Czytaj książkę: «No ardor»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2016 Michelle Smart

© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

No ardor, n.º 117 - outubro 2021

Título original: Helios Crowns His Mistress

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

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As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1375-528-1

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Epílogo

Se gostou deste livro…

Capítulo 1

– Queres mesmo barbear-te?

Amy Green, que estava a admirar o rabo de Helios, perguntou-o num tom lisonjeador. Olhou para ela nos olhos através do espelho da casa de banho e piscou-lhe um olho.

– Voltará a crescer.

Ela fez beicinho com muito cuidado, porque a máscara de argila que pusera já secara e custava-lhe expressar-se sem que gretasse. Faltavam dez minutos para que pudesse tirá-la.

– Mas ficas muito sensual com barba…

– Estás a dizer que não sou sensual sem barba?

– És sempre sensual… – sussurrou ela.

Demasiado sensual, mesmo sem barba. Até a sua voz era sensual, uma voz grave e profunda com um sotaque de Agon que a enriquecia ainda mais.

Além disso, era incrivelmente alto, incrivelmente musculado e incrivelmente forte, tinha a pele morena e o cabelo cor de azeviche despenteado depois de ter passado uma hora com ela. Helios parecia um pirata e essa aparência perigosa exagerava-se mais por causa do nariz e da pequena cicatriz que tinha na cana, uma lembrança de uma luta com o seu irmão Theseus quando eram adolescentes. Helios, sem a mínima vaidade, usava essa cicatriz com orgulho. Era o homem mais sensual que alguma vez conhecera.

Em breve, pentear-se-ia para que o cabelo ficasse tão arranjado como o resto da cara, mas continuaria a irradiar essa virilidade inata. O seu corpo curtido ficaria coberto por um smoking, mas a sua força e vitalidade atravessariam o tecido. A expressão maliciosa dos seus olhos castanhos continuaria a ser igualmente tentadora.

Transformar-se-ia no príncipe Helios Kalliakis, herdeiro do trono de Agon, mas continuaria a ser um homem de carne e osso.

– Tens a certeza de que não queres fazê-lo? – perguntou ele, pegando na lâmina.

– Imaginas o que aconteceria se te cortasse? – Amy abanou a cabeça. – Seria detida por traição.

Ele sorriu e passou uma mão pelo espelho para limpar a condensação do vapor.

Amy sorriu, esticou a perna direita até às torneiras e verteu mais água quente com os dedos do pé.

– Tenho a certeza de que encher a casa de banho de vapor para que não consiga ver bem também é traição – comentou, num tom brincalhão, enquanto ligava o extrator.

Ligou-se imediatamente, como tudo nesse apartamento fabuloso do palácio, e eliminou o vapor da casa de banho.

Baixou-se ao lado da banheira, com a cara à frente da dela.

– Se continuares a cometer traição, terei de te castigar.

– E como terias de me castigar…?

O desejo, que achava satisfeito, voltou a bulir por dentro e fê-la ofegar.

Ele semicerrou os olhos e esboçou um sorriso com esses lábios que a tinham beijado por todos os lados. Era uma boca que qualquer mulher adoraria beijar a todas as horas.

– Um castigo que nunca esquecerás.

Helios cerrou os dentes e resmungou enquanto a observava com um brilho ardente nos olhos e se virava para o espelho, sem parar de olhar para o reflexo dela pelo canto do olho.

Amy teve de reconhecer que a fascinava observá-lo. Barbeava-se como se fosse um comandante medieval num filme. No entanto, também a assustava. A lâmina de barbear era muito afiada, um movimento errado e…

Em qualquer caso, não conseguia desviar o olhar dele enquanto passava a lâmina pela face. Tinha um erotismo que a transportava para outros tempos, quando os homens eram homens a sério… E Helios era assim dos pés à cabeça.

Se quisesse, poderia ter estalado os dedos e um batalhão de empregados teria aparecido para o barbear, mas esse não era o seu estilo. A família Kalliakis era descendente direta de Ares Patakis, o guerreiro que libertara Agon dos invasores venezianos há mais de oitocentos anos. Os príncipes de Agon aprendiam a usar armas com o mesmo esmero com que aprendiam o protocolo real. Para o seu amante, uma lâmina de barbear era mais uma das muitas armas que dominava. Esperou que se limpasse com uma toalha para voltar a falar.

– Tenho de interpretar que não me reservaste um pouco de tempo esta noite, apesar das minhas pequenas indiretas?

As pequenas indiretas tinham sido dizer-lhe que adoraria ir ao baile real de que toda a ilha falava, mas a verdade era que não esperara receber um convite. Era apenas uma empregada do museu do palácio e temporária.

Além disso, também não iam estar juntos para sempre, pensou, com uma pontada de melancolia. A sua relação não fora um segredo, mas também não tinham falado dela. Era a sua amante, não a sua namorada, e soubera-o desde o começo. Não tinha uma relação oficial com ele e nunca teria.

– Embora adore estar contigo, não seria apropriado.

– Eu sei. Sou uma plebeia e os assistentes ao baile são a flor e nata da alta sociedade.

– Adoraria ver-te lá com o vestido mais bonito que pudesses comprar, mas não estaria bem se a minha amante estivesse no baile onde tenho de escolher uma esposa.

O banho quente e relaxante arrefeceu numa questão de segundos e sentou-se.

– Escolher uma esposa? Do que estás a falar?

– O verdadeiro motivo do baile é para que possa escolher uma esposa.

– Como a Cinderela? – perguntou ela, depois de uma pausa.

