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A Volta do Sedutor
Barbara Cartland
Barbara Cartland Ebooks Ltd
Esta Edição © 2017
Título Original: “Love comes to the Castle“
Direitos Reservados - Cartland Promotions 2017
Capa & Design Gráfico M-Y Books
m-ybooks.co.uk
NOTA DA AUTORA
Na maioria dos Castelos e em casas ancestrais inglesas, encontram-se passagens secretas, calabouços sinistros e cômodos secretos que serviam de esconderijo para padres e religiosos.
Lembro-me de que o primeiro esconderijo para religiosos perseguidos que eu vi foi em Madresfiel Court, a casa ancestral do Conde de Beauchamp. Uma passagem abriu-se inesperadamente bem no centro do soalho de uma das salas, onde ninguém imaginava que ela pudesse existir.
Em um quarto secreto de Longleat, a linda mansão do marquês de Bath, operários que trabalhavam na reforma da casa encontraram ossos de um dos ancestrais do aristocrata, que séculos atrás fora misteriosamente encerrado entre quatro paredes maciças.
Durante o reinado de Elizabeth I, os padres celebravam missas nesses cômodos secretos; os monarquistas também usaram tais esconderijos e viram-se forçados a construir mais lugares secretos para se esconderem das tropas de Cromwell.
Atualmente as crianças se sentem fascinadas por tais lugares cheios de histórias e mistérios; adoram fazer perguntas, interessadas em saber quantas vidas foram salvas graças ao que para elas seria uma espécie de brincadeira de esconde-esconde.
CAPÍTULO I ~ 1885
«O que devo fazer?», Janet perguntou a si mesma.
Caminhando pelo jardim da villa, repleto de buganvílias, hibiscos floridos e lírios em botão, ela lembrou-se de que estes últimos eram as flores prediletas de seu pai.
Tal pensamento ocasionou-lhe uma dolorida pontada no coração. O pai, que nos últimos anos lhe enchera a vida de felicidade, agora estava morto.
Aos dezessete anos Janet perdera a mãe. Na ocasião o pai, que jamais gozara de muita saúde, passara a encontrar apoio e conforto na única filha.
Lorde Compton de Mellor fora um dos mais eminentes ministros da Justiça que a Inglaterra conhecera. Ocupara os cargos de conselheiro da rainha e de juiz e ficara conhecido por seus discursos brilhantes, julgamentos sábios e palavras ponderadas, os quais, no passado, costumavam ser motivos de júbilo para a imprensa que raramente passava um dia sem qualquer referência a tão ilustre personalidade.
Amando profundamente o pai e lhe reconhecendo a inteligência privilegiada e a agudeza de espírito, Janet sentia um prazer imenso em estar ao lado dele.
Dotado também de extraordinário bom humor e de um encanto nato, lorde Compton sempre mereceu o respeito não só dos amigos, mas até mesmo dos criminosos que ele mandava para a prisão.
Devido à saúde precária, viu-se forçado a afastar-se de seu cargo e deixar a Inglaterra, indo viver no sul da Itália, o que foi considerado uma perda para seu país, porém motivo de grande alegria para sua esposa.
A Villa das Flores, comprada por lorde Compton, situava-se entre Nápoles e Sorrento, e ali a família Compton viveu gloriosamente feliz. Janet foi mandada para um colégio em Nápoles.
Foi então que, inesperadamente, lady Compton contraiu um tipo de febre maligna que de tempos em tempos grassava em Nápoles, vindo a falecer, mal tendo o marido e a filha tido tempo de se darem conta da gravidade da moléstia.
Mesmo sem consultar o pai, Janet deixou o colégio para ficar na villa o tempo todo, fazendo-lhe companhia. Felizmente, com a orientação da diretora do colégio, conseguiu contratar os melhores professores particulares, que passaram a vir à villa todas as manhãs para lhe ministrarem aulas de literatura, música e história.
Dessa forma Janet recebia as aulas enquanto o pai descansava, e tinha o resto do dia para ficar ao lado dele, o que também não deixava de ser um meio de instruir-se, pois, como ela própria costumava dizer-lhe, lorde Compton era uma enciclopédia viva.
Não se cansava de dizer a si mesma o quanto era excepcionalmente feliz por ter um homem tão brilhante para ensiná-la, orientá-la e, sem dúvida, inspirá-la.
—Sabe, papai— ela costumava dizer ao pai em tom de brincadeira—, creio que só me restará a alternativa de me tornar uma solteirona, pois jamais encontrarei uma marido que tenha uma inteligência brilhante como a sua!
Rindo daquela simplicidade, lorde Compton respondia:
—Ora, minha querida filha, você se apaixonará com seu coração e não com seu cérebro!
—Isso é absurdo!— a filha discordava—, eu jamais serei capaz de amar um homem tolo que não tenha capacidade de manter comigo uma conversa do mesmo nível que mantenho com você.
—Agora está me assustando. Vou providenciar sua ida para a Inglaterra no próximo ano. Será apresentada à Rainha e conhecerá pessoas jovens como você.
Janet preferiu não dar qualquer resposta e ficou dizendo a si mesma que jamais se separaria de seu pai, pois os médicos já a haviam advertido de que sua saúde era bastante delicada. Seu coração poderia parar a qualquer momento, e ele precisava poupar-se ao máximo.
Dessa forma Janet sentia-se plenamente feliz de poder sentar-se com ele na sacada da villa ou de caminhar ao seu lado, muito vagarosamente, pelo jardim ensolarado.
Contrariando os conselhos médicos, Janet insistia com o pai para deixarem a villa durante o inverno, atravessarem o Mediterrâneo, indo para Argel, onde era mais quente e não havia os traiçoeiros ventos noturnos, vindos direto das montanhas cujos picos eram cobertos de neve.
Há um mês esses ventos haviam atingido a Villa das Flores, exatamente quando ela se sentia feliz por ver o pai tão bem. Porém, certa manhã, quando menos esperava, ao entrar no quarto de lorde Compton, encontrou-o morto, com um leve sorriso no belo rosto, o que a fez ter certeza de que ele havia morrido pensando na esposa. Naturalmente já se achava ao seu lado.
«Eles devem estar muito felizes juntos», era o que Janet dizia a si mesma naquele instante, passeando pelo jardim. «Mas e eu? O que farei?»
Ocorreu-lhe que o mais sensato seria voltar à Inglaterra. Embora seus avós estivessem mortos, tinha muitas tias e primas que se sentiriam felizes e honradas em servir-lhe de chaperon por ocasião do seu um tanto atrasado début.
No momento, porém, estava de luto. Não usava roupas pretas por saber que o pai ironizava o exagero quanto aos “crepes negros e lágrimas”. É que as mulheres seguiam o exemplo da, Rainha e faziam o que a sociedade esperava delas. Na Inglaterra e o mesmo aconteceria com Janet, especialmente tendo lorde Compton sido um homem tão ilustre.
Nos jornais ingleses foram publicados longos necrológios sobre o ex-Ministro, e jos jornais italianos seguiram-lhes o exemplo, uma vez que lorde Compton também vivera na Itália.
«O que devo fazer?», era a pergunta que ainda não deixara a mente de Janet, que, no momento, se aproximava do chafariz de pedras.
Enquanto admirava os jatos de água que eram lançados rumo ao céu para voltarem transformados em milhares de gotículas iridescentes, ela pensava que se permanecesse na Villa das Flores, como era sua intenção, deveria providenciar uma chaperon.
A simples ideia pareceu-lhe inviável, uma vez que não iria suportar uma conversa banal com uma mulher, dia após dia, estando acostumada a manter com o pai uma conversação inteligente, quando se sentia embevecida diante da sabedoria e agudeza de espírito de lorde Compton.
