Czytaj książkę: «A herdeira e o amor»

Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2018 Lynne Graham
© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
A herdeira e o amor, n.º 1851 - março 2021
Título original: The Italian’s Inherited Mistress
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1375-478-9
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
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Capítulo 1
– Isso é impossível. Não acredito! – Alissandru Rossetti saltou da sua cadeira a meio da leitura do testamento do seu irmão, cheio de incredulidade ultrajada. – Porque é que o Paulu haveria de deixar alguma coisa a essa ordinária? – perguntou, a ninguém em particular.
Por sorte, os únicos presentes eram a mãe, Constantia, e o advogado da família, Marco Morelli, pois todas as tentativas de contactar a beneficiária principal do testamento tinham sido infrutíferas. Perturbado com aquela palavra reveladora, «principal», Alissandru limitara-se a franzir o sobrolho, pensando que era muito próprio do seu falecido irmão Paulu ter deixado os seus bens terrestres a alguma ONG. Afinal de contas, a sua esposa Tania e ele tinham morrido juntos e não tinham filhos, e ele, Alissandru, o irmão gémeo, não precisava de herdar, pois não só era o gémeo mais velho e dono da quinta familiar da Sicília, como também multimilionário por direito próprio.
– Respira fundo, Alissandru – pediu Constantia, que conhecia bem o temperamento fogoso do filho. – O Paulu tinha o direito de deixar os seus bens a quem quisesse e não sabemos se a irmã da Tania merece ser tratada de forma tão desagradável.
Alissandru passeava pelo escritório pequeno, um comportamento que era, claramente, de intimidação num espaço confinado, visto que media mais de um metro e noventa de estatura e, vestido com um dos fatos pretos e elegantes que gostava de usar, tinha uma figura forte e poderosa. Aquela cor funerária fizera-o ganhar a alcunha de «O Corvo» na City de Londres, onde os seus instintos agressivos nos negócios eram famosos, como correspondia a um empresário que se destacava no campo da nova tecnologia. Passeando pelo escritório, fazia o advogado pensar num tigre fechado numa jaula.
«Não sabemos se merece ser tratada de forma tão desagradável?», pensou, ultrajado, recordando Isla Stewart, a adolescente ruiva que conhecera no casamento do irmão há seis anos. Com apenas dezasseis anos, vestia uma roupa sexualmente provocadora e exibia as suas curvas jovens e as suas pernas bem torneadas numa oferta claramente sexual ao melhor licitador. E, nesse mesmo dia, mais tarde, vira-a a sair de um dos quartos com a roupa amarrotada, só um instante antes de um dos primos dele sair do mesmo quarto, abotoando os punhos da camisa e ajeitando o cabelo. Obviamente, Isla era tal como a irmã Tania, uma mulher descarada, lasciva e desonesta.
– Não sabia que o Paulu mantinha o contacto com a irmã da Tania – admitiu, cortante. – Sem dúvida, enganou-o tão facilmente como a irmã e encontrou um lugar no seu coração mole.
Falava com uma dor muito real, porque amara muito o irmão e ainda, seis semanas depois do acidente de helicóptero que arrebatara a vida a Paulu e a Tania, lhe custava acreditar que nunca mais voltaria a falar com ele. Pior ainda, não conseguia esquecer a culpa de saber que não conseguira proteger o irmão da bruxa intriguista que era Tania Stewart. Infelizmente, os últimos anos de Paulu tinham sido muito infelizes, mas recusara-se a divorciar-se da modelo vil de roupa interior com quem se casara com tanta pressa, achando que estava grávida, só que, «surpresa, surpresa», pensou Alissandru, com cinismo, fora um falso alarme.
Tania continuara a destruir a vida do irmão com o seu esbanjamento constante, as suas birras ardilosas e, finalmente, com a sua infidelidade. No entanto, durante todos esses excessos, Paulu continuara a adorá-la como se fosse uma deusa. Porque, infelizmente para ele, o irmão fora uma alma gentil, uma pessoa carinhosa, leal e comprometida. Muito diferente de Alissandru em todos os sentidos, como a noite e o dia. E, no entanto, Alissandru valorizara muito aquelas diferenças e confiara em Paulu como nunca confiara em nenhuma outra pessoa. E embora o enfurecesse pensar que outra mulher Stewart conseguira enganar e manipular o irmão e fazê-lo deixar um testamento assim, também havia uma parte dele que se sentia traída por Paulu.
Afinal de contas, ele sabia o que a quinta familiar significava para Alissandru e, no entanto, deixara a casa dentro dessa quinta e todo o seu dinheiro à irmã de Tania. Um presente grande para a rapariga e uma bofetada para Alissandru, embora soubesse que Paulu teria cortado a mão antes de o magoar. E, em honra da verdade, nunca teria imaginado que um acidente trágico podia acabar ao mesmo tempo com a sua vida e com a da sua esposa e, assim, limpar o caminho para que a cunhada herdasse o que nunca devia ter sido dela.
– O Paulu visitou a Isla várias vezes em Londres durante a etapa em que… – Constantia hesitou, escolhendo as palavras com tato. – Em que a Tania e ele estiveram separados. Gostava dessa rapariga.
– Nunca me disse isso! – exclamou Alissandru, com os olhos brilhantes e muita tensão nos seus traços morenos. Não queria imaginar que outra mulher Stewart conseguira impressionar o irmão com um encanto sedutor com que só tencionava procurar benefícios. Paulu sempre fora muito fraco com as histórias lacrimogéneas.
Alissandru nunca fora tão tolo. Gostava de mulheres, mas elas amavam-no e perseguiam-no como uma raça rara porque era rico e solteiro. Quando era mais jovem, ouvira muitas histórias lacrimogéneas e, algumas vezes, levado pela inexperiência, caíra na armadilha, mas já há anos que não era tão ingénuo ou imprudente. Escolhia as suas amantes entre mulheres do seu estrato social. As mulheres com dinheiro próprio ou carreiras muito exigentes eram a melhor aposta para o tipo de aventuras passageiras em que se especializou. Compreendiam que não estava pronto para criar raízes e praticavam a mesma discrição que ele.
– Sabendo o que pensavas da Tania, não é de estranhar que o Paulu não te dissesse – comentou a mãe, com gentileza. – O que vais fazer?
– Comprar a casa do Paulu. Que outra coisa posso fazer? – perguntou Alissandru.
Encolheu os ombros com raiva devido à perspetiva de ter de enriquecer outra mulher Stewart. Quantas vezes pagara as dívidas de Tania para proteger o irmão das exigências insaciáveis da esposa? Mas que outra coisa podia fazer? Tania estava morta e enterrada e a irmã nem sequer se incomodara em ir ao funeral. Todas as tentativas de a contactar na sua última morada conhecida tinham sido infrutíferas. Isso já dizia tudo sobre o vínculo fraco que havia entre as irmãs, não era?
