Czytaj książkę: «Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal»
Delfim de Brito Guimarães
Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066407964
Índice de conteúdo
Theóphilo Braga
E
A LENDA DO CRISFAL
Obras de Delfim Guimarães
DELFIM GUIMARÃES
Theóphilo Braga
E
A Lenda do Crisfal
I Razão de ser d'este livro
II O snr. dr. Theóphilo Braga, descobrindo a verdade, e procurando enterrá-la
IV A comunicação do presidente da Academia das Sciencias de Portugal
V O artigo «Movimento litterário»
VI Uma patranha genealógica
VII O criptónimo «Fileno»
VIII In terminis
APRECIAÇÕES DA IMPRENSA ao livro "Bernardim Ribeiro (O POETA CRISFAL) "
«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)
«Bernardim Ribeiro» por Delfim Guimarães
«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)
O poeta Chrisfal
«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)
Ainda Chrisfal
«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)
«Bernardim Ribeiro» por Delfim Guimarães
«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)
«Bernardim Ribeiro»
«Bernardim Ribeiro»
«Bernardim Ribeiro» por Delfim Guimarães
Divagações
Divagações
Apreciações da imprensa ao livro
Theóphilo Braga
Índice de conteúdo
E
Índice de conteúdo
A LENDA DO CRISFAL
Índice de conteúdo
Obras de Delfim Guimarães
Índice de conteúdo
| PROSA: | |||
| Alma dorida, com prefácio de Teixeira Bastos, 1 vol broch. | 500 | réis | |
| A Viagem por terra do snr. João Penha, (crítica literária) 1 folh. | 100 | » | |
| O Rosquedo (Scenas da vida de província) | Esgot.o | ||
| Ares do Minho (Contos) 1 vol. broch. | 200 | » | |
| Bernardim Ribeiro: O poeta Crisfal (Subsídios para a Historia da literatura portuguêsa) 1 vol. broch. | 800 | » | |
| EM PREPARAÇÃO: | |||
| Luis de Camões.—Diogo Bernardes. | |||
| VERSO: | |||
| Lisboa Negra, 1 fol. | 200 | » | |
| Confidencias, 1 vol. broch. | 400 | » | |
| Evangelho, 1 vol. | 400 | » | |
| Não! Mil vezes não! 1 fol. | 200 | » | |
| Sim! Mil vezes sim! 1 fol. | 100 | » | |
| Sonho Garretteano | Esgot.o | ||
| A Virgem do Castelo, (2.ª edição) 1 fol. | 100 | reis | |
| Outonaes, 1 vol. broch. | 500 | » | |
| NO PRELO: | |||
| Flores do mal (interpretação em versos portuguêses de poesias de Carlos Baudelaire) | |||
| TEATRO: | |||
| Aldeia na Côrte, drama em 3 actos, de colaboração com D. João da Camara, representado no D. Amelia, 1 vol. broch. | 500 | réis | |
| Juramento Sagrado, comedia n'um acto em verso, representada no D. Maria II, 1 fol. | 200 | » | |
| A PUBLICAR: | |||
| Domingo de Páscoa, peça de costumes minhotos | |||
| OUTROS TRABALHOS: | |||
| A Dama das Camelias, de Dumas, filho (tradução), 1 vol. broch. | 200 | réis | |
| Saudades, (História de Menina e moça), de Bernardim Ribeiro, edição revista (vol. 29 da Colecção Horas de Leitura) | 200 | » | |
| Trovas de Crisfal, de Bernardim Ribeiro, edição revista | 300 | » | |
| Versos portuguêses, de Sá de Miranda, edição revista | 500 | » | |
DELFIM GUIMARÃES
Índice de conteúdo
Theóphilo Braga
Índice de conteúdo
E
Índice de conteúdo
A Lenda do Crisfal
Índice de conteúdo
| 1909 Livraria Editora GUIMARÃES & C.a 68, Rua de S. Roque, 70 Lisboa |
THEÓPHILO BRAGA
E A LENDA DO CRISFAL
Índice de conteúdo
I Razão de ser d'este livro
Índice de conteúdo
Quando em maio de 1908 tornamos pública a conclusão a que haviamos chegado de ser Crisfal um pseudónimo do autor da Menina e moça, como procurámos demonstrar no volume recentemente dado á estampa: Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal), tinhamos o convencimento pleno de que uma tal nova, divulgada pela imprensa, seria bem acolhida por quantos se interessam pelo estudo da nossa História literária, com excepção apenas do snr. dr. Theóphilo Braga. O laureado professor do Curso Superior de Letras não perdoa a quem quer que seja que ouse discordar de suas sentenças, nem vê com bons olhos que outros, que não s. ex.a, encarem problemas que se prendam com a História da literatura portuguêsa. E n'este caso do Poeta Crisfal, mais do que em nenhum outro, o snr. dr. Theóphilo Braga não desejava que ninguem bulisse, pelo motivo que teremos ocasião de apontar no decurso d'este livro. Não contavamos com o acolhimento benévolo do infatigavel escritor. Para fundamentar o nosso juizo, bastava-nos invocar os precedentes sabidos, tristemente lembrados, e, muito em especial, o desforço pouco generoso do snr. dr. Theóphilo Braga para com a memória d'esse desventurado que se chamou Antero,—porque o poeta incomparavel dos Sonetos ousara flagelar o dogmatismo scientífico do antigo camarada universitário; o fel que o plumitivo da Historia da Litteratura deixa transparecer nas apreciações com que, baldadamente, procura amesquinhar a figura gigantesca de Herculano,—porque o insigne historiador nacional jàmais se associou aos turibulários do filósofo comtista (sem calemburgo);—o