– Exatamente. – Helios barbeou o queixo e voltou a limpar a lâmina numa toalha. – Já sabes tudo isto…

– Não – negou ela. – Achava que o baile era mais um evento prévio ao baile de gala.

Faltavam três semanas para que todos os olhares se dirigissem para Agon. A ilha celebrava o aniversário dos cinquenta anos do reinado do rei Astraeus e chefes de estado e mandatários de todo o mundo viriam ao baile.

– E é, acho que se diz «matar dois coelhos de uma cajadada».

– Porque não podes encontrar uma esposa de uma forma normal?

– Porque sou o herdeiro ao trono e tenho de me casar com alguém de sangue real, já sabes.

Efetivamente, sabia, mas pensara que seria noutro momento. Não lhe passara pela cabeça quando ia para a cama com ele todas as noites.

– Tenho de escolher acertadamente – continuou ele. – Naturalmente, tenho uma lista de favoritas, de princesas e duquesas que conheci ao longo dos anos e que me chamaram a atenção.

– Naturalmente… – repetiu ela. – Há alguma que encabece a lista ou há várias que disputam o lugar?

– A princesa Catalina de Monte Cleure está no topo da lista. Conheço a família há anos, veem ao nosso baile de Natal desde que a Catalina era um bebé. A irmã e o cunhado conheceram-se no último. – Helios sorriu ao lembrar-se do escândalo. – A Catalina e eu saímos para jantar algumas vezes quando estive na Dinamarca na semana passada. Tem todos os requisitos para ser uma rainha magnífica.

Amy imaginou uma imagem dessa princesa com o cabelo preto como o azeviche, uma beleza muito seguida pela imprensa por causa do seu encanto régio e etéreo… e sentiu náuseas.

– Não tinhas dito nada…

– Não há nada para dizer.

– Foste para a cama com ela?

– Que pergunta é essa? – perguntou ele.

– Uma pergunta normal de uma mulher ao seu amante.

Não pensara que poderia ter-se enganado. Helios não lhe prometera fidelidade, mas também não fora preciso. O desejo fora devorador desde a primeira noite que tinham passado juntos.

– A princesa é virgem e continuará a ser até se casar, seja comigo ou com outro homem. Responde à tua pergunta?

Não, só dava azo a uma infinidade de perguntas que não tinha o direito de fazer e que preferia que ele não respondesse. Só pôde fazer uma pergunta.

– Quando achas que te casarás com essa mulher tão sortuda?

– Será um casamento de estado, mas espero estar casado dentro de alguns meses.

Alguns meses? Tencionava encontrar esposa e organizar um casamento de estado em alguns meses? Isso tinha de ser impossível…

No entanto, era Helios e, se havia uma coisa que sabia sobre o amante, era que não ficava de braços cruzados. Se quisesse fazer alguma coisa, queria que se fizesse hoje, não amanhã.

Mesmo assim, alguns meses…

Ela estava contratada até setembro, até dentro de cinco meses, e imaginara… Esperara…

Pensou no rei Astraeus, o avô de Helios. Nunca estivera com o rei, mas tinha a sensação de o conhecer graças ao seu trabalho no museu do palácio. O rei estava a morrer e Helios tinha de se casar para ter um herdeiro e garantir a continuidade da linhagem.

Sabia tudo isso, mas passara todas as noites com ele e albergara a esperança de que não se casasse até ela acabar a sua estadia em Agon.

Agarrou-se à banheira, levantou-se com cuidado e saiu. Agarrou numa toalha com as mãos trémulas e levou-a ao peito, nem sequer se embrulhou nela.

Helios esticou o lábio superior e barbeou-o com cuidado e destreza.

– Ligo-te quando o baile acabar.

Dirigiu-se para a porta sem se importar de deixar um carreiro de água pelo caminho.

– Não, não o farás.

– Para onde vais? Estás encharcada.

Pelo canto do olho, viu que ele dava umas palmadinhas na cara com a toalha e que a seguia para o quarto sem se incomodar em tapar-se.

Amy pegou na roupa e agarrou-a com força. Tinha um zumbido na cabeça que a impedia de pensar com coerência.

Dormira com ele durante três meses. Durante todo esse tempo, só tinham dormido separados uma dúzia de vezes, quando ele estivera fora por motivos oficiais. Como quando fora à Dinamarca e jantara com a princesa Catalina sem que ela soubesse. Além disso, naquele momento, ia celebrar um baile para encontrar a mulher com quem dormiria para o resto da sua vida.

Soubera desde o começo que não tinham futuro e mantivera o coração e os sentimentos à margem, mas ouvi-lo a falar com essa indiferença sobre o assunto…

Ficou junto da porta da passagem secreta que ligava os seus apartamentos. Havia dúzias e dúzias de passagens como aquela por todo o palácio, um palácio construído para as intrigas e os segredos.

– Vou para o meu apartamento. Diverte-te esta noite.

– Perdi alguma coisa?

O facto de Helios o perguntar com o que parecia uma perplexidade sincera só piorou as coisas.

– Disseste que não é apropriado ir esta noite ao baile, mas vou dizer-te o que não é apropriado: Falares da esposa que vais escolher dentro de algumas horas com a mulher que dormiu contigo durante três meses.

– Não sei qual é o inconveniente. O meu casamento não mudará nada entre nós.

– Se realmente achas isso, és tão néscio como misógino e insensível. Falas como se essa seleção de mulheres fosse de rebuçados no balcão de uma loja e não de pessoas de carne e osso.

