o avô morrera e o pai herdara o património. Além disso, como era o segundo filho, sempre soubera que Pietro herdaria quando o pai morresse e não se importava. Odiava esse castelo cheio de correntes de ar e goteiras que era como um poço sem fundo por onde o dinheiro desaparecia, mas, sobretudo, odiava a ideia do casamento. Durante toda a sua vida adulta, sentira uma satisfação perversa por continuar solteiro, por ser a antítese do Pietro sério e cumpridor.

No entanto, Pietro estava morto.

Durante dois meses, agarrara-se à esperança de que Natasha, a esposa de Pietro, estivesse grávida e esperasse um menino. Então, o filho herdaria o património e ele poderia continuar a viver como sempre gostara de viver.

Efetivamente, Natasha estava grávida, mas, infelizmente, Pietro não era o pai. Começara uma aventura com Matteo antes de o cadáver do marido ter arrefecido. Matteo, o primo que vivera com eles como mais um irmão desde que tinha treze anos. O próprio canalha contara-lhe pessoalmente que ela estava à espera de um filho dele. Nesse momento, só podia seguir dois caminhos. Ou encontrava uma esposa e renunciava a todas as suas liberdades apreciadas para herdar um património que não queria ou o seu primo ingrato herdaria tudo o que o pai e o irmão tanto tinham adorado.

Cerrou os dentes e pensou na mãe, no amor e no orgulho que sentia pela família e por esse património que adquirira ao casar-se aos dezanove anos. Então, compreendeu que só havia um caminho.

– Tenho de me casar.

– Sim.

– E depressa.

– Sim. Pensaste em alguém? – perguntou Francesca.

Sabia como odiava a ideia de se casar e também tinha uma cabeça mais incisiva para os assuntos legais do que Pietro. Se não conseguia pensar numa forma de anular a cláusula sem que Matteo ficasse com tudo, era porque não podia fazer-se.

Prometeu-se que a anularia algum dia, que a próxima geração de Pellegrini não teria de pagar esse preço.

Daniele pensou em todas as mulheres com quem saíra ao longo dos anos. Calculava que as que continuavam solteiras, quase cem porcento delas, correriam para uma loja de vestidos de noiva antes de ele acabar o pedido.

Então, lembrou-se da última, da única que não acabara na sua cama. Tocou no nariz arroxeado. Os pensos que Eva lhe pusera continuavam lá. Também se lembrou da tristeza que se refletia nos seus olhos azuis cristalinos cada vez que olhava para ele.

Fora a sua tradutora durante a primeira viagem a Caballeros, há um mês. Numa ilha onde a cor dominante era o castanho e a desolação, resplandecia como um farol na penumbra ou, pelo menos, o seu cabelo, que apanhara num rabo de cavalo infantil, resplandecera. Era de um tom de vermelho que só podia ter saído de um frasco e contrastava com a sua pele como o alabastro. Devia ter de pôr protetor solar de fator cinquenta para a manter tão branca. O contraste era tão bonito que não conseguia imaginar que outra cor, nem sequer a natural, a favorecesse tanto.

Embora usasse apenas umas calças de ganga velhas e a t-shirt oficial da Blue Train Aid Agency, Eva Bergen era, provavelmente, a mulher mais bonita que conhecera nos seus trinta e três anos de vida e, com toda a certeza, a mais sensual… e odiava-o.

Olhou para a cara de preocupação da irmã e esboçou um sorriso.

– Sim. Conheço a mulher perfeita para me casar.

Uma hora depois, quando saiu do apartamento, pensou que, independentemente do que acontecesse, a mãe estaria finalmente contente com uma decisão que tomara.

Eva ficou pacientemente na fila para entrar no compartimento dos duches. O acampamento tinha uma quantidade limitada de água limpa e racionava-se zelosamente. Transformara-se numa perita em tomar banho em sessenta segundos com água morna de três em três dias. Ela, como o resto da equipa, sentia remorso e alívio quando, a cada três fins de semana, podia ir a Aguadilla e reservar uma quarto num hotel simples. Lá, pago por ela, podia passar horas no duche, pintar o cabelo, fazer a manicura e lavar a pele enquanto tentava sufocar os problemas de consciência por todas as pessoas acolhidas no acampamento que não podiam tirar alguns dias para ter esses caprichos.

Se havia algo que não faltava no acampamento era os telemóveis. Todos pareciam ter um, até as crianças que não tinham mais nada. A moda naquele momento era um jogo grátis com bolas às cores que explodiam e se multiplicavam. Um génio da tecnologia ligara todos os jogadores do acampamento, acolhidos e trabalhadores, para que competissem entre si. Eva, como todos, transformara-se numa viciada e estava prestes a bater o seu recorde e de ficar entre os cem primeiros jogadores. Nesse momento, enquanto jogava na fila para tomar um duche, tinha três adolescentes ao lado que fingiam estar tranquilos, embora a observassem com avidez.