Como ela gostava de discordar do pai e apresentar-lhe argumentos que eram rebatidos com a maior eloqüência e racionalidade! Então, levada mais pelo prazer de ouvi-lo derrotá-la com o habitual brilhantismo, Janet se empenhava em alimentar discussões que acabavam se tornando verdadeiros duelos verbais.
«Oh, papai, como pôde me deixar, se vivíamos tão felizes juntos?», ela se lamentava, lutando para esconder as lágrimas.
—Se há algo que detesto é ver uma mulher chorando, simplesmente porque espera, por meio das lágrimas, conseguir o que deseja— lorde Compton dissera certa vez—, mas não ignoro, minha querida, que o belo sexo frequentemente vê as lágrimas como uma arma.
—As mulheres se valem dessa arma para deixar os homens se sentirem fortes, másculos e, naturalmente, muito superiores a elas— fora a resposta zombeteira de Janet.
—É aí que se engana— o pai a contradisse.
Janet lembrou-se de que uma discussão acalorada recomeçara. Os argumentos apresentados por lorde Compton deixaram a filha maravilhada, e ambos terminaram o assunto rindo prazerosamente.
Mas agora não havia com quem rir; tudo se tornara calmo e silencioso.
Era quase hora do almoço, e Janet caminhou vagarosamente para a sacada onde costumava sentar-se com o pai. O sol incidia em seus cabelos tornando-os cor de ouro. Não era um ouro de tom suave como o sol da Inglaterra, mas de um tom queimado, o mesmo usado por Botticelli ao pintar os cabelos de Simonetta. A partir de então essa tonalidade passou a ser buscada desesperadamente pelos fabricantes e misturadores de tintas.
Os cabelos de Janet, ao sol, pareciam arder em chamas e conferiam-lhe à pele alvor e brilho invejáveis.
Os olhos, que lhe dominavam o rosto delicado, tinham o mesmo azul profundo do Mediterrâneo em dia tempestuoso.
—Não consigo entender de quem você herdou esses olhos, minha querida— o pai já lhe havia dito mais de uma vez—, os olhos de sua mãe eram azuis como o céu e quando os fitei pela primeira vez achei que nada no mundo poderia ser mais belo.
—Seus olhos são cinzentos, papai, porém se tornam quase pretos quando se zanga!— Janet respondera.
—Suponho que tenha razão— concordara lorde Compton, depois de ter achado graça da observação da filha—, mas o que quero dizer é que seus olhos têm uma cor tão diferente e rara, minha filha, que me sinto impossibilitado de descrever-lhes a beleza, só mesmo um poeta, e não eu, seria capaz de fazê-lo.
Depois desse elogio, assim que teve oportunidade Janet examinara seus olhos detidamente e compreendera o que o pai quisera dizer.
Ao espelho, vira um par de grandes olhos azuis, muito escuros, e às vezes com um toque de verde. Porém, o humor mudava- lhes a coloração para matizes de violeta e eles adquiriam uma nuança difícil de ser descrita.
Naquele instante Janet chegava à sacada, onde um cavalheiro a esperava. Ao vê-la aproximar-se, ele não pôde deixar de dizer a si mesmo que outra jovem dificilmente reuniria tanta beleza. Parecia, na verdade, uma figura descida do Monte Olimpo, desejosa de viver entre os humanos.
—Dr. Pirelli!— a jovem exclamou assim que subiu os degraus de acesso à sacada—, que enorme prazer vê-lo aqui!
O médico estendeu a mão e perguntou num inglês correto porém com sotaque italiano:
—Como vai, minha cara?
—Estou bem, embora sentindo enormemente a falta de papai, como pode imaginar.
—Compreendo como se sente. Também sinto falta de lorde Compton. Eu sempre esperava, ansioso, uma oportunidade de vir até a villa para ver seu pai, e você, naturalmente.
Janet sorriu.
—Sempre achei que você e papai tinham tanto para dizer um ao outro que nem se lembravam de minha existência.
—Ora, isto não é verdade!— exclamou o Dr. Pirelli, rindo— obviamente está se fazendo de modesta para receber elogios!
Um criado, já familiarizado com as visitas do médico, trouxe uma garrafa de vinho da preferência do visitante e serviu-lhe um copo.
Aceitando a bebida, o Dr. Pirelli sentou-se em uma das confortáveis poltronas. Assim que o criado retirou-se, ele expôs a Janet a razão de sua visita:
—Tenho uma sugestão a lhe fazer e creio que ficará surpresa ao ouvi-la.
—Uma sugestão?
—Tem sido muito grande minha preocupação por você, Janet, e sei que tem consciência de que não pode ficar sozinha nesta villa.
—Sim, já pensei muito nisso e talvez a solução seja arranjar uma dama de companhia. Confesso, porém, que não me atrai a ideia de empregar uma senhora de idade; creio que seria um tanto deprimente.
—É o que supus que fosse me dizer. Minha sugestão é que deve voltar para a Inglaterra.
Janet manteve-se calada, apenas suspirou, e o médico prosseguiu:
—Pensei num modo de tornar sua viagem de volta à pátria menos monótona e cansativa.
Notando o olhar indagativo que a jovem lhe dirigiu, o Dr. Pirelli foi direto ao assunto:
—Creio que já ouviu falar sobre a Condessa di Agnolo.
—Sim, naturalmente. Ela mora numa villa belíssima, nas proximidades de Pompeia. Confesso que sempre tive muita vontade de conhecer aquela magnífica propriedade.
—A Condessa sempre pergunta por você, e eu nunca a levei até ela porque já faz um ano que a nobre senhora está sofrendo de turbeculose.
—Papai ficou sabendo do estado de saúde da Condessa e a notícia deixou-o bastante aborrecido.
—Sem dúvida é uma tragédia. A Condessa di Agnolo é ainda tão jovem e uma mulher lindíssima.
—Mas não há esperança de cura?
—Desejaria tanto que houvesse! Mas seus dois pulmões estão infectados. Na verdade ela está morrendo.
—Oh, sinto muito!
Fez-se um instante de silêncio e, quando Janet pensava no que poderia aquilo tudo ter a ver com ela, o Dr. Pirelli retomou a narrativa:
—A Condessa tem uma filha de oito anos, uma criança adorável, muito meiga, de gênio dócil, à qual, naturalmente, a mãe é muito devotada.
Jamais pensei que ela tivesse uma filha. Agora essa criança ficará só com o pai, não?
—É exatamente sobre isso que eu vim conversar com você. É desejo da Condessa que lady Katherine, ou Kathy, como a filha sempre foi chamada, passe a viver com o pai, na Inglaterra.
—Está dizendo que a Condessa é inglesa e que Kathy não é filha do Conde di Agnolo?— Janet perguntou, surpresa.
—Imaginei que lorde Compton já lhe tivesse falado sobre a Condessa.
—Embora algumas vezes papai fizesse referência à villa, não me recordo de ele ter falado sobre a esposa do Conde particularmente.
—Creio que lorde Compton imaginasse que seria um erro deixar você interessada na Condessa— o Dr. Pirelli murmurou, quase como se falasse consigo próprio.
—Por que seria um erro fazer isso?
Seguiu-se um instante de silêncio constrangedor e, depois de algum tempo, tendo procurado as palavras certas, o médico disse finalmente:
—O verdadeiro marido da Condessa, é o Conde de Halesworth!
Janet olhou perplexa para o médico.
—Quer dizer que— ela falou vagarosamente—, ela não é casada com o Conde di Agnolo?
—Infelizmente, não— o Dr. Pirelli respondeu—, quando a trouxe para viver com ele em sua villa, deu-lhe seu próprio nome a fim de evitar um escândalo entre os vizinhos. Dessa forma ninguém sabe quem é a Condessa na verdade e todos ignoram que o Conde tem uma família que mora em Veneza!
—Mas…
durante todo esse tempo você e papai... sabiam de tudo!— Janet exclamou acusadoramente.
—É claro que seu pai conhecia o Conde de Halesworth de nome e já ouvira dizer que sua esposa o deixara poucos anos depois do casamento.