Amy abanou a cabeça para dar mais ênfase ao seu desagrado e pôde ver, à medida que falava, que a expressão de perplexidade de Helios dava lugar a outra mais sombria e carrancuda.

Helios não aceitava bem a crítica. Nessa ilha e nesse palácio, elogiavam-no e todos ouviam o que dizia. Era afável e encantador e o seu bom humor era contagiante. No entanto, se se zangasse…

Se não estivesse tão furiosa com ele, certamente, teria medo.

Ele, esplendidamente nu, aproximou-se dela, parou a meio metro e cruzou os braços com os dentes cerrados.

– Cuidado com o que dizes. É possível que seja o teu amante, mas não tens permissão para me insultar.

– Porquê? Porque és um príncipe? – Apertou a toalha e a roupa com mais força. – Estás prestes a ficar noivo de outra mulher e não quero saber nada do assunto.

O Benedict, o labrador preto de Helios, percebeu o ambiente e também se aproximou dela. Sentou-se ao seu lado com a língua de fora e lançou o que pareceu um olhar de censura ao seu dono.

Helios também reparou, acariciou a cabeça do Benedict e esboçou um sorriso enquanto olhava para Amy.

– Não sejas melodramática. Sei que estás no período pré-menstrual e que isso faz com que estejas mais sensível, mas estás a ser irracional.

– Pré-menstrual? Disseste mesmo isso? Fico… sensível porque o meu amante tem encontros secretos com outras mulheres e está prestes a escolher uma delas para ser a sua esposa e ainda espera que lhe aqueça a cama. Não te preocupes, dá-me uma palmadinha na cabeça e diz-me que estou no meu período pré-menstrual, dá-me umas palmadinhas nas costas e diz que não fizeste nada de mal.

Demasiado furiosa para continuar a olhar para ele, rodou a maçaneta da porta e abriu-a com a anca.

– Vais-te embora? Vais deixar-me?

Perguntara-o num tom brincalhão? Parecia-lhe divertido?

Amy, sem lhe fazer caso, levantou a cabeça e entrou na passagem que a levaria ao seu apartamento.

Uma mão imensa agarrou-a pelo braço e obrigou-a a virar-se. Apesar de ter o coração apertado e de sentir náuseas, conseguiu falar com firmeza.

– Solta-me, acabámos.

– Não. Esta noite, quando estiveres abatida, estarei a pensar em ti, estarei a pensar em todas as formas de te possuir quando acabar o baile. Então, virás ter comigo e poderemos pô-las em prática.

O seu corpo reagiu àquelas palavras e à proximidade como reagia sempre. Com Helios, era como uma menina faminta que, finalmente, deixavam comer. Desejava-o. Desejava-o desde que o conhecera, há três meses, e o desejo não diminuíra.

No entanto, chegara o momento de dominar esse desejo.

Pôs-lhe uma mão no peito granítico, conteve a vontade de acariciar os pelos escuros que o cobriam e fez um esforço para olhar para ele nos olhos, que ainda tinham um brilho brincalhão.

– Diverte-te esta noite. Tenta não entornar vinho no vestido de uma das tuas princesas.

A sua gargalhada sarcástica seguiu-a pela passagem que levava ao seu apartamento.

Quando chegou ao apartamento, grande em comparação com sua moradia habitual e pequeno em comparação com o apartamento de Helios, passou à frente de um espelho e viu que continuava com a máscara de argila, embora completamente gretada.

Helios levava a sua acompanhante, uma princesa da antiga família real da Grécia, por toda a pista. Era uma jovem muito bonita, mas riscou-a da sua lista à medida que dançava com ela e ouvia o que dizia. Fosse quem fosse com quem se casasse, queria poder ter uma conversa com ela que não fosse sobre o último desfile na passarela.

Quando acabou a valsa, inclinou a cabeça com cortesia, alegou que tinha de ir falar com o irmão Theseus, que continuava sozinho à mesa, e não fez caso do olhar suplicante daquela mulher que lhe pedia que lhe concedesse outra dança.

Lembrou-se do que Amy dissera sobre tratar as mulheres como se fossem rebuçados no balcão de uma loja. Era suficientemente homem para reconhecer que eram verdadeiras, mas, se tivesse de escolher uma com quem passar o resto da sua vida e para ser a mãe dos seus filhos, queria que se parecesse o máximo possível com o que gostava.

Se Amy pudesse ver aquelas mulheres, a avidez dos seus olhos e como lhe mostravam o decote quando passava, entenderia que queriam que as saboreasse, que queriam ser exatamente do seu gosto.

Olhou para Talos, o irmão mais novo, que estava a dançar com a violinista cativante que tocaria dentro de três semanas no baile do aniversário do avô.

– Há mais uma coisa – comentou Theseus, bebendo um gole de champanhe. – Olha, o parvo está apaixonado.

Helios olhou para a pista e entendeu imediatamente o que queria dizer. Talos e a acompanhante prestavam tanta atenção um ao outro que era como se os outros duzentos convidados não existissem. Entreolhavam-se com tanta intensidade que era quase visível e hipnótico em certo sentido.

Helios desejou, e não pela primeira vez, que Amy estivesse ali. Adoraria dançar a valsa com ela. Para alguém tão voluntariamente rígido, ela tinha uma parte divertida que fazia com que adorasse estar com ela.

Theseus voltou a observá-lo.

– E tu? Não deverias estar na pista de dança?

– Estou a fazer uma pausa.

– Devias estar com a princesa Catalina.

Helios e os irmãos tinham falado muitas vezes sobre as suas possíveis esposas e tinham chegado à conclusão de que Catalina seria perfeita para entrar nessa família.

