Czytaj książkę: «O Primo Bazilio: Episodio Domestico»

Czcionka:

Eça de Queirós

O Primo Bazilio: Episodio Domestico


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066412104

Índice de conteúdo

O PRIMO BAZILIO

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

XII

XIII

XV

XVI

XVII

XVIII

SEGUNDA EDIÇÃO, REVISTA



LIVRARIA INTERNACIONAL
DE


ERNESTO CHARDRON ERNESTO CHARDRON
Porto Braga

1888



Porto: 1878—Typ. do A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62




O PRIMO BAZILIO

Índice de conteúdo

I

Índice de conteúdo


Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltaire de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse:


—Tu não te vaes vestir, Luiza?


—Logo.


Ficára sentada á mesa, a lêr o Diario de Noticias, no seu roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soutache, com largos botões de madreperola; o cabello louro um pouco desmanchado, com um tom secco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pelle tinha a brancura tenra e lactea das louras: com o cotovêlo encostado á mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dous anneis de rubis miudinhos davam scintillações escarlates.


Tinham acabado d'almoçar.


A sala esteirada, alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um domingo: fazia um grande calor; as duas janellas estavam cerradas, mas sentia-se fóra o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silencio recolhido e somnolento de manhã de missa; uma vaga quebreira amollentava, trazia desejos de séstas, ou de sombras fôfas debaixo d'arvoredos, no campo, ao pé d'agua; nas duas gaiolas, entre as bambinellas de cretone azulado, os canarios dormiam; um zumbido monotono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chavenas sobre o assucar mal derretido, enchia toda a sala d'um rumor dormente.


Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa de chita, sem collete, o jaquetão de flanella azul aberto, os olhos no tecto, pôz-se a pensar na sua jornada ao Alemtejo. Era engenheiro de minas, no dia seguinte devia partir para Beja, para Evora, mais para o sul até S. Domingos; e aquella jornada, em julho, contrariava-o como uma interrupção, affligia-o como uma injustiça. Que massada por um verão d'aquelles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto d'um cavallo d'aluguel, por esses descampados do Alemtejo que não acabam nunca, cobertos d'um rastolho escuro, abafados n'um sol baço, onde os moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo cozido, ouvindo em redor, na escuridão da noite torrida, grunhir as varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janellas, passar no ar o bafo quente das queimadas! E só!


Tinha estado até então no ministerio, em commissão. Era a primeira vez que se separava de Luiza; e perdia-se já em saudades d'aquella salinha, que elle mesmo ajudára a forrar de papel novo nas vesperas do seu casamento, e onde, depois das felicidades da noite, os seus almoços se prolongavam em tão suaves preguiças!


E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se demorando, com uma ternura, n'aquelles moveis intimos, que eram do tempo da mamã: o velho guarda-louça envidraçado, com as pratas muito tratadas a gesso-cré, resplandecendo decorativamente; o velho painel a oleo, tão querido, que vira desde pequeno, onde apenas se percebiam, n'um fundo lascado, os tons avermelhados de cobre d'um bojo de cassarola e os rosados desbotados d'um mólho de rabanetes! Defronte, na outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido á moda de 1830, tinha a physionomia redonda, o olho luzidio, o beiço sensual; e sobre a sua casaca abotoada reluzia a commenda de Nossa Senhora da Conceição. Fôra um antigo empregado do ministerio da fazenda, muito divertido, grande tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mamã affirmava-lhe «que o retrato só lhe faltava fallar». Vivera sempre n'aquella casa com sua mãi. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz afilado, muito apprehensiva; bebia ao jantar agua quente; e ao voltar um dia do lausperenne da Graça, morrera de repente, sem um ai!


Physicamente Jorge nunca se parecera com ella. Fôra sempre robusto, d'habitos viris. Tinha os dentes admiraveis de seu pai, os seus hombros fortes.


De sua mãi herdára a placidez, o genio manso. Quando era estudante na Polytechnica, ás 8 horas recolhia-se, accendia o seu candieiro de latão, abria os seus compendios. Não frequentava botequins, nem fazia noitadas. Só duas vezes por semana, regularmente, ia vêr uma rapariguita costureira, a Euphrasia, que vivia ao Borratem, e nos dias em que o Brazileiro, o seu homem, ia jogar o boston ao club, recebia Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era engeitada, e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado d'uma pontinha de febre. Jorge achava-a romanesca, e censurava-lh'o. Elle, nunca fôra sentimental: os seus condiscipulos, que liam Alfred de Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe proseirão, burguez: Jorge ria; não lhe faltava um botão nas camisas, era muito escarolado, admirava Luiz Figuier, Bastiat e Castilho, tinha horror a dividas, e sentia-se feliz.


Quando sua mãi morreu, porém, começou a achar-se só: era no inverno, e o seu quarto nas trazeiras da casa, ao sul, um pouco desamparado, recebia as rajadas do vento na sua prolongação uivada e triste; sobretudo á noite, quando estava debruçado sobre o compendio, os pés no capacho, vinham-lhe melancolias languidas; estirava os braços, com o peito cheio d'um desejo; quereria enlaçar uma cinta fina e dôce, ouvir na casa o frou-frou d'um vestido! Decidiu casar. Conheceu Luiza, no verão, á noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos seus cabellos louros, pela sua maneira d'andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No inverno seguinte foi despachado, e casou. Sebastião, o seu intimo, o bom Sebastião, o Sebastiarrão, tinha dito, com uma oscillação grave da cabeça, esfregando vagarosamente as mãos:


—Casou no ar! casou um bocado no ar!


Mas Luiza, a Luizinha, sahiu muito boa dona de casa: tinha cuidados muito sympathicos nos seus arranjos; era aceada, alegre como um passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das caricias do macho: e aquelle serzinho louro e meigo veio dar á sua casa um encanto serio.


—É um anjinho cheio de dignidade!—dizia então Sebastião, o bom Sebastião, com a sua voz profunda de basso.


Estavam casados havia tres annos. Que bom que tinha sido! Elle proprio melhorára; achava-se mais intelligente, mais alegre... E recordando aquella existencia facil e dôce, soprava o fumo do charuto, a perna traçada, a alma dilatada, sentindo-se tão bem na vida como no seu jaquetão de flanella!


—Ah!—fez Luiza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo.


—Que é?


—É o primo Bazilio que chega!


E leu alto, logo:


«Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordeus, o snr. Bazilio de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. S. exc.a que, como é sabido, tinha partido para o Brazil, onde se diz reconstituira a sua fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o começo do anno passado. A sua volta á capital é um verdadeiro jubilo para os amigos de s. exc.a que são numerosos».


—E são!—disse Luiza, muito convencida.


—Estimo, coitado!—fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma da mão.—E vem com fortuna, hein?


—Parece.


Olhou os annuncios, bebeu um gole de chá, levantou-se, foi abrir uma das portadas da janella.


—Oh Jorge, que calor que lá vai fóra, santo Deus!—Batia as palpebras sob a radiação da luz crua e branca.


A sala, nas trazeiras da casa, dava para um terreno vago, cercado d'um taboado baixo, cheio d'hervas altas e d'uma vegetação d'acaso; aqui, alli, n'aquella verdura crestada do verão, largas pedras faiscavam, batidas do sol perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada no meio do terreno, estendia a sua grossa folhagem immovel, que, na brancura da luz, tinha os tons escuros do bronze. Para além eram as trazeiras d'outras casas, com varandas, roupas seccando em cannas, muros brancos de quintaes, arvores esguias. Uma vaga poeira embaciava, tornava espesso o ar luminoso.


—Cahem os passaros!—disse ella cerrando a janella.—Olha tu pelo Alemtejo, agora!


Veio encostar-se á voltaire de Jorge, passou-lhe lentamente a mão sobre o cabello preto e annelado. Jorge olhou-a, triste já da separação: os dous primeiros botões do seu roupão estavam desapertados; via-se o começo do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da camisa: muito castamente Jorge abotoou-lh'os.


—E os meus colletes brancos?—disse.


—Devem estar promptos.


Para se certificar chamou Juliana.


Houve um ruido domingueiro de saias engommadas, Juliana entrou, arranjando nervosamente o collar e o broche. Devia ter quarenta annos, era muitissimo magra. As feições, miudas, espremidas, tinham a amarellidão de tons baços das doenças de coração. Os olhos grandes, encovados, rolavam n'uma inquietação, n'uma curiosidade, raiados de sangue, entre palpebras sempre debruadas de vermelho. Usava uma cuia de retroz imitando tranças, que lhe fazia a cabeça enorme. Tinha um tic nas azas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto da roda, tufado pela gomma das saias—mostrava um pé pequeno, bonito, muito apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz.


Os colletes não estavam promptos, disse com uma voz muito lisboeta, não tivera tempo de os metter em gomma.


—Tanto lhe recommendei, Juliana!—disse Luiza.—Bem, vá. Veja como se arranja! Os colletes hão-de ficar á noite na mala!


E apenas ella sahiu:


—Estou a tomar odio a esta creatura, Jorge!


Ha dous mezes que a tinha em casa, e não se podera acostumar á sua fealdade, aos seus tregeitos, á maneira aflautada de dizer chapieu, tisoiras, de arrastar um pouco os rr, ao ruido dos seus tacões que tinham laminasinhas de metal: ao domingo, a cuia, o pretencioso do pé, as luvas de pellica preta arripiavam-lhe os nervos.


—Que antipathica!


Jorge ria:


—Coitada, é uma pobre de Christo!—E depois que engommadeira admiravel! No ministerio examinavam com espanto os seus peitilhos!—O Julião diz bem, eu não ando engommado, ando esmaltado! Não é sympathica, não, mas é aceada, é apropositada...


E levantando-se, com as mãos nos bolsos das suas largas calças de flanella:


—E, emfim, minha filha, a maneira como ella se portou na doença da tia Virginia... Foi um anjo para ella!—Repetiu com solemnidade:—De dia, de noite, foi um anjo para ella! Estamos-lhe em divida, minha filha!—E começou a enrolar um cigarro, com a physionomia muito séria.


Luiza, calada, fazia saltar com a pontinha da chinella a orla do roupão; e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, poz-se a dizer:


—Mas emfim, se eu embirro com ella, não me importa, posso bem mandal-a embora.


Jorge parou, e raspando um phosphoro na sola do sapato:


—Se eu consentir, minha rica. É que é uma questão de gratidão, para mim!


Ficaram calados. O cuco cantou meio dia.


—Bem, vou á vida—disse Jorge. Chegou-se ao pé d'ella, tomou-lhe a cabeça entre as mãos.


—Viborasinha!—murmurou, fitando-a muito meigamente.


Ella riu. Ergueu para elle os seus magnificos olhos castanhos, luminosos e meigos. Jorge enterneceu-se, poz-lhe sobre as palpebras dous beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice:


—Queres alguma cousa de fóra, amor?


Que não viesse muito tarde.


Ia deixar uns bilhetes, ia n'uma tipoia, era um pulo...


E sahiu, feliz, cantando com a sua boa voz de barytono:



Dio del oro,

Del mondo signor.

La la ra, la ra.


Luiza espreguiçou-se. Que sécca ter de se ir vestir! Desejaria estar n'uma banheira de marmore côr de rosa, em agua tepida, perfumada, e adormecer! Ou n'uma rede de sêda, com as janellas cerradas, embalar-se, ouvindo musica! Sacudiu a chinellinha: esteve a olhar muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como leite, com veias azues, pensando n'uma infinidade de cousinhas:—em meias de sêda que queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em tres guardanapos que a lavadeira perdera...


Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do pé descalço, foi buscar ao aparador por detraz d'uma compota um livro um pouco enxovalhado, veio estender-se na voltaire, quasi deitada, e, com o gesto acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou a lêr, toda interessada.


Era a Dama das Camelias. Lia muitos romances; tinha uma assignatura, na Baixa, ao mez. Em solteira, aos 18 annos, enthusiasmára-se por Walter-Scott e pela Escocia; desejára então viver n'um d'aquelles castellos escocezes, que teem sobre as ogivas os brazões da clan, mobilados com arcas gothicas e tropheus d'armas, forrados de largas tapecerias, onde estão bordadas legendas heroicas, que o vento do lago agita e faz viver: e amára Ervandálo, Morton e Ivanhoé, ternos e graves, tendo sobre o gorro a penna d'aguia, presa ao lado pelo cardo d'Escocia d'esmeraldas e diamantes. Mas agora era o moderno que a captivava, Paris, as suas mobilias, as suas sentimentalidades. Ria-se dos trovadores, exaltára-se por Mr. de Camors; e os homens ideaes appareciam-lhe de gravata branca, nas hombreiras das salas de baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixão, tendo palavras sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier: o seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia ennevoada: via-a alta e magra, com o seu longo chale de cachemira, os olhos negros cheios da avidez da paixão e dos ardores da tisica; nos nomes mesmo do livro—Julia Duprat, Armando, Prudencia, achava o sabor poetico d'uma vida intensamente amorosa; e todo aquelle destino se agitava, como n'uma musica triste, com ceias, noites delirantes, afflicções de dinheiro, e dias de melancolia no fundo d'um coupé, quando nas avenidas do Bois, sob um céo pardo e elegante, silenciosamente cahem as primeiras neves.


—Até logo, Zizi—gritou Jorge do corredor, ao sahir.


—Olha!


Elle veio, com a bengala debaixo do braço, apertando as luvas.


—Não appareças muito tarde, hein? Escuta, traze-me uns bolos do Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. Vê se passas pela madame François que me mande o chapéo. Escuta.


—Que mais, bom Deus?


—Ah! não! Era para ires pelo livreiro que me mande mais romances... Mas está fechado!




Foi com duas lagrimas a tremer-lhe nas palpebras que acabou as paginas da Dama das Camelias. E estendida na voltaire, com o livro cahido no regaço, fazendo recuar a pellicula das unhas, pôz-se a cantar baixinho, com ternura, a aria final da Traviata:



Addio, del passato...


Lembrou-lhe de repente a noticia do jornal, a chegada do primo Bazilio...


Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios.—Fôra o seu primeiro namoro, o primo Bazilio! Tinha ella então 18 annos! Ninguem o sabia, nem Jorge, nem Sebastião...


De resto fôra uma criancice: ella mesmo, ás vezes, ria, recordando as pieguices ternas d'então, certas lagrimas exageradas! Devia estar mudado o primo Bazilio. Lembrava-se bem d'elle—alto, delgado, um ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e um geito de metter as mãos nos bolsos das calças fazendo tilintar o dinheiro e as chaves! Aquillo começára em Cintra, por grandes partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio João de Brito, em Collares. Bazilio tinha chegado então d'Inglaterra: vinha muito bife, usava gravatas escarlates passadas n'um annel d'ouro, fatos de flanella branca, espantava Cintra! Era na sala de baixo pintada a oca, que tinha um ar antigo e morgado; uma grande porta envidraçada abria para o jardim, sobre tres degraus de pedra. Em roda do repuxo havia romanzeiras, onde elle apanhava flôres escarlates. A folhagem verde-escura e polida dos arbustos de camelias fazia ruasinhas sombrias; pedaços de sol faiscavam, tremiam na agua do tanque; duas rôlas, n'uma gaiola de vime, arrulhavam dôcemente;—e, no silencio aldeão da quinta, o ruido secco das bolas de bilhar tinha um tom aristocratico.


Depois, vieram todos os episodios classicos dos amores lisboetas passados em Cintra: os passeios em Sitiaes ao luar, devagar, sobre a relva pallida, com grandes descanços calados no Penedo da Saudade, vendo o valle, as arêas ao longe, cheias d'uma luz saudosa, idealisadora e branca; as séstas quentes, nas sombras da Penha Verde, ouvindo o rumor fresco e gottejante das aguas que vão de pedra em pedra; as tardes na varzea de Collares, remando n'um velho bote, sobre a agua escura da sombra dos freixos,—e que risadas quando iam encalhar nas hervagens altas, e o seu chapéo de palha se prendia aos ramos baixos dos choupos!


Sempre gostára muito de Cintra! Logo ao entrar os arvoredos escuros e murmurosos do Ramalhão lhe davam uma melancolia feliz!


Tinham muita liberdade, ella e o primo Bazilio. A mamã, coitadinha, toda scismatica, com rheumatismo, egoista, deixava-os, sorria, dormitava: Bazilio era rico, então, chamava-lhe tia Jójó, trazia-lhe cartuchos de dôce...


Veio o inverno, e aquelle amor foi-se abrigar na velha sala forrada de papel sangue-de-boi da rua da Magdalena. Que bons serões alli! A mamã resonava baixo, com os pés embrulhados n'uma manta, o volume da Bibliotheca das Damas cahido sobre o regaço. E elles, muito chegados, muito felizes no sophá! O sophá! Quantas recordações! Era estreito e baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro, bordada por ella, amores perfeitos amarellos e roxos sobre um fundo negro. Um dia veio o final. João de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito, falliu. A casa d'Almada, a quinta de Collares foram vendidas.


Bazilio estava pobre, partiu para o Brazil. Que saudades! Passou os primeiros dias sentada no sophá querido, soluçando baixo, com a photographia d'elle entre as mãos. Vieram então os sobresaltos das cartas esperadas, os recados impacientes ao escriptorio da Companhia, quando os paquetes tardavam...


Passou um anno. Uma manhã, depois d'um grande silencio de Bazilio, recebeu da Bahia uma longa carta, que começava: «Tenho pensado muito e entendo que devemos considerar a nossa inclinação como uma criancice...»


Desmaiou logo. Bazilio affectava muita dôr em duas laudas cheias d'explicações: que estava ainda pobre; que teria de luctar muito antes de ter para dous; o clima era horrivel; não a queria sacrificar, pobre anjo; chamava-lhe minha «pomba» e assignava o seu nome todo, com uma firma complicada.


Viveu triste durante mezes. Era no inverno; e sentada á janella, por dentro dos vidros, com o seu bordado de lã, julgava-se desilludida, pensava no convento, seguindo com um olhar melancolico os guarda-chuvas gottejantes que passavam sob as cordas d'agua; ou sentando-se ao piano, ao anoitecer, cantava Soares de Passos:



Ai! adeus, acabaram-se os dias

Que ditoso vivi a teu lado...


ou o final da Traviata, ou o fado do Vimioso, muito triste, que elle lhe ensinára.


Mas então o catarrho da mamã aggravou-se; vieram os sustos, as noites veladas. Na convalescença foram para Bellas: ligou-se alli muito com as Cardosos, duas irmãs magras, estouvadas e esguias, sempre colladas uma á outra, com um passinho trotado e secco, como um casal de galgos. O que riam, Jesus! O que fallavam dos homens! Um tenente de artilheria tinha-se apaixonado por ella. Era vesgo, mandou-lhe uns versos, Ao Lyrio de Bellas:



Sobre a encosta da collina

Cresce o lyrio virginal...


Foi um tempo muito alegre, cheio de consolações.


Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas côres. E um dia, tendo achado n'uma gaveta uma photographia que logo ao principio Bazilio lhe mandára da Bahia, de calça branca e chapéo panamá, fitou-a, encolhendo os hombros:


—E o que eu me ralei por esta figura! Que tôla!


Tinham passado tres annos quando conheceu Jorge. Ao principio não lhe agradou. Não gostava dos homens barbados: depois percebeu que era a primeira barba, fina, rente, muito macia de certo; começou a admirar os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar, sentia ao pé d'elle como uma fraqueza, uma dependencia e uma quebreira, uma vontade d'adormecer encostada ao seu hombro, e de ficar assim muitos annos, confortavel, sem receio de nada. Que sensação quando elle lhe disse: Vamos casar, hein! Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios, sobre o mesmo travesseiro, ao pé do seu! Fez-se escarlate. Jorge tinha-lhe tomado a mão: ella sentia o calor d'aquella palma larga penetral-a, tomar posse d'ella: disse que sim, ficou como idiota, e sentia debaixo do vestido de merino dilatarem-se dôcemente os seus seios. Estava noiva, emfim! Que alegria, que descanço para a mamã!


Casaram ás oito horas, n'uma manhã de nevoeiro. Foi necessario accender luz para lhe pôr a corôa e o véo de tulle. Todo aquelle dia lhe apparecia como ennevoado, sem contornos, á maneira d'um sonho antigo—onde destacava a cara balofa e amarellada do padre, e a figura medonha d'uma velha, que estendia a mão adunca, com uma sofreguidão colerica, empurrando, rogando pragas, quando, á porta da igreja, Jorge commovido distribuia patacos. Os sapatos de setim apertavam-na. Sentira-se enjoada da madrugada, fôra necessario fazer-lhe chá verde muito forte. E tão cançada á noite n'aquella casa nova, depois de desfazer os seus bahus!—Quando Jorge apagou a véla, com um sopro tremulo, SS luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos olhos.


Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre: pôz-se a adoral-o. Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas cousas, mexia-lhe no cabello, na roupa, nas pistolas, nos papeis. Olhava muito para os maridos das outras, comparava, tinha orgulho n'elle. Jorge envolvia-a em delicadezas d'amante, ajoelhava-se aos seus pés, era muito dengueiro. E sempre de bom humor, com muita graça: mas nas cousas da sua profissão ou do seu brio tinha severidades exageradas, e punha então nas palavras, nos modos uma solemnidade carrancuda. Uma amiga d'ella romanesca, que via em tudo dramas, tinha-lhe dito: é homem para te dar uma punhalada. Ella que não conhecia ainda então o temperamento placido de Jorge acreditou, e isso mesmo creou uma exaltação no seu amor por elle. Era o seu tudo,—a sua força, o seu fim, o seu destino, a sua religião, o seu homem!—Pôz-se a pensar, o que teria succedido se tivesse casado com o primo Basilio. Que desgraça, hein! Onde estaria? Perdia-se em supposições d'outros destinos, que se desenrolavam, como pannos de theatro: via-se no Brazil, entre coqueiros, embalada n'uma rede, cercada de negrinhos, vendo voar papagaios!