desdem com que o professor de literatura apoda, soberanamente, de gramático, o distinto romanista, snr. Epiphánio Dias,—por este haver despedaçado, com a autoridade do seu nome, aquela invenção alegre dos cantos de ledino, em que o snr. dr. Theóphilo continua a persistir, apesar de tudo, com manifesta falta de sinceridade. Mas não ignorando taes precedentes, e conhecendo que o estudo que iamos apresentar ao público não deixaria de nos acarretar a má vontade do autor da História da Litteratura Portugueza, nem por um momento hesitamos em levar a bom termo o nosso trabalho, tendo em atenção tam sòmente que se tratava de desfazer uma lenda, estúpida como tantas outras lendas, que privava de parte da glória a que tinha jus o nome aureolado de um dos maiores poetas portuguêses, o delicado e inditoso Bernardim Ribeiro, o nosso querido Bernardim. Derruíamos a coluna em que se firmava um espantalho, mas erguiamos a um pedestal mais grandioso e altívolo a figura amoravel do grande bucolista. A literatura portuguêsa só ganhava com a descoberta. Que, se alguma cousa perdesse, era sobeja compensação o que se conquistava para a verdade histórica... Mas a proclamação de uma tal verdade ia prejudicar um livro, ou livros, do snr. dr. Theóphilo Braga... Não havia dúvida. Que importava isso? Para reivindicar para Bernardim Ribeiro a autoria da Carta e da Écloga de Crisfal, não valeria a pena sacrificar uma das muitas produções do operoso escritor? Bernardim Ribeiro é um dos astros fulgurantes da rútila constelação que brilha, intensa e perduravelmente, no ceu de Portugal. Já conta alguns séculos, e ainda hoje nos deslumbra o seu fulgor... Após a local produzida pelo snr. dr. Alfredo da Cunha no seu Diario de Noticias, dando conta dos nossos trabalhos de investigação, que punham termo á lenda de Crisfal, tivemos a ventura de ver que o snr. José Pereira Sampaio (Bruno) havia chegado a conclusão idêntica á nossa, como foi registado n'um brilhante artigo de João Grave no Diario da Tarde, do Porto, confirmado inteiramente por uma carta de Bruno, reproduzida no jornal citado, em que o prestigioso publicista, com a reconhecida autoridade do seu nome, que nada deve ao reclamo, afirmava de maneira absoluta que estavamos com a verdade; que o trovador Cristovam Falcão era simples produto de uma lenda, que o criptónimo Crisfal pertencia a Bernardim Ribeiro. Do artigo do nosso camarada João Grave, e da carta do ilustre escritor snr. José Sampaio, não faremos citações n'esta altura. Ambos os preciosos documentos se encontram integralmente exarados no nosso livro Bernardim Ribeiro. Não os desconhecem, por certo, aqueles que nos dão a honra da leitura d'este trabalho. Como recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga essas comunicações do Diario de Noticias, de Lisboa, e do Diario da Tarde, do Porto? —Passando a José Pereira Sampaio (Bruno), e a nós outros, um diploma de ignorantes! Em 29 de maio, um amigo salientou-nos no jornal A Epoca a secção que o escritor snr. Silva Pinto tinha a seu cargo, e que n'essa data estampava, reproduzida do Diario da Tarde do Porto, a seguinte carta do snr. dr. Theóphilo Braga:
«Meu caro João Grave:—Encantou-me o favor da sua carta, communicando-me o problema litterario que preoccupa o nosso velho amigo e luminoso critico José Sampaio sobre a apochryficidade do auctor do «Crisfal», e que annuncia o primoroso litterato Delfim Guimarães. É sempre boa a vindicação d'uma verdade em qualquer campo: no campo litterario e artistico, isso tem o relevo d'uma conquista, d'um triumpho. Ninguem mais desejaria que fossem possiveis, isto é realidade demonstrada, as descobertas de Sampaio (Bruno) ou de Delfim Guimarães, sobre a identidade de Christovam Falcão em Bernardim Ribeiro. Isso, porém, não passa d'uma miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos historicos[1]. Diogo do Couto falla em Christovam Falcão como celebrado auctor do «Crisfal», quando narra factos praticados por seu irmão Damião de Sousa. Ora, Diogo do Couto, contemporaneo d'este na India, inventava-lhe um irmão? E tendo sido impresso o «Crisfal» sem nome d'auctor, (no pliego-suelto da Bibliotheca Nacional de Lisboa) dava-o como auctor d'essa celebrada écloga a capricho seu? O Padre Antonio Cordeiro, na «Historia Insulana», (resumo das «Saudades da terra», do dr. Gaspar Fructuoso, amigo de Camões) tambem faz as mesmas referencias ao poeta Christovam Falcão. E a edição de Ferrara, de 1554, e a de Colonia, de 1559, inscrevendo o seu nome? E Frei Bernardo de Brito, fazendo a «Silva de Lisardo», ou segunda parte do «Crisfal», falla nas serras de Lor-vam, onde esteve D. Maria Brandão, a namorada d'este poeta do «Crisfal».
Nada d'isto leva a admittir a hypothese. No emtanto, que tragam a lume os seus resultados. A vantagem é de nós todos.
Com um abraço do seu, etc.
Theophilo Braga.»