—Ela trouxe a filha consigo para a Itália?
—Na ocasião Kathy estava apenas com dois anos, e a mãe não pôde suportar aideia de deixar a criança para trás.
—Mas… o Conde não protestou?
—Apenas uma vez eu e seu pai falamos sobre o assunto, e o que fiquei sabendo foi que o conde era um homem extremamente orgulhoso. Como inúmeros outros aristocratas ingleses, o Conde de Halesworth preferiu renunciar a tudo a ver o nome da família manchado pelo divórcio, uma vez que, quando este ocorre entre a nobreza, é levado à Câmara dos Lordes.
—Compreendo. Dessa forma o conde preferiu ficar em silêncio e deixar a esposa partir com a filha. No entanto, na minha opinião ele deveria ter tentado ficar com sua única filha.
O médico permaneceu em silêncio, e Janet observou logo depois:
—Imagino que, em se tratando de uma menina, o conde não deu tanta importância ao fato. Se a questão fosse com seu filho e herdeiro, ele se empenharia em tê-lo de volta.
—Suponho que você esteja certa. Mas no momento o que mais me preocupa é o fato de Kathy estar em contato com a mãe, correndo o risco de contagiar-se. Você não ignora o quanto a moléstia é terrível.
—Naturalmente, e tal preocupação deve atormentá-lo— Janet observou, penalizada—, mas o que pensa fazer com a garota?
—Gostaria que ouvisse meu plano. Já discuti cada detalhe com a Condessa, e ela incumbiu-me de lhe pedir encarecidamente que leve Kathy para a Inglaterra e a entregue ao pai. Como você é inglesa, isto facilita as coisas.
—A Condessa quer mesmo que eu faça isso? Mas eu jamais a vi!
—Fique sabendo que ela já ouviu falar muito sobre você!— o médico asseverou com um sorriso—, a Condessa sempre foi uma mulher solitária, durante todos estes anos; mesmo a adorando, o Conde não tem condições de ficar sempre junto dela. Se fosse possível, pode ter certeza de que ficaria aos pés da mulher amada noite e dia.
Ele fez um gesto bem tipicamente italiano.
—Muitas vezes o Conde tem de retornar à família, passa muito tempo fora, e a Condessa sente-se imensamente só.
—Ela não tem amigos?
—Embora pareça estranho dizer, a verdade é que são pouquíssimos seus amigos. Sempre foi difícil para ela fazer amizade com os italianos ou os ingleses, receando que viessem a descobrir que o Conde não era verdadeiramente seu marido. Qualquer lady inglesa a evitaria se soubesse quem ela era e a consideraria uma “mulher de má vida”!
—Oh… compreendo! Só lamento que papai não a tivesse convidado para nos visitar. Eu teria sido muito bondosa para com ela.
—Acredito que lorde Compton tenha pensado apenas em você— o médico observou com simplicidade.
—E agora a Condessa deseja que eu leve sua filha para a Inglaterra.
—Exatamente. Por essa razão, sugiro que depois do almoço me acompanhe até a villa da Condessa e poderá falar com ela pessoalmente. Vai constatar o quanto a pobre mulher está desesperada para encontrar uma pessoa de confiança para acompanhar sua garotinha nessa viagem tão longa.
—Posso imaginar e, se me for possível, é claro que acompanharei Kathy até a Inglaterra— uma súbita lembrança fez Janet hesitar—, meu único receio é ter de ir a Londres ainda de luto; terei de falar com as pessoas sobre o papai, o que me fará... sentir vontade de chorar.
—Nesse caso, o melhor a fazer será ocupar sua mente com outra coisa!— O Dr. Pirelli sugeriu com entusiasmo—, seu pai não gostaria de vê-la em prantos. Lembre-se disso!
—Tem razão. Ao chegar à Inglaterra talvez eu decida ir para nossa casa de campo, que está fechada todo este tempo, aos cuidados de caseiros.
—É uma atitude muito sensata! Faça isso até começar frequentar os círculos sociais, como seu pai sempre desejou que fizesse.
—Não estou bastante segura de que é o que desejo.
—Pela primeira vez a ouço dizer uma tolice! Ora, você é linda, Janet! Quanto antes passar a conviver com pessoas da alta sociedade, como sua mãe planejou para você, melhor.
O modo firme como o médico falou fez Janet pensar, divertida, que aquele discurso fora motivado pelo hábito do Dr. Pirelli de estar sempre tentando provocar uma reação positiva num paciente em convalescença, que, depois de uma longa enfermidade, relutava em enfrentar o mundo.
—Sei exatamente o que quer dizer, caro Dr. Pirelli. Terei de fazer “o que é melhor para mim”. Não foi o que disse quando me convenceu a tomar aquele remédio horrível que me receitou logo que nos conhecemos?
—Sei que você o fará. E agora, se for bastante generosa, me convidará para o almoço, depois a levarei para conhecer a Condessa.
Sentada ao lado do médico, que conduzia sua confortável carruagem por alamedas sinuosas, Janet pensava na villa Agnolo, achando extraordinário que, morando tão perto dessa linda propriedade, jamais estivera ali.
Agora entendia por que o pai sempre tinha tão pouco a dizer cada vez que ela fazia qualquer pergunta sobre aquela villa. Sabia também que todos os seus parentes desaprovariam terminantemente qualquer amizade com uma lady que pudesse ser chamada de “mulher de má vida”.
Não ignorando que as italianas eram notórias mexeriqueiras, Ja- net duvidava que as mesmas não soubessem que a Condessa di Agnolo estivesse levando uma ”vida dupla”.
A carruagem entrou na villa, e Janet pôde constatar que, de perto, aquela propriedade era ainda mais grandiosa do que parecia a distância. Veio-lhe à mente que o Conde desejara cercar a mulher que amava de muita beleza.
Um criado usando libré vistosa e imponente abriu a porta aos visitantes, que foram imediatamente conduzidos por um corredor em cujas paredes pendiam quadros magníficos. Logo Janet encontrou-se em uma das mais lindas salas de estar que já vira.
Ali tudo era branco: as paredes, as cortinas, o revestimento das poltronas e sofás, os tapetes sobre o assoalho bem lustroso.
Quadros pintados por grandes mestres italianos enfeitavam as paredes, suas cores vivas emprestavam alegria ao ambiente. Vasos imensos de cristal estavam repletos de flores.
Janet ficou sozinha na sala enquanto o médico foi por um instante ver sua paciente e saber se realmente se sentia bem e disposta a recebê-los.
Andando pelo aposento, chamou-lhe a atenção uma estante cheia de lindíssimos e raros objetos de arte, os quais, ela não ignorava, valiam uma pequena fortuna.
Mal teve tempo de admirar os valioso objetos, pois o médico voltou com um sorriso nos lábios.
—A Condessa está encantada por você ter atendido seu pedido. Só lhe recomendo que não se demore demais no quarto; ela encontra-se debilitada e não pode se cansar.
—Compreendo.
Os dois subiram pela ampla escadaria, e o Dr. Pirelli abriu uma porta. O quarto em que entraram era tão grande quanto a sala de estar logo abaixo dele e achava-se bem claro, embora as venezianas do lado de fora estivessem abaixadas.
Numa grande cama com baldaquinho, de cujos lados pendiam cortinas de musselina e seda, estava a Condessa, reclinada sobre travesseiros com fronhas enfeitadas com rendas.
Vendo-a, magra de dar pena, e imóvel, os cabelos tão loiros quanto as primeiras luzes da aurora, achou que ali estava uma das mulheres mais lindas que já vira em sua vida.
Impressionaram-na aqueles olhos da enferma, orlados de longos cílios escuros e que, naquele rosto magro, pareciam ainda maiores. Eram olhos de uma tonalidade verde-clara com pequeninos pontos dourados.