—Está alli a snr.a D. Leopoldina—veio dizer Juliana.


Luiza ergueu-se surprehendida.


—Hein? A snr.a D. Leopoldina? Para que mandou entrar?


Poz-se a abotoar á pressa o roupão. Jesus! Olha se Jorge soubesse! Elle que lhe tinha dito tantas vezes «que a não queria em casa!» Mas se já estava na sala, agora, coitada!


—Está bom, diga-lhe que já vou.


Era a sua intima amiga. Tinham sido visinhas, em solteiras, na rua da Magdalena, e estudado no mesmo collegio, á Patriarchal, na Rita Pessoa, a côxa. Leopoldina era a filha unica do visconde de Quebraes, o devasso, o cachetico, que fôra pagem de D. Miguel. Tinha feito um casamento infeliz com um João Noronha, empregado da alfandega. Chamavam-lhe a «Quebraes»; chamavam-lhe tambem a «Pão e queijo».


Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vicios. Jorge odiava-a. E dissera muitas vezes a Luiza: Tudo, menos a Leopoldina!



Leopoldina tinha então vinte e sete annos. Não era alta, mas passava por ser a mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos muito collados, com uma justeza que accusava, modelava o corpo como uma pellica, sem largueza de roda, apanhados atraz. Dizia-se d'ella, com os olhos em alvo: é uma estatua, é uma Venus! Tinha hombros de modêlo, d'uma redondeza descahida e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas bellas metades de limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes de cintura faziam voltar os olhares accesos dos homens. A cara era um pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda; na pelle, muito fina, d'um trigueiro quente e córado, havia signaesinhos desvanecidos d'antigas bexigas. A sua belleza eram os olhos, d'uma negrura intensa, afogados n'um fluido, muito quebrados, com grandes pestanas.


Luiza veio para ella com os braços abertos, beijaram-se muito. E Leopoldina, sentada no sophá, enrolando devagarinho a sêda clara do guarda-sol, começou a queixar-se: Tinha estado adoentada, muito seccada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ella feito? Achava-a mais gorda.


Como era um pouco curta de vista, para se affirmar piscava ligeiramente os olhos, descerrando os beiços gordinhos, d'um vermelho calido.


—A felicidade dá tudo, até boas côres!—disse, sorrindo.


O que a trazia era perguntar-lhe a morada da franceza que lhe fazia os chapéos. E ha tanto tempo que a não via, já tinha saudades, tambem!


—Mas não imaginas! Que calor! Venho morta.


E deixou-se cahir sobre a almofada do sophá, encalmada, com um sorriso aberto, mostrando os dentes brancos e grandes.


Luiza disse-lhe a morada da franceza, gabou-lh'a; era barateira e tinha bom gosto. Como a sala estava escura foi entre-abrir um pouco as portadas da janella. Os estofos das cadeiras e as bambinellas eram de reps verde-escuro; o papel e o tapete com desenhos de ramagens tinham o mesmo tom, e n'aquella decoração sombria destacavam muito—as molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a Medea de Delacroix e a Martyr de Delaroche), as encadernações escarlates dos dois vastos volumes do Dante de G. Doré, e entre as janellas o oval d'um espelho onde se reflectia um napolitano de biscuit que, na console, dançava a tarantella.


Por cima do sophá pendia o retrato da mãi de Jorge, a oleo. Estava sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete espartilhado e secco: uma das mãos, d'um livido morto, pousava nos joelhos sobrecarregada d'anneis; a outra perdia-se entre as rendas muito trabalhadas d'um mantelete de setim; e aquella figura longa, macilenta, com grandes olhos carregados de negro, destacava sobre uma cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente quebradas, deixando vêr para além céos azulados e redondezas d'arvoredos.


—E teu marido?—perguntou Luiza, vindo sentar-se muito junto de Leopoldina.


—Como sempre. Pouco divertido—respondeu, rindo. E, com um ar serio, a testa um pouco franzida:—Sabes que acabei com o Mendonça?


Luiza fez-se ligeiramente vermelha.


—Sim?


Leopoldina deu logo detalhes.


Era muito indiscreta, fallava muito de si, das suas sensações, da sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luiza; e na sua necessidade de fazer confidencias, de gozar a admiração d'ella, descrevia-lhe os seus amantes, as opiniões d'elles, as maneiras d'amar, os tics, a roupa, com grandes exagerações! Aquillo era sempre muito picante, cochichado ao canto d'um sophá, entre risinhos: Luiza costumava escutar, toda interessada, as maçãs do rosto um pouco envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava tão curioso!


—D'esta vez é que bem posso dizer que me enganei, minha rica filha!—exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente.


Luiza riu.


—Tu enganas-te quasi sempre!


Era verdade! Era infeliz!


—Que queres tu? De cada vez imagino que é uma paixão, e de cada vez me sahe uma massada!


E picando o tapete com a ponta da sombrinha:


—Mas se um dia acerto!


—Vê se acertas—disse Luiza.—Já é tempo!


Ás vezes na sua consciencia achava Leopoldina «indecente»; mas tinha um fraco por ella: sempre admirára muito a belleza do seu corpo, que quasi lhe inspirava uma attracção physica. Depois desculpava-a: era tão infeliz com o marido! Ia atraz da Paixão, coitada! E aquella grande palavra, faiscante e mysteriosa, d'onde a felicidade escorre como a agua d'uma taça muito cheia, satisfazia Luiza como uma justificação sufficiente: quasi lhe parecia uma heroina; e olhava-a com espanto como se consideram os que chegam d'alguma viagem maravilhosa e difficil, d'episodios excitantes. Só não gostava de certo cheiro de tabaco misturado de feno, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava.


—E que fez elle, o Mendonça?


Leopoldina encolheu os hombros, com um grande tedio:


—Escreveu-me uma carta muito tôla, que a final bem considerado era melhor que acabasse tudo, porque não estava para se metter em camisa d'onze varas! Que imbecil! Até devo ter aqui a carta.


Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma carteirinha, chaves, uma caixinha de pó de arroz; mas encontrou apenas um programma do Price.


Fallou então do circo.—Uma semsaboria. O melhor era um rapaz que trabalhava no trapezio. Lindo rapaz, bem feito, uma perfeição!


E de repente:


—Então teu primo Bazilio chega?


—Assim li hoje no Diario de Noticias. Fiquei pasmada!


—Ah! outra cousa que te queria perguntar antes que me esqueça. Com que guarneceste tu aquelle teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer um assim.


Tinha-o guarnecido d'azul tambem, um azul mais escuro.—Vem vêr. Vem cá dentro.


Entraram no quarto. Luiza foi descerrar a janella, abrir o guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, muito fresco, com cretones d'um azul pallido. Tinha um tapete barato, de fundo branco, com desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre as duas janellas, sob um docel de renda grossa, muito ornado de frascos facetados. Entre as bambinellas, em mesas redondas de pé de gallo, plantas espessas, Begonias, Makoamas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e forte, em vasos de barro vermelho vidrado.

Aquelles arranjos confortaveis lembraram de certo a Leopoldina felicidades tranquillas. Pôz-se a dizer devagar, olhando em roda:

—E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, hein? Fazes bem, filha, tu é que fazes bem!

Foi defronte do toucador, applicar pó d'arroz no pescoço, nas faces:

—Tu é que fazes bem!—repetia—Mas vá lá uma mulher prender-se a um homem como o meu!

Sentou-se na causeuse com um ar muito abandonado; vieram as queixas habituaes sobre seu marido: era tão grosseiro! era tão egoista!

—Acreditarás que ha tempos para cá, se não estou em casa ás quatro horas, não espera, põe-se á mesa, janta, deixa-me os restos! E depois desleixado, enxovalhado, sempre a cuspir nas esteiras... O quarto d'elle—nós temos dous quartos, como tu sabes—é um chiqueiro!

Luiza disse com severidade:

—Que horror! A culpa tambem é tua.

—Minha!—e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos, mais negros.—Não me faltava mais nada senão occupar-me do quarto do homem!

Ah! era muito desgraçada, era a mulher mais desgraçada que havia no mundo!

—Nem ciumes tem, o bruto!

Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o collar e o broche:

—A senhora sempre quer que engomme os colletes todos?

—Todos, já lhe disse. Hão-de ficar á noite na mala antes de se ir deitar.

—Que mala? Quem parte?—perguntou Leopoldina.

—O Jorge. Vai ás minas, ao Alemtejo.

—Então estás só, posso vir vêr-te! Ainda bem!

E sentou-se logo ao pé d'ella, com um olhar que se fizera dôce.

—É que tenho tanto que te contar! Se tu soubesses, filha!

—O quê? Outra paixão?—fez Luiza rindo.

A face de Leopoldina tornou-se grave.

Não era p'ra rir. Estava de todo! Era por isso até que tinha vindo. Sentira-se tão só em casa, tão nervosa!—Vou até Luiza, vou palrar um bocado!

E com a voz mais baixa, quasi solemne:

—D'esta vez é serio, Luiza!—Deu os detalhes. Era um rapaz alto, louro, lindo! E que talento! É poeta!—Dizia a palavra com devoção, prolongando o som das syllabas.—É poeta!

Desapertou devagar dous botões do corpete, tirou do seio um papel dobrado. Eram versos.

E muito chegada para Luiza, com as narinas dilatadas pela delicia da sensação, leu baixo, com orgulho, com pompa:

A TI

Pharol da Guia, 5 de junho.

Quando scismo á hora do poente

Sobre os rochedos onde brame o mar...

Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplações em que a via a ella, Leopoldina, visão radiosa que deslisas leve, nas aguas dormentes, nas vermelhidões do occaso, na brancura das espumas. Era uma composição delambida, d'um sentimentalismo reles, com um ar tisico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E terminando dizia-lhe, que não era «nos esplendores das salas» ou nos «bailes febricitantes» que gostava de a vêr: era alli, n'aquelles rochedos,

Onde todos os dias ao sol posto

Eu vejo adormecer o mar gigante.

—Que bonito, hein!

Ficaram caladas, com uma commoçãosinha.

Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente:

—Pharol da Guia, 5 de junho!

Mas o relogio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo, atarantada, metteu o poema no seio.

Tinha de se ir já! Fazia-se tarde, senão o outro, punha-se á mesa. Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a cousa mais estupida!

—Adeus. Até breve, não?—E agora que Jorge ia para fóra, havia de vir muito.—Adeus. Então a franceza, rua do Ouro, por cima do estanque?

Luiza foi com ella até ao patamar. Leopoldina já no fundo da escada, ainda parou, gritou:

—Sempre te parece que guarneça o vestido d'azul, hein?

Luiza debruçou-se sobre o corrimão:

—Eu assim fiz, é o melhor...

—Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque.

—Sim. Rua do Ouro. Adeus.—E com um gritinho:—Porta á direita, Madame François.

Jorge voltou ás cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala a um canto:

—Já sei que tiveste cá uma visita.

Luiza voltou-se, um pouco córada. Estava diante do toucador já penteada, com um vestido de linho branco, guarnecido de rendas.

Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandára-a entrar... Ficára mais contrariada! Era por causa da adresse da franceza dos chapéos. Tinha-se demorado dez minutos.—Quem te disse?

—Foi a Juliana: que a snr.a D. Leopoldina tinha estado toda a tarde.

—Toda a tarde! que tolice, esteve dez minutos, se tanto!

Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se á janella, pôz-se a sacudir as duras folhas d'uma Begonia malhada d'um vermelho doente, com uma baba prateada. Assobiava baixo; e parecia todo occupado em conchegar um botão d'Amarilis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um pequenino coração assustado.

Luiza ia passando o seu medalhão d'ouro n'uma longa fita de velludo preto: tinha uma tremura nas mãos, estava vermelha.

—O calor tem-lhes feito mal—disse.

Jorge não respondeu. Assobiou mais alto, foi á outra janella, bateu com os dedos nas folhas elasticas d'uma Makoama de tons verdes e sanguineos, e, alargando impacientemente o collarinho como um homem suffocado:

—Ouve lá, é necessario que deixes por uma vez de receber essa creatura. É necessario acabar por uma vez!

Luiza fez-se escarlate.

—É por causa de ti! é por causa dos visinhos! é por causa da decencia!

—Mas foi a Juliana...—balbuciou Luiza.

—Mandasse-l'a sahir outra vez. Que estavas fóra! que estavas na China! que estavas doente!

Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braços:

—Minha rica filha, é que todo o mundo a conhece. É a Quebraes! É a Pão e queijo! É uma vergonha!

Citava-lhe os seus amantes, exasperado: O Carlos Viegas, o magro, de bigode cahido, que escrevia comedias para o Gymnasio! O Santos Madeira, o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um gingão desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar n'uma enorme boquilha! O Pedro Camara, o bonito! O Mendonça dos callos! Tutti quanti!

E encolhendo os hombros, exasperado:

—Como se eu não percebesse que ella esteve aqui! Só pelo cheiro! Este horrivel cheiro de feno! Vossês foram creadas juntas, etc., tudo isso é muito bom. Has-de desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a! Corro-a!

Parou um momento, e commovido:

—Ora, vamos, Luiza, confessa. Tenho ou não razão?

Luiza punha os brincos, ao espelho, atarantada:

—Tens—disse.

—Ah! bem!

E sahiu, furioso.

Luiza ficou immovel. Uma lagrimasinha redonda, clara, rolava-lhe pela aza do nariz. Assoou-se muito doloridamente. Aquella Juliana! Aquella bisbilhoteira! De má! Para fazer sizania!

Veio-lhe então uma colera. Foi ao quarto dos engommados, atirou com a porta:

—Para que foi vossê dizer quem esteve ou quem deixou d'estar?

Juliana, muito surprehendida, pousou o ferro:

—Pensei que não era segredo, minha senhora.

—Está claro que não! Tola! quem lhe diz que era segredo? E para que mandou entrar? Não lhe tenho dito muitas vezes que não recebo a snr.a D. Leopoldina?

—A senhora nunca me disse nada—replicou, toda offendida, cheia de verdade.

—Mente! Cale-se!

Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa, foi encostar-se á vidraça.

O sol desapparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde sem vento: pelas casas, de uma edificação velha, escuras, estavam abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha planta miseravel, manjaricão ou cravo; ouvia-se, no teclado melancolico d'um piano, a Oração de uma virgem, tocada por alguma menina, no sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janella, defronte, as quatro filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabellos muito riçados, as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a rua, para o ar, para as janellas visinhas, cochichando se viam passar um homem—ou debruçadas, com uma attenção idiota, faziam pingar saliva sobre as pedras da calçada.

Jorge tinha razão, coitado! pensava Luiza. Mas, tambem, que podia ella fazer? Já não ia a casa de Leopoldina, tirára o seu retrato do album da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe a repugnancia de Jorge, tinham chorado ambas, até! Coitada! Só a recebia de longe a longe, uma raridade, um momento! E emfim, depois d'ella estar na sala, não a havia d'ir empurrar pela escada abaixo!

Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, appareceu então ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; parou, poz-se a voltear a manivella, levantando em redor, para as janellas, um sorriso triste de dentes brancos, e a Casta Diva! com uma sonoridade metallica e secca, muito tremida, espalhou-se pela rua.

Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de mathematica, veio encostar logo aos caixilhos estreitos da janella a sua vasta face trigueira de quarentona farta e estabelecida; adiante, na sacada aberta d'um segundo andar, debruçou-se a figura do Cunha Rosado, magro e chupado, com um boné de borla, o aspecto desconsolado do doente d'intestinos, conchegando com as mãos transparentes o robe-de-chambre ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se entre as bambinellas de caça.

Na rua, a estanqueira chegou-se á porta, vestida de luto, estendendo o seu carão viuvo, os braços cruzados sobre o chale tingido de preto, esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa Azevedo, veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabello esguedelhado em repas seccas, a cara oleosa e enfarruscada, com tres pequenos meio nús, quasi negros, chorões e hirsutos, que se lhe penduravam da saia de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se até ao meio da rua; a pala de verniz do seu boné de pano preto nunca se erguia de cima dos olhos; escondia sempre as mãos, como para ser mais reservado, por traz das costas, debaixo das abas do seu casaco de cotim branco; o calcanhar sujo da meia sahia-lhe para fóra da chinella bordada a missanga; e fazia roncar o seu pigarro chronico de um modo despeitado. Detestava os reis e os padres. O estado das cousas publicas enfurecia-o. Assobiava frequentemente a Maria da Fonte; e mostrava-se nas suas palavras, nas suas attitudes, um patriota exasperado.

O homem do realejo tirou o seu largo chapéo desabado e, tocando sempre, ia-o estendendo em redor para as janellas, com um olhar necessitado. As Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraça. A carvoeira deu-lhe uma moeda de cobre; mas interrogou-o; quiz de certo saber de que paiz era, por que estradas tinha vindo, e quantas peças tinha o instrumento.

Gente endomingada começava a recolher, com um ar derreado do longo passeio, as botas empoeiradas: mulheres de chale, vindas das hortas, traziam ao collo as crianças adormecidas da caminhada e do calor: velhos placidos, de calça branca, o chapéo na mão, gozavam a frescura, dando um giro no bairro: pelas janellas, bocejava-se: o céo tomava uma côr azulada e polida, como uma porcelana: um sino repicava a distancia o fim d'alguma festa d'igreja: e o domingo terminava, com uma serenidade cançada e triste.

—Luiza—disse a voz de Jorge.

Ella voltou-se, com um vago—hein?

—Vamos jantar, filha; são sete horas.

No meio do quarto, tomou-a pela cinta, e fallando-lhe baixo, junto á face:

—Tu zangaste-te ha bocado?

—Não! Tu tens razão. Conheço que tens razão.

—Ah!—fez elle com um tom victorioso, muito satisfeito.—Está claro,

Quem melhor conselheiro e bom amigo

Que o marido que a alma m'escolheu?

E com uma ternura grave:

—Minha querida filha, esta nossa casinha é tão honesta, que é uma dôr d'alma vêr entrar essa mulher aqui, com o cheiro do feno, do cigarro, e do resto!... Mà, di questo no parlaremo più, o donna mia! Á sopa!

II

Índice de conteúdo

Aos domingos á noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma cavaqueira, na sala, em redor do velho candieiro de porcelana côr de rosa. Vinham apenas os intimos. «O Engenheiro», como se dizia na rua, vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era um pouco á estudante. Luiza fazia crochet, Jorge cachimbava.

O primeiro a chegar era Julião Zuzarte, um parente muito afastado de Jorge, e seu antigo condiscipulo nos primeiros annos da Polytechnica. Era um homem secco e nervoso, com lunetas azues, os cabellos compridos cahidos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escóla. Muito intelligente, estudava desesperadamente, mas, como elle dizia, era um tumba. Aos trinta annos, pobre, com dividas, sem clientella,

começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares de doze vintens, do seu paletot coçado d'alamares; e entalado na sua vida mesquinha, via os outros, os mediocres, os superficiaes, furar, subir, installar-se á larga na prosperidade! «Falta de chance», dizia. Podia ter aceitado um partido da camara n'uma villa da provincia, com pulso livre, ter uma casa sua, a sua creação no quintal. Mas tinha um orgulho resistente, muita fé nas suas faculdades, na sua sciencia, e não se queria ir enterrar n'uma terriola adormecida e lugubre, com tres ruas onde os porcos fossam. Toda a provincia o aterrava; via-se lá obscuro, jogando a manilha na Assembléa, morrendo de cachexia. Por isso não «arredava pé»; e esperava, com a tenacidade do plebeu sofrego, uma clientella rica, uma cadeira na Escóla, um coupé para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha certeza do seu direito a estas felicidades, e como ellas tardavam a chegar ia-se tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se prolongavam mais os seus silencios hostis, roendo as unhas: e, nos dias melhores, não cessava de ter ditos sêccos, tiradas azedadas—em que a sua voz desagradavel cahia como um gume gelado.

Luiza não gostava d'elle; achava-lhe um ar nordeste, detestava o seu tom de pedagogo, os reflexos negros da luneta, as calças curtas que mostravam o elastico roto das botas. Mas disfarçava, sorria-lhe, porque Jorge admirava-o, dizia sempre d'elle: Tem muito espirito! tem muito talento! grande homem!

Como vinha mais cedo ia á sala de jantar, tomava a sua chavena de café; e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador e para as toilettes frescas de Luiza. Aquelle parente, um mediocre, que vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no ministerio, com alguns contos de reis em inscripções—parecia-lhe uma injustiça e pezava-lhe como uma humilhação. Mas affectava estimal-o; ia sempre ás noites, aos domingos; escondia então as suas preoccupações, cavaqueava, tinha pilherias,—mettendo a cada momento os dedos pelos seus cabellos compridos, seccos e cheios de caspa.

Ás nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado. Tinha cincoenta annos, era muito nutrida, e, como soffria de dyspepsia e de gazes, áquella hora não se podia espartilhar e as suas fórmas transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabellos levemente annelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, d'uma alvura baça e molle de freira; nos olhos papudos, com a pelle já engelhada em redor, luzia uma pupilla negra e humida, muito mobil; e aos cantos da bocca uns pellos de buço pareciam traços leves e circumflexos d'uma penna muito fina. Fôra a intima amiga da mãi de Luiza, e tomára aquelle habito de vir vêr a pequena aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas de Redondella, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da Encarnação.

Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luiza, perguntava-lhe baixo, com inquietação:

—Vem?

—O conselheiro? Vem.

Luiza sabia-o. Porque o conselheiro, o conselheiro Accacio, nunca vinha aos chás de D. Luiza, como elle dizia, sem ter ido na vespera ao ministerio das obras publicas procurar Jorge, declarar-lhe com gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura:

—Jorge, meu amigo, ámanhã lá irei pedir a sua boa esposa a minha chavena de chá.