Até há uma geração, os casamentos dos herdeiros ao trono de Agon eram arranjados. O casamento dos próprios pais fora assim. O avô, o rei Astraeus, ao presenciar o desastre desse casamento, decidira acabar com essa parte do protocolo e permitir que a geração seguinte escolhesse o seu cônjuge, desde que tivesse sangue real… E ele agradecia. Fosse quem fosse a escolhida, não podia ter ilusões, o seu casamento seria apenas para cumprir o dever.

– Achas…? – perguntou Helios, com desinteresse.

Sentia arrepios só de pensar em dançar com outra daquelas mulheres, por muito bonitas que fossem. Podia encontrar uma mulher bonita em qualquer lugar, mas não havia muitas com substância.

Sentiu que ficava tenso ao lembrar-se da conversa dessa tarde. Nunca a vira tão irritada e essa raiva fora possessiva. Estivera ciumenta.

Normalmente, quando uma amante mostrava indícios de ficar possessiva, era o momento de virar a página. No caso de Amy, parecia-lhe incrivelmente atraente. Adorara os seus ciúmes, embora fosse estranho.

Sempre suspeitara que lhe escondia uma parte de si própria. Entregava-lhe o seu corpo e desfrutava tanto como ele quando faziam amor, mas o que se passava pela sua cabeça inteligente continuava a ser um mistério.

Fora diferente das suas amantes habituais desde o começo. Era bonita e muito inteligente e chamara-lhe a atenção como nenhuma outra mulher. A raiva de antes não o alterara, como teria acontecido com qualquer outra pessoa, despertara a sua curiosidade, tirara outra camada dessa mulher apaixonada e brilhante de quem não se cansava. Quando estava com ela, esquecia tudo o resto e vivia o momento. Deixava-se levar pela voracidade.

A gravidade da doença do avô afetava-o, mas mitigava-se quando estava com Amy e passava a ser uma pontada leve de dor e pessimismo. Quando estava com ela, esquecia o peso das responsabilidades por ser o herdeiro ao trono e podia ser um homem, um amante, o seu amante. Era como uma vibração constante nas entranhas e não tencionava renunciar a ela, estivesse casado ou não.

– Há alguma outra de quem tenhas gostado? – perguntou Theseus.

– Não.

Helios sempre soubera que teria de se casar. Nunca o questionara. Não tinha sentimentos em relação a isso. O casamento servia para gerar a próxima geração de Kalliakis e era sortudo porque podia escolher a sua esposa, embora com certas condições. Os pais não tinham tido tanta sorte. O seu casamento fora arranjado antes de a mãe deixar de usar fraldas. Fora um desastre e ele só esperava que o seu casamento não se parecesse com o deles.

Olhou para a princesa Catalina que, nesse momento, dançava com um príncipe britânico. Era incrivelmente bonita e refinada. O irmão era seu amigo da escola e as vezes que tinham jantado juntos na Dinamarca tinham-lhe demonstrado que era uma mulher inteligente, para além de bonita, embora um pouco séria para o seu gosto.

Não tinha a irreverência de Amy.

Mesmo assim, Catalina seria uma rainha excelente e ele já perdera tempo suficiente. Devia ter escolhido há cinco meses, quando lhes comunicaram a gravidade da doença do avô.

Catalina fora criada num mundo sujeito ao protocolo, como ele. Não esperava o amor nem tinha ilusões. Se a escolhesse, saberia que seria um casamento por dever, onde não entravam os sentimentos. Exatamente o que ele queria.

Além disso, constituir uma família com ela não seria um sacrifício. Tinha a certeza de que se criaria um laço se ambos se empenhassem. Também brotaria uma certa… química. Ainda que, naturalmente, não fosse a mesma química que tinha com Amy, isso era irrepetível.

Pensou na imagem de Amy a afastar-se pela passagem na penumbra, abraçando o monte de roupa e a toalha, com o cabelo loiro molhado a cair pelas costas. Nesse momento, fora tão altiva como qualquer princesa e desejava castigá-la pela sua insolência. Levá-la-ia até à beira do orgasmo tantas vezes que acabaria por lhe rogar que a deixasse explodir.

No entanto, não era o momento nem o lugar para imaginar o corpo esbelto de Amy entre os seus braços.

Sufocou implacavelmente o ardor e concentrou-se nas mulheres que tinha à sua frente. Teria de afastar Amy durante umas horas para levar a tarefa a cabo.

Chamou um empregado para que lhe trouxesse uma taça de champanhe e bebeu um bom gole antes de pensar em voltar a dançar.

– O que se passa? – perguntou Theseus.

– Nada.

– Pareces um homem numa prova de vinhos que percebe que todas as garrafas estão fechadas.

– Melhor? – perguntou Helios.

– Agora, pareces um assassino em série.

– O teu apoio não tem preço, como sempre. – Helios esvaziou a taça e levantou-se. – Se tivermos em conta que não sou o único príncipe que tem de se casar e ter herdeiros, acho que também deverias misturar-te com as nossas convidadas bonitas.

Sorriu com ironia face ao ar de desgosto de Theseus. Embora aceitasse o seu destino com a resignação férrea que lhe tinham inculcado no internato inglês onde fora criado, sabia que o irmão, mais rebelde, tinha muito pouca vontade de se casar.

Depois, enquanto dançava com a princesa Catalina a uma distância prudente para que os seus corpos não se tocassem e sem a mínima intenção de encurtar essa distância, voltou a pensar no avô.