A Condessa, ao contrário do que Janet havia imaginado, tinha as maçãs do rosto coradas e não se mostrava abatida, embora a doença a estivesse destruindo.
Janet caminhou até bem perto do leito, e a enfermeira ofereceu- lhe uma cadeira para que se sentasse bem perto da Condessa. Esta estendeu à visitante sua mão que pouco mais era do que pele e osso.
—Você… veio!— a enferma exclamou com voz suave.
—Sim, estou aqui. E, naturalmente, disposta a ajudá-la no que estiver ao meu alcance.
—É muita... bondade de sua parte.
A Condessa fez uma breve pausa antes de prosseguir, como se falar lhe fosse penoso.
—Por favor, leve Kathy até o pai dela. Foi um grande erro trazê-la comigo. Mas eu a amava… tanto!
As palavras saíam com dificuldade de seus lábios.
Janet, que continuava a segurar a mão da enferma, tranquilizou-a:
—Compreendo. Cuidarei de Kathy.
—Ele não deve… ficar zangado com ela.
Percebendo que a Condessa referia-se ao marido, asseverou-lhe num tom confortador:
—Tenho certeza absoluta de que ele ficará imensamente feliz em ter a filha de volta.
A Condessa fechou os olhos e continuou com a mão presa à de Janet. Esta olhou ao redor e notou que o médico e a enfermeira haviam se afastado para deixá-las à vontade.
—Não me arrependo do que fiz— a Condessa estava dizendo—, o amor é algo muito, muito maravilhoso! Mas Stafford… não me amava.
—O que importa é que foi muito feliz aqui! Aqui encontrou o amor.
—Fomos muito felizes— a enferma murmurou—, mas Kathy não pode ser punida por uma culpa que foi… apenas minha.
—Nào! É claro que nào!
—Leve-a de volta para a Inglaterra— a Condessa pediu numa voz sumida e lenta—, ensine-a a ser uma verdadeira inglesa, será melhor para ela se for assim.
—Tentarei, prometo-lhe que tentarei.
Olhando para a Condessa, ela pensou, com dor no coração, que era uma pena ser tão linda e tão jovem e estar tão irremediavelmente enferma. Ansiosa por dar um pouquinho de alegria àquela criatura que definhava, Janet disse novamente:
—Prometo-lhe que cuidarei de Kathy e a levarei para o pai.
—Você é… muito bondosa.
A Condessa tinha os olhos fechados, e sua voz foi quase inaudível. Notando que a mão que segurava tornara-se flácida, Janet compreendeu que a enferma perdia as forças, por essa razão devia deixá-la.
Levantando-se, ela fez uma prece silenciosa para que a Condessa morresse sem sofrer e que a felicidade que ela havia conhecido na terra não se perdesse na outra vida.
Janet atravessou o quarto e viu que o Dr. Pirelli a esperava perto da porta. Ambos deixaram o aposento da enferma, e o médico agradeceu-lhe com voz emocionada:
—Obrigado, minha querida… você foi mesmo muito bondosa, pois nenhuma outra pessoa poderia ter sido mais gentil.
—Sinto imensamente por ela. É de cortar o coração ver uma vida terminada, sendo a pessoa tão jovem.
—Ela viveu estes anos na mais perfeita felicidade, creio que não se pode pedir mais do que isto.
O médico falou com tal sentimento que fez Janet lembrar-se de que ele era viúvo.
Ambos seguiram pelo corredor, também cheio de quadros, obras de mestres, indo para o quarto de Kathy.
Era um cômodo ricamente mobiliado, havia brinquedos por toda parte; uma grande casa de bonecas ficava a um canto, e não muito distante dela via-se um cavalo de balanço.
Sobre o assoalho estavam espalhados inúmeros cubos, blocos e tijolinhos de brinquedo multicoloridos. Uma garotinha, sentada entre eles, tentava construir um Castelo, ajudada pela babá italiana.
Ao ver o médico, a garota deu um grito de alegria e correu até ele.
—Dr. Pirelli! Que bom que o senhor veio! Trouxe aqueles doces gostosos?
—Há uma caixa cheinha deles esperando por você lá em baixo, na minha carruagem. Prometi-lhe esses doces, desde que você fosse uma garota boazinha e não aborecesse sua mãe.
—Fiquei muito comportada— Kathy assegurou-lhe—, não é verdade, Giovanna?
A conversa estava sendo mantida em italiano e a babá confirmou:
—Você foi mesmo muito boazinha e muito comportada.
—Então a caixa de doces é toda sua. Agora quero que conheça esta encantadora lady, que é minha amiga, a Srta. Janet Compton.
Janet abaixou-se para ficar da mesma altura de Kathy.
—Estive admirando sua casa de bonecas. Também já tive uma quando tinha a sua idade, mas era bem menor do que esta.
—A minha é uma beleza. Mas eu gosto mais do cavalo.
—Qual o nome dele? Também tive um cavalo igual ao seu e o montava antes de ter um pônei de verdade.
Kathy não era nem um pouco tímida e olhou para Janet com interesse; esta aproveitou para conquistar-lhe a confiança.
—Creio que, se for para a Inglaterra, conforme sua mãe deseja que você faça, poderá ter um pônei de verdade só seu.
—Posso mesmo? Ah, isso seria maravilhoso! Eu queria um pônei, mas mamãe me disse que no jardim não há lugar suficiente para ele. Mas eu já montei de verdade quando estive do outro lado do mar.
—Montou mesmo? Em um cavalo ou um camelo?
Kathy riu.
—Nos dois! Foi muito divertido, muito engraçado montar no camelo!
—Ah, tenho certeza disso. Você vai me contar como foi. Se quiser ir até minha casa comigo, posso lhe mostrar fotografias dos cavalos que eu tinha quando morava na Inglaterra.
—Eu gostaria muito.
Janet olhou para o médico com uma pergunta tácita no olhar, e ele respondeu com um aceno de cabeça. Em seguida o Dr. Pirelli pediu a Giovanna que arrumasse algumas roupas para Kathy o mais depressa possível.
Tomando a mão da menina, o Dr. Pirelli desceu com ela a grande escadaria, e Janet seguiu-os.
Indo atrás dos dois, Janet notou que, ao deixar seu próprio quarto e passar pelo da mãe, Kathy ficou de repente muito quieta. A jovem sentiu-se comovida diante da atitude da criança: era de admirar que uma garota daquela idade tivesse aprendido a ser tão ponderada.
Só ao chegarem ao hall Kathy falou, em voz baixa, com o Dr. Pirelli:
—Posso subir e ver mamãe antes de ir com vocês?
—Creio que no momento sua mãe está dormindo, mas, se você der apenas uma espiada, acenar para ela e jogar-lhe beijos, poderá fazer isso.
—Prometo que terei muito cuidado e não farei barulho. Vou jogar muitos beijos para mamãe porque sinto tanta falta de beijá-la de verdade!
Janet compreendeu que a filha estava proibida de beijar a mãe devido aos riscos de contágio. Era uma pena ver aquela criança sozinha, tendo apenas a atenção dos criados.
Os três foram até a carruagem do médico, e este deu a Kathy uma caixa de amêndoas glaçadas.
—Obrigada! Muito obrigada!— ela agradeceu com entusiasmo e com muita naturalidade deu um beijo no rosto do Dr. Pirelli,
Abrindo a caixa a garota ofereceu doces ao médico, que não os aceitou, e então voltou-se para Janet, que serviu-se de um.
Kathy sentou-se na carruagem com a caixa de doces no colo e os foi comendo um após o outro.
—Estão deliciosos!— ela exclamou—, Giovanna disse que não devo comer muitos doces para não ficar gorda demais. Acho que mamãe deve comer bastante doces.
—Sua mãe está muito doente e não aprecia doces— o médico explicou-lhe.
—Ora, Dr. Pirelli, o senhor está demorando muito para deixar mamãe boa novamente— Kathy reclamou.