Para o professor do Curso Superior de Letras, a conclusão a que, tanto Bruno como nós, haviamos chegado, não passava d'uma miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos historicos, e esta sentença autoritária vinha a público quando o snr. dr. Theóphilo Braga ignorava em absoluto quaes os argumentos com que nós e o insigne publicista nosso conterráneo procurariamos fazer vingar nossas teses. Magoou-nos a impertinência, confessamos, e não resistimos a manifestar publicamente a impressão em nós produzida pela prosa do snr. dr. Theóphilo Braga, dirigindo n'esse mesmo dia a seguinte carta a João Grave, que este distinto jornalista fez inserir no numero de 1 de junho do Diario da Tarde:
«Meu prezado camarada João Grave:—Acabo de ler, reproduzida por Silva Pinto na «Epoca», a carta que o snr. dr. Theóphilo Braga dirigiu ao meu caro João Grave a propósito do trabalho que preparo, em que me proponho demonstrar que «Crisfal» foi simplesmente um anagrama cabalístico de Bernardim Ribeiro, pertencendo por conseguinte a este lírico as poesias que uma lenda fez atribuir a Cristovam Falcão.
O nosso bom amigo e erudito escritor José Pereira Sampaio—Bruno—, como se viu da interessante carta que estampou no «Diario da Tarde», como complemento ao artigo que o meu caro João Grave publicou sobre o assunto, chegara a conclusões eguaes, e para mim foi extremamente grato que o nome prestigioso de Bruno viesse valorizar a minha descoberta com a grande autoridade do seu concurso.
Ao ilustre professor, snr. dr. Theóphilo Braga, afigura-se isto uma «miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos historicos», que cita, desde Diogo do Couto a frei Bernardo de Brito.
Peço-lhe, pois, meu caro João Grave, a fineza de dizer no seu jornal que conheço perfeitamente os recursos históricos a que alude o incansavel historiador da Litteratura Portugueza, como não podia deixar de conhecer pela leitura das edições do «Bernardim Ribeiro e o Bucolismo» do snr. dr. T. Braga.
Que Bruno não ignora nenhum d'esses recursos, estou convicto, que, de resto, nem o distinto escritor snr. dr. Theóphilo Braga póde ter dúvidas a tal respeito, porque isso seria fazer ofensa ao justificado nome literário de José Sampaio.
Para fechar, devo ainda dizer-lhe, meu bom amigo, que de modo nenhum eu vou sustentar que não existiram vários cavalheiros com o nome de Cristovam Falcão. Se estes não tivessem existido não tomaria vulto até aos nossos dias a lenda do «Crisfal»!
Não o enfado mais.
Creia-me, com verdadeira estima,
seu amigo, adm.dor e obg.do
S/C. Lisboa, 29-maio/90.
Delfim Guimarães.»
A Bruno tambem não passou despercebido o amavel diploma do professor do Curso Superior de Letras, e que o ilustre escritor se sentiu melindrado prova-o suficientemente a carta que dirigiu a João Grave, e que, confiados na benevolência do sr. José Pereira Sampaio, vamos trasladar das colunas do jornal A Epoca, que a reproduziu do Diario da Tarde:
«Meu caro João Grave:—Novamente o venho importunar, pois entendo que, perante a carta, aliás tão bondosa e honrosa para mim, do dr. Theophilo Braga, hontem inserta no seu jornal, me cumpre consignar em publico, ainda uma vez, que após o apparecimento do livro de Delfim Guimarães, defendendo a propozição de que Christovam Falcão não é mais do que Bernardim Ribeiro, eu publicarei o meu, já por V. na sua folha duas vezes amavelmente annunciado, e onde, entre outros, sustentarei egualmente o mesmo ponto, pensando que refutarei ahi cabalmente as asserções, na sua carta de hontem no «Diario da Tarde», pelo nosso doutissimo confrade e illustre publicista produzidas, mostrando então, com todo o respeito devido a tão indefesso e insigne trabalhador, que a minha hypothese (e de Delfim Guimarães) não é tal uma miragem e que, pelo contrario, o ensino corrente no assumpto é que é inteiramente phantastico e chimerico.
A V., prezado collega, reitero os protestos do meu agradecimento.
Todo seu
Porto, 27 de Maio de 1908.
José Pereira Sampaio (Bruno).»
O snr. dr. Theóphilo Braga achou que era prudente não voltar á estacada, e assim deixou passar em julgado a nossa carta e aquela em que o snr. José Sampaio, por uma fórma categórica, visando directamente as lições ministradas pelo professor de literatura, declarava que o ensino corrente sobre Cristovam Falcão era inteiramente phantastico e chimerico.
Na elaboração do livro: Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal) obedecemos ao propósito de não converter o nosso trabalho n'uma diatribe, e procuramos suavizar quanto possivel a situação em que eramos forçados a colocar o snr. dr. Theóphilo Braga, em obediência á verdade, e não porque nos animasse qualquer desejo de ser desagradaveis ao infatigavel vulgarizador. E, procedendo assim, entendiamos cumprir um dever, que tinha sobeja justificação nos cabelos brancos do professor do Curso Superior de Letras, cuja primeira edição do seu Bernardim Ribeiro coincidiu com o ano do nosso nascimento. Não esquecemos nunca que fomos educados no respeito devido á velhice. No trabalho da revisão das provas do nosso estudo, em que fomos auxiliados pela prestante amizade de Henrique Marques, mais de uma vez modificámos referências feitas ao professor que contraditavamos, e sempre da melhor vontade substituiamos um adjectivo, suavizavamos a saliência de um erro do Mestre, desde que o nosso amigo Henrique Marques, com o seu apreciavel critério, nos fazia notar que uma palavra, uma frase nossa, poderia ser tomada como um desprimor para com o snr. dr. Theóphilo Braga. Queriamos fazer vingar uma obra de justiça; não era nosso intento agravar quem quer que fosse. E que não fomos descortêses, nem violentos, nem injustos, para com o professor que contraditavamos, prova-o o testemunho insuspeito do eminente publicista snr. José Caldas, que nos honrou com uma carta penhorantíssima, de que reproduziremos neste lugar algumas linhas:
«A delicadeza das suas referencias, com relação aos auctôres cujas conclusões não acceita ou impugna, é verdadeiramente modelar.»