Ordinariamente acrescentava:

—E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro, os meus respeitos a s. exc.a Os meus respeitos a esse formoso talento!

E sahia, pisando com solemnidade os corredores enxovalhados.

Havia cinco annos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se um pouco com aquella chamma. Luiza dizia: Ora! é uma caturrice d'ella! Viam-na córada e nutrida, e não suspeitavam que aquelle sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silencio, a ia devastando como uma doença e desmoralisando como um vicio. Todos os seus ardores até ahi tinham sido inutilisados. Amára um official de lanceiros que morrêra, e apenas conservava o seu daguerreotypo. Depois apaixonára-se muito occultamente por um rapaz padeiro, da visinhança, e vira-o casar. Dera-se então toda a um cão, o Bilro; uma criada despedida deu-lhe por vingança rolha cozida; o Bilro rebentou, e tinha-o agora empalhado na sala de jantar. A pessoa do conselheiro viera de repente, um dia, pegar fogo áquelles desejos, sobrepostos como combustiveis antigos. Accacio tornára-se a sua mania: admirava a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua eloquencia, achava-o n'uma «linda posição». O conselheiro era a sua ambição e o seu vicio! Havia sobretudo n'elle uma belleza, cuja contemplação demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva. Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos homens, e aquelle appetite insatisfeito inflammára-se com a idade. Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, redonda, polida, brilhante ás luzes, uma transpiração anciosa humedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, avida de lhe deitar as mãos, palpal-a, sentir-lhe as fórmas, amassal-a, penetrar-se d'ella! Mas disfarçava, punha-se a fallar alto com um sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gottejava-lhe nas rôscas anafadas do pescoço. Ia para casa rezar estações, impunha-se penitencias de muitas corôas á Virgem; mas apenas as orações findavam, começava o temperamento a latejar. E a boa, a pobre D. Felicidade tinha agora pesadêlos lascivos, e as melancolias do hysterismo velho! A indifferença do conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum suspiro, nenhuma revelação amorosa o commovia! Era para com ella glacial e polido. Tinham-se ás vezes encontrado a sós, á parte, no vão favoravel d'uma janella, no isolamento mal alumiado d'um canto do sophá,—mas apenas ella fazia uma demonstração sentimental, elle erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico. Um dia ella julgára perceber que, por traz das suas lunetas escuras, o conselheiro lhe deitava de revés um olhar apreciador para a abundancia do seio; fôra mais clara, mais urgente, fallára em paixão, disse-lhe baixo: Accacio!... Mas elle com um gesto gelou-a—e de pé, grave:

—Minha senhora,

As neves que na fronte se accumulam

Terminam por cahir no coração...

É inutil, minha senhora!

O martyrio de D. Felicidade era muito occulto, muito disfarçado; ninguem o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, ignoravam-lhe as torturas do desejo. E um dia Luiza ficou attonita, sentindo D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mão humida, e dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro:

—Que regalo d'homem!

Fallava-se n'essa noite do Alemtejo, d'Evora e das suas riquezas, da capella dos ossos, quando o conselheiro entrou com o paletot no braço. Foi-o dobrar solicitamente n'uma cadeira a um canto, e no seu passo aprumado e official, veio apertar as mãos ambas de Luiza, dizendo-lhe com uma voz sonora, de papo:

—Minha boa snr.a D. Luiza, de perfeita saude, não? O nosso Jorge tinha-m'o dito. Ainda bem! Ainda bem!

Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado n'um collarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até á calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabellos que d'uma orelha á outra lhe faziam collar por traz da nuca—e aquelle preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho á calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, cahido aos cantos da bocca. Era muito pallido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do craneo.

Fôra, outr'ora, director geral do ministerio do reino, e sempre que dizia—El-rei! erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviaes; não dizia vomitar, fazia um gesto indicativo e empregava restituir. Dizia sempre «o nosso Garrett, o nosso Herculano». Citava muito. Era author. E sem familia, n'um terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado com a criada, occupava-se d'economia politica: tinha composto os Elementos genericos da sciencia da riqueza e sua distribuição, segundo os melhores authores, e como sub-titulo: Leituras do serão! Havia apenas mezes publicára a Relação de todos os ministros d'estado desde o grande marquez de pombal até nossos dias, com datas cuidadosamente averiguadas de seus nascimentos e obitos.

—Já esteve no Alemtejo, conselheiro?—perguntou-lhe Luiza.

—Nunca, minha senhora—e curvou-se.—Nunca! E tenho pena! sempre desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.

Tomou uma pitada d'uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa:

—De resto, paiz de grande riqueza suina!

—Ó Jorge, averigua quanto é o partido da camara em Evora—disse Julião do canto do sophá.

O conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa:

—Devem ser seiscentos mil reis, snr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o nos meus apontamentos. Porquê, snr. Zuzarte, quer deixar Lisboa?

—Talvez!...

Todos desapprovaram.

—Ah! Lisboa sempre é Lisboa!—suspirou D. Felicidade.

—Cidade de marmore e de granito, na phrase sublime do nosso grande historiador!—disse solemnemente o conselheiro.

E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados.

D. Felicidade disse então:

—Quem não era capaz de deixar Lisboa, nem á mão de Deus Padre, era o conselheiro!

O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ella, um pouco curvado, replicou:

—Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta d'alma!

—O conselheiro—lembrou Jorge—nasceu na rua de S. José.

—Numero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada áquella em que viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!

Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Accacio fôra o seu intimo. Eram visinhos. Accacio tocava então rebeca, e, como Geraldo tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo á Philarmonica da rua de S. José. Depois Accacio, quando entrou nas repartições do Estado, por escrupulo e por dignidade, abandonou a rebeca, os sentimentos ternos, os serões joviaes da Philarmonica. Entregou-se todo á estatistica. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquella amizade vigilante; fôra padrinho do seu casamento, vinha vêl-o todos os domingos, e, no dia de seus annos, mandava-lhe pontualmente, com uma carta de felicitações, uma lampreia d'ovos.

—Aqui nasci—repetiu, desdobrando o seu bello lenço de sêda da India—e aqui conto morrer.

E assoou-se discretamente.

—Isso ainda vem longe, conselheiro!

Elle disse, com uma melancolia grave:

—Não me arreceio d'ella, meu Jorge. Até já fiz construir, sem vacillar, no Alto de S. João, a minha ultima morada. Modesta, mas decente. É ao entrar, no arruamento á direita, n'um lugar abrigado, ao pé da choça dos Verissimos amigos.

—E já compoz o seu epitaphio, snr. conselheiro?—perguntou Julião, do canto, ironico.

—Não o quero, snr. Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios. Se os meus amigos, os meus patricios entenderem que eu fiz alguns serviços, teem outros meios para os commemorar; lá teem a imprensa, o communicado, o necrologio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero apenas sobre a lapide lisa, em letras negras, o meu nome—com a minha designação de conselheiro—a data do meu nascimento e a data do meu obito.

E com um tom demorado, de reflexão:

—Não me opponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores: Orai por elle!

Houve um silencio commovido, e á porta uma voz fina, disse:

—Dão licença?

—Oh Ernestinho!—exclamou Jorge.

Com um passo miudinho e rapido, Ernestinho veio abraçal-o pela cintura:

—Eu soube que tu que partias, primo Jorge... Como está, prima Luiza?

Era primo de Jorge. Pequenino, lymphatico, os seus membros franzinos, ainda quasi tenros, davam-lhe um aspecto debil de collegial; o buço, delgado, empastado em cêra-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com grandes laços de fita; sobre o collete branco, a cadêa do relogio sustentava um medalhão enorme, d'ouro, com fructos e flôres esmaltadas em relevo. Vivia com uma actrizita do Gymnasio, uma magra, côr de melão, com o cabello muito riçado, o ar tisico,—e escrevia para o theatro. Tinha traducções, dous originaes n'um acto, uma comedia em calembourgs. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra consideravel, um drama em cinco actos, a Honra e Paixão. Era a sua estreia séria. E desde então, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos inchados de manuscriptos, com localistas, com actores, muito prodigo de cafés e de cognacs, o chapéo ao lado, descórado, e dizendo a todos: Esta vida, mata-me! Escrevia todavia por paixão entranhada pela Arte—porque era empregado na alfandega, com bom vencimento, e tinha quinhentos mil reis de renda das suas inscripções. A Arte mesmo, dizia, obrigava-o a desembolsos: para o acto do baile da Honra e Paixão mandára fazer, á sua custa, botas de verniz para o galan, botas de verniz para o pai-nobre! O seu nome de familia era Ledesma.

Deram-lhe um lugar, e Luiza notou logo, pousando o bordado, que estava abatido! Queixou-se então das suas fadigas: os ensaios arrazavam-no, tinha turras com o empresario: na vespera, vira-se forçado a refazer todo o final d'um acto! todo!

—E tudo isto—acrescentou muito exaltado—porque é um pelintra, um parvo, e quer que se passe n'uma sala, o acto que se passava n'um abysmo!

—N'um quê?—perguntou surprehendida D. Felicidade.

O conselheiro, muito cortez, explicou:

—N'um abysmo, D. Felicidade, n'um despenhadeiro. Tambem se diz, em bom vernaculo, um vortice.—Citou: N'um espumoso vortice se arroja...

—N'um abysmo?—perguntaram.—Porquê?

O conselheiro quiz conhecer o lance.

Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo:—Era uma mulher casada. Em Cintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de Monte-Redondo. O marido arruinado, devia cem contos de reis ao jogo! Estava deshonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruinas acastelladas, onde habita o conde, deixa cahir o véo, conta-lhe a catastrophe. O conde lança o seu manto aos hombros, parte, chega no momento em que os beleguins vão levar o homem.—É uma scena muito commovente, dizia, é de noite, ao luar!—O conde desembuça-se, atira uma bolsa d'ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: Saciai-vos, abutres!...

—Bello final!—murmurou o conselheiro.

—Emfim—acrescentou Ernesto, resumindo—aqui ha um enredo complicado: o conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre, arremessa todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a esposa.

—Como?—perguntaram.

—Atira-a ao abysmo. É no quinto acto. O conde vê, corre, atira-se tambem. O marido cruza os braços, e dá uma gargalhada infernal. Foi assim que eu imaginei a cousa!

Calou-se, offegante: e, abanando-se com o lenço, rolava em redor os seus olhos langorosos, prateados como os d'um peixe morto.

—É uma obra de cunho, embatem-se grandes paixões!—disse o conselheiro, passando as mãos sobre a calva.—Os meus parabens, snr. Ledesma!

—Mas que quer o empresario?—perguntou Julião, que escutára de pé, attonito—que quer elle? Quer o abysmo n'um primeiro andar, mobilado pelo Gardé?

Ernestinho voltou-se, muito affectuosamente:

—Não, snr. Zuzarte,—a sua voz era quasi meiga—quer o desfecho n'uma sala. De modo que eu—e fazia um gesto resignado—a gente tem de condescender, tive d'escrever outro final. Passei a noite em claro. Tomei tres chavenas de café!...

O conselheiro acudiu, com a mão espalmada:

—Cuidado, snr. Ledesma, cuidado! Prudencia com esses excitantes! Por quem é, prudencia!

—A mim não me faz mal, snr. conselheiro—disse sorrindo.—Escrevi-o em tres horas! Venho de lh'o mostrar agora. Até o tenho aqui...

—Leia, snr. Ernesto, leia!—exclamou logo D. Felicidade.

Que lêsse! que lêsse! porque não lia?

Era uma massada!... Era um rascunho!... Emfim, como queriam!... E radiante desdobrou, no silencio, uma grande folha de papel azul pautado.

—Eu peço desculpa. Isto é um borrão. A cousa não está ainda com todos os FF e RR.—Fez então voz theatral:—Agatha!... É a mulher; isto aqui é a scena com o marido, o marido já sabe tudo...

agatha (cahindo de joelhos nos pés de Julio)

«Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que vêr, com esses desprezos, o coração rasgado fibra a fibra!»

julio

«E não me rasgaste tu tambem o coração? Tiveste tu piedade? Não. Retalhaste-m'o! Meu Deus, eu que a julgava pura, n'essas horas em que arrebatados...»

O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de chavenas. Era Juliana, d'avental branco, com o chá.

—Que pena!—exclamou Luiza.—Depois do chá se lê. Depois do chá.

Ernesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso:

—Não vale a pena, prima Luiza!

—Ora essa! É lindo!—affirmou D. Felicidade.

Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoutos d'Oeiras, os bolos do Cócó.

—Aqui tem o seu chá fraco, conselheiro—dizia Luiza.—Sirva-se, Julião. As torradas ao snr. Julião! Mais assucar! Quem quer? Uma torrada, conselheiro?

—Estou amplamente servido, minha prezada senhora—replicou, curvando-se.

E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o dialogo opulento.

Mas, perguntaram, o que quer o empresario mais agora? Já tem a sala...

Ernestinho, de pé, excitado, com um bolo d'ovos na ponta dos dedos, explicou:

—O que o empresario quer é que o marido lhe perdôe...

Foi um espanto:

—Ora essa! É extraordinario! Porque?

—Então!—exclamou Ernestinho, encolhendo os hombros,—diz que o publico que não gosta! Que não são cousas cá para o nosso paiz.

—A fallar a verdade—disse o conselheiro—a fallar a verdade, snr. Ledesma, o nosso publico não é geralmente affecto a scenas de sangue.

—Mas não ha sangue, snr. conselheiro!—protestava Ernestinho, erguendo-se sobre os bicos dos sapatos—mas não ha sangue! É com um tiro. É com um tiro pelas costas, snr. conselheiro!

Luiza fez a D. Felicidade—pst! e, n'um áparte, com um sorriso:

—D'esses bolinhos d'ovos. São muito frescos!

Ella respondeu, com uma voz lamentosa:

—Ai, filha, não!

E indicou o estomago, compungidamente.

No entanto o conselheiro aconselhava a Ernestinho a clemencia: tinha-lhe posto a mão no hombro paternalmente, e com uma voz persuasiva:

—Dá mais alegria á peça, snr. Ledesma. O espectador sahe mais alliviado! Deixe sahir o espectador alliviado!

—Mais um bolinho, conselheiro?

—Estou repleto, minha prezada senhora.

E, então, invocou a opinião de Jorge. Não lhe parecia que o bom Ernesto devia perdoar?

—Eu, conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente pela morte! E exijo que a mates, Ernestinho!

D. Felicidade acudiu, toda bondosa:

—Deixe fallar, snr. Ledesma. Está a brincar. E elle então que é um coração d'anjo!

—Está enganada, D. Felicidade—disse Jorge, de pé, diante d'ella.—Fallo serio e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela morte. No abysmo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso lá consentir que, n'um caso d'esses, um primo meu, uma pessoa da minha familia, do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! Não! Mata-a! É um principio de familia. Mata-a quanto antes!

—Aqui tem um lapis, snr. Ledesma—gritou Julião, estendendo-lhe uma lapiseira.

O conselheiro, então, interveio, grave:

—Não—disse—não creio que o nosso Jorge falle serio. É muito instruido para ter idéas tão...

Hesitou, procurou o adjectivo. Juliana poz-se-lhe diante com uma bandeja, onde um macaco de prata se agachava comicamente, sob um vasto guarda-sol erriçado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu:

—...Tão anti-civilisadoras.

—Pois está enganado, conselheiro, tenho-as—affirmou Jorge.—São as minhas idéas. E aqui tem, se em lugar de se tratar d'um final d'acto, fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: sabes, encontrei minha mulher...

—Oh Jorge!—disseram, reprehensivamente.

—...Bem, supponhamos, se elle m'o viesse dizer, eu respondia-lhe o mesmo. Dou a minha palavra d'honra, que lhe respondia o mesmo: mata-a!

Protestaram. Chamaram-lhe tigre, Othello, Barba-Azul. Elle ria, enchendo muito socegadamente o seu cachimbo.

Luiza bordava, calada: a luz do candieiro, abatida pelo abat-jour, dava aos seus cabellos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua testa branca como sobre um marfim muito polido.

—Que dizes tu a isto?—disse-lhe D. Felicidade.

Ella ergueu o rosto, risonha, encolheu os hombros...

E o conselheiro logo:

—A snr.a D. Luiza diz com orgulho o que dizem as verdadeiras mães de familia:

Impurezas do mundo não me roçam

Nem a fimbria da tunica sequer.

—Ora muito boas noites—disse, á porta, uma voz grossa.

Voltaram-se.

Ó Sebastião! Ó snr. Sebastião! ó Sebastiarrão!

Era elle, Sebastião, o grande Sebastião, o Sebastiarrão, Sebastião tronco d'arvore,—o intimo, o camarada, o inseparavel de Jorge, desde o latim, na aula de frei Liborio, aos Paulistas.

Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapéo molle desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente, os seus cabellos castanhos e finos. Tinha a pelle muito branca, a barba alourada e curta.

Veio sentar-se ao pé de Luiza.

—Então d'onde vem? d'onde vem?

Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da pipa.

O seu rosto, em plena luz, tinha uma expressão honesta, simples, aberta: os olhos pequenos, azues d'um azul claro, d'uma suavidade séria, adoçavam-se muito quando sorria: e os beiços escarlates, sem pelliculas seccas, os dentes luzidios, revelavam uma vida saudavel e habitos castos. Fallava devagar, baixo, como se tivesse medo de se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua chavena, e remexendo o assucar com a colhér direita, os olhos ainda a rir, um sorriso bom:

—A pipa tem muita graça. Muita graça!

Sorveu um gole de chá e depois d'um momento:

—E tu, maroto, sempre partes ámanhã? Não ha umas tentaçõesinhas d'ir por ahi fóra com elle, minha cara amiga?

Luiza sorriu. Tomára ella! Quem dera! Mas era uma jornada tão incommoda! Depois a casa não podia ficar só, não havia que fiar em criados...

—Está claro, está claro—disse elle.

Jorge, então, que abrira a porta do escriptorio, chamou-o:

—Ó Sebastião! Fazes favor?

Elle foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado: as abas do seu casaco mal feito tinham um comprimento ecclesiastico.

Entraram para o escriptorio.

Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidraçada, tendo em cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, d'uma bacchante em delirio. A mesa, com um antigo tinteiro de prata que fôra de seu avô, estava ao pé da janella: uma collecção empilhada de Diarios do Governo, branquejava a um canto: por cima da cadeira de marroquim escuro, pendia, n'um caixilho preto, uma larga photographia de Jorge: e sobre o quadro, duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo, coberta com um reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar.

—Sabes quem esteve ahi de tarde?—disse logo Jorge, accendendo o cachimbo—Aquella desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hein?

—E entrou?—perguntou Sebastião, baixo, correndo por dentro o pesado reposteiro de fazenda listrada.

—Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quiz! A Leopoldina, a Pão e queijo!

E arremessando o phosphoro violentamente:

—Quando penso que aquella desavergonhada vem a minha casa! Uma creatura que tem mais amantes que camisas, que anda pelo Dá-fundo em troças, que passeava nos bailes, este anno, de dominó, com um tenor! A mulher do Zagallão, um devasso que falsificou uma letra!

E quasi ao ouvido de Sebastião:

—Uma mulher que dormiu com o Mendonça dos callos! Aquelle sebento do Mendonça dos callos!

Teve um gesto furioso, exclamou:

—E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abraça minha mulher, respira o meu ar!... Palavra d'honra, Sebastião, se a pilho—procurou mentalmente, com o olhar acceso, um castigo sufficiente—dou-lhe açoutes!

Sebastião disse devagar:

—E o peor é a visinhança.

—Está claro que é!—exclamou Jorge.—Toda essa gente ahi pela rua abaixo sabe quem ella é! Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sitios. É a Pão e queijo! Todo o mundo conhece a Pão e queijo.

—Má visinhança—disse Sebastião.

—De tremer.

Mas então! estava acostumado á casa, era sua, tinha-a arranjado, era uma economia...

—Senão! Não parava aqui um dia!

Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavallados uns nos outros! Uma visinhança a postos, avida de mexericos! Qualquer bagatella, o trotar d'uma tipoia, e apparecia por traz de cada vidro um par d'olhos repolhudos a cocar! E era logo um badalar de linguas por ahi abaixo, e conciliabulos, e opiniões formadas! fulano é indecente, fulana é bebeda!

—É o diabo!—disse Sebastião.

—A Luiza é um anjo, coitada—dizia Jorge, passeando pela saleta—mas tem cousas em que é criança! Não vê o mal. É muito boa, deixa-se ir. Com este caso da Leopoldina, por exemplo; foram creadas de pequenas, eram amigas, não tem coragem agora para a pôr fóra. É acanhamento, é bondade. Elle comprehende-se! Mas emfim as leis da vida tem as suas exigencias!...

E depois d'uma pausa:

—Por isso, Sebastião, em quanto eu estiver fóra, se te constar que a Leopoldina vem por cá, avisa a Luiza! Porque ella é assim: esquece-se, não reflexiona. É necessario alguem que a advirta, que lhe diga:—Alto lá, isso não póde ser! Que então cahe logo em si, e é a primeira!... Vens por ahi, fazes-lhe companhia, fazes-lhe musica, e se vires que a Leopoldina apparece ao largo, tu logo:—Minha rica senhora, cuidado, olhe que isso não! Que ella, sentindo-se apoiada, tem decisão. Senão, acanha-se, deixa-a vir. Soffre com isso, mas não tem coragem de lhe dizer: Não te quero vêr, vai-te! Não tem coragem p'ra nada: começam as mãos a tremer-lhe, a seccar-se-lhe a bocca... É mulher, é muito mulher!... Não te esqueças, hein, Sebastião?

—Então havia de me esquecer, homem?