– Temos de encontrar a maninha da Tania – disse, num tom leve de ameaça.
Isla soprou para os dedos congelados. O vento arrefecia-lhe o rosto por baixo do gorro enquanto dava rapidamente de comer às galinhas e apanhava os ovos. Pensou, corajosa, que teria de fazer confeitaria para os gastar e, depois, sentiu-se culpada por pensar assim quando a única irmã e o cunhado estavam mortos.
E, pior ainda, ela não teria sabido o que acontecera se não fosse porque um vizinho amável fora à casa na semana anterior para lhe dar a trágica notícia pessoalmente. Os tios, os donos da quinta nas Terras Altas da Escócia em que Isla estava, tinham ido visitar a família da tia na Nova Zelândia, tinham lido na Internet a notícia das mortes de Tania e Paulu num acidente de helicóptero e tinham ligado imediatamente para os vizinhos para que perguntassem a Isla se queria que voltassem para casa para que ela pudesse viajar para Itália.
Porém, que sentido teria essa viagem se já perdera os funerais? Era muito triste nunca ter chegado a conhecer a própria irmã. Tinham sido criadas separadas e Tania era dez anos mais velha. Isla fora a filha não planeada e não muito bem-vinda, uma chegada tardia depois da morte prematura do pai. A mãe, Morag, que fazia o que podia para sobreviver, fora para Londres com Tania para procurar trabalho e deixara Isla ao cuidado da avó até que pudesse reunir-se com elas.
Infelizmente, essa reunião nunca acontecera. Isla crescera na mesma quinta das Terras Altas onde a mãe fora criada com os avós e estes tinham sido os seus verdadeiros pais para todos os efeitos. Morag ia lá de vez em quando no Natal e Isla tinha lembranças vagas de uma mulher de rosto suave e cabelo avermelhado encaracolado, como o dela, e de uma irmã loira muito mais alta que, já em adolescente, se transformara numa beleza clássica. Tania saíra de casa muito cedo para ser modelo e a mãe de Isla morrera não muito depois de uma doença renal de que padecia há muito tempo. De facto, a primeira vez que Isla comunicara diretamente com a irmã fora quando ligara para a quinta para a convidar para o seu casamento na Sicília.
A rapariga odiara que não convidasse também os seus avós, mas os idosos tinham insistido que fosse porque Tania se oferecia generosamente para lhe pagar a viagem. Como eram pessoas justas, também a tinham feito ver que Tania nunca tivera a oportunidade de conhecer nenhum deles e que, embora fossem parentes de sangue, na verdade, eram quase estranhos.
Isla ainda sentia vergonha ao recordar como se sentira deslocada naquele casamento luxuoso e cheio de convidados importantes e ricos e na experiência desagradável que tivera ao ver-se perseguida por um predador. Contudo, o pior de tudo fora que a ligação desejada com a única irmã não acontecera. Na verdade, a atitude que Tania tinha na vida escandalizara-a.
– Não, podes agradecer o convite ao Paulu – declarara Tania. – Disse que tinha de haver algum membro da minha família presente e pensei que uma adolescente era muito melhor do que os velhos aborrecidos da quinta de quem a mãe falava. Este casamento significa uma promoção social para mim e não quero que parentes pobres com sotaque escocês do campo diminuam o meu estatuto à frente dos nossos convidados.
Isla tentara não a julgar e decidira que a irmã se mostrava tão franca porque tivera uma educação liberal e muito menos antiquada do que a dela.
– Essa rapariga era desenfreada – dissera a avó, uma vez. – A tua mãe não conseguia controlá-la nem nunca era capaz de lhe dar tudo o que queria.
– Mas o que é que a Tania queria? – perguntara Isla, dececionada porque, depois do casamento, não houvera nenhuma menção de as irmãs voltarem a encontrar-se.
– O único sonho que teve foi ser rica e famosa. – A avó rira-se. – E, a julgar pelo casamento que descreveste, parece que essa carinha bonita lhe conseguiu o que queria.
No entanto, aquilo não era verdade. Isla recordou o seu encontro seguinte com a irmã vários anos depois, quando ela também se mudara para Londres. Os avós tinham morrido com poucas semanas de diferença e o tio encarregara-se da quinta. Pedira-lhe que ficasse com eles, mas, depois de ter passado meses a ajudar a avó a cuidar do avô doente e ainda muito triste com a perda de ambos, Isla considerara que tinha de sair da sua zona de conforto na quinta e procurar independência.
– O Paulu enganou-me – insistira Tania, com desdém, depois de anunciar que abandonara o marido e o lar conjugal. – Não pode dar-me o que prometeu. Não tem dinheiro suficiente.
E, pouco depois disso, Paulu fora visitar Isla no seu quarto humilde para lhe pedir conselho sobre a irmã irascível. Parecera-lhe um homem encantador, muito apaixonado por Tania e desesperado por fazer o que fosse preciso para a recuperar. Os olhos encheram-se de lágrimas ao pensar que, pelo menos, Paulu conseguira voltar para o amor da sua vida antes da morte de ambos. Recuperara essa felicidade antes de o destino ceifar brutalmente as suas vidas antes de tempo. Gostava de Paulu. De facto, começara a conhecê-lo muito melhor do que conhecia a própria irmã.
Seguira o seu conselho sobre como recuperar o interesse de Tania? Nunca saberia.
Alimentou o fogo que havia na cozinha confortável da quinta e tirou a roupa da rua com alívio. Adorava estar na quinta, mas sentia a falta da vida social com os seus amigos da cidade. Viver onde crescera significava que até ir ao cinema em Oban exigia planeamento e um percurso longo de automóvel. Contudo, dentro de mais algumas semanas, voltaria ao sul depois de cumprir a promessa feita aos seus tios. Eram encantadores, mas não tinham filhos e só podiam recorrer a ela para que tomasse conta da quinta. Há mais de vinte anos que a tia não ia à Nova Zelândia e Isla alegrara-se por a ajudar a realizar esse sonho, sobretudo, porque o pedido chegara no momento em que fechava o café onde trabalhava como empregada de mesa e a renda do seu quarto aumentava.
As ovelhas e galinhas dos tios não podiam cuidar delas próprias e muito menos no inverno ou quando se esperava mau tempo. Com nervosismo, olhou para o céu cinzento: Tinham anunciado nevadas fortes.