Se houvessemos sido menos cortêses para com o snr. dr. Theóphilo Braga, s. ex.a não se julgaria, com certeza, no dever de agradecer-nos a oferta do exemplar do nosso trabalho que entendemos enviar lhe. E o professor do Curso Superior de Letras escreveu-nos a agradecer o livro, embora na sua carta transpareça o despeito que lhe produziu o nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro, em que desvendamos vários erros contidos em volumes da Historia da Litteratura Portugueza.
Registâmos aqui essa carta do snr. dr. Theóphilo Braga, que não deixa de constituir um documento interessante para aqueles que seguirem com atenção a marcha dos acontecimentos provocados pela pendência literária em que estamos envolvidos.
É, textualmente, como segue:
«Lisboa, 25 de Novembro de 1908
...sr. Delfim Guimarães e meu presadissimo amigo
Muito me penhora a honrosa offerta do seu recente trabalho, em que apresenta o seu processo para a identificação do poeta Bernardim Ribeiro com o Crisfal ou Christovam Falcão. A ninguem interessaria tanto o conhecimento d'este problema, como a mim, que esbocei uma biographia de Christovam Falcão com elementos historicos (documentos authenticos) comprovando dados genealogicos. Tive de ler immediatamente o seu livro, para vêr que materiaes traria para o aperfeiçoamento do meu trabalho. Mesmo no prologo fez-me V. a justiça de que eu aproveitaria tudo quanto se prestasse a futuras emendas. Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp Freire sobre D. Maria Brandão, que Christovam Falcão amou, sendo ambos muito creanças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no fim do primeiro quartel do seculo XVI. Isto me impossibilitava de continuar a admittir as relações pessoaes de Christovam Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade; e por tanto as Eclogas em que elle figurava interpretativamente tinham de ser lidas a outra luz. V., acabando de fazer a destrinça entre o Poeta e seu primo mais antigo, deu-me elementos para uma melhor interpretação das Eclogas de Bernardim, (eliminadas as relações com Christovam Falcão), e mostrando como realmente as poesias d'aquelle, como mestre, influiram no mais moço, que como novel chega a fazer centões e intercalações de versos de Bernardim Ribeiro. Ha uma affirmativa historica, de Diogo do Couto, na sua Decada VIII, que, fallando de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como reforço historico: «irmão de Christovam Falcão, aquelle que fez aquellas cantigas nomeadas do Crisfal...» E tambem no seculo XVI Fructuoso (resumido pelo P.e Antonio Cordeiro na Historia insulana) diz de Christovam Falcão: «parente do Barão velho e do famoso poeta Christovam Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e Colonia, feitas por curiosos sem criterio litterario se repete a attribuição «que dizem ser de Christovam Falcam, ho que parece alludir o nome da mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa estes testemunhos de homens de letras do seculo XVI, e que se reflectiram nos genealogistas. A Ecloga do Crisfal não podia ser publicada pelo seu auctor, nem pelo seu consentimento porque era uma inconfidencia de antigas relações amorosas com uma senhora que estava casada. A edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando Christovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em 1547 na carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do Crisfal, que então, andava no gosto. Na edição de Lisboa vem duas estrophes supprimidas no texto de Ferrara e Colonia, por que continham uma inconfidencia. Isto leva a explicar como Christovam Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga fundamentando-se-lhe a imputação com o anagramma das primeiras syllabas do nome. Os logares communs a Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão provam mais a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois poetas, repetindo-se o mestre na decadencia. Emfim ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem: o de Joanna e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas almas, sentindo em situações differentes. Através de todo o hypercriticismo o livro sobre Bernardim Ribeiro revela um trabalhador fervoroso, que me veio revelar a existencia de um exemplar da edição de Ferrara, no Porto, e que aqui descobriu o texto precioso da Ecloga Alexo assignada por Sá de Miranda. Felicitando-o pelo seu importante estudo, sou
admirador obr.mo e amigo
Theophilo Braga»
Começa a carta do snr. dr. Theóphilo Braga por um rebuçado de ovos: o tratamento de «prezadissimo amigo», que não tinha qualquer justificação... Isto é, tinha uma justificação única, qual era a de nos adoçar a bôca, para engulirmos sem relutância aquela amargosa pílula com que fecha a epístola de s. ex.a, quando, com generosa magnanimidade, confessa que o nosso livro revelou um trabalhador fervoroso, que ao professor do Curso Superior de Letras foi revelar a existencia de um exemplar da edição de Ferrara, no Porto, e que em Lisboa descobriu o texto precioso da ecloga Alexo assignada por Sá de Miranda. E, graças a estas revelações-revelativas, a que não ligavamos importância de maior, o historiador da Litteratura Portugueza felicitava-nos pelo nosso importante estudo, que, volvidas algumas semanas, havia de classificar de fruto de processos á tôa! Na devida altura, comentaremos largamente a carta substanciosa do snr. dr. Theóphilo Braga. Por agora, continuemos na catalogação das peças d'este processo, para que os leitores julguem da justiça que nos cabe, e avaliem da sinceridade, da correcção, e dos processos do professor intangivel. No jornal O Mundo, de 3 de dezembro de 1908, na local consagrada á sessão da Academia das Sciencias de Portugal realizada no dia 2, vimos que o snr. dr. Theóphilo Braga fizera uma comunicação, que outra cousa não era senão um desmentido formal e gratuito ás conclusões do nosso livro,—mas sem a mais leve citação ao nosso obscuro nome, sem a menor referência ao nosso desluzido trabalho, embora aproveitando-lhe os subsídios. Comprehende-se: o ilustre académico não desejava contribuir de modo nenhum para o reclamo que a imprensa estava dispensando ao volume sobre o Poeta Crisfal. Transcrevemos do Mundo o periodo referente a tal comunicação... scientífica:
«...finalmente, trata de Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão, mostrando como a vida amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1526, sendo n'aquella data moço fidalgo, tendo pelo menos 12 annos, ao passo que aquelle era já edoso; evidencia como na Ecloga transparecem diversas situações da vida de Christovam Falcão, e termina por invocar as opiniões de Diogo Couto, Gaspar Fructuoso e outros que comprovam a existencia das duas individualidades que apesar de similhantes n'algumas situações da vida, não podem jàmais confundir-se».