Sentiram então o piano na sala, e a voz de Luiza ergueu-se, fresca e clara, cantando a Mandolinata:

Amici, la notte é bella,

La luna va spontari...

—Fica tão só, coitada!...—disse Jorge.

Deu alguns passos pelo escriptorio, fumando, com a cabeça baixa:

—Todo o casal bem organisado, Sebastião, deve ter dous filhos! Deve ter pelo menos um!...

Sebastião coçou a barba em silencio—e a voz de Luiza, elevando-se com um certo esforço aspero, nos altos da melodia :

Di cà, di là, per la cità

Andiami a transnottari...

Era uma tristeza secreta de Jorge—não ter um filho! Desejava-o tanto! Ainda em solteiro, nas vesperas do casamento, já sonhava aquella felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as suas perninhas vermelhas, cheias de rôscas, e os cabellos annelados, finos como fios de sêda; ou rapaz forte, entrando da escóla com os livros, alegre e d'olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos mestres: ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido branco, as duas tranças cahidas, vindo pousar as mãos nos seus cabellos já grisalhos...

Vinha-lhe, ás vezes, um medo de morrer sem ter tido aquella felicidade completadora!

Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava, depois, no piano Luiza recomeçou a Mandolinata, com um brio jovial.

A porta do escriptorio abriu-se, Julião entrou:

—Que estão vossês aqui a conspirar? Vou-me safar, que é tarde! Até á volta, meu velho, hein? Tambem ia comtigo tomar ar, respirar, vêr campos, mas...

E sorriu com amargura.—Addio! Addio!

Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraçal-o outra vez. Se quizesse alguma cousa do Alemtejo!...

Julião carregou o chapéo na cabeça:

—Dá cá outro charuto, por despedida! Dá cá dous!

—Leva a caixa! Eu em viagem só fumo cachimbo. Leva a caixa, homem!

Embrulhou-lh'a n'um Diario de Noticias; Julião metteu-a debaixo do braço, e descendo os degraus:

—Cuidado com as sezões, e descobre uma mina d'ouro!

Jorge e Sebastião entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, torcia as guias do bigodinho, e Luiza começava uma valsa de Strauss—o Danubio Azul.

Jorge disse, rindo, estendendo os braços:

—Uma valsa, D. Felicidade?

Ella voltou-se, com um sorriso. E porque não? Em nova era fallada! Citou logo a valsa que dançára com o sr. D. Fernando, no tempo da Regencia, nas Necessidades. Era uma valsa linda, d'essa época: A Perola d'Ophir.

Estava sentada ao pé do conselheiro, no sophá. E como retomando um dialogo mais querido—continuou, baixo para elle, com uma voz meiga:

—Pois creia, acho-o com optimas côres.

O conselheiro enrolava vagarosamente o seu lenço de sêda da India.

—Na estação calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade?

—Ai! Estou outra, conselheiro! Muito boas digestões, muito livre de gazes... Estou outra!

—Deus o queira, minha senhora, Deus o queira—disse o conselheiro, esfregando lentamente as mãos.

Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pôz-se a dizer:

—Espero que esse interesse seja verdadeiro...

Córou. O corpete flaccido do vestido de sêda preta enchia-se-lhe com o arfar do peito.

O conselheiro recahiu lentamente no sophá,—e com as mãos nos joelhos:

—D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero...

Ella levantou para elle seus olhos pisados, d'onde sahiam revelações de paixão e supplicas de felicidade:

—E eu, conselheiro!...

Deu um grande suspiro, pôz o leque sobre o rosto.

O conselheiro ergueu-se seccamente. E com a cabeça alta, as mãos atraz das costas, foi ao piano, perguntou a Luiza curvando-se:

—É alguma canção do Tyrol, D. Luiza?

—Uma valsa de Strauss—murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de pés, ao ouvido.

—Ah! Muita fama! Grande author!

Tirou então o relogio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solemnidade:

—Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alemtejo! O clima é nocivo, a estação traiçoeira!

E apertou-o nos braços com uma pressão commovida.

D. Felicidade punha a sua manta de renda negra.

—Já, D. Felicidade?—disse Luiza.

Ella explicou-lhe, ao ouvido:

—Já, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas bajes e tenho estado!... E aquelle homem, aquelle gêlo! O snr. Ernesto vem para os meus sitios, hein?

—Como um fuso, minha senhora!

Tinha vestido o seu paletot d'alpaca clara, fumava chupando, com as faces encovadas, por uma boquilha enorme, onde uma Venus se torcia sobre o dorso d'um leão domado.

—Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hein? Adeus. Quando fôr a Honra e Paixão cá mando um camarote á prima Luiza. Adeus! Saudinha!

Iam a sahir. Mas o conselheiro, á porta, voltando-se subitamente, com as abas do paletot deitadas para traz, a mão pomposamente apoiada no castão de prata da bengala que representava uma cabeça de mouro, disse, com gravidade:

—Esquecia-me, Jorge! Tanto em Evora, como em Beja, visite os governadores civis! E eu lhe digo porquê: deve-lh'o como primeiros funccionarios do districto, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas peregrinações scientificas!

E curvando-se profundamente:

—Al rivedere, como se diz em Italia.

Sebastião tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco Luiza foi abrir as janellas; a noite estava quente e immovel, de luar.

Sebastião pozera-se ao piano, e com a cabeça curvada, corria devagar o teclado.

Tocava admiravelmente, com uma comprehensão muito fina da musica. Outr'ora, compozera mesmo uma Meditação, duas Valsas, uma Ballada: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de reminiscencias, sem estylo.—Da cachimonia não me sahe nada—costumava elle dizer com bonhomia, batendo na testa, sorrindo—mas lá com os dedos!...

Pôz-se a tocar um Nocturno de Choppin. Jorge sentára-se no sophá ao pé de Luiza.

—Já tens prompto o teu farnelzinho!—disse-lhe ella.

—Bastam umas bolachas, filha. O que quero é o cantil com cognac.

—E não te esqueças de mandar um telegramma logo que chegues!

—Pudera!

—Tu d'aqui a quinze dias, vens!

—Talvez...

Ella teve um gesto amuado.

—Ah, bem! Se não vieres, vou ter comtigo! A culpa é tua.

E olhando em redor:

—Que só que vou ficar!

Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste:

—Pst, Sebastião! A malaguenha, faz favor?

Sebastião começou a tocar a malaguenha. Aquella melodia calida, muito arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Malaga, ou em Granada, não sabia: era sob as laranjeiras, mil estrellinhas luzem; a noite é quente, o ar cheira bem; por baixo d'um lampeão suspenso a um ramo, um cantador sentado na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; em redor as mulheres com os seus corpetes de velludilho encarnado batem as mãos em cadencia: e ao largo dorme uma Andaluzia de romance e de zarzuela, quente e sensual, onde tudo são braços brancos que se abrem para o amor, capas romanticas que roçam as paredes, sombrias viellas onde luz o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem Santissima cantando as horas...

—Muito bem, Sebastião! Gracias!

Elle sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o seu chapéo desabado:

—Então ámanhã ás sete? Cá estou, e vou-te acompanhar até ao Barreiro.

Bom Sebastião!

Foram debruçar-se na varanda para o vêr sahir. A noite fazia um silencio alto, d'uma melancolia placida; o gaz dos candieiros parecia mortiço; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca, tinha um tom quente e dôce; a luz punha nas fachadas brancas claridades vivas, e nas pedras da calçada faiscações vidradas; uma clara-boia reluzia, a distancia, como uma velha lamina de prata; nada se movia; e instinctivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a lua branca, muito séria.

—Que linda noite!

A porta bateu, e Sebastião de baixo, na sombra:

—Dá vontade de passear, hein?

—Linda!

Ficaram á varanda preguiçosamente, olhando, detidos pela tranquillidade, pela luz. Puzeram-se a fallar baixo da jornada. Áquella hora onde estaria elle? Já em Evora, n'um quarto d'estalagem, passeando monotonamente sobre um chão de tijolo. Mas voltaria breve; esperava fazer um bom negocio com o Paco, o hespanhol das minas de Portel, trazer talvez alguns centos de mil reis, e teriam então a doçura do mez de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Bussaco, trepar aos altos, beber a agua fresca das rochas, sob a espessura humida das folhagens: irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na arêa, no bom ar cheio d'azote, vendo o mar unido, d'um azul metallico e faiscante, o mar do verão, com algum fumo de paquete que passa para o Sul ao longe muito adelgaçado. Faziam outros planos com os hombros muito chegados: uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E Jorge disse:

—Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas tão só!

Ella suspirou. Tambem o desejava tanto! Chamar-se-hia Carlos Eduardo. E via-o no seu berço dormindo, ou no collo, nú, agarrando com a mãosinha o dedo do pé, mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento d'um deleite infinito correu-lhe no corpo. Passou o braço pela cinta de Jorge. Um dia seria, teria um filho de certo! E não comprehendia o seu filho homem nem Jorge velho: via-os ambos do mesmo modo: um sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito, da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e côr de rosa. E a vida apparecia-lhe infindavel, d'uma doçura igual, atravessada do mesmo enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os cobria.

—A que horas quer a senhora que a venha acordar?—disse a voz secca de Juliana.

Luiza voltou-se:

—Ás sete, já lhe disse ha pouco, creatura.

Fecharam a janella. Em torno das velas uma borboleta branca esvoaçava. Era bom agouro!

Jorge prendeu-a nos braços:

—Vai ficar sem o seu maridinho, hein?—disse tristemente.

Ela deixou pesar o corpo sobre as mãos d'elle cruzadas, olhou-o com um longo olhar que se ennevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoço com o gesto lento, harmonioso e solemne dos braços, pousou-lhe na bocca um beijo grave e profundo. Um vago soluço levantou-lhe o peito.

—Jorge! Querido!—murmurou.

III

Índice de conteúdo

Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, Luiza vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, não havia de gostar, não! Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se tanto! De manhã, ainda tinha os arranjos, a costura, a toilette, algum romance... Mas de tarde!

Á hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, a solidão parecia alargar-se em torno d'ella. Fazia-lhe tanta falta o seu toque da campainha, os seus passos no corredor!...

Ao crepusculo, ao vêr cahir o dia, entristecia-se sem razão, cahia n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes, as cavatinas apaixonadas gemiam instinctivamente no teclado, sob os seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços molles. O que pensava em tolices então! E á noite, só, na larga cama franceza, sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites de viuvez.

Não estava acostumada, não podia estar só. Até se lembrára de chamar a tia Patrocinio, uma velha parenta pobre que vivia em Belem: ao menos era alguem: mas receou aborrecer-se mais ao pé da sua longa figura de viuva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes oculos de tartaruga sobre um nariz d'aguia.

N'aquella manhã pensára em Leopoldina, toda contente d'ir tagarellar, rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em collete e saia branca: a camisinha decotada descobria os ombros alvos d'uma redondeza macia, o collo branco e tenro, azulado de vêasinhas finas; e os seus braços redondinhos, um pouco vermelhos no cotovêlo, descobriam por baixo, quando se erguiam prendendo as tranças, fiosinhos louros, frisando e fazendo ninho.

A sua pelle conservava ainda o rosado humido da agua fria: havia no quarto um cheiro agudo de vinagre de toilette: os transparentes de linho branco descidos davam uma luz baça, com tons de leite.

Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa! Que o que tinha graça era ir surprehendel-o a Evora, cahir-lhe no Tabaquinho, um dia, ás tres horas! E quando elle entrasse empoeirado e encalmado, de lunetas azues, atirar-se-lhe ao pescoço! E á tardinha, pelo braço d'elle, ainda quebrada da jornada, com um vestido fresco, ir vêr a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito. Os homens vinham ás portas das lojas. Quem seria? É de Lisboa. É a do Engenheiro.—E diante do toucador, apertando o corpete do vestido, sorria áquellas imaginações, e ao seu rosto, no espelho.

A porta do quarto rangeu devagarinho.

—Que é?

A voz de Juliana, plangente, disse:

—A senhora dá licença que eu vá logo ao medico?

—Vá, mas não se demore. Puxe-me essa saia atraz. Mais. O que é que vossê tem?

—Enjôos, minha senhora, peso no coração. Passei a noite em claro.

Estava mais amarella, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabellos velhos.

—Pois sim, vá—disse Luiza.—Mas arranje tudo antes. E não se demore, hein ?

Juliana subiu logo á cozinha. Era no segundo andar, com duas janellas de sacada para as trazeiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do fogão.

—Diz que sim, snr.a Joanna—disse á cozinheira—que podia ir. Vou-me vestir. Ella tambem está quasi prompta. Fica vossemecê com a casa por sua!

A cozinheira fez-se vermelha, poz-se a cantar, foi logo sacudir, estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos não deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada d'amarello, com um portal largo,—a loja de marceneiro do tio João Galho, onde trabalhava o Pedro, o seu amante. A pobre Joanna «babava-se» por ele. Era um rapazola pallido e afadistado; Joanna era minhota, de Avintes, de familia de lavrador, e aquella figura delgada de lisboeta anemico seduzia-a com uma violencia abrazada. Como não podia sahir á semana, mettia-o em casa, pela porta de traz, quando estava só; estendia então na varanda para dar signal o velho tapete desbotado, onde ainda se percebiam os paus de um veado.

Era uma rapariga muito forte, com peitos d'ama, o cabello como azeviche, todo lustroso do oleo de amendoas dôces. Tinha a testa curta de plebêa teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o olhar mais negro.

—Ai!—suspirou Juliana.—A snr.a Joanna é que a leva!

A rapariga ficou escarlate.

Mas Juliana acudiu logo:

—Olha o mal! fosse eu! Boa! faz muito bem!

Juliana lisongeava sempre a cozinheira: dependia d'ella: Joanna dava-lhe caldinhos ás horas de debilidade, ou, quando ella estava mais adoentada, fazia-lhe um bife ás escondidas da senhora. Juliana tinha um grande medo de «cair em fraqueza», e a cada momento precisava tomar a «sustancia». De certo, como feia e solteirona detestava aquelle «escandalo do carpinteiro»; mas protegia-o, porque elle valia muitos regalos aos seus fracos de gulosa.

—Fosse eu!—repetiu—dava-lhe o melhor da panella! Se a gente ia a ter escrupulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Vêem uma pessoa a morrer, e é como fosse um cão.

E com um risinho amargo:

—Diz que me não demorasse no medico. É como quem diz, cura-te depressa ou espicha depressa!

Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo:

—Todas o mesmo, uma récua!

Desceu, começou a varrer o corredor.—Toda a noite estivera doente: o quarto no sotão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de tijolo cozido, dava-lhe enjôos, faltas d'ar, desde o começo do verão: na vespera até vomitára! E já levantada ás seis horas, não descançára, limpando, engommando, despejando, com a pontada no lado e todo o estomago embrulhado!—Tinha escancarado a cancella, e com grandes ais, atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimão.

—A snr.a D. Luiza está em casa?

Voltou-se. Nos ultimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe pareceu «estrangeirado». Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos resplandecia.

—A senhora vai sahir—disse ela olhando-o muito.—Faz favor de dizer quem é?

O individuo sorriu.

—Diga-lhe que é um sujeito para um negocio. Um negocio de minas.

Luiza, diante do toucador, já de chapéo, mettia n'uma casa do corpete dous botões de rosa de chá.

—Um negocio!—disse muito surprehendida—Deve ser algum recado para o snr. Jorge, de certo! Mande entrar. Que especie de homem é?

—Um janota!

Luiza desceu o véo branco, calçou devagar as luvas de peau de suède claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e abriu a porta da sala. Mas quasi recuou, fez ah! toda escarlate. Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bazilio.

Houve um shake-hands demorado, um pouco tremulo. Estavam ambos calados:—ella com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; elle fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas vieram logo, muito precipitadamente:—Quando tinha elle chegado? Se sabia que elle estava em Lisboa? Como soubera a morada d'ella?

Chegára na vespera no paquete de Bordeus. Perguntára no ministerio: disseram-lhe que Jorge estava no Alemtejo, deram-lhe a adresse...

—Como tu estás mudada, Santo Deus!

—Velha?

—Bonita!

—Ora!

E elle, que tinha feito? Demorava-se?

Foi abrir uma janella, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Elle no sophá muito languidamente; ella ao pé, pousada de leve á beira d'uma poltrona, toda nervosa.

Tinha deixado o degredo—disse elle.—Viera respirar um pouco á velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. O ultimo anno passára-o em Paris. Vinha de lá, d'aquella aldeola de Paris!—Fallava devagar, recostado, com um ar intimo, estendendo sobre o tapete, commodamente, os seus sapatos de verniz.

Luiza olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabello preto annelado havia agora alguns fios brancos: mas o bigode pequeno tinha o antigo ar moço, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, a mesma doçura amollecida, banhada n'um fluido. Reparou na ferradura de perola da sua gravata de setim preto, nas pequeninas estrellas brancas bordadas nas suas meias de sêda. A Bahia não o vulgarisára. Voltava mais interessante!

—Mas tu, conta-me de ti—dizia elle com um sorriso, inclinado para ela.—És feliz, tens um pequerrucho...

—Não—exclamou Luiza rindo.—Não tenho! Quem te disse?

—Tinham-me dito. E teu marido demora-se?

—Tres, quatro semanas, creio.

Quatro semanas! Era uma viuvez! Offereceu-se logo para a vir vêr mais vezes, palrar um momento, pela manhã...

—Pudera não! És o unico parente, que tenho, agora...

Era verdade!... E a conversação tomou uma intimidade melancolica: fallaram da mãi de Luiza, a tia Jójó, como lhe chamava Bazilio. Luiza contou a sua morte, muito dôce, na poltrona, sem um ai...

—Onde está sepultada?—perguntou Bazilio com uma voz grave; e acrescentou, puxando o punho da camisa de chita:—Está no nosso jazigo?

—Está.

—Hei-de ir lá. Pobre tia Jójó!

Houve um silencio.

—Mas tu ias sahir!—disse Bazilio de repente, querendo erguer-se.

—Não!—exclamou—Não! Estava aborrecida, não tinha nada que fazer. Ia tomar ar. Não saio, já.

Elle ainda disse:

—Não te prendas...

—Que tolice! Ia a casa d'uma amiga passar um momento.

Tirou logo o chapéo; n'aquelle movimento os braços erguidos repuxaram o corpete justo, as fórmas do seio accusaram-se suavemente.

Bazilio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalçar as luvas:

—Era eu antigamente quem te calçava e descalçava as luvas... Lembras-te?... Ainda tenho esse privilegio exclusivo, creio eu...

Ella riu-se.

—De certo que não...

Bazilio disse então, lentamente, fitando o chão:

—Ah! Outros tempos!

E poz-se a fallar de Collares: a sua primeira idéa, mal chegára, tinha sido tomar uma tipoia e ir lá: queria vêr a quinta; ainda existiria o balouço debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramanchão de rosinhas brancas, ao pé do Cupido de gesso que tinha uma aza quebrada?...

Luiza ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brazileiro: sobre a estrada havia um mirante com um tecto chinez, ornado de bolas de vidro; e a velha casa morgada fôra reconstruida e mobilada pelo Gardé.

—A nossa pobre sala de bilhar, côr d'oca, com grinaldas de rosas!—disse Bazilio; e fitando-a:—Lembras-te das nossas partidas de bilhar?

Luiza, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos para elle, disse, sorrindo:

—Eramos duas crianças!

Bazilio encolheu tristemente os hombros, fitou as ramagens do tapete: parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida:

—Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo!

Ella via a sua cabeça bem feita, descahida n'aquella melancolia das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabellos brancos—que lhe dera a separação. Sentia tambem uma vaga saudade encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janella, como para dissipar na luz viva e forte aquella perturbação. Perguntou-lhe então pelas viagens, por Paris, por Constantinopla.

Fôra sempre o seu desejo viajar—dizia—ir ao Oriente. Quereria andar em caravanas, balouçada no dorso dos camêlos; e não teria medo, nem do deserto, nem das feras...

—Estás muito valente!—disse Bazilio.—Tu eras uma maricas, tinhas medo de tudo... Até da adega, na casa do papá, em Almada!

Ella córou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterranea que dava arripios! A candêa d'azeite pendurada na parede alumiava com uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de têas d'aranha, e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia alli ás vezes, pelos cantos, beijos furtados...

Quiz saber então o que tinha feito em Jerusalém, se era bonito.

Era curioso. Ia pela manhã um bocado ao Santo Sepulchro; depois d'almoço montava a cavallo... Não se estava mal no hotel, inglezas bonitas... Tinha algumas intimidades illustres...

Fallava d'ellas, devagar, traçando a perna: o seu amigo o patriarcha de Jerusalém, a sua velha amiga a princeza de La Tour d'Auvergne! Mas o melhor do dia era de tarde—dizia—no Jardim das Oliveiras, vendo defronte as muralhas do templo de Salomão, ao pé a aldêa escura de Bethania onde Martha fiava aos pés de Jesus, e mais longe, faiscando immovel sob o sol, o mar Morto! E alli passava sentado n'um banco, fumando tranquillamente o seu cachimbo!

Se tinha corrido perigos?

De certo. Uma tempestade de arêa no deserto de Petra! Horrivel! Mas que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua toilette:—uma manta de pelle de camêlo ás listras vermelhas e pretas, um punhal de Damasco n'uma cinta de Bagdad, e a lança comprida dos Beduinos.

—Devia-te ficar bem!

—Muito bem. Tenho photographias.

Prometteu dar-lhe uma, e acrescentou:

—Sabes que te trago presentes?

—Trazes?—E os seus olhos brilhavam.

O melhor era um rosario...

—Um rosario?

—Uma reliquia! Foi benzido primeiro pelo patriarcha de Jerusalém sobre o tumulo de Christo, depois pelo papa...

Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito aceado, já todo branquinho, vestido de branco, muito amavel!

—Tu d'antes não eras muito devota—disse.