Sorriu quando viu o Puggle, o seu cão, a acomodar ousadamente o corpo pequeno ao lado do Shep, o pastor escocês velho e cada vez mais surdo do tio que o ajudara com as ovelhas. O Puggle adorava o calor, mas o bichinho era a aquisição menos prática que Isla alguma vez fizera. Certamente, tinham-no abandonado numa estrada próxima, pois aparecera a tremer e faminto na semana da chegada de Isla e ela não sabia como ia poder ficar com ele quando voltasse para Londres. Porém, com a sua forma de abanar a cauda, os seus olhos enormes e as suas orelhas ridiculamente grandes, já conseguira encontrar um espaço no seu coração. Tinha uma mistura de raças, com um toque de chihuahua e caniche porque tinha um pelo muito encaracolado atrás das orelhas, mas também tinha patas muito curtas e umas manchas irregulares, estranhas, brancas e pretas. Infelizmente, parecia que ninguém o procurava, porque avisara as autoridades e não tivera notícias.
Franziu o sobrolho ao ouvir o som forte de um helicóptero, porque as ovelhas odiavam os barulhos altos, mas sabia que os animais estavam a salvo no barracão grande que havia no prado, pois eram capazes de prever a temperatura tão bem como qualquer meteorologista. Minutos depois, quando preparava uma chávena de chá, assustou-a que o Puggle começasse a ladrar, segundos antes de alguém bater com força na porta de madeira maciça da casa.
Presumiu que seria o vizinho mais próximo do tio que, amavelmente, tentava tomar conta dela. Foi abrir a porta, mas chegou-se para trás, surpreendida.
Era Alissandru, o irmão gémeo de Paulu, o homem incrivelmente sensual e atraente que a deixara sem palavras da primeira vez que o vira quando era uma adolescente ingénua. Era inconcebível que estivesse à porta da quinta, com o cabelo preto despenteado pelo vento e os seus olhos escuros a iluminar uns traços clássicos e bronzeados por um clima mais quente. Já no casamento, Isla pensara que era um homem incrivelmente bonito, quando se mexia por lá como um vulcão prestes a rebentar, emanando uma emoção intensa e extraordinária. Recordou que Tania o odiava e que o culpava por tudo o que estava mal no seu casamento com Paulu.
Alissandru olhou para Isla, surpreendentemente vestida com calças de fato de treino e uma camisola larga e com os pés descalços, e decidiu imediatamente que era uma mulher que tinha problemas. Se não fosse assim, porque haveria de estar de volta à casa familiar no meio do nada? Uma explosão de caracóis ruivos caía-lhe pelos ombros e os seus olhos de um azul-violeta pareciam enormes por cima da porcelana perfeita da sua pele. Os seus lábios grossos e cor-de-rosa continuavam abertos de surpresa. Pensou que era outra beleza como a sua irmã diabólica e recusou-se a reagir ao impulso súbito de desejo que sentiu. Era um homem com as suas fraquezas físicas e responder a um rosto atraente e um cabelo bonito só provava que tinha uma libido saudável. Não tinha de se incomodar com isso.
– Alissandru? – perguntou ela, incrédula, duvidando de si própria devido à surpresa da chegada.
Nunca falara com ele, pois ignorara-a completamente no casamento.
– Posso entrar? – perguntou ele, imperioso, reprimindo um calafrio, apesar de usar um casaco preto de caxemira por cima do fato.
Isla recordou as suas maneiras e recuou.
– É claro. Claro que sim. Está muito frio, não está?
Alissandru olhou para o interior humilde, pouco impressionado com a divisão ampla que servia de cozinha, sala de jantar e sala de estar. Sim, definitivamente, não fora feita para viver num lugar assim. Certamente, algum homem enfeitiçara-a e afastara-a do seu lado sem hesitar. Tinha a certeza de que a notícia da herança a faria feliz e irritava-o ter de ser ele a contar-lhe.
– Ia fazer chá. Queres uma chávena? – perguntou ela, duvidosa.
Alissandru deitou a cabeça atraente para trás, o que tornou a sua altura ainda mais evidente, dado que o teto era muito baixo. Os seus olhos, aparentemente escuros, adquiriram um brilho dourado intenso com as luzes com que Isla combatia a escuridão invernal que, ali tão a norte, chegava tão cedo. Incapaz de resistir, olhou fixamente para ele, enfeitiçada por aqueles olhos incríveis, gloriosamente ladeados e acentuados por pestanas pretas. Virou rapidamente a atenção para a preparação do chá e, quando percebeu que ainda não lhe dera os pêsames, pensou que o aparecimento dele lhe paralisara os neurónios.
– Lamento muito a tua perda – murmurou, incomodada. – O Paulu era uma pessoa muito especial e gostava muito dele.
– Ah, sim? – Alissandru observou-a com atenção, com uns olhos que brilhavam como o sol no seu rosto moreno e atraente. Na sua posição e no seu tom, havia algo estranho. – Diz-me, quando começaste a ir para a cama com ele?
Isla ficou paralisada com a pergunta ofensiva.
– Como? – murmurou, fazendo o chá de costas para ele. Pensou que, certamente, ouvira mal.
– Perguntei-te quando começaste a ir para a cama com o meu irmão. Sinto muita curiosidade porque a culpa explicaria muitas coisas – repetiu Alissandru. Queria que ela se virasse porque desejava ver-lhe a cara.
– Culpa? – Ainda sem saber o que poderia ter trazido Alissandru Rossetti ali para a insultar daquele modo, Isla parou de fazer o chá e virou-se. – Pode saber-se do que falas? Como podes perguntar-me isso sobre o homem que estava casado com a minha irmã? – replicou, com o rosto vermelho de fúria e de vergonha.
Alissandru encolheu os ombros ao tirar o casaco pesado, que pendurou nas costas de uma cadeira na mesa da cozinha.
– Foi uma pergunta sincera. Naturalmente, sinto curiosidade e não posso perguntar ao Paulu.
Um tremor leve na sua voz revelou a Isla que realmente sofrera muito a perda do irmão gémeo, muito mais do que ela sofrera a de uma irmã que só vira um punhado de vezes. Alissandru Rossetti sofria e isso fez diminuir um pouco a fúria dela.
– Não sei porque pensas em fazer uma pergunta assim – admitiu, com mais calma, observando-o como se fosse um fogo de artifício sem explodir que ainda borbulhava perigosamente.
Paulu dissera-lhe, uma vez, que o irmão não conseguia compreender o seu amor por Tania porque nunca estivera apaixonado e carecia de profundidade emocional para se apaixonar, mas Isla não estava de acordo com isso. Via um homem muito volátil que fervia de emoção e cada faísca dos seus olhos extraordinários transmitia claramente essa realidade.