Ante este procedimento do nosso prezadissimo amigo, não pudemos ficar silenciosos, e, como um desforço legítimo, inadiavel, apelamos para o snr. dr. Brito Camacho, pedindo-lhe se dignasse publicar nas colunas da Lucta a seguinte carta, que o ilustre jornalista fez inserir no numero de 4 de dezembro do seu diário:
«Ex.mo Snr. Dr. Brito Camacho,
meu prezado amigo:
Pelos extratos, publicados em alguns jornaes de hoje, do que se passou na sessão de hontem da Academia de Sciencias de Portugal, vi que o snr. dr. Theóphilo Braga disse o que quer que fosse, procurando refutar o meu recente trabalho sobre Bernardim Ribeiro, e insistindo na lenda do poeta Cristovam Falcão de Sousa.
Não me admira que o original autor da «Historia da Litteratura Portugueza» persista n'um erro crasso, só para não se confessar vencido, porque já o caso engraçadíssimo dos cantos de ledino era precedente bastante para se ajuizar que o afamado professor do Curso Superior de Letras prefere manter um absurdo a ter de reconhecer publicamente que errou. Está no seu direito, e ninguem lh'o contesta.
Parecia-me, porem, que, publicado o meu estudo sobre Bernardim Ribeiro, em que não torci a meu bel-*prazer a verdade, nem falsifiquei documentos, o snr. dr. Theóphilo Braga tinha o dever moral de, pela imprensa ou em livro, dizer da sua justiça, antes de ir para o seio de uma agremiação, a que eu não pertenço, impor um desmentido formal e dogmatico, ao mesmo tempo que gratuito, ao meu trabalho.
E tanto mais estranhavel se me afigura o procedimento do snr. dr. Braga, contestando á porta fechada a minha tese, quanto é certo que s. ex.a não desconhece que o insigne publicista snr. José Pereira Sampaio (Bruno) prepara um livro sobre o mesmo assunto do meu.
Se o afamado professor do Curso Superior de Letras está de boa fé, quem lhe assegura que os argumentos de Bruno não conseguirão convencê-lo, já que os meus, conforme de resto eu esperava, tal não conseguiram?
É tempo de pôr de parte o magister dixit, porque, felizmente, os processos crìticos dos Farias e Bernardos de Brito são coisas que passaram á historia, e que não se ressuscitam já facilmente.
Muito especialmente me obsequeia o meu bom amigo dando publicidade na nossa Lucta a esta minha carta, que representa o legítimo desabafo de um trabalhador que se preza de ser honesto, e que como tal tem jus a ser considerado.
Mais uma vez agradecido o que se confessa, por estima e dever,
De V. Ex.a
amigo, admirador e obrigado
S/C, Lisboa, 3-12-908.
Delfim Guimarães.»
Com o espírito de rectidão que todos, amigos e adversários, são concordes em reconhecer ao snr. dr. Brito Camacho, o brilhante jornalista deu acolhimento benévolo á nossa carta, acrescentando-lhe as seguintes linhas de saudação ao professor do Curso Superior de Letras:
«O nosso ilustre correligionario dr. Theóphilo Braga tem as columnas d'este jornal ás suas ordens para dizer da sua justiça, como quizer. Trata-se d'uma questão de facto em historia literária, e não d'uma birra entre dois homens. Muito prazer teremos em que seja o nosso jornal o campo em que se dirima o pleito.»
Não correspondeu o snr. dr. Theophilo Braga á gentileza do director da Lucta; e até para comnosco estamos persuadidos de que, desde o momento em que s. ex.a viu a nossa carta irreverente no jornal de que Brito Camacho é a alma, o pontífice da Litteratura Portugueza excomungou o intemerato jornalista. Que o dr. Camacho nos perdôe a excomunhão que, involuntariamente, lhe acarretamos!
Guardou silêncio o snr. dr. Theóphilo Braga durante semanas, mas não esteve inactivo, ao contrário do que muitos poderiam supor. Com todo o engenho e arte, s. ex.a consagrou-se ao fabrico de uma peça, que não podemos classificar de literária, porque é a negação de todos os processos literários dignos de este nome, mas a que poderá caber a designação de produto de arte... culinária. Como pastelão, faria honra a um cozinheiro, mas cremos bem que o snr. dr. Theóphilo Braga deseja passar á posteridade como um discípulo fervoroso de Augusto Comte, e não como aprendiz ilustre da sciência de Vatel.
A redacção do jornal O Dia, seguindo a praxe dos anos anteriores, honrou o snr. dr. Theóphilo Braga pedindo lhe um artigo sobre o movimento literário português em 1908, para o numero de 31 de dezembro d'esse ano. Como nunca, recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga jubilosamente o amavel convite. Tinha ensejo para impingir... o pastelão. Era o momento oportuno para respostar á nossa carta publicada na Lucta, sem nos dar a honra de deixar sair dos bicos da pena aprimorada a confissão de que havia lido o nosso protesto. Podiamos, porventura, esperar outro procedimento por parte do snr. dr. Theóphilo Braga? Não, evidentemente. Pois não haviamos nós,—cúmulo das audácias!—ousado protestar contra a comunicação do presidente da Academia de Sciencias de Portugal?!