O rei não aparecera naquela noite. Estava a guardar as poucas forças que lhe restavam para o baile de celebração do seu aniversário. Se estava disposto a dar o último passo e assentar, era por causa desse homem extraordinário que criara os três irmãos desde que ele tinha dez anos.

Faria tudo pelo avô.

Em breve, receberia a coroa, mais cedo do que desejara e esperara, e precisava de uma rainha ao seu lado. Queria que o avô passasse em paz para a outra vida, com a tranquilidade de saber que a continuidade da linhagem dos Kalliakis estava garantida. Se o tempo os ajudasse, o avô poderia vê-lo no altar.

Capítulo 2

Onde se metera?

Helios estava há quinze minutos no seu apartamento e Amy não atendia as chamadas. Segundo o chefe de segurança, saíra do palácio. A sua contrassenha pessoal indicava que saíra às sete e quarenta e cinco, mais ou menos quando os irmãos e ele estavam a receber os convidados.

Voltou a ligar-lhe enquanto ia ao bar e se servia de um copo generoso de gim. A chamada acabou no correio de voz. Bebeu o líquido cristalino e levou a garrafa para o escritório.

Os monitores de segurança mostravam imagens das passagens secretas, mas só ele podia vê-las. Olhou com atenção para o ecrã da câmara número três, que estava focada na porta que os ligava. Havia algo no chão que não conseguia distinguir claramente…

Foi até à porta, abriu-a e viu uma caixa. Era uma caixa cheia de frascos de perfume, joias e lembranças. Eram os presentes que dera a Amy enquanto tinham estado juntos. Amontoara-os numa caixa e deixara-a à sua porta.

O arrebatamento de fúria rasgou-o por dentro. Levantou um pé antes de saber o que estava a fazer e deu um pontapé à caixa. O vidro partiu-se e o barulho ecoou no meio do silêncio.

Não fez nada durante um bom bocado. Limitou-se a respirar fundo enquanto tremia de fúria e dominava a vontade de destruir o que restava na caixa. A violência fora a solução do pai para os problemas da vida. Sempre soubera que era algo que ele também tinha, mas, ao contrário do pai, sabia controlá-lo.

Essa fúria repentina que se apoderou dele era incompreensível.

Amy, que sabia como estava atrasada, fechou a porta do apartamento e desceu a correr as escadas que levavam ao museu do palácio. Marcou a contrassenha, esperou que a luz verde se acendesse, abriu a porta e entrou na zona privada do museu, uma zona vedada aos visitantes.

Passou ao lado da cozinha pequena para o pessoal e fez figas para que não tivessem acabado os bolos e o café. Os bougatsas acabados de fazer pelos cozinheiros do palácio, que lhes traziam todas as manhãs, tinham-se transformado na sua comida favorita.

Sentiu água na boca só de imaginar os bolos de massa fina. Esperava que restasse algum com creme. Não comera quase nada durante os dois últimos dias e, naquele momento, depois de ter conseguido dormir um pouco, estava faminta. Além disso, adormecera, apesar do despertador, e acelerou o passo enquanto subia um lance de escadas que levava à sala de reuniões.

– Lamento o atraso – desculpou-se ela, enquanto entrava com uma mão no peito. – Eu…

Não pôde acabar a frase quando viu Helios sentado à cabeceira da mesa redonda. Tinha os cotovelos apoiados na mesa e os dedos de uma mão colados aos da outra. Acabara de se barbear e, embora estivesse vestido informalmente, com uma camisola verde de gola redonda, irradiava um poder avassalador, um poder que, nesse instante, estava concentrado nela.

– Ainda bem que nos acompanha, menina Green – comentou ele, num tom equilibrado. – Sente-se.

Ela, desassossegada ao vê-lo ali, pestanejou várias vezes e respirou fundo. Helios era o presidente do museu do palácio, mas não participava na gestão quotidiana. Só fora uma vez à reunião das terças-feiras durante os quatro meses que ela trabalhara lá.

Ontem à noite, quando voltara ao palácio, soubera que teria de o ver em breve, mas esperara que lhe desse uns dias. Porque tivera de aparecer nesse dia? Era a primeira vez que se atrasava e tinha um aspeto horrível.

Além disso, para cúmulo, o único lugar livre era mesmo à frente dele. Afastou a cadeira da mesa e sentou-se com as mãos no colo para que não se visse que estavam a tremer. Greta, uma das conservadoras e a melhor amiga que tinha na ilha, estava sentada ao seu lado. Segurou-lhe a mão e apertou-a com delicadeza. Greta sabia tudo.

No centro da mesa, estava a bandeja com bougatsas que tanto desejava. Restavam três, mas perdera todo o apetite e o coração acelerava de tal forma que ecoava por todo o corpo.

Greta serviu-lhe uma chávena de café e Amy agradeceu-lhe.

– Estávamos a falar das obras de que continuamos à espera para a exposição do meu avô – continuou Helios.

O museu do palácio de Agon era muito famoso e vinham especialistas de todo o mundo, o que fazia com que os empregados falassem uma mistura de línguas. Para o simplificar, o inglês era a língua oficial em horário de trabalho.

Amy pigarreou e tentou ordenar as ideias.

– As estátuas de mármore estão a caminho vindas de Itália e deviam chegar amanhã de manhã ao porto.

– Há alguém para as receber?

– O Bruno vai mandar-me uma mensagem assim que entrarem nas águas de Agon. – Amy referia-se a um dos conservadores que voltaria de Itália com as estátuas. – Irão assim que nos comunicarem. Os motoristas foram avisados e está tudo organizado.

– E as obras do museu grego…?