—Não, não sou muito caturra n'essas cousas—respondeu rindo.

—Lembras-te da capella de nossa casa em Almada?

Tinham passado alli lindas tardes! Ao pé da velha capella morgada havia um adro todo cheio de altas hervas floridas,—e as papoulas, quando vinha a aragem, agitavam-se como azas vermelhas de borboletas pousadas...

—E a tilia, lembras-te, onde eu fazia gymnastica?

—Não fallemos no que lá vai!

Em que queria ella então que elle fallasse? Era a sua mocidade, o melhor que tivera na vida...

Ella sorriu, perguntou:

—E no Brazil?

Um horror! Até fizera a côrte a uma mulata.

—E porque te não casaste?...

Estava a mangar! Uma mulata!

—E de resto—acrescentou com a voz d'um arrependimento triste—já que me não casei quando devia,—encolheu os hombros melancolicamente—acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro.

Luiza fez-se escarlate. Houve um silencio.

—E qual é o outro presente, então, além do rosario?

—Ah! Luvas. Luvas de verão, de peau de suède, de oito botões. Luvas decentes. Vossês aqui usam umas luvitas de dous botões, a vêr-se o punho, um horror!

De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se vestiam peor! Era atroz! Não dizia por ella; até aquelle vestido tinha chic, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em Paris! Que deliciosas, que frescas as toilettes d'aquelle verão! Oh! mas em Paris!... Tudo é superior! Por exemplo, desde que chegára ainda não pudera comer. Positivamente não podia comer!—Só em Paris se come—resumiu.

Luiza voltava entre os dedos o seu medalhão de ouro, preso ao pescoço por uma fita de velludo preto.

—E estiveste então um anno em Paris?

Um anno divino. Tinha um appartamento lindissimo, que pertencera a lord Falmouth, rue Saint Florentin, tinha tres cavallos...

E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos:

—Emfim, fazer este valle de lagrimas o mais confortavel possivel!... Dize cá, tens algum retrato n'esse medalhão?

—O retrato de meu marido.

—Ah! deixa vêr!

Luiza abriu o medalhão. Elle debruçou-se; tinha o rosto quasi sobre o peito d'ella. Luiza sentia o aroma fino que vinha de seus cabellos.

—Muito bem, muito bem!—fez Bazilio.

Ficaram calados.

—Que calor que está!—disse Luiza.—Abafa-se, hein!

Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraça. O sol deixára a varanda. Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinellas.

—É o calor do Brazil—disse elle.—Sabes que estás mais crescida?

Luiza estava de pé. O olhar de Bazilio corria-lhe as linhas do corpo; e com a voz muito intima, os cotovêlos sobre os joelhos, o rosto erguido para ella:

—Mas, francamente, dize cá, pensaste que eu te viria vêr?

—Ora essa! Realmente, se não viesses zangava-me. És o meu unico parente... O que tenho pena é que meu marido não esteja...

—Eu—acudiu Bazilio—foi justamente por elle não estar...

Luiza fez-se escarlate. Bazilio emendou logo, um pouco corado tambem:

—Quero dizer... talvez elle saiba que houve entre nós...

Ella interrompeu:

—Tolices! Eramos duas crianças. Onde isso vai!

—Eu tinha vinte e sete annos—observou elle, curvando-se.

Ficaram calados, um pouco embaraçados. Bazilio cofiava o bigode, olhando vagamente em redor.

—Estás muito bem installada aqui—disse.

Não estava mal... A casa era pequena, mas muito commoda. Pertencia-lhes.

—Ah! estás perfeitamente! Quem é esta senhora, com uma luneta d'ouro?

E indicava o retrato por cima do sophá.

—A mãi de meu marido.

—Ah! vive ainda?

—Morreu.

—É o que uma sogra póde fazer de mais amavel...

Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguçados, e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapéo.

—Já? Onde estás?

—No Hotel Central. E até quando?

—Até quando quizeres. Não disseste que vinhas ámanhã com o rosario?

Elle tomou-lhe a mão, curvou-se:

—Já se não póde dar um beijo na mão d'uma velha prima?

—Porque não?

Pousou-lhe um beijo na mão, muito longo, com uma pressão dôce.

—Adeus!—disse.

E á porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se:

—Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo, como se vai isto passar?

—Isto quê? Vêrmo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu?

Elle hesitou, sorriu:

—Imaginei que não eras tão boa rapariga. Adeus. Ámanhã, hein?

No fundo da escada accendeu o charuto, devagar.

—Que bonita que ella está!—pensou.

E arremessando o phosphoro, com força:

—E eu, pedaço d'asno, que estava quasi decidido a não a vir vêr! Está de appetite! Está muito melhor! E sósinha em casa, aborrecidinha talvez!...

Ao pé da Patriarchal fez parar um coupé vazio; e estendido, com o chapéo nos joelhos, em quanto a parelha esfalfada trotava:

—E tem-me o ar de ser muito aceada, cousa rara na terra! As mãos muito bem tratadas! O pé muito bonito!

Revia a pequenez do pé, poz-se a fazer por elle o desenho mental de outras bellezas, despindo-a, querendo adivinhal-a... A amante que deixára em Paris era muito alta e magra, d'uma elegancia de tisica; quando se decotava viam-se as saliencias das suas primeiras costellas. E as fórmas redondinhas de Luiza decidiram-no:

—A ella!—exclamou com appetite:—A ella, como S. Thiago aos mouros!

Luiza, quando o sentiu em baixo fechar a porta da rua, entrou no quarto, atirou o chapéo para a causeuse, e foi-se logo vêr ao espelho. Que felicidade estar vestida! Se elle a tivesse apanhado em roupão, ou mal penteada!... Achou-se muito afogueada, cobriu-se de pós de arroz. Foi á janella, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda nas casas fronteiras. Sentia-se cançada. Áquellas horas, Leopoldina estava a jantar já, de certo... Pensou em escrever a Jorge «para matar o tempo», mas veio-lhe uma preguiça; estava tanto calor! Depois não tinha que lhe dizer! Começou então a despir-se devagar diante do espelho, olhando-se muito, gostando de se vêr branca, acariciando a finura da pelle, com bocejos languidos d'um cansaço feliz.—Havia sete annos que não via o primo Bazilio! Estava mais trigueiro, mais queimado, mas ia-lhe bem!

E depois de jantar ficou junto á janella, estendida na voltaire, com um livro esquecido no regaço. O vento cahira, e o ar, de um azul forte nas alturas, estava immovel; a poeira grossa pousára, a tarde tinha uma transparencia calma de luz; passaros chilreavam na figueira brava; da serralheria proxima sahia o martellar continuo e sonoro de folhas de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, laivos de côr de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas. Depois tudo se cobriu de uma sombra diffusa, calada e quente, com uma estrellinha muita viva que luzia e tremia. E Luiza deixára-se ficar na voltaire esquecida, absorvida, sem pedir luz.

—Que vida interessante a do primo Bazilio!—pensava.—O que elle tinha visto! Se ella podesse tambem fazer as suas malas, partir, admirar aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! Como desejaria visitar os paizes que conhecia dos romances—a Escocia e os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palacios tragicos; aportar ás bahias, onde um mar luminoso e faiscante morre na arêa fulva; e das cabanas dos pescadores, de tecto chato, onde vivem as Graziellas, vêr azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria de certo; eram pobres; Jorge era caseiro, tão lisboeta!

Como seria o patriarcha de Jerusalém? Imaginava-o de longas barbas brancas, recamado d'ouro, entre instrumentações solemnes e rolos de incenso! E a princeza de La Tour d'Auvergne? Devia ser bella, de uma estatura real, vivia cercada de pagens, namorára-se de Bazilio.—A noite escurecia, outras estrellas luziam.—Mas de que servia viajar, enjoar nos paquetes, bocejar nos wagons, e, n'uma diligencia muita sacudida, cabecear de somno pela serra nas madrugadas frias? Não era melhor viver n'um bom conforto, com um marido terno, uma casinha abrigada, colxões macios, uma noite de theatro ás vezes, e um bom almoço nas manhãs claras quando os canarios chalram? Era o que ella tinha. Era bem feliz! Então veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria abraçal-o, tel-o alli, ou quando descesse ir encontral-o fumando o seu cachimbo no escriptorio, com o seu jaquetão de velludo. Tinha tudo, elle, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era bello, com uns olhos magnificos, terno, fiel. Não gostaria de um marido com uma vida sedentaria e caturra: mas a profissão de Jorge era interessante; descia aos poços tenebrosos das minas, um dia aperrára as pistolas contra uma malta revoltada; era valente, tinha talento! Involuntariamente, porém, o primo Bazilio fazendo fluctuar o seu burnous branco pelas planicies da Terra Santa; ou em Paris, direito na almofada, governando tranquillamente os seus cavallos inquietos—davam-lhe a idéa d'uma outra existencia mais poetica, mais propria para os episodios do sentimento.

Do céo estrellado cahia uma luz diffusa: janellas alumiadas sobresahiam ao longe, abertas á noite abafada: vôos de morcegos passavam diante da vidraça.

—A senhora não quer luz?—perguntou á porta a voz fatigada de Juliana.

—Ponha-a no quarto.

Desceu. Bocejava muito, sentia-se quebrada.

—É trovoada—pensou.

Foi á sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da Lucia, da Somnambula, o Fado; e parando, os dedos pousados de leve sobre o teclado, poz-se a pensar que Bazilio devia vir no dia seguinte: vestiria o roupão novo de foulard côr de castanho! Recomeçou o Fado, mas os olhos cerravam-se-lhe.

Foi para o quarto.

Juliana trouxe o rol e a lamparina. Vinha arrastando as chinellas, com um casabeque pelos hombros, encolhida e lugubre. Aquella figura com um ar de enfermaria irritou Luiza:

—Credo, mulher! Vossê parece a imagem da morte!

Juliana não respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa, sobre a commoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos:

—A senhora não precisa mais nada, não?

—Vá-se, mulher, vá!

Juliana foi buscar o candieiro de petroleo, subiu ao quarto. Dormia em cima, no sotão, ao pé da cozinheira.

—Pareço-te a imagem da morte!—resmungava, furiosa.

O quarto era baixo, muito estreito, com o tecto de madeira inclinado; o sol, aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado como um forno; havia sempre á noite um cheiro requentado de tijolo escandecido. Dormia n'um leito de ferro, sobre um colxão de palha molle coberto d'uma colcha de chita; da barra da cabeceira pendiam os seus bentinhos e a rêde enxovalhada que punha na cabeça; ao pé tinha preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma grossa fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova de cabello ennegrecida e despellada, um pente d'osso, as garrafas de remedio, uma velha pregadeira de setim amarello, e, embrulhada n'um jornal, a cuia de retroz dos domingos. E o unico adorno das paredes sujas, riscadas da cabeça de phosphoros,—era uma lithographia de Nossa Senhora das Dôres por cima da cama, e um daguerreotypo onde se percebia vagamente, no reflexo espelhado da lamina, os bigodes encerados e as divisas de um sargento.

—A senhora já se deitou, snr.a Juliana?—perguntou a cozinheira do quarto pegado, d'onde sahia uma barra de luz viva cortando a escuridão do corredor.

—Já se deitou, snr.a Joanna, já. Está hoje com os azeites. Falta-lhe o homem!

Joanna, ás voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. Não podia dormir! Abafava-se! Ouf!

—Ai! e aqui!—exclamou Juliana.

Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; calçou as chinellas de tapete, e foi ao quarto de Joanna. Mas não entrou, ficou á porta; era criada de dentro, evitava familiaridades. Tinha tirado a cuia, e com um lenço preto e amarello amarrado na cabeça, o seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do craneo; a camisa decotada descobria as claviculas descarnadas; a saia curta mostrava as canellas muito brancas, muito seccas. E com o casabeque pelos hombros, coçando devagarinho os cotovêlos agudos:

—Diga-me cá, snr.a Joanna—disse com a voz discreta—aquelle sujeito demorou-se muito? Reparou?

—Tinha sahido n'aquelle instantinho, quando vossemecê entrou. Ouf!

Encalmada, quasi descoberta, com as pernas muito abertas, Joanna coçava-se furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos á minhota que lhe descobria os peitos. Não podia parar com os persevejos! O raio do quarto tinha ninhos! Até sentia o estomago embrulhado.

—Ai! é um inferno!—disse com lastima Juliana.—Eu só adormeço com dia. Mas ainda eu agora reparo... Vossemecê tem S. Pedro á cabeceira. É devoção?

—É o santo do meu rapaz—disse a outra. Sentou-se na cama. Ouf! E então tinha estado toda a noite com uma sêde!...

Saltou para o chão, com passadas rijas que faziam tremer o soalho, foi ao jarro, pôl-o á bocca, bebeu uma tarraçada. A camisa justa, feita de pouca fazenda, mostrava as fórmas rijas e valentes.

—Pois eu fui ao medico—disse Juliana. E com um grande suspiro:—Ai! isto só Deus, snr.a Joanna! Isto só Deus!

Mas porque se não resolvia a snr.a Juliana a ir á mulher de virtude? Era a saude certa. Morava ao Poço dos Negros; tinha orações e unguentos para tudo. Levava meia moeda pelo preparo...

—Que isso são humores, snr.a Juliana. O que vossemecê tem, são humores.

Juliana tinha dado dous passos para dentro do quarto. Quando se tratava de doenças, de remedios, tornava-se mais familiar.

—Eu já me tenho lembrado... eu já me tenho lembrado de ir á mulher. Mas, meia moeda!

E ficou a olhar, tristemente, reflectindo.

—É o que eu tenho junto para umas botinas de gaspia!

Eram o seu vicio, as botinas! Arruinava-se com ellas: tinha-as de duraque com ponteiras de verniz, de cordovão com laço, de pellica com pespontos de côr, embrulhadas em papeis de sêda, na arca, fechadas—guardadas para os domingos!

Joanna censurou-a.

—Ai! eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os arrebiques!

Queixou-se tambem da sua miseria. Tinha pedido á senhora um mez adiantado! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo gosto da que trazia, a desfazerem-se!

—Mas, então!—suspirou—O meu rapaz precisou um dinheiro...

—Vossemecê tambem, snr.a Joanna, deixa-se cardar pelo homem!

Joanna sorriu.

—Ainda que eu tivesse de roer ossos, snr.a Juliana, a ultima migalha havia de ser p'ra elle!

Juliana teve um risinho secco, e com a voz arrastada:

—Vale lá a pena!

Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse d'aquelle amor, pelas suas delicias. Repetiu, contrafeita:

—Vale lá a pena! Perfeito rapaz—continuou—o que veio hoje vêr a senhora! Melhor que o homem!

E depois d'uma pausa:

—Então esteve mais de duas horas?

—Tinha sahido quando vossemecê entrou.

Mas o candieiro de petroleo apagava-se, com um cheiro fetido e uma fumarada negra.

—Boa noite, snr.a Joanna. Ainda vou rezar a minha corôa.

—Ó snr.a Juliana!—disse a outra d'entre os lençoes—Se vossemecê quer rezar tres salvè-rainhas pela saude do meu rapaz que tem estado adoentado, eu cá lhe rezava tres pelas melhoras do peito.

—Pois sim, snr.a Joanna!

Mas reflectindo:

—Olhe. Eu do peito vou melhor; dê-m'as antes p'ra allivio das dôres de cabeça. A Santa Engracia!

—Como vossemecê quizer, snr.a Juliana.

—Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe ahi um cheiro! Credo!

Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor molle continuo cahia do forro; começou a faltar-lhe o ar: tornou a abrir o postigo, mas o bafo quente que vinha dos telhados enjoava-a; e era assim todas as noites, desde o começo do estio! Depois as madeiras velhas fervilhavam de bicharia! Nunca, nunca, nas casas que servira, tinha tido um quarto peor. Nunca!

A cozinheira começou a resonar ao lado. E acordada, ás voltas, com afflicções no coração, Juliana sentia a vida pesar-lhe, com uma amargura maior!

Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua mãi fôra engommadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito, a quem chamavam na visinhança—o fidalgo, a quem sua mãi chamava—o snr. D. Augusto. Vinha todos os dias, de tarde no verão, no inverno de manhã, para a saleta onde sua mãi engommava, e alli estava horas sentado no poial da janella que dava para um quintalejo, fumando cachimbo, cofiando em silencio um enorme bigode preto. Como o poial era de pedra, punha-lhe em cima, com muito methodo, uma almofada de vento, que elle mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena de velludo castanho e chapéo alto branco. Ás seis horas levantava-se, esvaziava a almofada, estava um bocado a esticar as calças para cima, e sahia, com a sua grossa bengala de cana da India debaixo do braço, gingando da cinta. Ella e sua mãi iam então jantar na mesinha de pinho da cozinha debaixo d'um postigo, diante do qual se balouçavam, de verão e d'inverno, galhos magros d'uma arvore triste.

Á noite o snr. D. Augusto voltava; trazia sempre um jornal; sua mãi fazia-lhe chá e torradas, servia-o, toda enlevada n'elle. Muitas vezes Juliana a vira chorar de ciumes.

Um dia uma visinha má, a quem ella não quizera ajudar a lavar a roupa, enfureceu-se, e atirando-lhe injurias dos degraus da porta,—gritou-lhe que sua mãi era uma desavergonhada, e que seu pai estava na Africa por ter morto o Rei de Copas!

Pouco tempo depois foi servir. Sua mãi morreu d'ahi a mezes, com uma doença d'utero. Juliana só uma vez tornou a vêr o snr. D. Augusto,—uma tarde, com uma opa rôxa, lugubre, na procissão de Passos!

Servia, havia vintes annos. Como ella dizia, mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte annos a dormir em cacifros, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a soffrer os repellões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se quando voltava a saude!... Era de mais! Tinha agora dias em que só de vêr o balde das aguas sujas e o ferro d'engommar se lhe embrulhava o estomago. Nunca se acostumára a servir. Desde rapariga a sua ambição fôra ter um negociosito, uma tabacaria, uma loja de capellista ou de quinquilherias, dispôr, governar, ser patrôa: mas, apesar d'economias mesquinhas e de calculos sôfregos, o mais que conseguira juntar foram sete moedas ao fim d'annos: tinha então adoecido; com o horror do hospital fôra tratar-se para casa d'uma parenta; e o dinheiro, ai! derretera-se! No dia em que se trocou a ultima libra, chorou horas com a cabeça debaixo da roupa.

Ficou sempre adoentada desde então, perdeu toda a esperança de se estabelecer. Teria de servir até ser velha, sempre, d'amo em amo! Essa certeza dava-lhe uma desconsolação constante. Começou a azedar-se.

E depois não tinha geito, não sabia tirar partido das casas: via companheiras divertir-se, visinhar, janellar, bisbilhotar, sahir aos domingos ás hortas e aos retiros, levar o dia cantando, e quando as patrôas iam ao theatro, abrir a porta aos derriços—e patuscar pelos quartos! Ella não. Sempre fôra embezerrada. Fazia a sua obrigação, comia, ia estirar-se sobre a cama; e aos domingos, quando não passeava, encostava-se a uma janella, com o lenço sobre o peitoril para não roçar as mangas, e alli estava immovel, a olhar, com o seu broche de filigrana e a cuia dos dias santos! Outras companheiras eram muito das amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fóra as historias da rua, e cartinhas levadas e recadinhos e p'ra dentro e p'ra fóra, muito confidentes,—muito presenteadas tambem! Ella não podia. Era minha senhora isto! minha senhora aquillo! E cada uma no seu lugar! Era genio.

Desde que servia, apenas entrava n'uma casa sentia logo, n'um relance, a hostilidade, a malquerença: a senhora fallava-lhe com seccura, de longe; as crianças tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam chalrando, calavam-se, mal a sua figura esguia apparecia; punham-lhe alcunhas—a isca sêcca, a fava torrada, o saca-rolhas; imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos cantos; e só tinha encontrado alguma sympathia nos gallegos taciturnos, cheios d'uma saudade morrinhenta, que veem de manhã quando ainda os quartos estão escuros, com as suas grossas passadas, encher os barris, engraxar o calçado.

Lentamente, começou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste; tinha respostadas, questões com as companheiras; não se havia de deixar pôr o pé no pescoço!

As antipathias que a cercavam faziam-na assanhada, como um circulo d'espingardas enraivece um lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhe ennodoar a pelle; e se lhe ralhavam, a sua colera rompia em rajadas. Começou a ser despedida. N'um só anno esteve em tres casas. Sahia com escandalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas pallidas, todas nervosas...

A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Victoria, disse-lhe:

—Tu acabas por não ter onde te arrumar, e falta-te o bocado do pão!

O pão! Aquella palavra que é o terror, o sonho, a difficuldade do pobre assustou-a. Era fina, e dominou-se. Começou a fazer-se «uma pobre mulher», com affectações de zelo, um ar de soffrer tudo, os olhos no chão. Mas roia-se por dentro: veio-lhe a inquietação nervosa dos musculos da face, o tic de franzir o nariz: a pelle esverdeou-se-lhe de bilis.

A necessidade de se constranger trouxe-lhe o habito d'odiar: odiou sobretudo as patrôas, com um odio irracional e pueril. Tivera-as ricas, com palacetes, e pobres, mulheres d'empregados, velhas e raparigas, colericas e pacientes;—odiava-as a todas, sem differença. É patrôa e basta! Pela mais simples palavra, pelo acto mais trivial! Se as via sentadas:—Anda, refestela-te, que a moura trabalha! Se as via sahir:—Vai-te, a negra cá fica no buraco! Cada riso d'ellas era uma offensa á sua tristeza doentia; cada vestido novo uma affronta ao seu velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos e nas prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o dia em voz de falsete a Carta adorada! Com que gosto trazia a conta retardada d'um credor impaciente, quando presentia embaraços na casa! «Este papel!—gritava com uma voz estridente—diz que não se vai embora sem uma resposta!» Todos os lutos a deleitavam,—e sob o chale preto, que lhe tinham comprado, tinha palpitações de regosijo. Tinha visto morrer criancinhas, e nem a afflicção das mães a commovera; encolhia os hombros: «Vai d'alli, vai fazer outro. Cabras!»