Reproduzimos do Dia de 31 de dezembro do ano findo a parte do artigo do snr. Theóphilo Braga que diz respeito á questão literária suscitada pelo nosso livro:
«...No recente fasciculo (do Archivo historico português) ficou publicada uma interessantissima monographia sobre a antiga Feitoria de Flandres, um dos mais necessarios capitulos da nossa historia financeira e administrativa; o sr. Braancamp Freire intitula-o Maria Brandoa a do Crisfal, por que o pae d'esta dama, que inspirou o amor e a Ecloga de Christovão Falcão, foi o pae d'ella, João Brandão Sanches, segundo encontrara no nobiliario de Diogo Gomes de Figueiredo.
Em dois nobiliarios da bibliotheca da Ajuda tambem se acha esta mesma inscrição: Maria Brandoa a do Crisfal; e nos livros dos linhagistas Manso de Lima e Rangel de Macedo, da Bibliotheca Nacional, vem o mesmo schema genealogico, vendo-se toda a parentella da inspiradora de Crisfal no titulo dos Brandões Sanches, confundidos por vezes com os Brandões do Porto, com os de Coimbra e com os de Elvas. O sr. Anselmo Braancamp Freire, escreve em uma nota: «Sei que se trata de provar, que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não é Maria Brandão, mas sim a mesma do romance Menina e Moça d'aquelle auctor.» E accrescenta que o sr. Delfim Guimarães empenhado na interessante averiguação o consultara, communicando-lhe as bases em que fundava a sua argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o da rotina. Quasi ao mesmo tempo, o sr. Delfim Guimarães publicava o seu livro Bernardim Ribeiro—o Poeta Crisfal, em que resume o já sabido da biographia do auctor da Menina e Moça, forçando interpretações de versos a significarem os factos que imagina. Como lhe nasceu no espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela impressão que lhe causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro e os de Christovam Falcão,—«dois poetas de temperamento semelhante, com eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes episodios nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos versos absolutamente eguaes.» D'aqui o identificar os dois poetas em um unico; como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de Christovão Falcão como uma lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de Crisfal indo buscar á tôa as palavras Crisma falsa, tirando-lhes as syllabas iniciaes para designarem a seu talante Bernardim Ribeiro. «Fez-se então uma grande luz no nosso espirito. Não se tratava de dois poetas muito parecidos, de um creador e de um imitador. Bernardim Ribeiro e Crisfal eram um e mesmo poeta. O trovador Christovam Falcão era o producto de uma lenda nascida da interpretação dada pelo vulgo (![2]) ao anagrama Crisfal.» (Op. cit., p. 10). «Alcançada a convicção de que Crisfal era um anagramma de Bernardim Ribeiro, e norteados pelo conhecimento de que nas suas producções o poeta mudava constantemente os seus nomes pastoris, com pequeno trabalho de raciocinio não nos foi difficil deduzir a constituição do cryptogramma, que era formado pelas primeiras syllabas das palavras Crisma e Falso.»
E depois d'este processo que, na opinião do sr. Gonçalves Vianna—honra a erudição portugueza,—ataca as fontes genealogicas d'onde Diogo do Couto e Gaspar Fructuoso acceitaram «como ouro de lei o peschesbeque de uma lenda estupida tecida pelo vulgo ignorante, e posta a correr mundo graças á inepcia dos editores dos escriptos legados por esse grande e infortunado poeta que foi Bernardim Ribeiro!» (Ib. p. 11.) E mais adiante, volta a repetir: «A uma lenda estupida deveu esse rebento inglorio de John Falconet a celebridade que durante seculos usufruiu, em prejuizo do renome litterario do verdadeiro Crisfal, o doce, o inimitavel e inegualado Bernardim Ribeiro, etc.» (p. 185.) Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na Ecloga de Crisfal condizem com os seus parentes taes como o de Pantaleão Dias de Landim seu avô, e a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o sr. Jordão de Freitas? Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.º 180 da Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão; tambem o Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues, examinou no Porto um manuscripto analogo ao das edições de 1559, em que vinham a Menina e Moça, duas eclogas de Bernardim Ribeiro—«e até se acham no fim algumas poesias de Christovão Falcão, do que se faz menção no mesmo logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, Dic. Bibliog.) Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos como os encontraram? Quando o sr. Delfim Guimarães trabalhava para destruir uma miragem de seculos, foi communicar ao sr. dr. Alfredo da Cunha «a descoberta que tinha feito e que, sem falsa modestia, reputava de alta importancia para a historia das lettras portuguezas.» Era uma Noticia litteraria de sensação, o dr. Alfredo da Cunha deu alentos á grande descoberta de que a figura do poeta Christovam Falcão «pertence exclusivamente ao dominio da lenda, por isso que tal poeta só existiu na imaginação d'aquelles que viram n'um anagrama cabalistico de Bernardim Ribeiro a encarnação de outra individualidade.»
No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas, proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia. A verdadeira descoberta pertence ao sr. Braancamp Freire determinando a epoca em que esteve em Flandres João Brandão Sanches, e quando elle morreu, dando nos assim a data em que existiram os amores de sua filha unica D. Maria Brandão, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530. O documento de 1527 referindo-se a Christovam Falcão, com a tença de môço fidalgo, leva a deduzir que nascera em 1512. Ha portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos, corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim. Os logares communs a Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já era admirado, cujos versos, Camões, na sua Carta de Africa, intercalava na sua prosa.»