– Chegarão na sexta-feira.

Helios sabia tudo isso. A exposição era uma ideia dele e tinham trabalhado juntos nela.

Amy chegara a Agon em novembro como parte de uma equipa do Museu Britânico que emprestava obras ao museu do palácio. Ela, durante aqueles dias na ilha, tornara-se amiga de Pedro, o diretor do museu. Embora ela não soubesse no seu momento, ficara impressionado com os seus conhecimentos sobre Agon e, sobretudo, com a tese de doutoramento sobre a arte minoica e a sua influência na cultura de Agon. Pedro propusera que organizasse a exposição do aniversário.

Essa proposta fora como um sonho tornado realidade e uma honra imensa para alguém com tão pouca experiência. Amy, que só tinha vinte e sete anos, compensava a experiência que não tinha com entusiasmo.

Também aprendera, quando tinha dez anos, que a família feliz e perfeita que lhe parecera o natural não era como a tinham feito acreditar. Ela também não era o que a tinham feito acreditar. O pai era o pai biológico, mas os irmãos eram apenas meios-irmãos. A mulher que a tivera era da ilha de Agon e metade do seu ADN era… agonita.

Desde que descobrira, para seu espanto, sentira-se fascinada com tudo o que estava relacionado com Agon. Devorara livros sobre o seu passado minoico e a sua transição para a democracia. Apaixonara-se pelas histórias sobre as guerras. Estudara os mapas, reparara tanto nas montanhas, nas praias e nos mares que conhecia tão bem a sua geografia como a do seu próprio país.

Agon transformara-se numa obsessão.

A história dela estava na história de Agon, assim como a chave para entender quem era realmente. Nunca poderia ter imaginado que teria a oportunidade de passar nove meses lá. Era como se o destino estivesse a dar-lhe o empurrãozinho de que precisava para encontrar a mãe. A mulher que a tivera estava ali, naquela ilha de meio milhão de habitantes.

Pensara nela durante dezassete anos e não parara de se questionar se se pareceria com ela, se teria a mesma voz, se se arrependia de alguma coisa… Envergonhava-se do que fizera? Com certeza que sim. Como seria possível que alguém fizesse o que Neysa Soukis fizera e não estivesse envergonhada?

Encontrara-a depressa, mas como ia apresentar-se? Essa fora a grande pergunta. Não podia aparecer um dia à sua porta porque, certamente, lha fecharia na cara e não conseguiria as respostas que queria. Pensara em escrever uma carta, mas também não soubera o que dizer. «Lembrava-se dela? Teve-a consigo durante nove meses e, depois, ignorou-a. Podia, por acaso, dizer-lhe o motivo?»

As redes sociais, graças a Greta, tinham sido frutíferas. Neysa não as usava, mas encontrara um meio-irmão. Tinham estabelecido uma comunicação incipiente e esperara que ele fosse uma ponte entre elas.

– Organizaste o transporte para sexta-feira? – perguntou Helios, com um olhar sombrio.

– Sim, está tudo organizado – repetiu ela. – Estamos mais adiantados do que o previsto.

– Tens a certeza de que a exposição estará organizada a tempo para o baile?

Perguntou-o num tom despreocupado, mas mostrava algo implacável e um ceticismo que não mostrara antes.

– Sim.

Amy cerrou os dentes para conter a dor e a raiva.

Estava a castigá-la. Devia ter atendido alguma das suas chamadas. Seguira o caminho dos covardes, fugira do palácio com a esperança de, depois de uns dias afastada dele, conseguir reunir a força de que precisava para resistir. A melhor forma, a única forma de parar de o desejar era passando a síndrome de abstinência como pudesse. Tinha de resistir, não podia ser a… outra.

Mesmo assim, não podia ter imaginado que lhe doeria fisicamente voltar a vê-lo… e doía atrozmente.

Helios entrevistara-a antes de a contratarem. A exposição do aniversário era a sua prioridade absoluta e quisera certificar-se de que o organizador era o que tinha mais afinidade com a ilha.

Felizmente, Pedro e ele tinham concordado que ela era a melhor candidata. Alguns meses mais tarde, quando jaziam saciados nos braços um do outro, dissera-lhe que o convencera por causa da sua paixão e entusiasmo e porque soubera que se entregaria à tarefa como merecia.

Conhecer Helios… Não fora como imaginara, não era o príncipe rígido, pedante e presunçoso que esperava.

A atração fora imediata, como uma reação química que não conseguira controlar. Surpreendera-a com a guarda em baixo, embora não tivesse nenhuma ilusão. Era um príncipe, mas, além disso, era poderoso e desmesuradamente atraente. Não pensara que essa atração pudesse ser recíproca, nem no seu sonho mais disparatado, mas fora.

Participara mais na exposição do que ela previra e vira-se muitas vezes a trabalhar sozinha com ele e aquele fogo ofegante que a queimara por dentro crescera sem que ela soubesse o que fazer.

As aventuras no local de trabalho eram o pão nosso de cada dia, mesmo no mundo erudito das antiguidades, mas nunca a tinham tentado. Gostava tanto do seu trabalho que a absorvia por completo. O seu trabalho dava-lhe um objetivo e uma razão de ser. Trabalhar com objetos antigos, ver como tinham evoluído as técnicas e os costumes, demonstravam-lhe que o passado não tinha de ser o futuro. O que a mãe biológica fizera não tinha de a condicionar, mesmo que percebesse que o seu comportamento era como um estigma invisível que trazia com ela.