O telemóvel vibrou-lhe na mão, mas ela não fez caso.

– Devia atender – disse Odney, o mais velho dos adolescentes.

– Podem ligar outra vez – replicou Eva.

Odney, com um sorriso malicioso, arrebatou-lhe o telemóvel, carregou no botão para atender e levou-o ao ouvido.

– É o telefone da Eva, como posso ajudá-lo? Em inglês? – perguntou Odney à pessoa que ligava. – Falo muito mal. Quer falar com a Eva?

Eva esticou uma mão, olhando fixamente para ele e aguentando um sorriso. Odney, com um sorriso, devolveu-lho.

– O telemóvel não guardou o jogo… – comentou ele, num tom satisfeito.

Eva adorava os rapazes de todas as idades do acampamento. Dirigiu-se finalmente à pessoa que ligara.

– Sim?

– Eva, és tu?

A graça do momento desapareceu por completo.

– Sim, quem fala? – perguntou ela, embora o tom de voz e o sotaque de Daniele Pellegrini fossem inconfundíveis.

– Sou o Daniele Pellegrini. Tenho de te ver.

– Fala com a minha secretária e marca uma hora.

Ela não tinha secretária e ele sabia.

– É importante.

– Tanto faz. Não quero ver-te.

– Quererás ver-me quando souberes porque tenho de o fazer.

– Não, não quererei, és um….

– Um homem que tem uma proposta que favorecerá o teu acampamento – interrompeu ele.

– O que queres dizer? – perguntou ela.

– Encontra-te comigo e descobre. Prometo-te que te compensará e ao teu acampamento.

– O meu próximo fim de semana de folga é…

– Estou a chegar a Aguadilla. Farei com que te tragam.

– Quando…?

– Esta noite. Vou mandar alguém dentro de duas horas.

Depois, desligou.

Capítulo 2

Ficou atónita quando viu o hotel luxuoso a que o motorista de Daniele a levava. Era o mesmo hotel em que jantara com ele quando a enganara para sair com ela. O Hotel Éden era o mais luxuoso de Aguadilla e era lá que os ricos se hospedavam. Tinha as únicas calças de ganga limpas e uma camisa preta por engomar porque houvera um corte de eletricidade no acampamento.

Da primeira vez, quando Daniele a levara ao hotel, porque se dignara a conduzir o carro, ficara imediatamente furiosa.

– Disseste que era uma conversa informal sobre o hospital.

Achara que jantariam em algum dos muitos restaurantes que havia à beira do mar e que eram famosos porque serviam uma comida excelente e barata, porque tocavam música alegre e porque tinham um ambiente muito acolhedor.

– Efetivamente, vai ser assim – replicara ele.

Isso enfurecera-a ainda mais. Tinham passado junto de clientes vestidos de gala e sentira-se deslocada.

Jantar naquele restaurante fora humilhante da primeira vez, mas já estava pronta e atravessou o vestíbulo do hotel com a cabeça muito erguida. Não se sentiria inferior, mesmo que parecesse uma mendiga.

Um empregado do hotel dirigiu-se para ela e pôde ver que, segundo a chapa que tinha na lapela, era o diretor-geral.

– Senhora Bergen…? – perguntou ele, com cortesia.

Assentiu. Supôs que teria sido muito fácil descrevê-la, que bastava dizer que era uma mulher com o cabelo vermelho que não encaixava ali.

– Acompanhe-me, por favor.

Seguiu-o e passaram junto de uma cascata enorme, junto do restaurante onde tinham jantado da outra vez, junto de lojas de roupas e de mais restaurantes e chegaram a um elevador com o seu próprio empregado. Então, quando o diretor carregou no botão do último andar; ela alarmou-se.

– Para onde me leva?

– Para a suíte do senhor Pellegrini.

Chegaram ao andar antes de ele acabar de responder e o empregado abriu a porta.

Eva hesitou.

Jantar na suíte privada de um hotel tinha conotações muito diferentes de jantar em público. Era uma insensatez, segundo qualquer critério, entrar sozinha na suíte de um homem rico.

O diretor observou-a como se esperasse que abandonasse a segurança do elevador e entrasse na guarida do leão. Só tinha de se recusar e seria o mais sensato. Se Daniele Pellegrini tinha de a ver com tanta urgência que viajara até às Caraíbas só para falar com ela, então, também podia jantar com ela em público. Podia exigi-lo e ele não teria outro remédio senão aceitá-lo.

No entanto, apesar dos seus defeitos inumeráveis, a intuição dizia-lhe que Daniele não era o tipo de homem que obrigaria uma mulher a fazer algo que não quisesse.

Saiu do elevador e seguiu o diretor por um corredor amplo até uma porta. Bateu com firmeza e, imediatamente, um homem vestido de mordomo abriu.