Esta produção peregrina do snr. Dr. Theóphilo Braga veio publicada no jornal O Dia com a assinatura do professor do Curso Superior de Letras em fac-simile, e ainda bem, para que não se pudesse ajuizar tratar-se de uma brincadeira de mau gosto de quem quer que fosse.
Quando lemos um tal documento, a primeira impressão que se apoderou de nós foi a de revolta; mas logo um outro sentimento veio substituir esta—um sentimento muito fundo de tristeza, de sincera mágoa...
E, sem prazer, pudemos constatar que a impressão que o snr. Dr. Theóphilo Braga deixára nos leitores inteligentes do seu tendencioso Movimento Litterario era egual á nossa,—uma sincera mágoa.
Mas no artigo do eminente professor eramos tam directamente alvejados, e o nosso trabalho depreciado com tal rancor e má fé, que não podiamos ficar silenciosos.
No jornal a Lucta, do dia 3 de Janeiro d'este ano, como protesto, publicamos o artigo que vamos reproduzir:
Os processos... scientíficos do snr. dr. Theóphilo Braga
Não se dignou o sr. dr. Theóphilo Braga aceitar o oferecimento que o distinto jornalista que dirige A Lucta lhe fez em 4 de dezembro ultimo: pondo á disposição de s. ex.a as colunas deste diário, para que o professor do Curso Superior de Letras dissesse da sua justiça em face da carta que tive ensejo de dirigir ao meu bom amigo snr. dr. Brito Camacho, estampada n'este jornal, motivada pelo procedimento estranhavel seguido para comigo pelo snr. dr. Theóphilo Braga.
Passaram-se dias, passaram-se semanas, e, quando todos julgavam que o professor do Curso Superior de Letras adoptara de Conrado o prudente silêncio, eis que o sr. dr. Theóphilo Braga, a pretexto de pôr os leitores do Dia ao corrente do movimento literário no ano findo, com ares dogmáticos e desdenhosos, enche perto d'uma coluna d'aquele jornal com um aranzel cheio de lugares comuns, procurando refutar as conclusões do meu recente estudo sobre Bernardim Ribeiro.
Não me surpreendeu o rancor que transparece no artigo do snr. dr. Theóphilo Braga. Imagino quanto deve ser doloroso para o professor do Curso Superior de Letras o ter de refundir mais uma vez dois dos volumes da sua chamada edição integral da Historia da Litteratura Portugueza: «Sá de Miranda» e «Bernardim Ribeiro». Isto, junto ao conhecimento que possuo da maneira de ser do snr. dr. Theóphilo Braga, é para mim explicação bastante do seu ressentimento, que a prosa do infatigavel «carreador de materiaes» não consegue disfarçar.
A todos os pontos tocados no aranzel do snr. dr. Theóphilo Braga, darei resposta em livro, e d'essa tarefa procurarei desempenhar-me em curto praso, com a largueza e documentação que o assunto requer, o que não é compativel com o espaço que a trabalhos d'esta espécie pode dispensar um jornal da índole da Lucta. Por hoje, e certo da amabilidade com que me distingue o meu prezado amigo snr. dr. Brito Camacho, desejo apenas salientar, muito ao de leve, algumas inexactidões flagrantes do artigo Movimento litterario, do snr. dr. Theóphilo Braga, que bem demonstram a correcção dos processos... scientíficos do professor do Curso Superior de Letras. Referindo-se ao ultimo tomo do Archivo Historico, a revista dirigida pela superior competência do snr. Braamcamp Freire, em que este escritor encetou a publicação da sua monografia sobre Maria Brandão, diz o snr. dr. Th. Braga que a monografia «ficou publicada», procurando assim dar a entender que o estudo do snr. Braamcamp Freire está ultimado, quando é facto que ainda lhe falta o capítulo em especial referente a Maria Brandão, destinado por certo a ser o mais curioso, pela luz que ha de fazer jorrar sobre a figura da suposta amada do poeta Crisfal. Mas ao snr. dr. Theóphilo Braga conveio torcer a verdade, para que com maior presteza os leitores ingénuos acreditassem nos seguintes períodos ardilosamente engendrados:
«O sr. Anselmo Braancamp Freire escreve em nota: «Sei que se trata de provar que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não é Maria Brandão, mas sim a mesma do romance Menina e Moça d'aquelle auctor». E accrescenta, que o sr. Delfim Guimarães, empenhado na interessante averiguação, o consultara, communicando lhe as bases em que fundava a sua argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o da rotina.»
Ao contrário da afirmação do snr. dr. Theóphilo, o snr. Braamcamp Freire não declara tal que eu o consultara sobre a averiguação que fiz, como não escreveu na nota citada pelo snr. dr. Theóphilo Braga aquilo que s. ex.a gratuitamente lhe atribue. Reproduzo textualmente o período que o snr. dr. Theóphilo Braga interpretou a seu bel-prazer, para melhor juizo dos que me lêem:
«O sr. Delfim de Brito Guimarães, que anda empenhado na interessante averiguação, teve a bondade de me comunicar as principaes bases que servirão de alicerce á sua argumentação: entretanto, emquanto não apparecerem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não transitar sem apelação em julgado, não me compete intervir no pleito e continuarei com a rotina.»