As boas palavras mesmo, as condescendencias eram perdidas com ella, como gotas d'agua lançadas no fogo. Resumia as patrôas na mesma palavra—uma récua! E detestava as boas pelos vexames que soffrera das más. A ama era para ella o Inimigo, o Tyranno. Tinha visto morrer duas,—e de cada vez sentira, sem saber porquê, um vago allivio, como se uma porção do vasto peso, que a suffocava na vida, se tivesse desprendido e evaporado!

Sempre fôra invejosa; com a idade aquelle sentimento exagerou-se de um modo aspero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos comiam, a roupa branca que vestiam. As noites de soirée, de theatro, exasperavam-na. Quando havia passeios projectados, se chovia de repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapéo, olhando por dentro da vidraça com um tedio infeliz, deliciava-a, fazia-a loquaz:

—Ai minha senhora! É um temporal desfeito! É a cantaros, está para todo o dia! Olha o ferro!

E muito curiosa: era facil encontral-a, de repente, cosida por detraz de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar aguçado. Qualquer carta que vinha era revirada, cheirada... Remexia subtilmente em todas as gavetas abertas, vasculhava em todos os papeis atirados. Tinha um modo de andar ligeiro e surprehendedor. Examinava as visitas. Andava á busca de um segredo, de um bom segredo! Se lhe cahia um nas mãos!

Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de petiscos, de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho avermelhado seguia avidamente as porções cortadas á mesa; e qualquer bom appetite que repetia exasperava-a, como uma diminuição da sua parte. De comer sempre os restos ganhára o ar aguado,—o seu cabello tomára tons seccos, côr de rato. Era lambareira: gostava de vinho; em certos dias comprava uma garrafa de oitenta reis, e bebia-a só, fechada, repimpada, com estalos da lingua, a orla do vestido um pouco erguida, revendo-se no pé.

E nunca tivera um homem, era virgem. Fôra sempre feia, ninguem a tentára: e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, não se offerecera, como vira muitas, claramente. O unico homem que a olhára com desejo tinha sido um criado de cavalhariça, atarracado e immundo, de aspecto facinora: a sua magreza, a sua cuia, o seu ar domingueiro tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de bull-dog. Causára-lhe horror,—mas vaidade. E o primeiro homem por quem ella sentira, um criado bonito e alourado, rira-se d'ella, pozera-lhe o nome da Isca sêcca! Não contou mais com os homens, por despeito, por desconfiança de si mesma. As rebelliões da natureza, suffocava-as; eram fogachos, flatos. Passavam. Mas faziam-na mais secca; e a falta d'aquella grande consolação aggravava a miseria da sua vida.

Um dia teve, emfim, uma grande esperança. Entrára para o serviço da snr.a D. Virginia Lemos, uma viuva rica, tia de Jorge, muito doente, quasi a morrer com um catarrho de bexiga. A tia Victoria, a inculcadeira, preveniu-a:

—Tu trata a velha, apaparica-a, que ella o que quer é uma enfermeira que a soffra. É rica, não é nada apegada ao dinheiro, é capaz de te deixar uma independencia!

Durante um anno Juliana, roída de ambição, foi a enfermeira da velha. Que zelos! que mimos!

Virginia era muito rabugenta, a idéa de morrer enfurecia-a; quanto mais ella ralhava com a sua voz guttural, mais Juliana se fazia serviçal. A velha, por fim, estava enternecida: gabava-a ás pessoas que a vinham vêr, chamava-lhe a sua providencia. Tinha-a recommendado muito a Jorge.

—Não ha outra! não ha outra!—exclamava.

—Pois apanhaste!—dizia-lhe a tia Victoria.—Pelo menos deixa-te o teu conto de reis.

Um conto de reis! Juliana, de noite, em quanto a velha gemia no seu antigo leito de pau santo, via o conto de reis á claridade morbida que dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgotavel e prodigioso. Que faria com o dinheiro? E, á cabeceira da doente, com um cobertor pelos hombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de capellista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: um conto de reis era um dote, poderia casar, teria um homem!

Estavam acabadas as canceiras. Ia jantar, emfim, o seu jantar! Mandar, emfim, a sua criada! A sua criada! Via-se a chamal-a, a dizer-lhe, de cima para baixo:—Faça, vá, despeje, sáia!—Tinha contracções no estomago, de alegria. Havia de ser boa ama. Mas que lhe andassem direitas! Desmazelos, más respostas, não havia de soffrer a criadas!—E, impellida por aquellas imaginações, arrastava subtilmente as chinellas pelo quarto, fallando só.—Não, desmazelos, não havia de soffrer! Mantel-as bem, de certo, porque quem trabalha precisa metter p'ra dentro! Mas havia de lh'o tirar do corpo. Ah! lá isso, haviam de lhe andar direitas...—A velha tinha então um gemido mais afflicto.

—É agora!—pensava—Morre!

E o seu olhar ancioso ia logo para a gaveta da commoda, onde estava de certo o dinheiro, os papeis. Mas não! a velha queria beber, ou voltar-se...

—Como se sente?—perguntava Juliana, com uma voz plangente.

—Melhor, Juliana, melhor—murmurava.

Suppunha-se sempre melhor.

—Mas a senhora tem estado desinquieta!—dizia Juliana, despeitada da melhora.

—Não—suspirava—dormi bem!

—Isso não tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite a gemer!

Queria argumentar com ella, convencel-a que estava peor! Convencer-se a si mesma que o allivio era ephemero, que ia morrer depressa! E todas as manhãs seguia o dr. Pinto até á porta, com os braços cruzados, a face triste:

—Então, snr. doutor, não ha esperança?

—Está por dias!

Queria saber os dias: dous? cinco?

—Sim, snr.a Juliana—dizia o velho, calçando as suas luvas pretas—uns dias, sete, oito.

—Oito dias!

E como a felicidade se aproximava, já tinha de olho tres pares de botinas que vira na vidraça do Manoel Lourenço!

A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no testamento!

Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados d'ella com a tia Virginia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometteu tomal-a para criada de dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar.

Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, começava a queixar-se mais do coração. Vinha desilludida de tudo, tinha ás vezes vontade de morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus ais. Luiza achava-a funebre.

Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge não consentiu, estava em divida com ella, dizia. Mas Luiza não podia disfarçar a sua antipathia;—e Juliana começou a detestal-a: poz-lhe logo um nome:—a piorrinha! depois, d'ahi a semanas viu vir os estofadores: renovava-se a mobilia da sala! A tia Virginia deixára tres contos de reis a Jorge,—e ella, ella que durante um anno fôra a enfermeira, humilde como um cão e fixa como uma sombra, aturando o monstrengo, tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das canceiras! Julgava-se vagamente roubada. Começou a odiar a casa.

Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia n'um cubiculo abafado; ao jantar não lhe davam vinho, nem sobremesa; o serviço dos engommados era pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias, e era um trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha: achava despropositada aquella mania de se pôrem a chafurdar todos os dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos, e nunca vira semelhante desproposito! A unica vantagem—dizia ella á tia Victoria—era não haver pequenos; tinha horror a crianças! Além d'isso achava que o bairro era saudavel; e como tinha a cozinheira «na mão», não é verdade? havia aquelle regalo dos caldinhos, de algum prato melhor de vez em quando! Por isso ficava; senão, não era ella!

Fazia no entanto o seu serviço, ninguem tinha nada que lhe dizer. O olho aberto sempre e o ouvido á escuta, já se vê! E como perdera a esperança de se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economisar: por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e satisfazia o seu vicio,—trazer o pé catita. O pé era o seu orgulho, a sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino.

—Como poucos—dizia ella—não vai outro ao Passeio!

E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lançava-o muito para fóra. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Publico, e alli, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de sêda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, immovel, feliz,—a mostrar, a expôr o pé!

IV

Índice de conteúdo

Pelas tres horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para uma cadeira, derreada. Não se tinha nas pernas de debilidade! Desde as duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta na vespera até deixára cinza de tabaco por cima das mesas! A negra é que as pagava. E que calor! Era de derreter! Ouf!

—O caldinho ha-de estar prompto, hein!—disse, adocicando a voz.—Tira-m'o, snr.a Joanna, faz favor?

—Vossemecê hoje está com outra cara—notou a cozinheira.

—Ai! sinto-me outra, snr.a Joanna! Pois olhe que adormeci com dia. Já luzia o dia!

—E eu!—Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma côr de fogo a passear-lhe por cima do corpo, e cada pancada na bocca do estomago, como quem pisava uvas n'um lagar!

—Enfartamento—disse sentenciosamente Juliana, e repetiu:

—Pois eu sinto-me outra. Ha mezes que me não sinto tão bem!

Sorria com os seus dentes amarellados. O caldo que Joanna deitava na malga branca, com um vapor cheiroso, cheio de hortaliça, dava-lhe uma alegria gulosa. Estendeu os pés, recostou-se, feliz, na boa sensação da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janellas abertas.

O sol retirára-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro, plantas pobres encolhiam a sua folhagem chupada do calor: sobre uma táboa a um canto, n'uma velha panella bojuda, verdejava um pé de salsa muito tratado: o gato dormia sobre um esteirão: esfregões seccavam n'uma corda: e para além alargava-se o azul vivo como um metal candente, as arvores dos quintaes tinham tons ardentes do sol, os telhados pardos com as suas vegetações esguias coziam no calor, e pedaços de paredes caiadas despediam uma rebrilhação dura.

—Está de appetite, snr.a Joanna, está de appetite!—dizia Juliana, remexendo o caldo devagarinho, com gula. A cozinheira de pé, com os braços cruzados sobre o seu peito abundante, regosijava-se:

—O que se quer é que esteja a gosto.

—Está a preceito.

Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras.—E a campainha da porta que já tinha tocado, tornou a tilintar discretamente.

Juliana não se mexeu. Bafos de aragem quente entravam: ouvia-se ferver a panella no fogão, e fóra o martellar incessante da forja: ás vezes o arrulhar triste de duas rôlas que viviam na varanda, n'uma gaiola de vime, punha na tarde abrazada uma sensação de suavidade.

A campainha retilintou, sacudida com impaciencia.

—Com a cabeça, burro!—disse Juliana.

Riram. Joanna fôra sentar-se á janella, n'uma cadeira baixa; estendia os seus grossos pés, calçados de chinellas de ourêlo; coçava-se devagarinho no sovaco, toda repousada.

A campainha retiniu violentamente.

—Fóra, besta!—rosnou Juliana, muito tranquilla.

Mas a voz irritada de Luiza chamou de baixo:

—Juliana!

—Que nem uma pessoa póde tomar a sustancia socegada! Raio de casa! Irra!

—Juliana!—gritou Luiza.

A cozinheira voltou-se, já assustada:

—A senhora zanga-se, snr.a Juliana.

—Que a leve o diabo!

Limpou os beiços gordurosos ao avental, desceu furiosa.

—Vossê não ouve, mulher? Estão a bater ha uma hora!

Juliana arregalou os olhos espantada: Luiza tinha vestido o roupão novo de foulard côr de castanho, com pintinhas amarellas!

—Temos novidade! Temol-a grossa!—pensou Juliana pelo corredor.

A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao peito, um embrulho debaixo do braço, estava o sujeito do negocio das minas!

—Aquelle sujeito de hontem!—veio dizer, toda pasmada.

—Mande entrar...

—Viva!—pensou.

Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de jubilo:

—Está cá o peralta de hontem! Está cá outra vez! Traz um embrulho!—Que lhe parece, snr.a Joanna? Que lhe parece?

—Visitas...—disse a cozinheira.

Juliana teve um risinho secco. Sentou-se, acabou o seu caldo, á pressa.

Joanna indifferente cantarolava pela cozinha; o arrulhar das rôlas continuava langoroso e debil.

—Pois, senhores, isto vai rico!—disse Juliana.

Esteve um momento a limpar os dentes com a lingua, o olhar fixo, reflectindo. Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Luiza: o seu olhar esquadrinhador avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas da dispensa: podia subir, beber um trago de bom vinho, engulir dous ladrilhos de marmelada... Mas possuia-a uma curiosidade urgente, e, em bicos de pés, foi agachar-se á porta que dava para a sala, espreitou. O reposteiro estava corrido por dentro: podia apenas sentir a voz grossa e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor, á outra porta, ao pé da escada; poz o olho á fechadura, collou o ouvido á frincha. O reposteiro dentro estava tambem cerrado.

—Os diabos calafetaram-se!—pensou.

Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma vidraça. Os olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Luiza sobresahiu, em seguida um silencio; e as vozes recomeçaram n'um tom sereno e continuo. De repente o sujeito ergueu a falla, e entre as palavras que dizia, de pé de certo, passeando, Juliana ouviu claramente: Tu, foste tu!

—Oh que bebeda!

Um tlim-tlim timido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era Sebastião, muito vermelho do sol, com as botas cheias de pó.

—Está?—perguntou, limpando a testa suada.

—Está com uma visita, snr. Sebastião!

E cerrando a porta sobre si, mais baixo:

—Um rapaz novo que já cá esteve hontem, um janota! Quer que vá dizer?

—Não, não, obrigado, adeus.

Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se á porta, a orelha contra a madeira, as mãos atraz das costas: mas a conversação, sem saliencia de vozes, tinha um rumor tranquillo e indistincto. Subiu á cozinha.

—Tratam-se por tu!—exclamou.—Tratam-se por tu, snr.a Joanna!

E muita excitada:

—Isto vai á vela! Caspitè! assim é que eu gosto d'ellas!

O sujeito sahiu ás cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a porta, veio a correr; viu Luiza no patamar, debruçada no corrimão, dizendo para baixo, com muita intimidade:

—Bem, não falto. Adeus.

Ficou então tomada d'uma curiosidade que a alterava como uma febre. Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Luiza com olhares de lado. Mas Luiza, com um roupão de linho mais velho, parecia serena, muito indifferente.

—Que sonsa!

Aquella naturalidade despertava a sua bisbilhotice.

—Eu hei-de-t'apanhar, desavergonhada!—calculava.

Afigurou-se-lhe que Luiza tinha os olhos um pouco pisados! Estudava-lhe as posições, os tons de voz. Viu-a repetir o assado,—pensou logo:

—Abriu-lhe o appetite!

E quando Luiza ao fim do jantar se estendeu na voltaire com um ar quebrado:

—Ficou derreada.

Luiza que nunca tomava café, quiz n'essa tarde «meia chavena, mas forte, muito forte».

—Quer café!—veio ella dizer á cozinheira, toda excitada.—Tudo á grande! E do forte. Quer do forte! Ora o diabo!

Estava furiosa.

—Todas o mesmo! Uma récua de cabras!

Ao outro dia era domingo. Logo pela manhã cedo, quando Juliana ia para a missa, Luiza chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta para levar a D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado;—e a curiosidade de Juliana accendeu-se logo diante d'aquelle sobrescripto fechado e lacrado com o sinete de Luiza, um L gothico dentro d'uma corôa de rosas.

—Tem resposta?

—Tem.

Quando voltou ás dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Luiza quiz saber se havia muito calor, se fazia poeira. Sobre a mesa estava um chapéo de palha escuro, que ella estivera a enfeitar com duas rosas de musgo.

Fazia um bocadinho de vento, mas p'ra a tarde abrandava, de certo. E pensou logo:—Temos passeata, vai ter com o gajo!

Mas durante todo o dia, Luiza em roupão não sahiu do seu quarto ou da sala, ora estendida na causeuse lendo aos bocados, ora batendo distrahidamente no piano pedaços de valsas. Jantou ás quatro horas. A cozinheira sahiu, e Juliana pôz-se a passar a sua tarde á janella da sala de jantar. Tinha o vestido novo, as salas muito rijas de gomma, a cuia dos dias santos—e pousava solemnemente os cotovêlos n'um lenço, estendido sobre o peitoril da varanda. Defronte os passaros chilreavam na figueira brava. Dos dous lados do tabique que cercava o terreno vago, agachavam-se os tectos escuros das duas ruasitas parallelas: eram casas pobres onde viviam mulheres, que pela tarde, em chambre ou de garibaldi, os cabellos muito oleosos, faziam meia á janella, fallando aos homens, cantarolando com um tedio triste. Do outro lado do terreno, verduras de quintaes, muros brancos davam áquelle sitio um ar adormecido de villa pacata. Quasi ninguem passava. Havia um silencio fatigado; e só ás vezes o som distante d'um realejo, que tocava a Norma ou a Lucia, punha uma melancolia na tarde.—E Juliana alli estava immovel, até que os tons quentes da tarde empallideciam, e os morcegos começavam a voar.

Pelas oito horas entrou no quarto de Luiza,—ficou pasmada de a vêr vestida toda de preto, de chapéo! Tinha accendido as serpentinas na parede, os castiçaes no toucador; e sentada á beira da causeuse calçava as luvas devagar, com a face muito séria, um pouco esbatida de pó d'arroz, o olhar cheio de brilho.

—O vento abrandou?—disse.

—Está a noite muito bonita, minha senhora.

Um pouco antes das nove horas uma carruagem parou á porta. Era D. Felicidade, muito encalmada. Abafára todo o dia! E á noite nem uma aragem! Até tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, que n'um coupé, credo, morria-se!

Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? onde iriam? D. Felicidade, amplamente sentada, de chapéo, tagarellava: uma indigestão que tivera na vespera com umas bajes; a cozinheira que a tinha querido «comer» em quatro vintens; uma visita que lhe fizera a condessa de Arruella...

Emfim, Luiza, disse, baixando o seu véo branco:

—Vamos, filha. Faz-se tarde.

Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que proposito, irem duas mulheres sós por ahi fóra, n'uma tipoia! E se uma criada então se demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas bebedas!

Foi á cozinha desabafar com a Joanna. Mas a rapariga estirada n'uma cadeira, dormitava.

Fôra com o seu Pedro ao Alto de S. João. E toda a tarde tinham passeado no cemiterio, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os epitaphios, beijocando-se nos recantos que os chorões escureciam, e regalando-se do ar dos cyprestes e das relvas dos mortos. Voltaram por casa da Serena, entraram a beberricar um quartilho no Espregueira... Tarde cheia! e estava derreada da soalheira, do pó, da admiração de tanto tumulo rico, do homem, e da pinguita de vinho.

O que ia, era refastelar-se para a cama!

—Credo, snr.a Joanna, vossemecê está-se a fazer uma dorminhôca! Olha que mulher! Com pouco arrêa! Cruzes!

Desceu ao quarto de Luiza, apagou as luzes, abriu as janellas, arrastou a poltrona para a varanda,—e, repimpada, os braços cruzados, pôz-se a passar a noite.

O estanque ainda não se fechára, e a sua luzita lugubre como a estanqueira, estendia-se tristemente sobre a pedra miuda da rua; as janellas ao pé estavam abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se dentro serões melancolicos; n'outras, onde havia vultos immoveis, luzia ás vezes a ponta d'um cigarro; aqui, além tossia-se; e o moço do padeiro, no silencio quente da noite, harpejava baixinho a guitarra.

Juliana pozera um vestido de chita claro; dous sujeitos que estavam á porta do estanque riam, erguiam de vez em quando os olhos para a janella, para aquelle vulto branco de mulher: Juliana, então, gozou! Tomavam-na de certo pela senhora, pela do Engenheiro; faziam-lhe «olho», diziam brejeirices... Um tinha calça branca e chapéo alto, eram janotas... E com os pés muito estendidos, os braços cruzados, a cabeça de lado, saboreava, longamente, aquella consideração.

Passos fortes que subiam a rua, pararam á porta; a campainha retiniu de leve.

—Quem é?—perguntou muito impaciente.

—Está?—disse a voz grossa de Sebastião.

—Sahiu com a D. Felicidade, foram de carruagem.

—Ah!—fez elle.

E acrescentou:

—Muito bonita noite!

—D'appetite, snr. Sebastião! d'appetite!—exclamou alto.

E quando o viu descer a rua, gritou, affectadamente:

—Recados a Joanna! Não se esqueça!—mostrando-se intima, madama, com olho terno para os homens.

Áquella hora D. Felicidade e Luiza chegavam ao Passeio.

Era beneficio; já de fóra se sentia o brouhaha lento e monotono, e via-se uma nevoa alta de poeira, amarellada e luminosa.

Entraram. Logo ao pé do tanque encontraram Bazilio. Fez-se muito surprehendido, exclamou:

—Que feliz acaso!

Luiza corou, apresentou-o a D. Felicidade.

A excellente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se d'elle, mas se não lhe dissessem talvez o não conhecesse! Estava muito mudado!

—Os trabalhos, minha senhora...—disse Bazilio curvando-se.

E acrescentou rindo, batendo com a bengala na pedra do tanque:

—E a velhice! Sobretudo a velhice!

Na agua escura e suja as luzes do gaz torciam-se até uma grande profundidade. As folhagens em redor estavam immoveis, no ar parado, com tons d'um verde livido e artificial. Entre os dous longos renques parallelos d'arvores mesquinhas, entremeadas de candieiros de gaz, apertava-se, n'um empoeiramento de macadam, uma multidão compacta e escura; e através do rumor grosso, as saliencias metallicas da musica faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa.

Tinham ficado parados, conversando.

Que calor, hein? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! que enchente!