Nunca pensara na possibilidade de ter uma relação que pudesse significar alguma coisa. Como podia comprometer-se com alguém se não sabia quem era? Por isso, não era de estranhar que os seus sentimentos se tivessem transtornado ao sentir uma atração assim por um homem que era o seu patrão e que, além disso, era um príncipe.

Helios não tinha essas inibições.

Despira-a mil vezes com o olhar e muito antes de ter tocado nela.

Até uma tarde, quando estavam a falar na sala mais pequena da exposição, ela num extremo e ele, no outro, passar, numa décima de segundo, de estar imóvel a mexer-se, a chegar até ela com quatro passos e abraçá-la.

E fora só isso. Estivera ao seu dispor e ele, ao dela.

Os três meses que tinham passado juntos tinham sido um sonho. A sua relação fora fisicamente intensa, mas também surpreendentemente natural. Não houvera expectativas nem inibições, só paixão.

Devia ter sido fácil desligar-se.

Os olhos que a tinham despido milhares de vezes dirigiram-se para Pedro para lhe indicar que podia falar dos assuntos gerais do museu. Estava a organizar-se uma exposição muito especial, mas, mesmo assim, o museu em geral tinha de continuar a manter o nível elevado de sempre.

O humor de Helios, que costumava ser agradável, estava a alterar todos e Pedro, claramente nervoso, examinou os pontos do dia a toda a velocidade e acabou a comentar que, naquela quinta-feira, precisam que alguém substituísse uma das guias. Amy ofereceu-se. A quinta-feira era o seu único dia de folga dessa semana e adorava guiar grupos de visitas sempre que podia. Uma das coisas de que mais gostava no museu era da colaboração. Todos ajudavam quando era preciso. Era uma forma de fazer as coisas que começava no topo, no próprio Helios, ainda que, nesse dia, não houvesse rasto desse espírito.

– Antes de nos irmos embora – comentou Pedro, no fim reunião –, lembro-vos de que têm de entregar os menus para a quarta-feira seguinte antes de sexta-feira.

Helios, como agradecimento aos empregados por todo o trabalho que tinham feito pela exposição, organizara um jantar para todos antes de começarem as férias de verão. Era o típico gesto generoso dele e um ato social a que tivera muita vontade de ir, ainda que, nesse momento, odiasse a ideia de sair uma noite com Helios e os seus colegas.

O alívio foi evidente quando a reunião acabou. Ninguém ficou, como costumava ser habitual, e todos se levantaram e foram precipitadamente para a porta.

– Amy, por favor, quero dizer-te uma coisa.

A voz profunda de Helios ouviu-se por cima dos passos apressados. Ela parou a uns centímetros da porta, fez um ar inexpressivo e virou-se.

– Fecha a porta.

Fechou-a e voltou a sentar-se à frente dele, embora tentasse afastar-se o máximo possível.

Nada era suficientemente longe. Esse homem gotejava testosterona… e também gotejava desejo de vingança.

O coração saía-lhe do peito, mas cerrou os dentes e cruzou os braços. Mesmo assim, não pôde evitar observá-lo fixamente. A corrente de prata brilhava na base do pescoço, a corrente que lhe tocara nos lábios tantas vezes quando faziam amor.

Enquanto olhava para ele e se questionava quando ia falar, percebeu que a observava com a mesma intensidade e sentiu a boca seca.

– Estiveste bem em casa da Greta? – perguntou ele.

– Sim, obrigada – respondeu ela. – Como soubeste que estive lá?

– Pelo GPS do teu telemóvel.

– O quê? Espiaste-me?

– És a amante do herdeiro ao trono de Agon. A nossa relação é um segredo bem conhecido e não arrisco o que é meu.

– Já não sou tua – replicou ela, levada pela fúria. – Seja qual for o dispositivo que puseste, já podes desligá-lo.

Amy pôs a mala na mesa, tirou o telemóvel e atirou-lho, que o apanhou com uma mão e se riu. Embora fosse uma gargalhada sem vontade.

– Não há nenhum dispositivo. – Helios devolveu-lhe o telemóvel. – Fez-se através do teu número.

– Para de o fazer, tira-o do teu sistema ou seja o que for.

Observou-a atentamente. Essa imobilidade tirava-a do sério. Helios nunca estava imóvel, tinha energia para iluminar o palácio todo.

– Porque te foste embora?

– Para me afastar de ti.

– Não pensaste que me preocuparia?

– Pensei que estarias tão ocupado a selecionar a tua esposa que nem sequer perceberias.

– Ah – ele sorriu finalmente –, estavas a castigar-me…

– Não – negou ela, com firmeza. – Estava a afastar-me porque sabia que esperarias ir para a cama comigo depois de teres passado a noite à procura de esposa.

– E pensaste que não serias capaz de resistir.

Amy corou e Helios sentiu um arrebatamento de satisfação ao verificar que acertara. A sua amante bonita e apaixonada estivera ciumenta.

Amy, esbelta, feminina e com o cabelo loiro, certamente, era a mulher mais bonita que conhecera. Um escultor não hesitaria em representá-la como Afrodite. Bulia-lhe o sangue só de a ver, mesmo que usasse, como naquele momento, uma saia azul e um top recatado.

No entanto, também tinha algo que não costumava ter, umas sombras escuras por baixo dos olhos castanhos, os lábios secos e a cútis pálida… E ele era o motivo.

Sentiu emoção só de pensar nisso. Fosse qual fosse o castigo que quisera impor-lhe por ter desaparecido uns dias, saíra-lhe o tiro pela culatra.

Nunca lhe falaria da fúria que o dominara quando vira a caixa à frente da sua porta.