– Boa-noite, senhora Bergen – cumprimentou, num inglês impecável. – O senhor Pellegrini está à espera no terraço. Quer beber alguma coisa?

– Um copo de água, por favor – replicou, fazendo um esforço para não ficar boquiaberta com a grandiosidade da suíte.

Aliviou-a um pouco que houvesse um mordomo para os acompanhar.

O diretor despediu-se e foi-se embora. Levaram-na para um divisão espaçosa de onde saíram para um terraço com uma vista incrível do mar das Caraíbas e das estrelas que o iluminavam. À esquerda, havia uma piscina ovalada e, à direita, uma mesa onde podiam sentar-se confortavelmente doze pessoas, mas que estava posta para dois. Daniele Pellegrini estava sentado. Levantou-se e dirigiu-se para ela com a mão estendida.

– Eva, fico contente por te ver.

Cumprimentou-a com um sorriso que contrastava com o ar de fúria que tivera no seu rosto há três dias, quando exigira que o ajudasse.

Como não tinha muitas alternativas, apertou-lhe a mão. Não a sacudiu com energia, como ela esperara, mas apertou-a com uma certa delicadeza, puxou um pouco e deu-lhe um beijo em cada face.

Sentiu um aperto no coração ao voltar a inalar o seu cheiro que, absurdamente, despertava todos os seus sentidos.

Embora se odiasse pela vaidade, alegrou-se por ter tomado banho há tão pouco tempo. Daniele cheirava muito bem e voltava a esboçar esse sorriso que a derretia por dentro. Além disso, as calças cinzentas-escuras e a camisa branca estavam impecavelmente engomadas. Era tudo imaculado naquele hotel, até os hóspedes. À frente daquele homem tão incrivelmente atraente, voltava a sentir-se uma maltrapilha. Vivia num acampamento onde reinavam a lama e o pó e era impossível estar apresentável, por muito que tentasse.

Alegrou-se ainda mais quando a soltou e teve de fazer um esforço para não esfregar a mão nas calças.

– Parece que o nariz está a sarar – comentou ela.

O inchaço diminuíra consideravelmente e voltou a sentir um arrebatamento de vaidade ao ver que os pensos continuavam no seu sítio. Tinha o olho esquerdo ligeiramente arroxeado, mas era a única coisa que indicava que se metera numa luta. Continuava curiosa por saber quem fora o adversário. Alguma autoridade corrupta de Caballeros? Um namorado ciumento?

– Fizeste-o muito bem…

– Foste ao médico? – perguntou ela.

– Não é preciso – respondeu ele.

O mordomo, que saíra do terraço sem que ela se apercebesse, voltou com uma bandeja com dois copos e duas garrafas de água.

– Não sabia se queria com ou sem gás e trouxe as duas – indicou. – Quer mais alguma coisa antes de servir o jantar?

– Não, obrigada.

– Outro uísque para mim – pediu Daniele. – Traz a garrafa.

– Como queira…

Uma vez sozinhos, Daniele apontou para a mesa.

– Senta-te. Para poupar tempo, pedi pelos dois. Se houver alguma coisa de que não gostes, o cozinheiro pode fazer outra coisa.

Eva indignou-se. Não se importava de comer de tudo, mas a presunção dele era outra afronta.

– O que pediste?

– Sopa de brócolos e queijo e lombo Wellington depois. Pensei que terias saudades da comida inglesa.

Atónita, sentou-se à frente dele.

– Ter saudades da comida inglesa? Sou dos Países Baixos…

– És holandesa?

Quase sorriu com a surpresa dele, mas não porque achava graça, por lhe parecer irónico. Passara uma noite a seduzi-la descaradamente, mas não se preocupara com fazer perguntas. Fora apenas uma mulher que o atraíra e com quem quisera ir para a cama. Presumira que se sentiria tão honrada por a ter escolhido que o seguiria até à sua suíte e se deitaria na sua cama.

– Nasci e cresci em Roterdão.

– Achava que eras inglesa – replicou ele.

– Acontece com muita gente.

– Não tens sotaque.

– Os ingleses notam, mas tu és italiano.

O mordomo trouxe a garrafa de uísque e perguntou a Eva se queria algo mais forte para acompanhar a comida. Ela abanou a cabeça e fixou os olhos em Daniele.

– Acho que é melhor manter a cabeça limpa esta noite.

Daniele esboçou um sorriso sombrio. Também deveria manter limpa a cabeça, mas, depois dos últimos dias, gostava da ideia de se intumescer. Além disso, o uísque ajudaria a aguentar a conversa.

– Que mais línguas falas?

Eva falava tão bem em inglês que não pensara que não fosse dessa nacionalidade. Quando a conhecera, fizera de tradutora para ele e para o seu desprezado primo Matteo. Sabia pouco de espanhol, mas a tradução entre eles e as autoridades de Caballeros parecera-lhe irrepreensível.