E olhavam a gente que entrava: moços muito frisados, com calças côr de flôr d'alecrim, fumando ceremoniosamente os charutos do dia santo; um aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchumaçado; duas meninas de cabello riçado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um ecclesiastico côr de cidra, o ar molle, o cigarro na bocca, e lunetas defumadas; uma hespanhola com dous metros de saia branca muita rija, fazendo ruge-ruge na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão e bengalão, de chapéo na nuca, o olho avinhado; e Bazilio ria muito de dous pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado—vestidos d'azul claro, a cinta ligada n'uma facha escarlate, barretinas de lanceiro, botas á hungara, cretinos e somnambulos.

Um sujeito alto então passou rente d'elles, e voltando-se, revirou para Luiza dous grandes olhos langorosos e prateados: tinha uma pera longa e aguçada; trazia o collete decotado mostrando um bello peitilho, e fumava por urna boquilha enorme que representava um zuavo.

Luiza quiz-se sentar.

Um garoto de blusa, sujo como um esfregão, correu a arranjar cadeiras; e acommodaram-se ao pé d'uma familia acabrunhada e taciturna.

—Que fizeste tu hoje, Bazilio?—perguntou Luiza.

Tinha ido aos touros.

—E que tal? Gostaste?

—Uma semsaboria. Se não fosse pelo trambolhão do Peixinho tinha-se morrido de pasmaceira. Gado fraco, cavalleiros infelizes, nenhuma sorte! Touros em Hespanha! Isso sim!

D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz, quando estivera de visita em Elvas á tia Francisca de Noronha, e ia desmaiando. O sangue, as tripas dos cavallos... Pouh! É muito cruel!

Bazilio disse, com um sorriso:

—Que faria se visse os combates de gallos, minha senhora!

D. Felicidade tinha ouvido contar,—mas achava todos esses divertimentos barbaros, contra a religião.

E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda:

—P'ra mim não ha nada como uma boa noite de theatro! Nada!

—Mas aqui representam tão mal!—replicou Bazilio com uma voz desolada.—Tão mal, minha rica senhora!

D. Felicidade não respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado d'um brilho humido, saudava desesperadamente com a mão:

—Não me viu—disse desconsolada.

—Era o conselheiro?—perguntou Luiza.

—Não. Era a condessa d'Alviella. Não me viu! Vai muito á Encarnação, sou muito d'ella. É um anjo! Não me viu. Ia com o sogro.

Bazilio não tirava os olhos de Luiza. Sob o véo branco, á luz falsa do gaz, no ar ennevoado da poeira, o seu rosto tinha uma fórma alva e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham uma expressão apaixonada; os cabellinhos louros, frisados, tornando a testa mais pequena, davam-lhe uma graça ameninada e amorosa; e as luvas gris-perle faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante das mãos, que ella pousára no regaço, sustentando o leque, com uma fofa renda branca em torno dos seus pulsos finos.

—E tu, que fizeste hoje?—perguntou-lhe Bazilio.

Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a lêr.

Tambem elle passára a manhã deitado no sophá a lêr a Mulher de fogo de Belot. Tinha lido, ella?

—Não, que é?

—É um romance, uma novidade.

E acrescentou sorrindo:

—Talvez um pouco picante; não t'o aconselho!

D. Felicidade andava a lêr o Rocambole. Tanto lh'o tinham apregoado! Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar, porque tinha percebido que a leitura lhe augmentava a indigestão.

—Soffre?—perguntou Bazilio, com um interesse bem educado.

D. Felicidade contou logo a sua dyspepsia. Bazilio aconselhou-lhe o uso do gelo.—De resto felicitava-a, porque as doenças d'estomago, ultimamente, tinham muito chic. Interessou-se pela d'ella, pediu pormenores.

D. Felicidade prodigalisou-os; e, fallando, via-se-lhe crescer no olhar, na voz a sua sympathia por Bazilio. Havia de usar o gelo!

—Com o vinho, já se sabe?

—Com o vinho, minha senhora!

—E olha que talvez!—exclamou D. Felicidade, batendo com o leque no braço de Luiza, já esperançada.

Luiza sorriu, ia responder—mas viu o sujeito pallido da pera longa que fitava n'ella os seus olhos langorosos, com obstinação. Voltou o rosto importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pera.

Luiza sentia-se molle; o movimento rumoroso e monotono, a noite calida, a accumulação da gente, a sensação de verdura em redor davam ao seu corpo de mulher caseira um torpor agradavel, um bem estar d'inercia, envolviam-na n'uma doçura emolliente de banho morno. Olhava com um vago sorriso, o olhar frouxo; quasi tinha preguiça de mexer as mãos, d'abrir o leque.

Bazilio notou o seu silencio.—Tinha somno?

D. Felicidade sorriu com finura.

—Ora, vê-se sem o seu maridinho! Desde que o não tem está esta mona que se vê.

Luiza respondeu, olhando Bazilio instinctivamente:

—Que tolice! Até estes dias tenho andado bem alegre!

Mas D. Felicidade insistia:

—Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraçãosinho está no Alemtejo!

Luiza disse, com impaciencia:

—Não has-de querer que me ponha aos pulos e ás gargalhadas no Passeio.

—Está bem, não te enfureças!—exclamou D. Felicidade. E para Bazilio:—Que geniosinho, hein!

Bazilio pôz-se a rir.

—A prima Luiza antigamente era uma vibora. Agora não sei...

D. Felicidade acudiu:

—É uma pomba, coitada, é uma pomba! Não, lá isso, é uma pomba.

E envolvia-a n'um olhar maternal.

Mas a familia taciturna ergueu-se, sem ruido,—e as meninas adiante, os paes atraz, afastaram-se lugubremente, succumbidos.

Bazilio immediatamente apossou-se da cadeira ao pé de Luiza,—e vendo D. Felicidade a olhar distrahida:

—Estive para te ir vêr de manhã—disse baixinho a Luiza.

Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferença:

—E porque não foste? Tinhamos feito musica. Fizeste mal. Devias ter ido...

D. Felicidade quiz então saber as horas. Começava a enfastiar-se. Tinha esperado encontrar o conselheiro: por elle, para lhe parecer bem, fizera o sacrificio de se apertar; Accacio não vinha, os gazes começavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella ausencia augmentava-lhe a tortura da digestão. Na sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a multidão que girava incessantemente, n'uma nevoa empoeirada.

Mas a musica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruido de cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do Fausto. Aquillo reanimou-a. Era um pot-pourri da opera,—e não havia musica de que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos, o snr. Bazilio?

Bazilio disse, com uma intenção, voltando-se para Luiza:

—Não sei, minha senhora, depende...

Luiza olhava, calada. A multidão crescera. Nas ruas lateraes mais espaçosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das arvores, os acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato coçado. Toda a burguezia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor formado pela filas cerradas das cadeiras do asylo: e alli se movia entalada, com a lentidão espessa d'uma massa mal derretida, arrastando os pés, raspando o macadam, n'um amarfanhamento plebeu, a garganta secca, os braços molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente, para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor grosso, sem alegria e sem bonhomia, no arrebanhamento passivo que agrada ás raças mandrionas: no meio da abundancia das luzes e das festividades da musica, um tedio morno circulava, penetrava como uma nevoa: a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e nos rostos que passavam sob os candieiros, nas zonas mais directas de luz, viam-se desconsolações de fadiga e aborrecimentos de dia santo.

Defronte as casas da rua Occidental tinham na sua fachada o reflexo claro das luzes do Passeio; algumas janellas estavam abertas; as cortinas de fazenda escura destacavam sobre a claridade interior dos candieiros. Luiza sentia como uma saudade de outras noites de verão, de serões recolhidos. Onde? Não se lembrava. O movimento então retrahia-a; e encontrava em face, fitando-a n'uma attitude lugubre, o sujeito da pera longa. Debaixo do véo sentia a poeira arder-lhe nos olhos: em redor d'ella gente bocejava.

D. Felicidade propoz uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar; as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de faces a que a luz do gaz dava o mesmo tom amarellado olhavam de um modo fixo e cançado, n'um abatimento de pasmaceira. Aquelle aspecto irritou Bazilio, e como era difficil andar lembrou—«que se fossem d'aquella semsaboria».

Sahiram. Em quanto elle ia comprar os bilhetes, D. Felicidade, deixando-se quasi cahir n'um banco sob a folhagem d'um chorão, exclamou afflicta:

—Ai filha! Estou que arrebento!

Passava a mão no estomago, tinha a face envelhecida.

—E o conselheiro, que me dizes? Olha que já é pouca sorte! Hoje que eu vim ao Passeio...

Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso:

—É muito sympathico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo. Que elles conhecem-se, filha!

Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o portão. Era melhor tomarem um trem.

Bazilio achava preferivel subirem a pé até ao largo do Loreto. A noite estava tão agradavel! E o andar fazia bem á snr.a D. Felicidade!

Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve; mas D. Felicidade receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do café abertas, viam-se sobre as mesas jornaes enxovalhados; e algum raro individuo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de morango.

No Rocio, sob as arvores, passeava-se: pelos bancos, gente immovel parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos passavam, com o chapéo na mão, abanando-se, o collete desabotoado; a cada canto se apregoava agua fresca «do Arsenal»; em torno do largo, carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céo abafava,—e na noite escura, a columna da estatua de D. Pedro tinha o tom baço e pallido de uma vela de estearina colossal e apagada.

Bazilio, ao pé de Luiza, ia calado. Que horror de cidade!—pensava—Que tristeza! E lembrava-lhe Paris, de verão: subia, á noite, no seu phaeton, os Campos Elyseos devagar: centenares de victorias descem, sobem rapidamente, com um trote discreto e alegre; e as lanternas fazem em toda a avenida um movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, balançadas nas molas macias; o ar em redor tem uma doçura avelludada, e os castanheiros espalham um aroma subtil. Dos dous lados, d'entre os arvoredos, saltam as claridades violentas dos cafés cantantes, cheios do brouhaha das multidões alegres, dos brios impulsivos das orchestras; os restaurantes flammejam; ha uma intensidade de vida amorosa e feliz; e, para além, sahe das janellas dos palacetes, através dos stores de sêda, a luz sobria e velada das existencias ricas. Ah! se lá estivesse!—Mas ao passar junto dos candieiros olhava de lado para Luiza: o seu perfil fino sob o véo branco tinha uma grande doçura; o vestido prendia bem a curva do seu peito; e havia no seu andar uma lassidão que lhe quebrava a linha da cinta de um modo languido e promettedor.

Veio-lhe uma certa idéa, começou a dizer: Que pena que não houvesse em toda a Lisboa um restaurante, onde se podesse ir tomar uma aza de perdiz e beber uma garrafa de champagne frappée!

Luiza não respondeu. Devia ser delicioso—pensava.—Mas D. Felicidade exclamou:

—Perdiz, a esta hora!

—Perdiz ou outra qualquer cousa.

—Fosse o que fosse, era para estourar! Credo!

Subiam pela rua Nova do Carmo. Os candieiros davam uma luz mortiça: as altas casas dos dous lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra; e a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem ruido, sinistra e subtil.

Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de loteria; a sua voz aguda e chorosa promettia a fortuna, muitos contos de reis. D. Felicidade ainda parou, com uma tentação... Mas uma troça de rapazes bebedos que descia de chapéo na nuca, fallando alto, aos tropeções, assustou muito as duas senhoras. Luiza encolheu-se logo contra Bazilio, D. Felicidade enfiada agarrou-lhe anciosamente o braço, quiz-se metter n'uma carruagem; e até ao Loreto foi explicando o seu medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem largar o braço de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao lado das grades da praça de Camões, um cocheiro lançou logo a sua caleche descoberta, de pé na almofada, apanhando confusamente as rédeas, com grandes chicotadas na parelha, muito excitado, gritando:

—Prompto, meu amo, prompto!

Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem então passou, rondou,—e Luiza desesperada reconheceu os olhos acarneirados do sujeito da pera.

Entraram para a caleche. Luiza ainda se voltou para vêr Bazilio immovel no largo, com o seu chapéo na mão: depois accommodou-se, pôz os pésinhos no outro assento e balançada pelo trote largo viu passar, calada, as casas apagadas da rua de S. Roque, as arvores de S. Pedro de Alcantara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins adormecidos da Patriarchal. A noite estava immovel, de um calor molle: e desejava, sem saber porque, rolar assim sempre, infinitamente, entre ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino, sem cuidados, para alguma cousa de feliz que não distinguia bem! Um grupo defronte da Escóla ia tocando o Fado do Vimioso; aquelles sons entraram-lhe na alma como um vento dôce, que fazia agitar brandamente muitas sensibilidades passadas: suspirou baixo.

—Um suspirosinho que vai para o Alemtejo—disse D. Felicidade, tocando-lhe o braço.

Luiza sentiu todo o sangue abrazar-lhe o rosto. Davam onze horas quando entrou em casa.

Juliana veio alumiar.—O chá estava prompto, quando a senhora quizesse...

Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupão branco, muito fatigada, estendeu-se na voltaire; sentia vir-lhe uma somnolencia, a cabeça pendia-lhe, cerrava as palpebras... E Juliana tardava tanto com o chá! Chamou-a. Onde estava? credo!

Tinha descido, pé ante pé, ao quarto de Luiza. E ahi tomando o vestido, as saias engommadas que ella despira e atirára para cima da causeuse, desdobrou-as, revirou-as, examinou-as, e com uma certa idéa, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente, com uma pontinha de suor e de agua de colonia. Quando a sentiu chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo.—Fôra abaixo dar uma arrumadella. Era o chá? Estava prompto...

E entrando com as torradas:

—Veio ahi o snr. Sebastião, haviam de ser nove horas...

—Que lhe disse?

—Que a senhora tinha sahido com a snr.a D. Felicidade. Como não sabia, não disse para onde.

E acrescentou:

—Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastião... Esteve a conversar mais de meia hora!...

Luiza recebeu, na manhã seguinte, da parte de Sebastião, um ramo de rosas, magenta-escuro, magnificas. Cultivava-as elle na quinta de Almada, e chamavam-se rosas D. Sebastião. Mandou-as pôr nos vasos da sala, e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e suffocante:

—Olhe—disse a Juliana—abra as janellas.

—Bem—pensou Juliana—temos cá o melro.

O melro veio com effeito ás tres horas. Luiza estava na sala, ao piano.

—Está alli o sujeito do costume—foi dizer Juliana.

Luiza voltou-se corada, escandalisada da expressão:

—Ah! meu primo Bazilio? Mande entrar.

E chamando-a:

—Ouça, se vier o snr. Sebastião, ou alguem, que entre.

Era o primo! O sujeito, as suas visitas perderam de repente para ella todo o interesse picante. A sua malicia cheia, enfunada até ahi, cahiu, engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo!

Subiu á cozinha, devagar,—lograda.

—Temos grande novidade, snr.a Joanna! O tal peralta é primo. Diz que é o primo Bazilio.

E com um risinho:

—É o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo á ultima hora! O diabo tem graça!

—Então que havia de o homem ser senão parente?—observou Joanna.

Juliana não respondeu. Quiz saber se estava o ferro prompto, que tinha uma carga de roupa para passar! E sentou-se á janella, esperando. O céo baixo e pardo pesava, carregado de electricidade; ás vezes uma aragem subita e fina punha nas folhagens dos quintaes um arripio tremulo.

—É o primo!—reflectia ella.—E só vem então quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no ar quando elle sahe, e é roupa branca e mais roupa branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bebeda! Tudo fica na familia!

Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia alli muito «para vêr e para escutar». E o ferro, estava prompto?

Mas a campainha, em baixo, tocou.

—Boa! isto agora é um fadario! Estamos na casa do despacho!

Desceu; e exclamou logo, vendo Julião com um livro debaixo do braço:

—Faz favor d'entrar, snr. Julião! A senhora está com o primo, mas diz que mandasse entrar!

Abriu a porta da sala bruscamente, de surpreza.

—Está aqui o snr. Julião—disse com satisfação.

Luiza apresentou os dous homens.

Bazilio ergueu-se do sophá languidamente, e, n'um relance, percorreu Julião desde a cabelleira desleixada até ás botas mal engraxadas, com um olhar quasi horrorisado.

—Que pulha!—pensou.

Luiza, muito fina, percebeu, e córou, envergonhada de Julião.

Aquelle homem de collarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano preto mal feito—que idéa daria a Bazilio das relações, dos amigos da casa! Sentia já o seu chic diminuido. E instinctivamente, a sua physionomia tornou-se muito reservada,—como se semelhante visita a surprehendesse! semelhante toilette a indignasse!

Julião percebeu o constrangimento d'ella, disse, já embaraçado, ageitando a luneta:

—Passei por aqui por acaso, entrei a saber se ha algumas noticias de Jorge...

—Obrigada. Sim, tem escripto. Está bem...

Bazilio, recostado no sophá, como um parente intimo, examinava a sua meia de sêda bordada de estrellinhas escarlates, e cofiava indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo minimo,—onde brilhavam, em dous grossos anneis d'ouro, uma saphira e um rubi.

A affectação da attitude, o reluzir das joias irritaram Julião.

Quiz mostrar tambem a sua intimidade, os seus direitos, disse:

—Eu não tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho estado muito occupado...

Luiza acudiu para desauthorisar logo aquella familiaridade:

—Eu tambem não me tenho achado bem. Não tenho recebido ninguem,—a não ser meu primo, naturalmente!

Julião sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpreza, d'indignação, ficou a balançar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a calça era curta, via-se o elastico esfiado das botas velhas.

Houve um silencio difficil.

—Bonitas rosas!—disse emfim Bazilio, preguiçosamente.

—Muito bonitas!—respondeu Luiza.

Estava agora compadecida de Julião, procurava uma palavra; disse-lhe emfim muito precipitadamente:

—E que calor! É de morrer! Tem havido muitas doenças?

—Colerinas—respondeu Julião.—Por causa das frutas. Doenças de ventre.

Luiza baixou os olhos. Bazilio então começou a fallar da viscondessinha d'Azeias: tinha-a achado acabada; e que era feito da irmã, da grande?

Aquella conversação sobre fidalgas que elle não conhecia isolava mais Julião: sentia o suor humedecer-lhe o pescoço; procurava um dito, uma ironia, uma agudeza; e machinalmente abria e fechava o seu grosso livro de capa amarella.

—É algum romance?—perguntou-lhe Luiza.

—Não. É o tratado do dr. Lee sobre doenças d'utero.

Luiza fez-se escarlate: Julião tambem, furioso da palavra que lhe escapára. E Bazilio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D. Raphaela Grijó, que costumava ir á rua da Magdalena, que usava luneta, e tinha um cunhado gago...

—Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado.

—Com o gago?

—Sim. Tem um filhito d'elle, gago tambem.

—Que conversação, em familia! E a D. Eugenia, a de Braga?

Julião, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta secca:

—Estou com pressa, não me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os meus recados, hein?

Abaixou bruscamente a cabeça a Bazilio. Mas não achava o chapéo, tinha rolado para debaixo d'uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro, topou violentamente contra a porta fechada, e sahiu emfim desesperado, desejando vingar-se, odiando Luiza, Jorge, o luxo, a vida,—transbordando agora d'ironias, de ditos, de réplicas. Devia-os ter achatado, o asno e a tola... E não lhe acudira nada!

Mas apenas elle tinha fechado a cancella, Bazilio pôz-se de pé, e cruzando os braços:

—Quem é este pulha?

Luiza córou muito, balbuciou:

—É um rapaz medico...

—É uma creatura impossivel, é uma especie d'estudante!

—Coitado, não tem muitos meios...

Mas não era necessario ter meios para escovar o casaco e limpar a caspa! Não devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu marido gostava d'elle, que o recebesse no escriptorio!...

Passeava pela sala, excitado, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves.

—São frescos os amigos da casa!...—continuou.—Que diabo! tu não foste educada assim. Nunca tiveste gente d'este genero na rua da Magdalena.

Não tivera: e pareceu-lhe que as ligações do casamento lhe tinham trazido um pouco o plebeismo das convivencias. Mas um respeito pelas opiniões, pelas sympathias de Jorge fez-lhe dizer:

—Diz que tem muito talento...

—Era melhor que tivesse botas.

Luiza, por cobardia, concordou.

—Tambem o acho exquisito!—disse.

—Horrivel, minha filha!

Aquella palavra fez-lhe bater o coração. Era assim que elle lhe chamava, outr'ora! Houve um momento de silencio:—e a campainha da porta retiniu fortemente.

Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastião! Bazilio achal-o-hia ainda mais reles! Mas Juliana veio dizer:

—O snr. conselheiro. Mando entrar?

—De certo—exclamou.

E a alta figura d'Accacio adiantou-se, com as bandas do casaco d'alpaca deitadas para traz, a calça branca muito engommada cahindo sobre sapatos de entrada abaixo, de laço.

Apenas Luiza lhe apresentou o primo Bazilio, disse logo, respeitoso:

—Já sabia que v. exc.a tinha chegado, vi-o nas interessantes noticias do nosso high-life. E do nosso Jorge?

Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece muito...

Bazilio, mais amavel, deixou cahir:

—Eu realmente não tenho a menor idéa do que se possa fazer em Beja. Deve ser horroroso!

O conselheiro, passando sobre o bigode a sua mão branca onde destacava o annel d'armas, observou:

—É todavia a capital do districto!

Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e era a capital do reino!—E Bazilio puxava, todo recostado, o punho da camisa.—Morria-se positivamente de pasmaceira!

Luiza, muito contente da affabilidade de Bazilio, pôz-se a rir:

—Não digas isso diante do conselheiro. É um grande admirador de Lisboa.

Accacio curvou-se:

—Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora.

E com muita bonhomia:

—Conheço porém que não é para comparar aos Parizes, ás Londres, ás Madrids...

—De certo—fez Luiza.

E o conselheiro continuou com pompa:

—Lisboa porém tem bellezas sem igual! A entrada, ao que me dizem (eu nunca entrei a barra), é um panorama grandioso, rival das Constantinoplas e das Napoles. Digno da penna d'um Garrett ou d'um Lamartine! Proprio para inspirar um grande engenho!...