—Tenho feito o que posso— o médico respondeu, como se houvesse necessidade de colocar-se na defensiva.
—Sem poder ficar com mamãe tudo aqui fica tão aborrecido! Eu gostaria de ter um cachorrinho para brincar com ele. Mas o tio Diego sempre diz que um cãozinho iria ser um transtorno na villa.
—Tenho certeza de que você poderá ter seu cãozinho quando for à Inglaterra— Janet apressou-se em dizer.
Ela viu os olhos de Kathy se iluminarem e começou a ter esperanças de que a garota aos poucos iria se esquecer da mãe.
Janet adorava a mãe e a perdera; por essa razão podia avaliar como Kathy se sentiria quando se visse sozinha no mundo e como seria difícil ajustar-se num ambiente diverso do seu.
Ocorreu-lhe então, pela primeira vez, que, embora ela e a garota tivesse grande diferença de idade, ambas se encontravam numa situação bem parecida, nenhuma das duas tinha a quem se agarrar; estavam sós.
«Tenho certeza de que o pai passará a representar muito para Kathy», Janet pensou, otimista.
No entanto uma pergunta insistia em insinuar-se em sua mente, o Conde ficaria feliz tendo a filha de volta, depois de o terem privado de sua companhia durante seis anos?
Como aquela era uma questão que certamente não seria resolvida no momento, Janet deixou-a de lado.
Dentro de pouco tempo Giovanna voltava com uma maleta contendo algumas roupas de Kathy, além de um chapeuzinho e um casaco para a garota viajar.
—Agora posso subir e mandar beijos para a mamãe?— Kathy perguntou ao médico.
—Sim, mas primeiro converse com a enfermeira e diga o que vai fazer.
Kathy saltou da carruagem e correu para a villa, onde ficou apenas durante alguns minutos, e ao voltar trazia a boneca favorita nos braços.
—Tu já devias ter trazido Betsy comigo. Sei que ela vai gostar muito do passeio de carruagem.
—Não duvido que ela vá gostar disso e espero que você também aprecie nossa pequena viagem.
—Eu gostava tanto de passear de carruagem com mamãe! Ela costumava contar histórias sobre os lugares em que passávamos.
—Posso contar-lhe histórias também
— Janet observou.
—Você sabe histórias?
—Muitas! Muitas mesmo! Mas terá de contar algumas para mim.
—Histórias sobre o quê?
—Sobre tudo! Sobre as árvores, as flores, o mar, o céu! Na verdade, se você pensar bem nisso, verá que há lindas histórias em todos os lugares para onde olhamos!
—Que engraçado!— Kathy exclamou, rindo—, quero que me Conde todas as suas histórias.
—Quando estivermos indo para a Inglaterra terei tempo de lhe contar as minhas histórias— Janet prometeu—, mas você também irá contar suas histórias sobre a Itália, uma vez que está morando neste país há mais tempo do que eu.
—Histórias de fadas?
—Histórias de fadas, de cavaleiros andantes, de duendes e de garotas que gostam de histórias!
Kathy riu.
O Dr. Pirelli, que estivera dando ordens para Giovanna arrumar toda a bagagem de Kathy, agora voltava para a carruagem.
—Agora vou levá-las para a Villa das Flores— ele disse—, voltarei em seguida para ver a Condessa. Até então toda a bagagem de Kathy estará arrumada. À noitinha deixarei os baús em sua casa, Janet.
—Obrigada. E agora estou ansiosa para mostrar minha villa a Kathy e, lógico, o chafariz.
—Você tem um chafariz em sua casa?
—Tenho. E há uma história muito interessante sobre o lugar de onde ele veio e sobre quem o construiu. Desde que ele está em minha villa contam uma linda história de fadas sobre coisas que têm acontecido.
—Ah, conde essa história!— Kathy pediu quase num grito de alegria e segurou a mão de Janet—, se contar a história agora, lhe contarei úma antes de ir para a cama.
—Está combinado!
Janet passou o braço pelos ombros da garota e puxou-a para junto de si, achando que Kathy era a criança mais simpática e adorável que já havia conhecido.
Olhando para o Dr. Pirelli, viu em seus olhos e em seu sorriso toda a sua aprovação.
Se ele ficara apreensivo, antes de incumbir-se de pedir-lhe que levasse a pequena Kathy para a Inglaterra, agora se sentia feliz por ter escolhido a pessoa certa.
Pela primeira vez ocorreu a Janet que talvez pudesse haver alguma coisa mais, em todo aquele plano, que não lhe fora revelado.
Se fosse assim, sua tarefa iria ser bem mais difícil do que havia imaginado.
CAPÍTULO II
Janet colocou Kathy na cama, acomodou-a confortavelmente sob as cobertas e, quando se abaixou para beijá-la, notou a hesitação da garota, que lhe perguntou:
—Não é perigoso beijar você? Eu não tinha permissão de beijar mamãe.
—Não há perigo nenhum, mas você pode não desejar que eu a beije.
Kathy olhou para ela e disse com entusiasmo:
—Quero, sim. Quero que me beije. Você é tão bondosa e bonita! Também me conta lindas histórias.
Colocando os braços ao redor do pescoço de Janet, a garota deu-lhe um beijo na face. Durante algum tempo a jovem manteve a criança apertada junto ao seu rosto, sentindo-se triste ao lembrar-se de que uma menina ainda tão pequena se via obrigada a manter-se afastada da mãe. E a Condessa, ela já notara, era a pessoa mais importante na vida de Kathy.
Janet afagou a criança ainda com mais carinho e sentiu-lhe o corpinho quente bem junto do seu. Então disse a si mesma que durante a viagem para a Inglaterra iria fazer o possível para deixar aquela criaturinha adorável bem feliz.
Ao descer para seu jantar solitário, ela pensava no que lhe estaria reservando o futuro. Finalmente tranquilizou-se, ciente de que era por obra do destino que iria deixar a villa, uma vez que sua vontade era permanecer ali.
«Kathy e eu teremos de enfrentar um novo mundo», Janet murmurou. «Peço a Deus que ela viva feliz em sua vida nova e que a minha possa ser interessante».
Na manhã seguinte o Dr. Pirelli chegou à Villa das Flores bem cedo, trazendo consigo mais algumas malas com roupas de Kathy e os objetos mais preciosos para a garotinha.
Kathy brincava no jardim, correndo ao redor do chafariz que tanto a havia fascinado. O médico sentou-se numa das cadeiras da sacada, ao lado de Janet.
Após um momento de silêncio, ela decidiu falar francamente com o Dr. Pirelli sobre o que a estava preocupando.
—Amo Kathy, Dr. Pirelli, e terei prazer em cuidar dela, mas é preciso que seja franco comigo e me conde tudo o que sabe sobre o pai dessa criança. Pode ser que eu esteja errada, porém tenho o pressentimento de que você está me escondendo alguma coisa.
O médico olhou para a jovem não se sentindo nada à vontade.
—Tudo o que planejei foi que você leve Kathy até ao Castelo de Hale e depois disso a esqueça.
Janet arqueou as sobrancelhas.
—Uma vez que eu sou a única ligação entre a garota e a mãe, se fizer o que está me dizendo, estarei sendo cruel demais.
O médico permaneceu em silêncio.
—Naturalmente o pai de Kathy a receberá de braços abertos— Janet acrescentou—, mas, ontem à noite, antes de me deitar, pensei bastante no assunto e ocorreu-me que o Conde talvez não esteja assim tão ansioso para receber a filha como estamos imaginando. Devemos considerar que ele a viu pela última vez há seis anos.
—Ela é apenas uma criança— o Dr. Pirelli replicou, defendendo-se.
—Imagino que este seja um ponto considerável a favor de Kathy, mas o Conde de Halesworth pode ser um desses homens que não gostam de crianças.
O Dr. Pirelli juntou as mãos.