– Falo inglês, francês e espanhol com desenvoltura e o italiano aceitavelmente.

– Demonstra-me – desafiou-a, em italiano.

– Porquê? – perguntou ela, também em italiano. – Estás a tentar pôr-me à prova?

– Chamas a isso aceitável? Disseste-o com uma pronúncia quase perfeita.

– Não considero que tenha desenvoltura até conseguir ver um filme na versão original e sem perder nada – replicou ela, outra vez em inglês. – Falta-me muito para fazer isso em italiano.

– Então, podemos falar em italiano agora, vai fazer-te bem.

Ela abanou a cabeça.

– Disseste que tinhas de falar de algo importante comigo. Falas inglês tão bem como eu e prefiro não perder nada na tradução, o que te daria vantagem.

– Não confias em mim?

– Não.

– Admiro a tua sinceridade.

Era algo muito raro no seu mundo. A família era implacavelmente sincera com ele, mas, desde que se tornara uma autoridade do mundo da arquitetura e ganhara os seus primeiros mil milhões, graças ao seu trabalho e a uns investimentos acertados, não conhecera uma só pessoa que o contrariasse ou lhe negasse alguma coisa.

O mordomo voltou ao terraço com o primeiro prato. Pousou as tigelas e um cesto com pãezinhos entre eles. Eva inclinou a cabeça para os cheirar e assentiu com a cabeça.

– Cheiram muito bem.

– Acabaram de sair do forno, mas também os temos sem glúten, se preferir – comentou o mordomo.

– Não sou intolerante ao glúten, mas agradeço a oferta.

Eva era a primeira mulher com quem saíra nos últimos três anos que não era intolerante ao glúten ou não seguia alguma dieta desatinada. Era estimulante e outra das muitas diferenças entre ela e as mulheres com quem saíra. Além disso, notava-se fisicamente. Para começar, tinha curvas e uns seios abundantes. Eva Bergen era sensual e desejava vê-la com roupa… feminina.

Quando ficaram sozinhos outra vez, ela pegou num pãozinho e partiu-o com as mãos.

– De que querias falar?

– Vamos comer primeiro, falaremos depois.

Ela pousou o pãozinho.

– Não. Vamos falar enquanto comemos ou acharei que tentaste enganar-me outra vez.

– Não te enganei no nosso último encontro – defendeu-se ele.

– Deixei muito claro que não ia ser um encontro e transformaste-o nisso. As perguntas que me fizeste sobre o hospital podiam ter sido feitas em cinco minutos a beber um café.

– E qual é a diversão disso?

– O meu trabalho não é divertido… senhor Pellegrini – acrescentou ela.

– Daniele.

Dissera uma dúzia de vezes, durante o primeiro encontro, para não lhe chamar assim. Não pensara que não gostaria dos seus cuidados. O seu apelido e o seu físico sempre tinham sido como um íman para as mulheres. Desde que começara a receber elogios como arquiteto e a ganhar dinheiro, todas as mulheres tinham olhado para ele com um brilho de admiração nos olhos, até conhecer Eva. Embora tivesse havido um brilho de interesse quando os seus olhares se tinham encontrado pela primeira vez. Fora o primeiro arrebatamento de desejo desde a morte do irmão. Perdera todo o interesse pelas mulheres durante os dois meses que tinham passado desde a morte de Pietro. O sexo contrário ficara tão à margem que essa descarga de eletricidade entre Eva e ele fora como uma lembrança de que continuava vivo.

Depois desse primeiro brilho, o comportamento dela fora sereno e profissional e presumira que se devia ao ambiente em que estavam. Também presumira que, se a tirasse desse buraco infernal que era Caballeros e a levasse a um sítio tão pitoresco como Aguadilla, ela relaxaria, mas enganara-se.

Apesar das descargas de eletricidade que sentira nessa noite, ela permanecera fria e inexpressiva e as suas tentativas de a lisonjear não tinham servido de nada. Rejeitara a sua oferta de ir para a suíte com desprezo.

Era inegável, Eva Bergen olhara para ele por cima do ombro. Para ele!

Nunca ninguém olhara assim para ele. Sentira-se mal e descartara-a sem pensar duas vezes. Conseguia aguentar a rejeição, mas o desprezo…

Parecera-se muito com a expressão do pai quando algum meio de comunicação social falava das suas aventuras com o sexo contrário. Os pais tinham querido que se casasse. Pietro encontrara uma mulher com quem assentar, embora tivesse demorado seis anos a casar-se com ela, e isso significara que era a vez dele.

A sua vida era diversão sem dar explicações a ninguém. Se quisesse passar o fim de semana em Las Vegas, só tinha de entrar no seu avião privado e ir buscar alguns amigos pelo caminho. O seu irmão perfeito sempre se comportara lindamente e fora como um exemplo a seguir para ele. Tinham-no dado como exemplo quando ainda usava fraldas.