Estava ali de pé, por baixo da lâmpada nua do teto, com o cabelo preto azulado a brilhar como seda cara, os traços duros da sua cara da cor do bronze e sem fazer nada para esconder a força do seu queixo ou o ângulo do seu nariz aristocrático e arrogante e o indício de barba que escurecia a pele em redor da sua boca só servia para realçar ainda mais a sensualidade dos seus lábios cinzelados. Isla sentiu um calor novo, o que aumentou o seu desconforto.
Queria fazê-lo acreditar que não sabia nada do testamento? Achava que era tolo?
Alissandru ficou tenso. Odiava o papel em que as circunstâncias o tinham posto e endireitou os ombros com um desgosto instintivo.
– Fiz-te essa pergunta porque o Paulu deixou-te todas as suas posses no testamento.
Isla abriu a boca com incredulidade e olhou para ele durante vários segundos em silêncio até ser capaz de falar.
– Não, isso não é possível – gaguejou. – Porque haveria de fazer isso? Isso seria uma loucura.
Alissandru arqueou uma sobrancelha cor de ébano.
– Continuas a dizer que não foste para a cama com ele quando ia visitar-te quando estava separado da Tania? Só um puritano te condenaria por tirares as cuecas naquele ponto, quando ele era quase um homem livre legalmente.
Isla reagiu finalmente com aquelas palavras profundamente ofensivas. Aproximou-se da porta e abriu-a, o que causou a entrada de uma rajada de ar gelado que fez Alissandru Rossetti tremer.
– Fora! – gritou, com ferocidade. – Vai-te embora daqui e não voltes a aproximar-te de mim!
Alissandru desatou a rir-se.
– Isso, vamos tirar as luvas e ver a verdadeira Isla Stewart.
O Puggle resmungava num tom baixo e dava voltas aos pés de Alissandru, que não lhe fazia caso.
– Fora! – repetiu Isla, com energia e com os seus olhos azuis cheios de fúria.
Ele, sem se mexer, observava-a com um regozijo cínico, como se visse uma peça de teatro entretida. Enlouquecida pela sua falta de reação, Isla agarrou no casaco elegante e atirou-o pela porta para o chão congelado da rua.
– Vai-te embora! – repetiu, com teimosia.
Alissandru encolheu os ombros com indiferença.
– Não tenho para onde ir até o helicóptero vir buscar-me dentro de uma hora – informou.
– Nesse caso, devias ter-te esforçado para ser um visitante educado. Já tive o suficiente por hoje – declarou ela, com energia. – És o homem mais odioso do mundo e, finalmente, começo a entender porque a minha irmã te odiava.
– Temos de envolver essa ordinária na conversa? – perguntou Alissandru, com tanta suavidade que Isla quase não ouviu a palavra.
E, nesse momento, perdeu a cabeça. A irmã morrera e ela lamentava profundamente que isso significasse que já não podia esperar ter a relação que sempre desejara ter com ela. A falta de respeito dele pela falecida era demasiado para a suportar e precipitou-se contra ele com intenção de o esbofetear, embora dois braços poderosos a impedissem.
– És um canalha… um canalha absoluto! – gritou, chorando. – Como te atreves a insultar a Tania assim quando está morta?
– Também lho disse na cara. O homem casado por quem deixou o Paulu não era o primeiro amante nem foi o último que teve durante o seu casamento – informou Alissandru. Soltou-a e afastou-a com firmeza, como se o repugnasse tê-la tão perto. – A Tania ia para a cama com outros homens com mais frequência do que com o marido. Não podes esperar que santifique a sua memória agora que morreu.
Isla empalideceu e afastou-se dele com desgosto. Seria verdade? Como podia saber? Tania sempre fizera o que queria, sem se importar com a moralidade ou a lealdade. Isla percebera isso na sua irmã e recusara-se a pensar demasiado porque preferira procurar semelhanças entre elas em vez de se concentrar em tudo o que as separava.
– Sei que o Paulu me teria dito – murmurou, com desespero.
– O Paulu não sabia tudo o que ela fazia, mas eu sabia. Não vi motivos para o humilhar com a verdade – confessou Alissandru, com dureza. – Sofreu o suficiente com ela e não queria aumentar ainda mais a agonia.
A raiva abandonou Isla. O que faziam a discutir por um casal com problemas quando ambos tinham morrido? Era uma loucura. Recordou que Alissandru sofria e que lhe causava amargura que o irmão tivesse precisado de Tania quando era evidente que, no seu lugar, a teria deixado à primeira oportunidade. Não era um homem indulgente, um homem que conseguisse ignorar a fragilidade moral dos outros.
– Pega no teu casaco – disse, com impaciência. – Vamos beber chá, mas, se quiseres ficar por baixo deste teto, não voltarás a insultar a minha irmã. Está claro? Tens a tua opinião sobre ela, mas eu tenho a minha e não permitirei que manches as poucas lembranças que tenho da Tania.
Alissandru observou o rosto sério dela. Tinha forma de coração e mostrava determinação e exasperação. Uma mulher nunca olhara para ele como ela fazia naquele momento. Como se estivesse farta dele e fosse a mais controlada e pragmática dos dois. Alissandru pegou no seu casaco. Afinal de contas, estava frio, mesmo dentro da casa.
Pensou que ela era uma criaturinha estranha. Não o seduzia nem o lisonjeava. E ele não bebia chá. Era siciliano. Bebia café do melhor e grappa da mais pura. Admitiu para si que era possível que tivesse sido mais indelicado do que era inteligente naquelas circunstâncias. Tinha muito mau feitio. Todos sabiam isso, mas ela não. Falava com ele como se fosse um menino furioso e incontrolável. Alissandru dirigiu-se da porta para o fogo, mas, pelo caminho, algo lhe mordeu o tornozelo e baixou-se com uma blasfémia siciliana para afastar o bichinho que lhe cravara os dentes na perna.
– Não! – gritou Isla. Aproximou-se para pegar no cão estranho, mas só depois de lhe pôr um dedo na boca para o fazer soltar a meia de seda de Alissandru e a carne por baixo. – O Puggle é apenas um cachorrinho, não sabe o que faz.
– Mordeu-me! – protestou Alissandru.
– Merecias. – Isla embalou o bichinho estranho contra o seu peito como se fosse um bebé. – Não te aproximes dele.
– Não gosto de cães – informou Alissandru, com secura.
A jovem lançou-lhe um olhar de irritação.
– Diz-me alguma coisa que me surpreenda – comentou.
O Puggle olhou para a sua vítima com os seus olhos escuros e grandes da segurança dos braços de Isla e Alissandru teria jurado que o animal sorria.
Capítulo 2
Contrariado, Alissandru sentou-se à mesa da cozinha, com o casaco vestido. O silêncio era incómodo, mas recusava-se a quebrá-lo. Não ajudava que nunca tivesse tido tanto frio nem que Isla continuasse a correr por ali descalça e, obviamente, muito mais habituada do que ele àquela temperatura. O seu corpo queria tiritar, mas ele, teimoso até à medula, reprimia rigorosamente esse impulso.