—Você está tornando as coisas mais difíceis, Janet, o que não é nada próprio de você.
—Continuo com a impressão de que está escondendo algo!— ela redarguiu.
O médico ficou alguns segundos pensativo.
—Bem, se quer saber mesmo a verdade, vou lhe contar o que sei. Alguns amigos meus que são ingleses contaram-me, durante minha estada em Paris, há três anos, que aconteceu uma coisa muito estranha no Castelo de Hale.
—Gostaria de saber o que aconteceu— Janet replicou com firmeza.
O Dr. Pirelli deu um suspiro.
—Esses amigos não sabiam que eu era o médico da esposa do Conde de Halesworth, e eu apenas perguntei pelo Conde, movido simplesmente pela curiosidade.
—O que seus amigos lhe disseram?
—Contaram-me que havia muitos comentários sobre o Conde porque algo estranho havia acontecido, envolvendo-o. Esses meus amigos não conheciam o Conde pessoalmente, mas, em se tratando de um aristocrata tão importante, todo o condado falava sobre ele.
Janet sabia que tais comentários eram inevitáveis e continuou ouvindo atentamente, não desejando interromper a narrativa.
—Fiquei sabendo que o conde se envolvera com uma mulher muito jovem e atraente, já viúva. Porém, sem ninguém saber como ou por que, essa mulher desapareceu!
—Desapareceu?!
—Ninguém jamais soube o que realmente aconteceu, mas os vizinhos do Castelo viviam cochichando que o mais provável era que a viúva tivesse sido assassinada.
—É inacreditável! O que teria acontecido na verdade?
—Condei-lhe tudo o que fiquei sabendo. Voltei para a Itália e, naturalmente, jamais falei sobre o assunto com a Condessa.
—Então nunca ficou sabendo o fim da história?
—Se quer saber minha opinião, esta história não tem final. E ela me atinge porque o conde é o pai de Kathy, e, como tenho profunda afeição pela garota, tudo isto não deixa de ser extremamente desagradável.
Depois de um instante estar pensativa, Janet perguntou:
—Ainda acha que eu devo levar a menina para o pai?
—É claro! Acredito que o que ouvi não passou de um monte de tolices. Se tivesse havido uma investigação policial ou um julgamento, os jornais publicariam.
—Como pode ter certeza de que os jornais não publicaram nada sobre o fato?
O médico meneou a cabeça.
—Durante semanas a fio tive o trabalho de ler um jornal inglês que é publicado semanalmente na Itália. Não houve nenhuma menção ao Conde de Halesworth, o que me fez deduzir que o que meus amigos me contaram não passara de mexericos.
Janet levantou-se e ficou olhando para Kathy, que continuava brincando no jardim. Ela estava adorável naquele cenário, tendo como pano de fundo a água iridescente do chafariz. E como era parecida com a mãe! Porém, naquele vestido branco com um grande laço azul na cintura, aquela criaturinha podia bem ser tomada por uma das fadas sobre as quais ela tanto gostava de ouvir.
—A Condessa deve ter sido uma mulher de rara beleza!— Janet observou em voz alta—, talvez o Conde tenha ficado imensamente infeliz por tê-la perdido.
—Se ficou, a Condessa jamais teve conhecimento disso. Certa vez ela me segredou: “Antes de conhecer Diego jamais soube o que era a felicidade. Ele me ama como mulher, enquanto meu marido verdadeiro sempre me tratou como se eu fosse uma criança de quem ele logo se cansava”.
—Que idade tem o Conde de Halesworth?
—Interessei-me por ele e consegui uns dados sobre sua pessoa em um livro de referências. Quando sua esposa o abandonou ele contava apenas vinte e sete anos, portanto agora deve ter trinta e três.
—Não é velho— Janet observou com um sorriso.
—Exceto para uma mulher muito delicada e meiga que desejava apenas ser amada— o Dr. Pirelli replicou.
A resposta do médico soou bem italiana aos ouvidos de Janet, que deu um breve sorriso, pensando que para os italianos o amor significava muito. Enquanto esse povo era loquaz quando se tratava de expressar seus sentimentos, um inglês sempre aprendera, desde o nascimento, a ser comedido e controlado, chegando a ser até mesmo tímido em assuntos do coração.
Ela e o pai frequentemente comparavam as características dos diferentes povos da Europa, e lorde Compton comentara certa vez:
—Os italianos são como crianças! Choram se se sentem infelizes, cantam quando estão felizes e têm o coração pulsando pelas mais diversas emoções desde que se levantam até se deitarem. E eles pensam constantemente em mulheres, enquanto nossos conderrâneos, minha querida, pensam em caçadas, cães, cavalos e pescarias!
Janet achara graça e comentara:
—Mas você nunca foi assim, papai.
—Só mudei depois que conheci sua mãe. Desde o instante em que a vi, soube que ali estava a mulher com quem eu sonhava e que representava toda a perfeição e que jamais imaginei que viesse a encontrar. Quando fiquei sabendo que ela me amava, senti-me o homem mais feliz deste mundo!
—Também espero encontrar um amor assim— Janet disse em voz baixa.
—Peço em minhas orações que o encontre mesmo, minha filha querida. Ao mesmo tempo, tenho orgulho de dizer que espero que seu marido seja digno de sua beleza.
—Agora está se comportando como um esnobe— ela retrucara, olhando para lorde Compton de modo acusador—, sei muito bem que está insinuando que eu deva me casar com um Duque, o que acho improvável, ou então com algum aristocrata cheio de empáfia que jamais estará completamente seguro de que sua esposa esteja à sua altura.
—Jamais ouvi tamanho absurdo em toda minha vida!— lorde Compton exclamara, muito zangado, porém percebera que a filha apenas o provocava—, ora, pare de me irritar! Sabe muito bem o que desejo para você e, logicamente, sou ambicioso. Desejo vê-la sentada entre as damas da corte, na abertura do Parlamento.
—Oh, papai, como pode dizer um despropósito desses? Não tenho a menor vontade de usar uma tiara, tampouco desejo abrir exposições de flores ou dar palmadinhas na cabeça de crianças ao entregar prêmios numa escola!— o tom de voz de Janet mudou repentinamente, e ela falou seriamente—, quero me casar com um homem que seja tão ambicioso e inteligente quanto você, papai. Talvez um Primeiro-Ministro ou quem sabe um Embaixador da Inglaterra em algum país civilizado, como a França, por exemplo!
—Quem sabe você tenha razão— o pai havia concordado—, tendo um cérebro privilegiado como o seu, você certamente irá inspirar seu marido a galgar todos os degraus do sucesso. Mas lhe asseguro que ele a invejará.
A filha beijara o pai antes de afirmar:
—Ele terá muito mais motivo de sentir inveja de você, uma vez que não me cansarei de citar suas palavras, papai, e de dizer ao meu marido que tenho o pai mais brilhante que possa existir.
Voltando ao presente, Janet pensou, pela milésima vez, que jamais iria encontrar alguém que a amasse como o pai havia amado sua esposa. Sendo inteligente, compreendia que seu cérebro, ao qual seu pai classificava como muito acima da média, poderia constituir por si só um impedimento.
Lady Compton, meiga e maravilhosa como era, jamais tentara argumentar com o marido ou questionar qualquer decisão que ele tomasse.
Ela simplesmente adorava lorde Compton e colocara toda a sua vida nas mãos dele. O que quer que o marido desejasse, aquele era também o desejo da esposa, que se sentia feliz assim.
Janet freqüentemente pensava se ela própria seria tão benévola ou tão fácil de se contentar. Antes se considerava mais parecida com o pai; da mesma forma que ele, sempre achava que a vida por si só era um desafio.
Agora um problema surgira à sua frente e estava disposta a resolvê-lo. Precisava ter plena certeza de que Kathy estaria feliz na Inglaterra.