Embora tivesse sido o último a rir-se. Fizera uma fortuna maior do que a pessoal de Pietro e a que herdaria juntas.

Até ser o último a rir-se deixar de ser divertido.

Pietro morrera num acidente de helicóptero e o homem que amara e desdenhara em igual medida, o irmão e rival, desaparecera. Estava morto.

– Levo o meu trabalho a sério, senhor Pellegrini. Não estou aqui para me divertir – dissera Eva, como se fosse repugnante. – A sua sedução foi inadequada e a sua oferta de ir para a suíte, muito mais.

Naturalmente, a irmã diria que era um masoquista por escolher uma mulher que o desprezava. Francesca não entenderia como era estimulante estar com uma mulher tão desafiante como Eva.

O único perigo que Eva tinha era para a sua vaidade e até ele conseguia reconhecer que alguns desafios eram bons para a sua vaidade. Desprezava os homens suscetíveis e, se pensasse na sua reação quando Eva o rejeitara, poderia dizer-se que fora tão suscetível como o pior deles.

– Pareceu-me que um jantar íntimo para dois num restaurante com estrelas Michelin era o lugar mais indicado para seduzir uma mulher bonita.

Ela corou ligeiramente.

– Vou-me embora se voltar a seduzir-me.

– Sem ouvir o que tenho para te dizer…?

– Isso depende de ti. Não será um inconveniente se não conseguires dominar a tua tendência natural de seduzir e não fores direto à questão.

– Então, vou direto à questão. Preciso de uma esposa e quero que faças esse papel.

– Isso não tem graça. O que queres realmente?

– O que quero realmente é entrar no meu avião e sair daqui, mas preciso de uma esposa e tu, querida, és a mulher perfeita para esse emprego.

Fez-se um silêncio de espanto tenso antes de ela se levantar.

– És desprezível, sabias? Não quero saber dos teus joguinhos retorcidos e, para que saibas, não sou a tua querida.

Eva agarrou na mala de lona e virou-se para sair do terraço e afastar-se daquele homem arrogante. Não dera dois passos quando ouviu que Daniele falava.

– Antes de te ires embora, quero que vejas uma coisa.

– Não tens nada que queira ver.

– Nem sequer um milhão de dólares em dinheiro?

Eva olhou para trás. Na mesa, ao lado da sua tigela de sopa, havia uma mala aberta. Pestanejou. Como se mexera tão depressa?

A mala estava repleta de maços de notas. Olhou para ele nos olhos.

– Chamei a tua atenção?

Abandonara todo o bom humor, que lhe parecera uma fachada.

Eva assentiu. Tinha a sua atenção, mas, em certo sentido, achava que estava a sonhar. Uma mala cheia de dinheiro só existia num sonho ou em filmes, não na vida real.

Daniele Pellegrini também não existia na vida real. Era um multimilionário de uma família nobre e ancestral. A sua vida era tão irreal como se tivesse chegado da lua.

– Se aceitares casar-te comigo, este dinheiro, um milhão de dólares, irá para as mãos da Blue Train Agency amanhã de manhã e é apenas o princípio.

– O princípio…? – perguntou ela, em voz baixa, olhando para aquele dinheiro maravilhoso.

– Se te sentares outra vez, explico-te.

Eva voltou a sentar-se sem parar de olhar para Daniele.

Ele acabou o copo de uísque, serviu outros três dedos e passou-o a Eva. Bebeu-o de um gole sem hesitar e sem se importar que os lábios dele tivessem estado no mesmo sítio há apenas um instante.

– Se aceitares casar-te comigo, este dinheiro irá diretamente para a tua organização humanitária. No dia do nosso casamento, farei uma transferência de outros dois milhões para a conta deles e doarei três milhões por cada ano de casamento. Vou dar-te uma pensão de um quarto de milhão de dólares por mês para que faças o que quiseres, também vou dar-te um cartão de crédito ilimitado para que viajes ou te vistas enquanto estivermos casados.

A cabeça dava voltas. Estava numa espécie de redemoinho que distorcia a realidade?

– Posso beber um pouco mais de uísque? – sussurrou.

Ele bebeu um gole e deu-lhe o copo.

– Queres pagar-me para ser a tua esposa?

– Sim.

– Porque haverias de querer casar-te comigo?

– Não quero, mas preciso de uma esposa.

– Já o disseste, mas porque haverias de me escolher quando há centenas de mulheres que o fariam sem teres de as subornar? Porque haverias de te casar com alguém que nem sequer gosta de ti?

– Esse é, precisamente, o motivo por que quero que aceites esse papel.

– Perdi-me.

– Não quero casar-me com alguém que vá apaixonar-se por mim.