Observando os passos rápidos de Isla pela pequena zona da cozinha que ocupava metade daquela divisão claustrofóbica de teto baixo, surpreendeu-se a reparar nas curvas inesperadamente exuberantes que a roupa pouco lisonjeadora que usava deixava entrever. A irmã, Tania, era alta e magra como uma modelo, mas Isla era baixa e com curvas amplas no peito e nas ancas. Alissandru reconheceu para si que preferia esse tipo de mulheres e ficou rígido ao sentir que o seu corpo respondia a algo mais do que ao frio intenso.
Embora se esforçasse para a reprimir, a sua resposta não o surpreendeu porque Isla era bonita, embora com uma beleza muito menos atraente e muito mais natural do que as belezas que ele costumava conhecer. Não era uma mulher que pararia o trânsito, mas atraía a atenção de um homem para os ossos delicados da sua cara, a vivacidade dos seus olhos e a plenitude dos seus lábios, que inspiravam imagens eróticas aos homens. «A qualquer homem», recordou-se ele.
O telemóvel tocou naquele momento.
– Caramba! Tens rede! – exclamou Isla, surpreendida. – Tens sorte. Eu tenho de percorrer mais de um quilómetro para usar o meu telemóvel.
A chamada foi uma interrupção bem-vinda para Alissandru, pois tirou-o de um momento estranho de introspeção e de uns pensamentos que o irritavam. Levantou-se com um salto e atendeu com uma sensação de alívio por se ver novamente ligado ao seu mundo. Contudo, infelizmente, a chamada era para lhe dar uma má notícia e aproximou-se rapidamente da janela para olhar para os flocos de neve que já caíam e se agitavam com a força do vento.
– O helicóptero só pode vir buscar-me de manhã – informou, com irritação e impaciência. – Esta noite, há tempestade de neve.
– Ou seja, estás preso aqui – concluiu ela, pensando onde podia pô-lo.
Só havia um quarto com uma cama e não havia sofá nem nada que pudesse servir de substituto. Normalmente, quando ficava com os tios, pediam um sofá-cama velho emprestado ao vizinho e instalavam-no no andar de baixo para ela, mas como estava sozinha, dormia na cama deles.
– Há um hotel ou alguma coisa desse tipo por aqui? – perguntou ele.
– Receio que não – respondeu ela, com desinteresse. Deixou a chávena de chá dele ao lado da cadeira que acabara de abandonar. – Teríamos de conduzir quilómetros e poderíamos ficar presos no carro. Com um tempo assim, só saímos se for imprescindível.
Alissandru respirou fundo e passou a mão pelo cabelo.
– É culpa minha – resmungou, sombrio. – O piloto avisou-me, antes de se ir embora, das condições meteorológicas e do risco e não lhe fiz caso.
Isla cerrou os dentes com tato e privou-se de comentar que isso não a surpreendia. Alissandru Rossetti tinha uma personalidade muito poderosa e, provavelmente, raramente ouvia o conselho dos outros quando ia contra os seus desejos. Evidentemente, quisera ir vê-la naquele dia e não estivera disposto a esperar que houvesse condições melhores para viajar. E a sua impaciência saíra-lhe cara.
– Podes ficar aqui – ofereceu, com secura. – E de certeza que ambos adoramos essa perspetiva.
Nos olhos dele, apareceu uma faísca de regozijo, que os iluminou como uma tentação dourada. Ela questionou-se porque a natureza se teria incomodado em abençoá-lo com uns olhos tão bonitos quando, a maior parte do tempo, eram frios e duros. Afastou aquele pensamento estranho e tentou pensar no que podia descongelar para o jantar.
Alissandru voltou a sentar-se e levantou a sua chávena de chá, pensando que talvez tivesse sido melhor pedir café porque, para além dos problemas matrimoniais do irmão, nunca estivera numa posição em que se visse obrigado a fazer boa cara numa situação má. Provavelmente, era muito mimado no que dizia respeito ao luxo, pois a família Rossetti sempre fora rica. Era verdade que a sua habilidade para os negócios enriquecera muito mais os seus entes queridos, mas tivera de procurar várias gerações atrás para encontrar um antepassado que não tivesse conseguido pagar os luxos. O chá não era tão horrível como esperava e serviu para o aquecer um pouco.
– Onde vou dormir? – perguntou, com cortesia.
Isla levantou-se rapidamente.
– Anda, vou mostrar-te – disse, com desconforto. Começou a subir a escada pequena de caracol que havia num canto.
Alissandru olhou para as três portas que davam para um patamar minúsculo.
– Esta é a casa de banho – informou ela, abrindo uma das portas. – E é aqui que tens de dormir – acrescentou, com rigidez. Abriu um quarto que era maior do que ele esperava e tinha uma cama de casal, móveis antiquados e uma lareira.
– Onde vais dormir? – perguntou ele.
– Este é o único quarto – admitiu ela, esquivando a pergunta. – Antes, havia dois, mas o meu tio uniu-os quando descobriu que não podiam ter filhos. Não queria ter um quarto vazio ao lado que lhes recordasse esse facto.
O frio ártico do ar arrefecia a cara de Alissandru.
– Aqui, não há aquecimento – observou, interrogando-se como era possível que alguém pudesse viver assim em pleno inverno.
– Não, mas posso acender a lareira – ofereceu ela.
Mordeu o lábio inferior quando o viu a reprimir um calafrio e recordou o calor do clima da Sicília, que era tão alheio a ela como aquele frio extremo parecia ser-lhe.
– Agradeceria muito se o fizesses – comentou Alissandru, com uma humildade desconhecida nele.
Isla pensou no que significava trazer lenha e carvão pela escada, mas afastou-o da sua mente. Era um convidado e tinham-na educado na crença de que tinha de mimar os convidados sempre que fosse possível.
– Vou tomar um duche. Se houver água quente. – Alissandru observou-a com um ar interrogante. Começava a assimilar que não havia nada que pudesse presumir numa casa tão humilde.
– Há muita água quente – garantiu ela, mais corajosa. – Mas não tens bagagem, portanto, deixa-me ver se há alguma coisa do meu tio que possas usar – replicou, aproximando-se da cómoda situada ao lado da janela.
– Isso não será necessário – garantiu Alissandru, que odiava pensar em usar a roupa de outro homem.
– O meu tio não se importaria e é alto como tu – insistiu Isla, que interpretou mal a sua resposta e pensou que não queria causar problemas. Abriu várias gavetas e tirou umas calças de ganga desgastadas e uma camisola larga, que parecia ter vivido dias melhores antes da última Guerra Mundial. Deixou ambas as coisas na cama. – Estarás mais confortável com isto do que com esse fato. Vou para o andar de baixo para fazer o jantar.