Poderia acontecer de ambas chegarem ao Castelo de Hale e ela então constatar que a garota não se sentiria feliz ali com o pai. Nesse caso, será que teria condições de providenciar para que Kathy ficasse com algum outro parente?
Janet ia fazer essa pergunta ao Dr. Pirelli, porém, conteve-se. Ele não saberia a resposta e iria ficar ainda mais preocupado do que já estava, uma vez que devotava grande afeição pela Condessa e Kathy.
O médico iria sentir muita saudade da garota quando ela partisse para a Inglaterra, da mesma forma que sentiria falta da Condessa quando esta morresse.
«Não posso tornar as coisas piores do que estão para o Dr. Pirelli», Janet pensou, decidida.
Em voz alta, disse:
—Fiquei muito contente por ter me contado o que sabia sobre o conde. Na minha opinião, a esta altura já deve ter sido encontrada a solução do mistério da pessoa desaparecida.
—É o que também espero— o Dr. Pirelli respondeu depressa—, era essa a razão de eu não querer dizer-lhe nada sobre o assunto.
—Quanto mais eu souber sobre o pai de Kathy, melhor. Afinal, terei de convencer essa criança a se interessar por ele, a desejar vê-lo e a acreditar que ao lado do Conde será tão feliz quanto o foi junto da mãe.
—Sim, é verdade— o médico concordou—, tenho certeza de que você fará isso com sucesso.
Embora achasse exagerado o otimismo do médico, Janet permaneceu silente, e o Dr. Pirelli passou a falar sobre as providências que já vinha tomando para a viagem.
Será necessário partirmos logo?
—A Condessa ficará feliz e mais tranquila, quando souber que a filha já se acha a caminho da Inglaterra.
O médico disse apenas isso, mas Janet sabia que ele estava pensando que Kathy não devia de forma alguma saber da morte da mãe antes de deixar a Itália.
Ele passou então a tratar da parte financeira.
—Naturalmente a Condessa pagará todas as despesas, não só da filha, como as suas.
—Ora, não há motivo para isso— ela protestou—, tenho dinheiro.
—Sei disso, porém a Condessa é riquíssima. Além da sua fortuna pessoal, o Conde, que é também muito rico, sempre lhe deu muito mais do que ela podia gastar. Estive com o advogado da Condessa esta manhã, e ele mostrou-me seu testamento. Tudo o que ela possui, naturalmente, ficará para Kathy, que, mesmo sem contar com a herança paterna, será uma jovem lady extremamente rica.
«Vai ser ótimo para a menina», Janet pensou, passando-lhe pela mente que sendo muito rica Kathy despertaria o interesse de parentes, caso o pai não a quisesse.
—Para a viagem estou providenciando um vagão especial, quase como um pequeno apartamento, que será engatado ao trem que as levará até Paris. O mesmo vagão será depois engatado a um outro trem que irá até Calais.
—Quanto luxo!— Janet exclamou, pensando que se fosse viajar sozinha lhe bastaria reservar uma cabine.
—Quero que ambas tenham todo o conforto— o médico argumentou com simplicidade—, o acompanhante de viagem que escolhi para vocês é um homem experiente, já esteve na Inglaterra diversas vezes e fará tudo o que for necessário até deixá-las nesse país.
—Só lhe posso ficar muito agradecida, Dr. Pirelli. Desejaria saber se devo escrever ao Conde sobre nossa chegada ou isso ficará também a seu cargo— ela perguntou.
Para sua surpresa o médico não deu uma resposta imediata. Entre
as sobrancelhas dele formou-se uma ruga profunda. Ela esperou até que, finalmente, o Dr. Pirelli se manifestasse.
—Pensei no assunto cuidadosamente e cheguei à conclusão de que seria melhor não fazermos nada até que vocês cheguem ao seu destino.
—Está querendo dizer que nós duas devemos surgir no Castelo, assim, de repente, como num passe de mágica?— Janet indagou, surpresa.
—Creio que será melhor— o Dr. Pirelli começou vagarosamente— deixarmos o Conde ver sua filha primeiro e depois tomar uma decisão sobre o que fazer a respeito dela.
Janet viu que naquele momento Kathy se sentava no gramado e acalentava Betsy, sua boneca favorita. Com um sorriso nos lábios, ela perguntou ao médico:
—Será que o pai de Kathy se encantará com a filha à primeira vista?
—Não tenho a menor dúvida. Por essa razão acho que não seria prudente deixá-lo alimentar qualquer tipo de ressentimento contra ela antes de vê-la.
Não restava dúvida, Janet pensou, de que o Dr. Pirelli estava raciocinando com muito bom senso. Não seria de estranhar, se o Conde guardasse rancor pelo fato de lhe terem tirado a filha quando pequena. Além disso, ao que tudo indicava, ele não recebera notícias da garota nos últimos seis anos.
—Tem toda razão— Janet concordou—, mas reconheço que a situação é bem mais complexa e delicada do que eu imaginava.
—Não está querendo desistir de levar Kathy, não é mesmo?— o Dr. Pirelli perguntou depressa.
—Não! Claro que não! Dei minha palavra à Condessa de que cuidaria de sua filha e a manterei!
Dois dias depois, Janet e Kathy partiram. Apenas o Dr. Pirelli foi à estação dizer-lhes adeus.
A villa ficara aos cuidados do casal que já trabalhava com os Compton desde que se haviam mudado para lá. Janet esperava estar de volta na primavera seguinte e deixou seus advogados, de Nápoles, encarregados do pagamento dos empregados e de inspecionarem a casa todos os meses.
A todas as pessoas que lhe prestariam serviços deu uma gratificação especial que as deixou exultantes. Deu-lhes também, bem como ao Dr. Pirelli, seu endereço em Londres, de forma que poderiam entrar em contato com ela, caso fosse necessário você deixar a villa Janet precisou reprimir a vontade de chorar. Seu olhar demorou-se no chafariz, na sacada onde costumava sentar-se com o pai e nos cômodos que a mãe havia decorado com tanto carinho e bom gosto. Estava dizendo adeus à casa que fora seu lar nos últimos anos.
Aquele era também um adeus ao pai, que representara tanto em sua vida naqueles três anos passados e que ali ficava.
Então ocorreu-lhe que duas outras casas, das quais guardava também as mais ternas lembranças, estavam esperando por ela em seu país.
Uma dessas casas era a de Londres, onde em cada canto veria algo para fazê-la lembrar-se dos pais. Ali eles haviam morado desde que se casaram.
A casa de campo era Mellor Hall, onde ela havia passado grande parte de sua infância.
—Sentirei sempre sua presença ao meu lado, papai— Janet murmurou antes de deixar a villa.
Dessa forma afirmava a si mesma que não o perderia.
O trem partiu, e Kathy mostrou-se entusiasmada por estar viajando num vagão só para elas; comentou que era como estar numa casa de bonecas.
A garota correu até o fundo do vagão para examinar a pequena copa onde estavam os alimentos para a viagem. Depois correu para os dois dormitórios, um seu, outro de Janet, voltando em seguida para a sala de estar, corada pela excitação, anunciando:
—Betsy acha que esta é a maior casa de bonecas que ela já viu!
No entanto, à medida que o trem avançava, Kathy foi achando a viagem longa e aborrecida. Para distraí-la, Janet contou-lhe histórias e depois leu outras nos livros infantis que, sendo previdente, comprara antes de partir.
Kathy falava sem cessar sobre o pônei que iria montar e o cãozinho que teria para brincar.
Na cabecinha da garota a existência dos dois animais era tão real que Janet ficou receosa de Kathy sofrer um grande desapontamento se o pai se recusasse a atender ao desejo da filha.
Poderia ser ainda pior se o Conde não quisesse acolher Kathy no Castelo e ela tivesse de viver com parentes em Londres ou em alguma outra cidade.
Afastando essas suposições, Janet disse a si mesma que era tolice estar temerosa sem necessidade. De nada adiantava sofrer por antecipação ou querer solucionar problemas que ainda nem haviam surgido.