Capítulo 3

Estava louco, tinha de estar. Nenhuma pessoa no seu juízo perfeito proporia uma coisa dessas.

Então, observou-o e pensou que sabia muito bem o que estava a fazer. A sua expressão, em vez de a tranquilizar, aterrou-a e não era uma mulher que se assustasse facilmente. Aprendera a disfarçar e disfarçou nesse momento.

– Isso é inimaginável – replicou.

Ele encolheu os ombros, pegou no copo e serviu uma dose generosa.

– Perfeito. Não quero uma esposa que tenha ilusões românticas. Não vou casar-me por amor, vou casar-me para herdar o património da família. O meu irmão morreu sem filhos. Sou o filho que resta, mas só posso herdar se estiver casado.

– Para que queres esse património? Já tens uma fortuna.

– Para o manter na família. O dever chama-me, finalmente.

– Precisas de uma esposa para herdar?

– Sim. O património está… Está ligado a um fideicomisso muito antigo que só pode ser herdado por um homem casado.

– Isso é legal?

– Demoraria anos a desmontar esse fideicomisso e a adaptá-lo aos tempos modernos. Não tenho anos, tenho de agir já.

– Então, procura outra.

– Não quero outra. As outras são demasiado dependentes e tu és dura.

– Nem sequer me conheces – replicou ela. – Há vinte minutos, achavas que era inglesa.

Era dura porque tivera de ser. Criara uma carapaça para virar as costas à família quando lhe tinham rasgado o coração e quando perdera Johann e descobrira que o coração se rasgava outra vez. Fora um processo natural, não fora conscientemente, não percebera que tinha essa carapaça até há quatro anos, quando estava a viver e a trabalhar em Haia e um colega bêbado a acusara de ser uma cadela insensível. Então, voltara ao pequeno apartamento que partilhara com Johann, olhara-se ao espelho e percebera que o colega tinha uma certa razão. Não era uma cadela, sabia que não era, mas insensível… Efetivamente, olhara-se ao espelho e tivera de reconhecer que já não sentia nada, que estava vazia por dentro.

– Sei tudo o que tenho de saber, querida. Não preciso de saber mais nada. Não quero conversar contigo na cama e que me contes os teus sonhos. Será uma sociedade, não uma aventura. Preciso de alguém pragmático e que mantenha a frieza nos momentos complicados.

Achava que ela era essa pessoa? Não sabia se rir ou chorar. Transformara-se numa pessoa tão fria que alguém podia pensar que aceitaria uma proposta tão carente de sentimentos?

Fora uma pessoa calorosa, sentira o sol, tanto no coração como na pele.

No entanto, o que é que essa proposta dizia dele? Como é que alguém podia ser tão cético sobre o casamento?

– O casamento não é uma brincadeira – replicou ela.

Eva olhava para os maços de notas e para os olhos ardentes de Daniele. Esse dinheiro seria crucial para o acampamento. A Blue Train Agency dependia plenamente das doações e nunca eram suficientes para cobrir todos os projetos.

Esses olhos…

Desviou o olhar e fixou-o no mar, não conseguia acreditar que estava a pensar naquela proposta desatinada.

– Não estou a brincar. Casa-te comigo e ganharemos todos. A tua organização humanitária terá doações garantidas que poderá gastar como quiser, tu receberás um valor em dinheiro ilimitado para gastares contigo própria, a minha família saberá que o património familiar estará a salvo durante outra geração e eu receberei a minha herança. És uma pessoa pragmática, Eva, sabes que o que proponho é muito coerente.

Nem sempre fora uma pessoa pragmática. Fora uma sonhadora, tivera muitas esperanças, mas todas tinham acabado destruídas.

– Não sei. Dizes que não é uma brincadeira, mas também dizes que todos ganharemos. O casamento é um compromisso entre duas pessoas que se amam, não entre duas pessoas que nem sequer gostam uma da outra.

– Os antepassados da minha família têm séculos. Os casamentos que correram melhor foram os que tinham motivos práticos, para formar alianças, não por amor. Nunca quis juntar a minha vida com a de uma pessoa em concreto, mas estou disposto a comprometer-me contigo. Não será um casamento baseado no amor, mas posso prometer-te um casamento baseado no respeito.

– Como podes respeitar-me se estás a tentar comprar-me?

– Não vou comprar-te, querida. Considera esse dinheiro como um incentivo.

– Não serei uma propriedade tua.

Não voltaria a ser propriedade de ninguém. Emancipara-se da sua família assim que fizera dezoito anos, no dia em que deixara de pertencer aos pais, para não continuar submetida às suas regras impostas de uma maneira inflexível. Dobrou a mão esquerda e sentiu a dor fantasma do tendão dos dedos. Os dedos tinham sarado há muito tempo, mas a dor continuava como um espetro do passado, como uma lembrança do que deixara para trás.