– Obrigado – murmurou Alissandru. – Tendo em conta o que disse ao chegar, estás a ser surpreendentemente amável.
A jovem virou-se para olhar para ele.
– Parece-me que não pensas bem no que dizes – admitiu, com um sorriso espontâneo que iluminou o seu rosto como um amanhecer glorioso. – E estás completamente fora do teu ambiente, portanto, vou ser indulgente. Sentia-me igualmente deslocada na tua casa da Sicília.
– Achava que te tínhamos feito sentir bem-vinda.
Isla corou e ele observou-a, fascinado, e aproximou-se um pouco mais para a ver melhor.
– Claro que sim – disse ela. – Tinha um quarto maravilhoso e a comida era incrível – comentou, sabendo que se mostrara indelicada e muito consciente da proximidade dele. – Contudo, não era o meu mundo e estava como um peixe fora de água. Era a primeira vez que ia ao estrangeiro e nunca tinha visto uma casa como a vossa, exceto na televisão. Lá, era tudo desconhecido e um pouco… perturbador.
Alissandru observou a sua clavícula e desejou pôr a boca lá. Tinha a certeza de que o seu coração batia com força porque, naturalmente, reconhecia a tensão sexual que havia na atmosfera. «É claro que sim», pensou, com cinismo. Tinha vinte e dois anos e já não era uma adolescente precoce, mas uma mulher adulta em todos os sentidos da palavra. Com isso em mente, levantou uma mão para lhe tocar no queixo, olhou para os seus olhos azuis assustados e para o tom cor-de-rosa que lhe iluminava as faces de repente. Corava. Há quanto tempo não via uma mulher que corava? Certamente, era porque tinha uma pele muito branca e era controlada pelos mesmos pensamentos eróticos do que ele.
Estava quase certo de que aceitaria se lhe propusesse sexo. As mulheres aceitavam sempre. Não recordava quando fora a última vez que o tinham rejeitado e a química entre Isla Stewart e ele era indubitável. Não gostava disso, mas era o mesmo impulso poderoso que o excitava que mantinha a raça humana viva e era algo muito difícil de resistir para um homem não habituado a negar um desejo tão normal. Imaginou-a deitada na cama, em cima daquele edredão feio, muito branca, luxuriosa, corada e sardenta. O sexo seria um modo prático de aquecer e, de passagem, de desfrutar.
Baixou lentamente a cabeça para lhe dar tempo para se retirar. Mas Isla estava paralisada no sítio, perturbada com a tensão que sentia nos mamilos e com o calor que vibrava no centro do seu corpo. Sentira algo parecido com outros homens antes, mas a atração desaparecera no instante em que tinham tocado nela, o que a convencera de que tinha de ser a imaginação fértil das mulheres que explicava muitos encontros de que mais tarde se arrependiam. No entanto, naquele momento em que o seu instinto de conservação a urgia a afastar-se, a curiosidade mantinha-a ali porque, inexplicavelmente, queria saber se aconteceria o mesmo com ele.
Beijou-a na face e nas têmporas e tocou-lhe com os lábios de um modo exploratório.
– Se quiseres parar, diz-me agora – sussurrou.
Isla tremeu, presa por sensações que nunca conhecera, com o corpo aceso pelas carícias dele. O calor súbito na pélvis fê-la retorcer-se. E o cheiro dele tão perto… Como descrever aquele perfume evocador a virilidade que a fazia tremer?
– Fá-lo – ouviu-se dizer, com desejo. E surpreendeu-se com o som abafado da sua voz.
Alissandru beijou-a nos lábios com paixão e passou-lhe os braços pelo pescoço para segurar umas pernas que pareciam ter-se tornado de palha. Apertou-a contra ele com uma força que, ao princípio, a perturbou e, depois, a enfeitiçou. A língua dele entrou na sua boca, brincalhona, misturou-se com a dela e uma onda de sensações explodiu pelo seu corpo. Um gemido abafado brotou da sua garganta e ele afastou-se, tão excitado pelo barulho pequeno e rouco dela, que teve de parar um pouco.
– Preciso desse duche. Passei todo o dia a viajar, mia gioia – disse, num tom espesso e com os olhos dourados fixos no rosto corado e envergonhado dela. – Mas espero por esta noite com expectativa.
E desapareceu na casa de banho. Isla desceu as escadas a correr e olhou-se ao espelho da parede da cozinha, onde viu que tinha o cabelo transformado numa massa de caracóis de fogo e o rosto tão quente que podiam fritar-se ovos nele.
Porque o encorajara? Fora uma ideia estúpida, tendo em conta que ele tinha de passar a noite ali e era o tipo de homem habituado a sexo fácil e passageiro. No casamento, Tania dissera-lhe que Alissandru tinha muitas aventuras. No entanto, não podia negar que, quando tivera oportunidade, agarrara-se a essa oportunidade e a ele, desesperada por saber o que sentiria quando um homem tão sofisticado e com uma sensualidade de alta voltagem a beijasse. E, depois de ter descoberto, pensava que teria sido melhor não descobrir.
Sabia beijar bem, mas, é claro, não iriam mais além. Era irmã de Tania e, aparentemente, ele odiara tanto a irmã como ela o odiava. Não, não aconteceria mais nada. E enquanto o dizia assim, esforçava-se para que isso a aliviasse em vez de a dececionar. Como Tania dissera uma vez, precisava de sair para o mundo e criar uma vida, mas a irmã fora muito mais segura de si própria e muito mais experiente do que ela e até confessava abertamente que preferia a companhia dos homens à das mulheres.
Isla fora educada com valores vitorianos e isso não a ajudara a encaixar no mundo real. A maioria dos homens que conhecera esperava sexo na primeira noite e não gostara o suficiente dos que não tinham exigido sexo como se fosse um direito adquirido para experimentar. Em parte, também fora por causa da experiência negativa do seu primeiro encontro com os impulsos sexuais masculinos. Ainda recordava com desgosto o homem mais velho que a seguira até ao quarto de Tania na Sicília e a encurralara lá. Então, estava pouco preparada para lidar com um incidente assim e sentira-se assustada e enojada quando tentara tocar onde não devia. Esse episódio fizera com que, durante anos, ficasse nervosa quando estava a sós com homens.
No entanto, continuara virgem mais por falta de tentações do que por qualquer outra razão, esperando que, no fim, aparecesse o homem indicado. Contudo, a sua mente sabia muito bem que Alissandru Rossetti nunca seria esse homem. Odiara a irmã e era evidente que também estava predisposto contra ela. Era altamente improvável que quisesse uma relação com a irmã de Tania.