A viagem prosseguiu; elas dormiam, comiam, e dormiam novamente, até que, com a maior sensação de alívio, chegaram a Paris. Pelo menos três quartos da viagem foram feitos.
O vagão particular foi engatado ao trem que iria partir para Calais. As duas fizeram mais esse trecho da viagem por ferrovia, e em Calais tomaram o navio a vapor que as levaria até Dover, na melhor cabine que havia e que fora reservada pelo acompanhante de viagem.
A mudança do meio de transporte devolveu o entusiasmo a Kathy, que, excitada por estar num navio, só queria andar e correr pelo convés, deixando Janet apreensiva, receando que a garota pudesse cair da amurada.
O Dr. Pirelli a aconselhara a levar uma babá consigo, porém Janet achara melhor ela mesma cuidar de Kathy e explicara ao médico, o porquê de sua recusa:
—Papai costumava dizer que uma criada sempre se mostra aborrecida em viagens longas, e elas dificilmente se dão bem num país que não é seu!
—Suponho que seu pai estava certo. Aliás ele sempre foi um sábio em seus julgamentos— o médico respondera—, quanto a Giovanna, não creio que ela tenha vontade de deixar a Itália, mesmo que por pouco tempo; está apaixonada por um dos jardineiros.
Janet achara graça.
—Ah, esses italianos! A questão para eles é sempre o amor!
—Naturalmente! O que é mais natural do que o amor?
Mas Janet não se arrependia de ter desejado ela mesma cuidar de Kathy. Aquela era uma tarefa que a deixava feliz e a cada hora via crescer mais e mais o seu amor pela garota.
Kathy era uma criança linda, ao mesmo tempo muito meiga, viva e dotada de grande inteligência. Sua excelente memória lhe permitia repetir o que Janet lhe contava, palavra por palavra.
A travessia do canal foi feita com o mar calmo, e Janet pôde dar voltas pelo convés com a garota.
Quando chegaram a Dover já havia novamente um vagão reservado para as duas. O acompanhante de viagem, muito solícito, foi cuidar da bagagem. Tudo estava correndo tão bem que fez Janet pensar, feliz, que jamais viajara com tanto conforto.
Já se encontravam em solo inglês, e ela decidiu passar aquela primeira noite na Inglaterra na casa de Londres que pertencera ao seu pai.
Era-lhe estranho pensar que tudo o que lorde Compton possuíra agora era seu: a casa em Londres, a propriedade no campo e a vi lia na Itália.
«Suponho que eu seja rica», ela disse para si mesma. «Mas bens e dinheiro não são importantes como as pessoas, e tenho tão poucos amigos!».
No íntimo, porém, ela alimentava a esperança de que todos os vizinhos de sua propriedade rural certamente a receberiam com grande contentamento ao vê-la de volta a Mellor Hall.
Em Londres seus pais também tinham um grande número de amigos. Ocorreu-lhe que estando de luto fechado não poderia ir a festas e recepções; quando muito só lhe seria permitido comparecer a reuniões restritas e com pessoas bem íntimas.
Na Itália Janet nem se preocupara em usar roupas pretas e nem tivera tempo para comprar trajes apropriados para o período de luto.
Dessa forma continuou a usar roupas de tons suaves que tanto agradavam a lorde Compton.
«Não me preocuparei comigo», ela pensou. «Só farei isso quando a situação de Kathy estiver resolvida».
Já era tarde da noite quando Janet e Kathy chegaram à casa de Londres. Como ninguém havia sido informado da chegada da patroa, o velho mordomo ficou atônito ao abrir a porta.
—Srta. Janet! Eu devo estar sonhando!
—Sou eu mesma, Dawson. E, agora que estou finalmente em casa, espero que você e sua esposa possam cuidar de mim e desta garota esta noite.
—Naturalmente,Srta. Janet! Temos mantido as camas arrumadas e tudo muito limpo, para o caso de a senhorita e o patrão chegarem inesperadamente como está acontecendo agora.
Janet susteve a respiração, mas Dawson acrescentou:
—Nós ficamos muito tristes quando soubemos que nosso patrão morreu. Minha mulher chorou até não poder mais.
—Ele… não sofreu— ela balbuciou, controlando-se para impedir as lágrimas.
A bagagem, que estava na carruagem na frente da casa com o acompanhante de viagem, foi trazida para dentro.
Era firme a convicção de Janet de que não deveria avisar os parentes que se encontrava em Londres, uma vez que todos iriam querer ouvi-la falar sobre os últimos dias de vida do pai, fariam diversas perguntas e pediriam que ela contasse com detalhes como havia sido a morte do pai e até de lady Compton.
«Não poderei suportar!», Janet murmurou quando se viu sozinha.
Já era terrível ver-se órfã; não iria aumentar seu sofrimento tendo de falar sobre um assunto que a martirizava. Cada palavra dita seria como uma faca reabrindo uma ferida.
E quanto às críticas? Mesmo sem a Sra. Dawson ter feito nenhum comentário, Janet sabia que ela achara estranho uma filha não usar luto pela morte do pai. Seus parentes, então, iriam ficar escandalizados.
Ocorreu-lhe que antes de receber alguma visita seria necessário comprar roupas apropriadas. Mas isso teria de esperar. Em primeiro lugar iria levar Kathy para seu pai. Depois disso, sim, poderia começar a pensar em si mesma.
Deitada em sua cama e sabendo que Kathy dormia tranquilamente no quarto ao lado, Janet tomou uma decisão.
Tentaria persuadir o Conde a permitir-lhe ficar no Castelo durante alguns dias, talvez uma semana. Ela estava pensando não apenas no bem de Kathy, mas no dela própria.
Não estaria feliz e tranqüila enquanto não estivesse absolutamente certa de que à garota se adaptara ao novo ambiente.
«No Castelo ela talvez se sinta só e perdida como me sinto no momento», Janet pensou. «E é muito triste sentir-se assim».
Com a firme decisão de que faria tudo para persuadir o conde de que sua presença ao lado de Kathy era primordial para a felicidade da garota, Janet adormeceu.
Em seu otimismo, nào tinha dúvidas de que o Conde iria compreendê-la.
Na manhã seguinte, ao descer a escada, viu que havia um telegrama enviado da Itália para ela e já imaginou qual seria a notícia. Abrindo-o, leu:
«A Condessa faleceu tranquilamente esta manhã. Pirelli».
Depois de ler mais uma vez a mensagem, ela rasgou o telegrama. Não seria aconselhável deixar Kathy saber da morte da mãe, por enquanto. Esperaria até chegar a ocasião apropriada, quando a criança tivesse muitas outras coisas para pensar.
Devido ao cansaço de Kathy, as duas acabaram passando mais uma noite em Londres e só viajaram para Lincolnshire, onde ficava o Castelo do Conde, no outro dia.
O acompanhante contratado pelo Dr. Pirelli, deixou tudo providenciado para essa última parte da viagem, e partiu para a Itália. Janet o recompensou generosamente pelos serviços.
Ela pediu-lhe que entregasse uma carta ao médico na qual lhe agradecia por toda a ajuda e bondade. Mandou-lhe também uma linda cigarreira de prata com as iniciais do pai gravadas, pois a mesma pertencera a lorde Compton, e esperava que o Dr. Pirelli apreciasse o presente.
Finalmente deu ordens expressas a Dawson para que não dissesse, em hipótese alguma, a amigos e parentes que ela se encontrava na Inglaterra.
Só então deixaram Mellor Hall e tomaram o trem que as levaria a Lincolnshire. O acompanhante havia informado que as duas deveriam descer na estaçãozinha na qual o trem parava sempre que havia passageiros com destino ao Castelo.
Ao saber disso, Kathy exclamou, entusiasmada:
—Meu pai tem uma estaçãozinha só para ele!
Darmowy fragment się skończył.