– Se quisesse ser dono de uma mulher, não te escolheria.

O mordomo apareceu para levar a sopa antes de ela conseguir responder. Ficou surpreendida ao ver a tigela vazia, pois não se lembrava de ter comido. Esperou que servissem o lombo Wellington para fazer a pergunta seguinte.

– Se aceitar, o que vai impedir-me de ficar com o dinheiro e fugir com ele?

– Não receberás dinheiro para o teu uso próprio até estarmos casados. Segundo a lei italiana, só poderás divorciar-te depois de três anos, mas isso não te impediria de me deixar. Tenho de confiar que não me deixarás sem falar comigo primeiro.

Ele tinha de confiar nela, mas a questão era se ela podia confiar nele.

– Se não queres um casamento tradicional, que casamento queres para nós? – perguntou ela.

Também não conseguia imaginar um casamento tradicional, nem com Daniele nem com ninguém, mas, para sua surpresa, percebeu que conseguia imaginar um casamento por conveniência onde a organização humanitária, que tanto amava, recebia quantias enormes de dinheiro.

Daniele Pellegrini era incrivelmente bonito e o pobre Johann teria dado os dois braços magricelas para ter a sua sensualidade, mas isso era tudo superficial. O seu corpo poderia reagir a ele, mas o seu coração estava a salvo. Daniele não queria uma relação nem conversar na cama, o que unia um casal, forjava a intimidade e deixava uma pessoa exposta ao desengano.

Não voltaria a expor-se a uma situação vulnerável, não podia. Tinham-lhe esmigalhado tantas vezes o coração que a seguinte poderia ser a definitiva.

– Todos vão ver-nos como um casal – respondeu ele. – Viveremos juntos. Visitaremos os amigos e a família e receberemos como um casal.

– Seremos o acompanhante principal um do outro?

– É uma forma fantástica de o expressar. Além disso, algum dia, é possível que sejamos pais…

Eva engasgou-se com a comida, bateu no peito, tossiu ruidosamente e bebeu um gole de água diretamente da garrafa.

– Estás bem…? – perguntou Daniele.

– Não. Achava que tinhas dito alguma coisa sobre sermos pais.

– Disse-o. Se vamos casar-nos, dormiremos na mesma cama.

– E não achas que devias ter-mo dito?

– Não achei que houvesse necessidade de o dizer com todas as letras. Os casais dormem juntos, querida, e eu vou dormir contigo – indicou. – O facto de dormirmos juntos é outro estímulo para que nos casemos.

– Não quero ter relações sexuais contigo.

– Acho que essa é a primeira mentira que me disseste. Não podes negar que te atraio.

– Se me atraísses, não teria rejeitado a tua oferta de ir para a suíte.

– Se não te atraísse, não terias hesitado antes de a rejeitar. Achas que não sei quando uma mulher me deseja? Sei interpretar a linguagem corporal e mostras todos os sinais de ser uma mulher que reprime o desejo e entendo, não pode ser fácil reconhecer que desejas um homem que te incomoda tanto.

– Sempre foste tão egocêntrico?

– Tive de exercitar durante anos, mas, finalmente, consegui. Além disso, ainda não negaste que te atraio.

– Não me atrais.

– Duas mentiras em dois minutos? Isso não está bem para uma mulher que vai ser a minha esposa.

– Não aceitei…

– Ainda, mas vais aceitar. Ambos sabemos.

– Quero deixar uma coisa clara, se aceitar casar-me contigo, não terei relações sexuais contigo.

– Eu também vou deixar uma coisa clara, quando nos casarmos, dormiremos na mesma cama. Se temos relações sexuais nessa cama ou não, depende de ti.

– Não vais impor os teus direitos conjugais?

– Não tenho de os impor. Podes negá-lo à vontade, mas há atração entre nós e aumentará quando estivermos na mesma cama.

– Vais tentar obrigar-me?

– Nunca. Não posso prometer que não tente seduzir-te, és uma mulher muito sensual e teria de ser um santo para não tentar, mas respeito a palavra «não». Assim que a disseres, viro-me e durmo.

Esteve prestes a perguntar se tencionava ter uma amante. O razoável era que, se não ia ter relações sexuais com ele, as tivesse com outra mulher.

No entanto, isso era um assunto diferente e a intuição dizia-lhe que era melhor deixá-lo como estava. Passara seis anos sem ir para a cama com alguém e não sentira a falta. Sentira a falta dos abraços, mas não do sexo, algo que, no fundo, sempre a defraudara. Não entendia como as pessoas lhe davam tanta importância, mas davam, e não esperava que Daniele se contivesse.

– Se aceitar, quererei continuar a trabalhar.

– Não precisarás de trabalhar.

– Vais deixar de trabalhar? Não precisas de trabalhar. Podias reformar-te neste momento e não te faltaria nada durante o resto da tua vida.