Para além de tudo o resto, ele não tinha relações. Não procurava uma mulher especial nem um compromisso. Não queria criar raízes. Isla fez uma careta mortificada e saiu para a neve e para o frio com o balde de carvão, gozando com a sua estupidez. Alissandru beijava-a uma vez e ela começava a lamentar que não pudessem ter futuro como casal. Que ridícula! Ele fugiria como o vento se descobrisse. A avó educara-a de um modo muito pouco em concordância com o mundo moderno e inculcara-lhe crenças que os outros tinham abandonado há muito.
Com impaciência, pensou que Alissandru seria o pior homem imaginável com quem começar a experimentar. Não. Acenderia a lareira no quarto, far-lhe-ia um jantar quente e passaria a noite a dormitar numa poltrona. Se contribuíra para que ele esperasse mais do que um beijo da sua parte, e tinha a certeza de que fora assim, deixaria claro que não ia acontecer nada. E, com a quantidade de opções que um homem como ele tinha, essa desilusão não lhe partiria o coração. De facto, era muito provável que só se tivesse insinuado porque era a única mulher disponível. Franziu o nariz. Os cuidados dele já não lhe pareciam tão lisonjeadores.
Levou brasas, carvão e lenha para cima e acendeu a lareira, ouvindo o barulho da água na casa de banho. Não restaria água quente para ela, pois, certamente, ele teria esvaziado a caldeira. O esquentador económico conseguia aquecer a água, mas Isla esforçava-se para não passar mais de dez minutos no duche.
Alissandru, que aquecera pela primeira vez desde que chegara ao norte congelado da Escócia, limpou-se vigorosamente com uma toalha e saiu para o patamar frio de cuecas. Entrou no quarto a toda a velocidade e as chamas quentes da lareira deram-lhe as boas-vindas. Na sua impaciência por aquecer, esqueceu-se de baixar a cabeça para esquivar as vigas do teto e bateu nelas. Gemeu, cambaleou um pouco no sítio e caiu como um tronco no chão de madeira.
Isla ouviu o barulho de algo pesado que caía no andar de cima e ficou imóvel por um instante. Pensando que Alissandru teria deixado cair alguma coisa, revirou os olhos e continuou a cortar legumes para o guisado que estava a fazer. Pelo menos, já saíra do duche e, quanto mais depressa pusesse a panela ao lume, mais depressa poderiam jantar.
O que teria deixado cair? Isla franziu a testa porque havia poucas coisas no quarto e nada que pudesse fazer um barulho de tal magnitude, a menos que fosse o armário ou a cómoda. Nervosa de repente, chamou-o da escada, mas não obteve resposta. Cerrou os dentes, subiu e, pela porta entreaberta, viu-o deitado de costas no chão. Estava nu, à exceção de umas cuecas pretas de algodão. Deixou escapar uma exclamação, correu para ele e ficou horrorizada ao ver que estava inconsciente. O que raios fizera?
Tocou-lhe num ombro e percebeu que estava muito frio, portanto, levantou-se com um salto e embrulhou-o com o edredão da cama. Depois de fazer isso, passou-lhe os dedos pelo cabelo com cuidado e sentiu a viscosidade suave do sangue e um galo. Respirou fundo e foi a correr para o andar de baixo para chamar o médico.
Infelizmente, o médico fora a outra casa, mas a esposa, uma mulher amável e pragmática que Isla conhecia desde criança, explicou-lhe como tinha de lidar com um paciente com um traumatismo craniano e o que podia esperar. Com falta de ar, Isla voltou para o lado de Alissandru e aliviou-a ver que mexia as pálpebras e parecia recuperar os sentidos.
– Alissandru? – murmurou.
Abriu os olhos e observou-a com o sobrolho franzido.
– O que se passou?
– Caíste. Acho que bateste com a cabeça em alguma coisa.
– Dói-me a cabeça – admitiu ele. Levantou a mão e tentou tocar-lhe. Estava claramente desorientado e trôpego e agarrou-lhe a mão antes de conseguir tocar no inchaço.
– Fica imóvel por um instante até conseguires orientar-te – pediu. – Vou buscar analgésicos assim que for seguro deixar-te sozinho.
Alissandru observou-a fixamente. O borrão do rosto ia adquirindo detalhes a pouco e pouco. Pestanejou porque, à luz das chamas, o seu cabelo parecia estar a arder. A massa de caracóis centelhava em cores diferentes que iam desde toda a gama de vermelhos até ao dourado. Os seus olhos azuis mostravam tanta ansiedade que depressa desejou tranquilizá-la.
– Estou bem – mentiu, instintivamente. – Porque estou no chão?
– Caíste – voltou a recordar-lhe, preocupada com a sua confusão. – Consegues mexer as pernas e os braços? Queremos saber se não há nada partido antes de tentar levantar-te.
– Queremos?
– Tu e eu, os dois – esclareceu ela. – Não sejas tolo. Pregaste-me um bom susto quando te vi aí deitado.
– Os braços e as pernas estão bem – confirmou Alissandru, mexendo o corpo poderoso com um gemido. – Mas a cabeça está a matar-me.
– Achas que consegues levantar-te? Estarias mais confortável na cama – indicou ela.
– Claro que consigo levantar-me – garantiu Alissandru. Mas não era tão fácil como pensava ou como Isla esperava, porque, assim que começou a endireitar-se, sentiu vómitos e a jovem teve de se esforçar para o segurar e para que não caísse.
No entanto, como pesava demasiado, apoiou-o na cama e ele abanou a cabeça como se quisesse ordená-la e murmurou alguma coisa em siciliano que ela suspeitava que era uma blasfémia.
– Sinto-me como se estivesse muito bêbado – reconheceu ele, contrariado. Agarrou-se ao colchão para se endireitar.
– Vais sentir-te melhor quando voltares a estar deitado – declarou Isla, que esperava ter razão e estava zangada consigo própria por não conseguir evitar reparar no corpo quase nu dele.
Contudo, Alissandru era um espetáculo, tendo em conta que ela nunca vira um homem nesse estado tão perto. Claro que vira homens de fato de banho na piscina, mas nunca sentira a tentação de olhar para eles, mas não conseguia desviar o olhar dos músculos abdominais e dos bíceps poderosos de Alissandru. Era porque o conhecia? Simples curiosidade feminina? Corou e aproximou-se para o ajudar a virar-se e a deitar-se na cama.
No entanto, o que parecia fácil não era tanto, porque, no seu medo de que ele voltasse a cair, acabou presa entre a cama e ele e conseguir fazer com que se deitasse no colchão requereu uma quantidade considerável de contacto físico que a deixou encharcada de suor e de vergonha. No fim, conseguiu deitá-lo, mas, então, já se sentia dolorosamente consciente da excitação que tanto toque físico causara nele. Pegou no edredão que continuava no chão e pô-lo por cima dele com alívio.