Luiza, receando citações ou apreciações litterarias, interrompeu-o, perguntou-lhe o que tinha feito? Tinham estado domingo no Passeio, ella e D. Felicidade, tinham esperado vêl-o, e nada!

Nunca ia ao Passeio, ao domingo—declarou.—Reconhecia que era muito agradavel, mas a multidão entontecia-o. Tinha notado,—e a sua voz tomou o tom espaçado d'uma revelação,—tinha notado que muita gente, n'um local, causa vertigens aos homens d'estudo. De resto queixou-se da sua saude e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e usando as aguas de Vichy.

—Pódes fumar—disse Luiza de repente, sorrindo, a Bazilio.—Queres lume?

Ella mesmo lhe foi buscar um phosphoro, toda ligeira, feliz. Tinha um vestido claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabellos pareciam mais louros, a sua pelle mais fina.

Bazilio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado:

—O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!...

O conselheiro reflectiu e respondeu:

—Não serei tão severo, snr. Brito!—Mas parecia-lhe que com effeito antigamente era uma diversão mais agradavel.—Em primeiro lugar—exclamou com muita convicção, endireitando-se—nada, mas nada, absolutamente nada póde substituir a charanga da Armada!—Além d'isso havia a questão dos preços... Ah! tinha estudado muito o assumpto! Os preços diminutos favoreciam a agglomeração das classes subalternas... Que longe do seu pensamento lançar desdouro n'essa parte da população... As suas idéas liberaes eram bem conhecidas.—Appéllo para a snr.a D. Luiza!—disse.—Mas emfim, sempre era mais agradavel encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio. Talvez não acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas! N'esses dias, sim, ia vêr por fóra das grades. Não por economia! De certo não. Não era rico, mas podia fazer face a essa contribuição diminuta. Mas é que receava os accidentes! É que os receava muito! Contou a historia d'um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana de foguete furára o craneo.—E além d'isso nada mais facil que cahir uma fagulha accesa na cara, n'um paletot novo...—É conveniente ter prudencia—resumiu, compenetrado, limpando os beiços com o lenço de sêda da India muito enrolado.

Fallaram então da estação: muita gente fôra para Cintra: de resto, Lisboa no verão era tão seccante!... E o conselheiro declarou que Lisboa só era imponente, verdadeiramente imponente, quando estavam abertas as camaras e S. Carlos!

—Que estavas tu a tocar quando eu entrei?—perguntou Bazilio.

O conselheiro acudiu logo:

—Se estavam fazendo musica, por quem são... Sou um velho assignante de S. Carlos, ha dezoito annos...

Bazilio interrompeu-o:

—Toca?

—Toquei. Não o occulto. Em rapaz fui dado á flauta.

E acrescentou, com um gesto benevolo:

—Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luiza?

—Não! Uma musica muito conhecida, já antiga: a Filha do Pescador, de Meyerbeer! Tenho a letra traduzida.

Tinha cerrado as vidraças, sentára-se ao piano.

—O Sebastião é que toca isto bem, não é verdade, conselheiro?

—O nosso Sebastião—disse o conselheiro com authoridade—é um rival dos Thalbergs e dos Litz. Conhece o nosso Sebastião?—perguntou a Bazilio.

—Não, não conheço.

—Uma perola!

Bazilio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode.

—Tu ainda cantas?—perguntou-lhe Luiza, sorrindo.

—Quando estou só.

Mas o conselheiro pediu-lhe logo um «trecho». Bazilio ria. Tinha medo d'escandalisar um velho assignante de S. Carlos...

O conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente:

—Coragem, snr. Brito, coragem!

Luiza então preludiou.

E Bazilio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barytono; as suas notas altas faziam a sala sonora. O conselheiro, direito na poltrona, escutava concentrado; a sua testa, franzida n'um vinco, parecia curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas destacavam, com reflexos escuros, n'aquella physionomia de calvo, que o calor tornava mais pallida.

Bazilio dizia com uma melancolia grave a primeira phrase, tão larga, da canção:

Igual ao mar sombrio

Meu coração profundo...

Um poeta, com uma dedicação obscura, traduzira a letra no Almanach das Senhoras. Luiza pela sua propria mão a tinha copiado nas entrelinhas da musica. E Bazilio debruçado sobre o papel sempre torcendo as pontas do bigode:

Tem tempestades, coleras,

Mas perolas no fundo!

Os olhos largos de Luiza affirmavam-se para a musica—ou a espaços, com um movimento rapido, erguiam-se para Bazilio. Quando, na nota final, prolongada como a reclamação d'um amor supplicante, Bazilio soltou a voz d'um modo appellativo:

Vem! vem

Pousar, ó dôce amada,

Teu peito contra o meu...

os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significação de tanto desejo, que o peito de Luiza arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado.

O conselheiro bateu as palmas.

—Uma voz admiravel!—exclamava—Uma voz admiravel!

Bazilio dizia-se envergonhado.

—Não, senhor, não, senhor!—protestou Accacio, levantando-se.—Um excellente orgão! Direi, o melhor orgão da nossa sociedade!

Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, então ia dizer-lhes uma modinha brazileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter preludiado uma melodia muito balançada, d'um embalado tropical, cantou:

Sou negrinha, mas meu peito

Sente mais que um peito branco.

E interrompendo-se:

—Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando eu parti.

Era a historia d'uma «negrinha» nascida na roça, e que contava, com lyrismos d'almanach, a sua paixão por um feitor branco.

Bazilio parodiava o tom sentimental d'alguma menina bahiana; e a sua voz tinha uma preciosidade comica, quando dizia o ritornello choroso:

E a negra p'ra os mares

Seus olhos alonga;

No alto coqueiro

Cantava a araponga.

O conselheiro achou «delicioso»; e, de pé na sala, lamentou a proposito da cantiga a condição dos escravos. Que lhe affirmavam amigos do Brazil que os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisação era a civilisação! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita confiança no imperador...

—Monarcha de rara illustração...—acrescentou respeitosamente.

Foi buscar o seu chapéo, e collando-lhe as abas ao peito, curvando-se, jurou que—havia muito tempo não tinha passado uma manhã tão completa. De resto para elle nada havia como a boa conversação e a boa musica...

—Onde está v. exc.a alojado, snr. Brito?

Pelo amor de Deus! Que não se incommodasse! Estava no Hotel Central.

Não havia considerações que o impedissem de cumprir o seu dever—declarou.—Cumpril-o-hia! Elle era uma pessoa inutil, a snr.a D. Luiza bem o sabia.—Mas se necessitar alguma cousa, uma informação, uma apresentação nas regiões officiaes, licença para visitar algum estabelecimento publico, creia que me tem ás suas ordens!

E conservando na sua mão a mão de Bazilio:

—Rua do Ferregial de Cima numero tres, terceiro. O modesto tugurio d'um ermita.

Tornou a curvar-se diante de Luiza:

—E quando escrever ao nosso viajante, que faço sinceros votos pela prosperidade dos seus emprehendimentos. Por quem é! Criado de v. exc.a!

E direito, grave, sahiu.

—Este ao menos é limpo—resmungou Bazilio, com o charuto ao canto da bocca.

Sentára-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luiza aproximou-se:

—Canta alguma cousa, Bazilio!

Bazilio pôz-se então a olhar muito para ella.

Luiza córou, sorriu; através da fazenda clara e transparente do vestido, entrevia-se a brancura macia e lactea do collo e dos braços; e nos seus olhos, na côr quente do rosto havia uma animação e como uma vitalidade amorosa.

Bazilio disse-lhe, baixo:

—Estás hoje nos teus dias felizes, Luiza.

O olhar d'elle, tão avido, perturbava-a; insistiu:

—Canta alguma cousa.

O seu seio arfava.

—Canta tu—murmurou Bazilio.

E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas um pouco humidas, um pouco tremulas, uniram-se.

A campainha, fóra, tocou. Luiza desprendeu a mão bruscamente.

—É alguem—disse agitada.

Vozes baixas fallavam á cancella.

Bazilio teve um movimento d'hombros contrariado, foi buscar o chapéo.

—Vaes-te?—exclamou ella toda desconsolada.

—Pudera! Não posso estar só comtigo um momento!

A cancella fechou-se com ruido.

—Não é ninguem, foi-se—disse Luiza.

Estavam de pé, no meio da sala.

—Não te vás! Bazilio!

Os seus olhos profundos tinham uma supplicação dôce. Bazilio pousou o chapéo sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso.

—E para que queres tu estar só commigo?—disse ella.—Que tem que venha gente?—E arrependeu-se logo d'aquellas palavras.

Mas Bazilio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço sobre os hombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos cabellos, vorazmente.

Ella soltou-se a tremer, escarlate.

—Perdôa-me—exclamou elle logo, com um impeto apaixonado.—Perdôa-me. Foi sem pensar. Mas é porque te adoro, Luiza!

Tomou-lhe as mãos com dominio, quasi com direito.

—Não. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a vêr estou doudo por ti, como d'antes, a mesma cousa. Nunca deixei de me morrer por ti. Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te vêr rica, feliz. Não te podia levar para o Brazil. Era matar-te, meu amor! Tu imaginas lá o que aquillo é! Foi por isso que te escrevi aquella carta, mas o que eu soffri, as lagrimas que chorei!

Luiza escutava-o immovel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquella voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, vencia-a; as mãos de Bazilio penetravam com o seu calor febril a substancia das suas; e, tomada d'uma lassidão, sentia-se como adormecer.

—Falla, responde!—disse elle anciosamente, sacudindo-lhe as mãos, procurando o seu olhar avidamente.

—Que queres que te diga?—murmurou ella.

A sua voz tinha um tom abstracto, mal acordado.

E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:

—Fallemos n'outras cousas!

Elle balbuciava com os braços estendidos:

—Luiza! Luiza!

—Não, Bazilio, não!

E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentação, com a molleza d'uma caricia.

Elle então não hesitou, prendeu-a nos braços.

Luiza ficou inerte, os beiços brancos, os olhos cerrados—e Bazilio, pousando-lhe a mão sobre a testa, inclinou-lhe a cabeça para traz, beijou-lhe as palpebras devagar, a face, os labios depois muito profundamente; os beiços d'ella entreabriram-se, os seus joelhos dobraram-se.

Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado, afastou o rosto, exclamou afflicta:

—Deixa-me, deixa-me!

Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as mãos abertas pela testa, pelos cabellos:

—Oh meu Deus! É horrivel!—murmurou.—Deixa-me! É horrivel!

Elle adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luiza recuava, dizia:

—Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me!

Elle então tranquillisou-a com a voz subitamente serena e humilde. Não percebia. Porque se zangava? Que tinha um beijo? Elle não pedia mais. Que tinha ella imaginado, então? Adorava-a, de certo, mas puramente.

—Juro-t'o!—disse com força, batendo no peito.

Fel-a sentar no sophá, sentou-se ao pé d'ella. Fallou-lhe muito sensatamente:—Via as circumstancias, e resignar-se-hia. Seria como uma amizade d'irmãos, nada mais.

Ella escutava-o, esquecida.

De certo, dizia elle, aquella paixão era uma tortura immensa. Mas era forte, dominar-se-hia. Só queria vir vêl-a, fallar-lhe. Seria um sentimento ideal.—E os seus olhos devoravam-na.

Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôz-lhe um beijo cheio na palma. Ella estremeceu, ergueu-se logo:

—Não! Vai-te!

—Bem, adeus.

Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a sêda do chapéo:

—Bem, adeus—repetiu melancolicamente.

—Adeus.

Bazilio disse então com muita ternura:

—Estás zangada?

—Não!

—Escuta—murmurou, adiantando-se.

Luiza bateu com o pé.

—Oh que homem! Deixa-me! Ámanhã. Adeus. Vai-te! Ámanhã!

—Ámanhã!—disse elle, baixinho.

E sahiu rapidamente.

Luiza entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho ficou surprehendida: nunca se vira tão linda! Deu alguns passos calada.

Juliana arrumava roupa branca n'um gavetão do guarda-vestidos.

—Quem tocou ha bocado?—perguntou Luiza.

—Foi o snr. Sebastião. Não quiz entrar; disse que voltava.

Tinha dito, com effeito, «que voltava». Mas começava quasi a envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontral-a sempre «com uma visita»!

Logo no primeiro dia ficára muito surprehendido quando Juliana lhe disse: «Está com um sujeito! Um rapaz novo que já cá esteve hontem!» Quem seria? Conhecia todos os amigos da casa... Seria algum empregado da secretaria ou algum proprietario de minas, o filho do Alonso, talvez, um negocio de Jorge de certo...

Depois no domingo, á noite, trazia-lhe a partitura de Romeu e Julieta, de Gounod, que ella desejava tanto ouvir, e quando Juliana lhe disse da varanda «que tinha sahido com D. Felicidade de carruagem», ficou muito embaraçado com o grosso volume debaixo do braço, coçando devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do enthusiasmo de D. Felicidade pelo theatro de D. Maria. Mas irem sós, n'aquelle calor de julho, ao theatro! Emfim, era possivel. Foi a D. Maria.

O theatro, quasi vazio, estava lugubre; aqui e além, n'algum camarote, uma familia feia perfilava-se, com cabellos negrissimos carregados de postiços, gozando soturnamente a sua noite de domingo: na platéa, á larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam com um ar encalmado e farto, limpando a espaços, com lenços de sêda, o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava olhos negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente; bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarella, um velhote condecorado fallava a uma magrita de cabellos riçados, sem cessar, com o tom diluido de uma agua gordurosa e morna que escorre.

Sebastião sahiu. Onde estariam? Soube-o na manhã seguinte.—Descia o Moinho de Vento, e um visinho, o Netto, que subia curvado sob o seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o bruscamente, para lhe dizer:

—Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi hontem á noite no Passeio a D. Luiza com um rapaz que eu conheço. Mas d'onde conheço eu aquella cara? Quem diabo é?

Sebastião encolheu os hombros.

—Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheço-o. N'outro dia vi-o entrar para lá. Vossê não sabe?

Não sabia.

—Eu conheço aquella cara. Tenho estado a vêr se me recordo...—Passava a mão pela testa.—Eu conheço aquella cara! Elle é de Lisboa. De Lisboa é elle!

E depois d'um silencio, fazendo girar o guarda-sol:

—E que ha de novo, Sebastião?

Tambem não sabia.

—Nem eu!

E bocejando muito:

—Isto está uma pasmaceira, homem!

N'essa tarde, ás quatro horas, Sebastião voltou a casa de Luiza. Estava com «o sujeito!» Ficou então preoccupado. De certo era algum negocio de Jorge; porque não comprehendia que ella fallasse, sentisse, vivesse, que não fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge. Mas devia ser grave então—para reclamar visitas, encontros, tantas relações. Tinham pois interesses importantes que elle não conhecia! E aquillo parecia-lhe uma ingratidão, e como uma diminuição d'amizade.

A tia Joanna tinha-o achado «macambusio».

Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Bazilio, o Bazilio de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido veio inquietal-o.

Sebastião não conhecia Bazilio pessoalmente, mas sabia a chronica da sua mocidade. Não havia n'ella certamente, nem escandalo excepcional, nem romance pungente. Bazilio tinha sido apenas um pandigo e, como tal, passára methodicamente por todos os episodios classicos da estroinice lisboeta:—partidas de monte até de madrugada com ricaços do Alemtejo; uma tipoia despedaçada n'um sabbado de touros; ceias repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas pégas applaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau e Collares nas tabernas fadistas; muita guitarra; sôcos bem jogados á face attonita d'um policia; e uma profusão de gemas d'ovos nas glorias do entrudo. As unicas mulheres mesmo que appareciam na sua historia, além das Lolas e das Carmens usuaes, eram a Pistelli, uma dançarina allemã cujas pernas tinham uma musculatura d'athleta, e a condessinha d'Alvim, uma douda, grande cavalleira, que se separára de seu marido depois de o ter chicotado, e que se vestia d'homem para bater ella mesmo em trem de praça do Rocio ao Dá-fundo. Mas isto bastava para que Sebastião o achasse um debochado, um perdido; ouvira que elle tinha ido para o Brazil para fugir aos credores; que enriquecera por acaso, n'uma especulação, no Paraguay; que mesmo na Bahia, com a corda na garganta, nunca fôra um trabalhador; e suppunha que a posse da fortuna para elle, seria apenas um desenvolvimento dos vicios. E este homem agora vinha vêr a Luizinha todos os dias, estava horas e horas, seguia-a ao Passeio...

Para que?... Era claro, para a desinquietar!

Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolação d'estas idéas, quando uma voz encatarrhoada disse com respeito:

—Ó snr. Sebastião!

Era o Paula dos moveis.

—Viva, snr. João.

O Paula atirou para as pedras da rua um jacto escuro de saliva, e com as mãos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom grave:

—Ó snr. Sebastião, ha doença cá por casa do snr. Engenheiro?

Sebastião todo surprehendido:

—Não. Porque?

O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou:

—É que tenho visto entrar para cá todos os dias um sujeito. Imaginei que fosse o medico.

E puxando o escarro:

—D'esses novos da homœopathia!

Sebastião tinha córado.

—Nada—disse.—É o primo de D. Luiza.

—Ah!—fez o Paula.—Pois pensei... Queira desculpar, snr. Sebastião.

E curvou-se, respeitosamente.

—Já temos fallatorio!—foi pensando Sebastião.

E entrou em casa, descontente.

Morava ao fundo da rua, n'um predio seu, de construcção antiga, com quintal.

Sebastião era só. Tinha uma fortuna pequena em inscripções, terras de lavoura para o lado do Seixal, e a quinta em Almada,—o Rozegal. As duas criadas eram muito antigas na casa. A Vicencia, a cozinheira, era uma preta de S. Thomé já do tempo da mamã. A tia Joanna, a governanta, servia-o havia trinta e cinco annos; chamava ainda a Sebastião o «menino»; tinha já as tontices d'uma criança, e recebia sempre os respeitos d'uma avó. Era do Porto, do Poârto, como ella dizia, porque nunca perdera o seu accento minhôto. Os amigos de Sebastião chamavam-lhe uma velha de comedia. Era baixinha e gorda, com um sorriso muito bondoso; tinha os cabellos alvos como uma estriga, atados no alto n'um rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um vasto lenço branco muito aceado, traçado sobre o peito. E todo o dia passarinhava pela casa, com o seu passinho arrastado, fazendo tilintar os mólhos de chaves, resmungando proverbios, tomando rapé de uma caixa redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte pensil do Porto.

Em toda a casa havia um tom caturra e dôce: na sala de visitas, quasi sempre fechada, o vasto canapé, as poltronas tinham o ar empertigado do tempo do snr. D. José I, e os estofos de damasco vermelho desbotado lembravam a pompa d'uma côrte decrepita; das paredes da casa de jantar pendiam as primeiras gravuras das batalhas de Napoleão, onde se vê invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo branco, para o qual galopa desenfreadamente do primeiro plano um hussard, brandido um sabre. Sebastião dormia os seus somnos de sete horas, sem sonhos, n'uma velha barra de pau preto torneado; e n'uma saleta escura, sobre uma commoda de fecharias de metal amarello, conservava-se, havia annos, o padroeiro da casa, S. Sebastião—que se torcia, cravado de settas, nas cordas que o atavam ao tronco, á luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna, sob os ruidos subtis dos ratos pelo forro.

A casa condizia com o dono. Sebastião tinha um genio antiquado. Era solitario e acanhado. Já no latim lhe chamavam o pelludo; punham-lhe rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebastião, que tinha a força d'um gymnasta, offerecia a resignação d'um martyr.

Foi sempre reprovado nos primeiros exames do lyceu. Era intelligente, mas uma pergunta, o reluzir dos oculos d'um professor, a grande lousa negra immobilisavam-o; ficava muito embezerrado, a face inchada e rubra, a coçar os joelhos, o olhar vazio.

Sua mãi, que era da aldêa e que fôra padeira, muito vaidosa agora das suas inscripções, da sua quinta, da sua mobilia de damasco, sempre vestida de sêda, carregada d'anneis, costumava dizer:

—Ora! tem que comer e beber! Estar a affligir a criança com estudos! Deixa lá, deixa lá!

A inclinação de Sebastião era pela musica. Sua mãi, por conselhos da mãi de Jorge, sua visinha e sua intima, tomou-lhe um mestre de piano; logo desde as primeiras lições, a que ella assistia com enfeites de velludo vermelho e cheia de joias, o velho professor Achilles Bentes, d'oculos redondos e cara de coruja, exclamou excitado com a sua voz nasal:

—Minha rica senhora! o seu menino é um genio! É um genio! Ha-de ser um Rossini! É puxar por elle! É puxar por elle!

Mas era justamente o que ella não queria, era puxar por elle, coitadinho! Por isso não foi um Rossini. E todavia o velho Bentes continuava a dizer, por habito:

—Ha-de ser um Rossini! Ha-de ser um Rossini!

Sómente em lugar de o gritar, brandindo papeis de musica, murmurava-o, com bocejos enormes de leão enfastiado.

Já então os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastião, eram intimos. Jorge mais vivo, mais inventivo, dominava-o. No quintal, a brincar, Sebastião era sempre o cavallo nas imitações da diligencia, o vencido nas guerras. Era Sebastião que carregava os pesos, que offerecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia todo o pão, deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquella amizade sempre igual, sem amúos, tornou-se na vida d'ambos um interesse essencial e permanente.

Darmowy fragment się skończył.

Ograniczenie wiekowe:
0+
Data wydania na Litres:
16 stycznia 2025
Objętość:
451 str. 2 ilustracji
ISBN:
4064066412104
Wydawca:
Właściciel praw:
Bookwire
Format pobierania:

Podobne książki