– Queres trabalhar? – perguntou ele.

– Adoro o meu trabalho.

– Já não poderás trabalhar no acampamento.

Ela ficou atónita. Adorava trabalhar no acampamento. Poderia dizer-se que o seu trabalho era administrativo, mas era útil. Aprendera coisas que não teria aprendido em nenhum outro lugar e, à sua maneira, fora crucial para muitas pessoas que tinham perdido tudo.

– Não posso deixá-lo – sussurrou ela.

– Porquê? A organização perderá uma empregada, mas ganhará três milhões de dólares por ano e o salário que vais perder será compensado com a pensão que vou dar-te.

– Não se trata do dinheiro.

– De que se trata?

Eva respirou fundo. Como podia explicar-lhe que o trabalho no acampamento lhe dera um sentido? Encontrara esperança no meio de tantas privações e exatamente quando achara que não restava esperança. Além disso, mesmo que encontrasse as palavras, Daniele não se importaria. Para ele, o dinheiro era o mais importante.

Isso fez com que tomasse uma decisão.

– Cinco milhões por ano. Essa é a quantia que terás de pagar à minha organização se quiseres que me case contigo. Além disso, quero-o por escrito, num documento legal.

– Fará parte do nosso contrato pré-nupcial – replicou ele.

– O meu advogado vai aprová-lo.

– Claro.

– Preciso de avisar com um mês de antecedência…

– Não – interrompeu ele. – É demasiado tempo. Temos de organizar muitas coisas e não podem esperar. Quero que nos casemos em Itália o mais depressa possível. Comunicarás aos teus chefes que vais despedir-te imediatamente ou fico com a mala e procuro outra esposa.

Viu a expressão de indignação dela depois do aviso.

– Vou fazer com que alguém apto ocupe o teu lugar até conseguirem encontrar um substituto permanente – acrescentou ele.

– E se não encontrares alguém?

– Encontrarei. Contudo, amanhã, assim que entregar o dinheiro, ficaremos noivos. Não poderás mudar de ideias.

– Não o farei, desde que o meu advogado aceite que o contrato pré-nupcial é inquebrável.

– Então, combinado? Vais casar-te comigo? Vais deixar o trabalho e acompanhar-me a Itália amanhã?

– Tenho de passar por minha casa antes de ir para Itália.

– Qual é a desculpa para isso?

– Tu és italiano, mas vão considerar-me uma forasteira. Trabalhei no ministério de Assuntos Exteriores e sei do que estou a falar. Tenho de passar por minha casa em Haia para ir buscar os documentos que as autoridades do teu país me pedirão.

– Mandarei alguém buscá-los.

– Não vou deixar que um desconhecido rebusque entre as minhas coisas.

– Muito bem, levo-te aos Países Baixos, mas mais nada, não vou permitir mais atrasos. Isto significa que estamos de acordo? Digo aos meus advogados para redigirem o contrato pré-nupcial?

Eva pigarreou e tentou não fazer caso a todas as objeções que lhe ecoavam na cabeça. O que importava que estivesse a aceitar um casamento frio e sem sentimentos quando passara seis anos numa vida fria e sem sentimentos? Casar-se com Daniele significava que a Blue Train Agency beneficiaria generosamente do seu dinheiro, algo muito mais vantajoso do que tê-la como empregada. Como Daniele dissera, casar-se com ele significava que todos saíam a ganhar.

No entanto, uma voz repetia-lhe na cabeça que, para haver um vencedor, também tinha de haver um perdedor.

Como podia ser a perdedora? Não ia dar o coração a Daniele, só a sua presença física. Não fez caso dessa voz e observou-o.

– Sim, estamos de acordo.

– Vais casar-te comigo?

Eva apagou a imagem de Johann que aparecera na sua mente e assentiu.

– Diz! – ordenou Daniele.

– Sim, vou casar-me contigo.

– Então, proponho que bebamos alguma coisa para afogar as mágoas.

Daniele olhou para o relógio e suspirou. O dinheiro estava nas mãos dos chefes atónitos da Blue Train Agency, tinham aceitado a substituta provisória de Eva e os seus advogados esperavam ter o contrato pré-nupcial redigido antes de aterrarem na Europa. O seu motorista pusera a mochila de lona de Eva no porta-bagagens do carro e já se concluíra toda a papelada para que deixasse o seu emprego. Já deviam ter saído do acampamento, mas Eva desaparecera depois de balbuciar alguma coisa sobre despedir-se. Imaginara que seria uma questão de minutos, mas passara quase uma hora.

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Data wydania na Litres:
22 lipca 2024
Objętość:
151 str. 3 ilustracji
ISBN:
9788413485256
Tłumacz:
Fátima Tomás Da Silva
Właściciel praw:
Bookwire
Format pobierania:

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