– Agora, fica assim e não te mexas. E também não toques na cabeça – indicou. – Vou ao andar de baixo buscar analgésicos e o estojo de primeiros socorros.
Alissandru sorriu, enjoado.
– És uma mandona, não és?
– Reajo bem nas crises e isto é uma crise, ainda que, se não fosse pela esposa do doutor McKinney, não tivesse sabido o que fazer contigo – admitiu Isla, culpada. – Assim que tiver oportunidade, farei um desses cursos de primeiros socorros que são tão populares agora.
– Vou ficar bem – afirmou ele, impressionado com a preocupação genuína dela.
Tania ter-lhe-ia dado um pontapé, aproveitando que estava no chão, e ter-se-ia aproveitado da sua vulnerabilidade como pudesse, mas o único objetivo de Isla era cuidar dele o melhor possível. Apoiou a cabeça dorida na almofada e reprimiu um gemido. Sentia-se preso e sabia que nem sequer era capaz de se levantar sozinho. Além disso, tinha a visão desfocada, embora começasse a recuperar a perspetiva normal a pouco e pouco. Devia ter dito a Isla que estudara medicina durante quatro anos antes de a morte do pai o obrigar a deixar a universidade. Naquele momento, nem o irmão nem a mãe estavam em situação de aceitar o controlo dos negócios familiares. Alissandru tivera de intervir e de se encarregar de tudo e se, naquele momento, odiara ter de renunciar ao seu sonho de se tornar médico, depois aprendera a amar o mundo dos negócios e a desfrutar do canto de sereia de novas tecnologias em que valia a pena investir.
Isla voltou com um copo de água e alguns comprimidos.
– Não sei se ajudarão – disse, com pena, tentando pôr-lhe almofadas atrás para o ajudar a sentar-se.
– Vão ajudar com a dor. – Alissandru bebeu a água toda e voltou a deitar-se. – Quero dormir, mas sei que não devo dormir muito tempo.
– Não sabia até a esposa do médico me dizer que tenho de estar atenta a ti e acordar-te se for necessário para ver se pioraste. Contudo, se o helicóptero não pôde vir buscar-te esta tarde, não sei como os serviços de emergência vão chegar – comentou. – Levanta a cabeça.
Isla ajoelhou-se ao seu lado e passou os dedos pelo seu cabelo sedoso com cuidado. Limpou o sangue até conseguir ver o corte e traçar o inchaço com os dedos.
– Não parece que precise de pontos, mas continua a sangrar um pouco. Podes ter partido a cabeça. Tenta não te mexer. Vou ver como está o jantar e já volto a subir.
– Não podes apagar a luz? – perguntou ele. – Magoa-me os olhos.
Isla apagou o candeeiro da mesa de cabeceira e alimentou o fogo da lareira para que continuasse a arder. Antes de sair da divisão, olhou novamente para ele e viu que os seus olhos escuros refletiam o calor dourado do fogo. Estava imóvel e a sua energia inata parecia ter desaparecido.
Verificou a panela que estava ao lume e preparou uma bandeja. Depois, subiu novamente para ver Alissandru, que encontrou acordado a olhar para o fogo.
– Supostamente, tenho de te fazer perguntas estúpidas como que dia é hoje e quem é o primeiro-ministro – comentou ela.
Alissandru deu-lhe as respostas imediatamente.
– Não se passa nada com o meu cérebro – disse. – Só funciona mais lentamente do que de costume. – Esticou o braço e deu umas palmadas no lado vazio da cama. – Vem sentar-te e faz-me companhia. Fala-me do Paulu e de ti.
Isla ficou rígida e ficou onde estava. Recordava a herança que ele mencionara e era incómodo pensar que o seu falecido cunhado lhe deixara alguma coisa.
– Éramos amigos. Quando a Tania e ele estavam separados, veio visitar-me várias vezes para falar dela, embora eu não pudesse dizer-lhe grande coisa porque não a conhecia muito bem – explicou, num tom tenso. – Gostava muito do teu irmão, mas garanto-te que não houve nada sexual entre nós.
Alissandru levantou a cabeça maltratada da almofada e encolheu os ombros.
– Se houvesse, isso explicaria muitas coisas – comentou.
– Não houve – insistiu Isla.
– Não tenciono desculpar-me – avisou ele. – Era natural que suspeitasse.
A jovem cerrou os dentes e reprimiu um comentário brusco sobre a sua falta de fé no comportamento da família e o tipo de pessoas que devia conhecer para albergar suspeitas tão sórdidas. Era um homem duro e desconfiado e ela não ia mudar isso se discutisse com ele.
– O Paulu nunca teria sido infiel à minha irmã.
Alissandru cerrou os dentes.
– É uma pena.
– Trago-te o jantar quando estiver pronto – anunciou ela. Tirou roupa limpa da armário que havia no patamar e entrou na casa de banho para tomar banho.
Custava-lhe muito não responder aos comentários mordazes de Alissandru, mas estava decidida a não voltar a perder a cabeça com ele. Assustara-a perder a cabeça quando se precipitara sobre ele para tentar esbofeteá-lo. Dava ênfase a um lado dela de que não gostava. Era assustador perder o controlo desse modo.
Limpou-se com uma toalha e vestiu um fato de treino com pele de novilho que também podia servir de pijama nas noites mais frias. Era cinzento, assexuado e pouco revelador. Em qualquer caso, estava convencida de que o acidente de Alissandru fizera desaparecer qualquer expectativa luxuriosa que pudesse ter despertado nele ao responder ao beijo. Por sorte, já estavam para além desse nível, embora não entendesse porque isso lhe causava uma pontada de desilusão.
Só invejara Tania uma vez e fora quando percebera como Paulu a amava, apesar das suas extravagâncias. A irmã, habituada a ter sucesso com os homens, limitava-se a aceitar a devoção do marido como algo que lhe correspondia por direito.
Porém, nunca ninguém amara Isla desse modo.
Tania fora o braço direito da mãe, mas Isla mal conhecera a progenitora e o pai morrera antes de ela nascer. Os avós tinham sido bons e carinhosos, mas sempre se sentira consciente de que era um fardo e um gasto para dois reformados, que tinham trabalhado arduamente durante toda a sua vida com muito poucas recompensas materiais.
O interesse momentâneo de Alissandru despertara a sua imaginação e enchera o seu corpo de uma energia nova, pois esse beijo fora o mais excitante que alguma vez lhe acontecera. E não era patético?
Darmowy fragment się skończył.