O que lhe recordava que…

Pegou num envelope grosso e aproximou-o por cima da mesa. Quando não conseguira conter a raiva, destruíra a caixa, partira os frascos e arruinara os livros, mas as joias tinham-se salvado.

Ela semicerrou os olhos, esticou uma mão elegante e abriu-o com cautela. Cerrou os dentes quando viu o que havia lá dentro. Voltou a pousar o envelope na mesa e levantou-se.

– Não as quero.

– São tuas e ofende-me que mas devolvas.

– E tu ofendes-me ao dar-mas quando estás prestes a pôr um anel de noivado no dedo de outra mulher – replicou ela, sem pestanejar.

Ele também se levantou e aproximou-se. Abraçou-a até ter a sua cabeça no peito. Era demasiado forte e ela não conseguia escapar dele, mesmo que tentasse. Além disso, ele sabia que essas tentativas não significavam nada.

Sentia o seu calor. Queria estar entre os seus braços.

Inclinou a cabeça para trás com a respiração acelerada. Ele viu que as pupilas se toldavam com uma fúria que fez com que o sangue bulisse.

– Não fiques ciumenta – murmurou Helios, apertando-a com mais força. – O meu casamento não muda o que sinto por ti.

Mordeu o lábio inferior carnudo e o olho esquerdo tremeu com uma amargura que nunca vira.

– Mas muda o que sinto por ti.

– Mentirosa. Não podes negar que continuas a desejar-me. – Tocou-lhe na face com a dele e sussurrou-lhe ao ouvido. – Há uns dias, sem ir mais longe, gritavas o meu nome e ainda tenho os arranhões nas costas.

Ela afastou a cabeça.

– Isso foi antes de saber que procuravas uma noiva para te casares imediatamente. Não tenciono ser a tua… amante.

– Não tem nada de estranho. Os reis de Agon tiveram amantes durante gerações.

O avô fora a exceção à regra, mas só porque tivera a sorte de se apaixonar pela esposa.

Dos trinta e um reis que Agon tivera desde 1203, só alguns tinham encontrado o amor e a fidelidade com os seus cônjuges. O próprio pai, embora tivesse morrido antes de subir ao trono, tivera dúzias de amantes e, além disso, desfrutara de mostrar as suas infidelidades à esposa.

– Há gerações, os teus antepassados também esquartejavam os seus inimigos, mas é algo que já pararam de fazer.

Ele riu-se e acariciou-lhe o queixo. Era linda, mesmo sem maquilhagem.

– Não nos casamos por amor ou para ter companhia, como os outros fazem, casamo-nos pelo bem da nossa ilha. Pensa nisso como um acordo empresarial. Tu és a minha amante, és a mulher com quem quero estar.

A sua mãe fora desgraçada nesse sentido. Já amava o pai quando se casaram e esse amor acabara por a devastar muito antes de morrerem naquele acidente de viação.

Nunca causaria a ninguém a dor que o pai causara. Tinha de se casar, mas não disfarçava o que queria: Uma esposa que lhe proporcionasse a próxima geração de herdeiros. Não haveria sentimentos nem expectativas de fidelidade. Seria uma união baseada no dever e em mais nada.

Amy observou-o fixamente e em silêncio durante um instante, enquanto procurava alguma coisa, embora ele não soubesse o que esperava encontrar.

Baixou a cabeça para lhe beijar os lábios que ela separara, mas afastou-se e mal se tocaram.

– Falo a sério, Helios. Acabámos. Não serei a tua amante – repetiu ela, num sussurro.

– A sério…?

– Sim.

– Então, porque continuas aqui? Porque sinto o calor da tua respiração na cara?

Passou-lhe os lábios pela face, agarrou-a pelo rabo e apertou-a contra si para que sentisse como a desejava. Ela gemeu levemente.

– Vês? – Helios mordeu-lhe o lóbulo da orelha com delicadeza. – Ainda me desejas, mas estás a castigar-me.

– Não. Eu…

– Psiu… – Tapou-lhe os lábios com um dedo. – Ambos sabemos que poderia possuir-te neste momento e que não te oporias.

Os seus olhos deixaram escapar um brilho ardente, mas ergueu o queixo com rebeldia.

– Vou dar-te cinco segundos para que te vás embora – continuou ele, falando em voz baixa. – Se, dentro de cinco segundos, não te tiveres ido embora, vou levantar-te saia e fazer amor contigo em cima desta mesa.

Ela tremeu. Foi um arrepio muito leve, mas ele conhecia-a tão bem que sabia o que veria nos seus olhos.

Efetivamente, toldaram-se e tinham as pupilas mais dilatadas. Via a ponta da língua entre os lábios afastados e ele sabia que, se pusesse as mãos nos seios magníficos, teria os mamilos endurecidos.

Soltou-a e cruzou os braços.

– Um…

Amy levou uma mão à boca e ao queixo.

– Dois…

Engoliu em seco sem parar de olhar para ele e ele quase conseguia sentir o seu desejo.

– Três… E quatro…

Ela virou-se e foi a correr para a porta.

– Uma semana! – exclamou ele.

Estava a meio da divisória e não deu nenhum indício de o ter ouvido, mas ele sabia que ouvira perfeitamente.

– Dentro de uma semana, matakia mou, estarás na minha cama outra vez, garanto-te.

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Data wydania na Litres:
22 lipca 2024
Objętość:
151 str. 3 ilustracji
ISBN:
9788413755281
Tłumacz:
Fátima Tomás Da Silva
Właściciel praw:
Bookwire
Format pobierania:

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