Como se vê, o snr. Braamcamp Freire não escreveu que eu lhe comunicara as bases em que fundava a minha argumentação, mas sim unicamente as principaes bases, e o consciencioso investigador não declarava que taes bases não conseguiram demovê-lo da rotina, mas sim que «em quanto não aparecessem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não transitasse sem apelação em julgado, não lhe competia intervir no pleito e continuava com a rotina». Para que torceu, a seu talante o snr. dr. Theóphilo Braga a nota cheia de correcção do ilustre escritor?—Para se servir, como de um escudo protector e cómodo, do nome prestigioso de Braamcamp Freire, procurando, com tal engenho e arte, fazer acreditar aos papalvos desprevenidos que tinha a apoiar o seu desmentido formal ás conclusões do meu trabalho a individualidade, a todos os títulos eminente, do ilustre director do Archivo Historico.
Ora a nota invocada pelo snr. dr. Theóphilo Braga encontra-se logo na 2.ª pagina do estudo do snr. Braamcamp, e foi produzida quando o erudito escritor traçou os primeiros períodos do seu trabalho, conhecendo apenas as «bases principaes» com que elaborei o meu livro Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal). Depois da leitura do meu modesto estudo, o snr. Braamcamp Freire teve a gentileza de me comunicar que os meus argumentos haviam logrado convencê-lo. E por tal fórma o convenceram que o ilustre escritor logo abandonou a rotina, não carecendo para isso que a sentença sobre a prova feita transitasse em julgado—muito embora isto pese ao snr. dr. Theóphilo Braga, que até viu com desgosto que o abalisado professor snr. Gonçalves Viana, achasse que o meu livro Bernardim Ribeiro fazia honra á erudição portuguêsa. Mais, o snr. Braamcamp Freire não só me felicitou calorosamente pelo éxito do meu trabalho, que representava a justa reparação devida a um dos maiores poetas da nossa terra, como teve a bondade de enviar-me a prova tipográfica de uma passagem do seu estudo, então no prélo, em que o conceituado escritor confessava publicamente que Maria Brandoa, a lendária amada do Crisfal, passara á historia... Foi fazer companhia aos cantos de ledino... Tal passagem se encontra a pag. 402 do ultimo tomo do «Archivo Historico», mas o snr. dr. Theóphilo Braga seguindo os processos... scientíficos que o enaltecem, ocultou-a propositadamente, intencionalmente, aos leitores do seu artigo estampado no Dia. É como segue:
«...do catalogo porém limitar-me-ei agora a extrair os nomes dos oficiaes da feitoria, reservando-me para aproveitar d'elle, n'outro capitulo, um dado importante para a biographia de Maria Brandôa, já, coitadita! quando este estudo aparecer a publico, apiada de heroina da ecloga Crisfal.»
Ás afirmações, em apoio da minha tese, feitas em maio de 1908 no Diario da Tarde, do Porto, pelo insigne publicista snr. José Pereira Sampaio (Bruno), refere-se tambem o snr. dr. Theóphilo Braga da seguinte maneira:
«No noticiario de outro jornal sairam afirmações absolutas, proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que afasta de todo a idéa de ironia».
O snr dr. Theóphilo Braga, referindo-se, com desdem, á sinceridade inconsciente de Bruno, não nos magôa sómente a nós, que votamos uma grande estima ao ilustre escritor portuense: ofende as Letras Portuguêsas, que teem no snr. José Sampaio uma das suas mais legítimas glórias. Tristes processos está seguindo o snr. dr. Theóphilo Braga!
Delfim Guimarães
O snr. dr. Brito Camacho, dando hospitalidade nas colunas da Lucta ao nosso artigo, nòvamente pôs o seu jornal á disposição do snr. dr. Theóphilo Braga, para que s. ex.a, querendo, dissesse de sua justiça. O professor do Curso Superior de Letras não aceitou o oferecimento que pela segunda vez lhe era feito.
E, em verdade, que havia o autor do artigo Movimento Litterário de dizer em contestação do libelo documentado que tinhamos produzido? Nenhuma justiça lhe assistia, e por consequência não ousou reclamar. Recolheu-se ao silêncio,—áquele prudentíssimo silêncio que se seguiu á publicação do notavel trabalho do Dr. Sílvio Romero sobre a Patria Portuguêsa.
No artigo que publicamos na Lucta, de 3 de janeiro do ano em curso, tomámos o compromisso de tratar em livro todos os pontos tocados pelo snr. dr. Theóphilo Braga no seu aranzel do Dia, com a largueza e documentação que o assunto exige, em homenagem á memória de Bernardim Ribeiro; pelo dever moral que nos impusemos de contribuir, quanto em nossas mingoadas forças caiba, para que justiça seja feita, embora tardia, a um dos mais belos temperamentos poéticos da nossa terra.
Uma lenda é fácil de forjar, e com facilidade toma corpo e lança raizes, obcecando muitas vezes os mais esclarecidos espíritos.
A nossa Historia Literária está cheia de lendas e embustes, graças aos Farias e Sousa e Bernardos de Brito. Mas a Verdade, superior a todas as lendas, e a todas as reputações de historiadores burlões e de críticos trapaceiros, acaba sempre por triunfar, embora isso leve anos, embora decorram séculos.
Na defeza da causa que prosseguimos, que é nobre e justa, não nos animam quaesquer intuitos de evidenciação, não nos move qualquer mesquinho sentimento de despeito; lutamos pela verdade, procuramos contribuir com o nosso esforço de modestos obreiros das letras para desfazer um erro que a ignorância engendrou, que a rotina não-te-ralesca impôs como um dogma, e que a vaidade irritada e irritante do snr. dr. Theóphilo Braga persiste em sustentar, a torto, que não a direito, impondo-o autocraticamente a quantos vêem no professor do Curso Superior de Letras o pontífice máximo, ditador inviolavel e sagrado da Republica... das letras portuguêsas.
Darmowy fragment się skończył.